segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Alternativas

Esta luta dos professores contra este modelo de avaliação, ao contrário do que acontecia há um ano, conseguiu despertar o interesse da opinião pública e da opinião publicada e encontrar algumas simpatias.

Distingo aqui opinião pública de opinião publicada, entendendo que a opinião pública é muito mais vasta e está directamente relacionada com uma massa de pessoas que se interessam e discutem problemas políticos e sociais, assumindo-se como cidadãos. Creio que em Portugal ainda é uma minoria, que vai crescendo. A maioria das pessoas nem sequer se interessa por muitas desta questões, uns porque estão preocupados com o seu dia a dia, os empregos precários, a saúde etc. , ou porque desconfiam sempre do Estado e dos que vivem melhor que eles ou porque se sentem ainda em piores condições, ou até porque confiam que alguém há-de resolver os assuntos. A opinião publicada depende de quem exerce o controlo nos media e, em Portugal, temos muitos comentaristas que enchem as páginas escrevendo sobre tudo e qualquer coisa, em estilo populista, a par de outros que põem problemas e contribuem para a solução.

Portanto, há que ter algum cuidado com o que se lê, até porque nem todos lêem o mesmo ou simplesmente nem lêem ou não se interessam, despertando alguns apenas quando há notícias sensacionalistas. Veja-se também os estudos sobre literacia em Portugal.

Repare-se também numa certa endogamia que existe entre os professores, não apenas a endogamia em sentido estrito (social, os casamentos inter pares), mas a convivência quotidiana, os sistemas de informação e comunicação comuns. Valeria a pena, por exemplo, estudar o impacto dos blogues na classe dos professores (aí creio que é evidente) e fora desses círculos (aí tenho algumas dúvidas e, por vezes, a linguagem muito técnica ou a excessiva adjectivação e estilo indignado em nada ajudam a que outros se interessem pela mensagem).

Nota-se, no entanto, que há uma inversão de posições em muita gente. Se é temporária ou não, veremos. O número de manifestantes impressionou todos, o dia a dia de muitos foi afectado, até porque os professores têm famílias e amigos, antigos colegas de estudo, algum peso até na Assembleia da República, nas autarquias e em outros centros de poder, até na imprensa e, sobretudo na blogosfera.

Mas há uma questão que é frequentemente posta por muitos. Que alternativas a este modelo de avaliação? É uma questão pertinente e necessária. Sem novas propostas pode parecer que toda esta luta foi apenas pela recusa de qualquer modelo.

Por isso, creio que todos os que intervieram neste processo devem propor vias diferentes. Não basta esperar pelos sindicatos, que também têm obrigação disso. E, como vimos, sobretudo nestas manifestações e nas tomadas de posição dentro das escolas, as propostas dos sindicatos são também alteradas pelos movimentos que se constroem .

4 comentários:

Anônimo disse...

Caro João. Há algum tempo que não comento no seu blog, embora o acompanhe com regularidade. Deixo-lhe apenas uma opinião. Misturar avaliação por objectivos com avaliação por competências é de certa forma um erro do ponto de vista da gestão de RH. A saída estará algures na avaliação em "cascata". Traduzindo: a escola enquanto organização deverá atingir objectivos organizacionais de output. Estes devem ser quantificaveis e alvo de auto avaliação interna e externa. Sugiro um modelo próximo do CAF ou Qualis (este já adaptado ao sector do ensino). Cada docente deve ser avaliado na medida em que contribui para o desempenho organizacional através da mobilização das suas competências que podem ser observadas através de grelhas comportamentais (em cinco ordens de competências chave por exemplo). Veja-se por exemplo o modelo do Ensino Particular e Cooperativo mas aligeire-se. O resultado desta avaliação deve ser a implementação de acções de melhoria que organizacional quer pessoal, se o objectivo for mesmo melhorar o desempenho da organização. Se o objectivo é apenas um garrote na progressão não é preciso tanto trabalho e qualquer modelo serve.

Os meus cumprimentos

AE

João Simas disse...

Ora aí está o que eu esperava: que houvesse contribuições para discutir seriamente o problema. E, em relação à quantificação também acho que é necessária. O que é preciso é definir os parâmetros, até porque andar a definir objectivos individuais de qualquer maneira não leva a lado nenhum.
cumprimentos também.

Anônimo disse...

Caro João, já agora outro "post", apenas para não misturar as coisas. Há uns dias sugeri-lhe uma obra interessante sobre reuniões do Prof. Arménio Rego. A semana passada saiu um bom resumo do que se tem investigado sobre eficacia de reuniões. Aqui fica a referência: Dressler, Larry (2008); "Reuniões Eficazes", Lisboa, Actual Editora. A edição original é de 2006, portanto recente

AE

João Simas disse...

Agradeço e registo. O meu problema é que já tenho uma pilha de livros de leitura urgente em espera. Mas vou ver desse, que há que resolver situações onde estou em reuniões (mas convencer os outros "pares" é extremamente difícil), como preparar alunos numa disciplina, Ciência Política,onde os debates são imprescindíveis.