segunda-feira, 19 de maio de 2008

Ortografia. A posição de Carolina Michaëlis de Vasconcelos

[…] Esse estado anormal foi tomando proporções de verdadeira calamidade nos últimos decénios do século passado […]
II- SERIA CONVENIENTE QUE A ORTOGRAFIA FOSSE OFICIALMENTE REGULARIZADA E SIMPLIFICADA?
Conveniente e urjente, tanto sobre o aspecto científico, como sob o estético, e sobretudo pedagójico.
Num país, atrasadíssimo quanto á instrução e educação, em que quatro milhões estão á espera dos benefícios da luz espiritual, o que importa é facilitar o ensino da leitura e escrita; acabar com todas as complicações desnecessárias; eliminar todos os artifícios eruditos […]
Importa que Portugal e o Brasil realizem simultaneamente e de modo idêntico a reforma planeada, escrevendo de aqui em diante da mesma maneira, racionalmente simplificada, todos os vocábulos da sua língua comum, apesar do timbre diverso com que cá e lá se pronunciam as vogais tónicas e átonas.


in Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Lições de Filologia Portuguesa, 1911

Em 1911 foi efectuada a primeira reforma ortográfica. Este texto foi escrito um pouco antes. Como se lê, a distinta filóloga, entre outras coisas, pretende acabar com os ph, y, consoantes duplas etc. e usa o j em vez do g. Usa também o acento agudo nas contracções.
No mesmo texto refere que muitos das confusões ortográficas se devem, não aos autores, mas aos revisores ou impressores. Cada um gostava de fazer inovações e, frequentemente, confundiam a etimologia das palavras. No mesmo texto, por exemplo em Camões, era possível diferentes formas ortográficas da mesma palavra.
Aponta também os casos do italiano, em que se fez uma reforma radical, essencialmente fonética, eliminando hh inúteis ou o francês que, embora extremamente complicado, manteve-se quase inalterado nos últimos séculos ou ainda o galego "ressurgido", onde a liberdade ortográfica pode levar à incompreensão das origens.

Alguns pressupostos, sobre a educação e o analfabetismo devem ainda ser levados em conta, não só em Portugal, onde o problema ainda existe, como em relação ao Brasil ou outros países africanos. Afinal vale a pena os povos preocuparem-se com o c em acto, quando os puristas já esqueceram o c de contracto ou quando algumas palavras se voltam a escrever como no século XV, tendo sido pronunciadas sempre da mesma forma?

Também não se esqueceu do Brasil e da importância da comunicação.

Nota: Meses depois, com a aprovação das normas ortográficas, a autora, apesar de algumas divergências, adoptou a norma oficial, para a qual também contribuiu.

Um comentário:

José Manuel Barreira Douradinha disse...

O português é uma língua novilatina ou românica, quer dizer, assenta as suas bases no latim e do qual é uma sobrevivência.
A língua falada e escrita é dinâmica, ou seja, evolui naturalmente consoante as influências exteriores, interculturais, etimológicas,etc. Portugal encontra-se inserido na Europa e é nessa configuração geográfica, nessa condição dinâmica, linguística, que naturalmente vai evoluir. O português, tal qual se fala hoje em Portugal não será falado nem escrito da mesma forma daqui a um século ou pouco mais.
Este acordo dito ”ortográfico” não vai influenciar a dinâmica dessa evolução, vai ser nulo e embora por isso não devesse existir, vai ser persistente. Os países de expressão lusófona, (Brasil, Angola, Moçambique) irão também evoluir exclusivamente dentro desse condicionalismo geográfico, intercultural, para alem do Atlântico. Este acordo ortográfico essencialmente politico “económico” não vai, obviamente, travar, atrasar as dinâmicas dessas naturais evoluções linguísticas. De qualquer forma iremos sempre esquecer, perder as nossas origens latinas por aí, no desenrolar desedificante do tempo, começando já por esta organização insipiente generalizada que esqueceu ou ignora Camões, Bocage, Pessoa e outros que construíram uma escrita a que ainda chamamos Português.

Em minha opinião, finalmente, não devia ser fixada uma meta para iniciação de um acordo "aborto" ortográfico que por si só é inoperante no contexto evolutivo da língua e não pode impedir essa evolução natural, linguística. Deveria imediatamente ser considerado nulo pelas maiorias falantes.