quarta-feira, 7 de maio de 2008

Açorda sem azeite.

A poesia é de Jaime Velez, o Jaime da "Manta Branca", de alcunha, como quase todos. Nasceu em Benavila em 1894 e foi muito novo para o Cano, onde morreu em 1955. Analfabeto, trabalhava no campo, numa zona de latifúndio.
Era repentista. Fazia as décimas de improviso. Bebia também uns copos.
Esta foi feita num dia em que havia uma festa num monte. O patrão, que tinha até convidado um ministro, resolveu alegrar a festa, apresentando Jaime da Manta Branca, como algo típico e divertido. Em troca de mais um copo recitou as décimas:

Não vejo senão canalha
De banquete para banquete
Quem produz e quem trabalha
Come açordas sem “azête”

Ainda o que mais me admira
E penso vezes a “miúdo”:
Dizem que o sol nasce para tudo
Mas eu digo que é mentira.
Se o pobrezinho conspira
O burguês com ele ralha,
Até diz que o põe à calha,
Nem à porta o pode ver.
A não trabalhar e só comer
NÃO VEJO SENÃO CANALHA

Quem passa a vida arrastado,
Por se ver alegre um dia
Logo diz a burguesia
Que é muito mal governado,
Que é um grande relaxado,
Que anda só no bote e “dête”.
Antes que o pobrezinho “respête”
Tratam-no sempre ao desdém.
E vê-se andar quem muito tem
DE BANQUETE PARA BANQUETE

É um viver tão diferente!
Só o rico tem valor
e o pobre trabalhador
vai morrendo lentamente.
A fraqueza o põe doente
e a miséria o atrapalha.
Leva no “peto” a medalha
Que ganhou à chuva e ao vento.
E morre à falta de alimento
QUEM PRODUZ E QUEM TRABALHA

Feliz de quem é patrão
e pobre de quem é criado,
que até dão por mal empregado
o poucochinho que dão.
Quem “semêa” e colhe o pão
não tem aonde de “dête”;
só tem quem o “assujête”
p’ra que toda a vida chore.
E em paga do seu suor
COME AÇORDAS SEM AZEITE


Fez-se um silêncio gelado que, no tempo, não se admitiam "insolências"!

Décimas publicadas por Fernando Cardoso, Poetas Populares, 1977, 3º vol.

Um comentário:

Filomena Barata disse...

Voltarei João, para te visitar com calma. Um grande abraço.