quinta-feira, 12 de junho de 2008

A minha escola primária



Lembrei-me de publicar algumas imagens da minha família. Não por esta ou aquela ascendência (nada de especial como as demais) mas porque os retratos revelam também uma sociedade, em que as coisas pequenas são também importantes.
Comecei por mim.
Há uns anos uma amiga minha, Sara Marques Pereira, estava a compilar entrevistas sobre as experiências de escola primária. Um pouco por brincadeira enviei-lhe este texto, feito entre a uma e as duas da manhã, e ela publicou-o num livro com o título Memórias da Escola Primária, Edições Horizonte, em 2002. O texto apareceu misturado com outros de figuras conhecidas. A fotografia foi tirada, andava eu aí pela terceira classe.

A minha Escola Primária

Comecei a escola primária em Alter do Chão, Alto Alentejo. Na época havia um colégio que começava na classe infantil, onde estudavam os filhos da classe média local, e a escola oficial. Como “reprovei” na classe infantil, por me interessar mais pelos baloiços do que pela repetição das letras, fui para a escola oficial, onde estavam rapazes de quase todas as classes.
Nos primeiros dias comecei a perceber melhor a diferença entre rapaz e menino. Quando disse a um colega que no dia seguinte trazia um carrinho, ele respondeu-me logo que na escola não havia nada disso, as brincadeiras eram outras. Jogávamos à bola no recreio, num terreno mal alinhado, onde uma vez tive pena de um “inimigo” meu ter dado um pontapé numa pedra em vez de o fazer na bola. Como ele havia muitos que iam para a escola descalços também, alguns também com piolhos e uma pulga ou outra, o que provocava uma epidemia de vez em quando. No recreio brincávamos também aos “cobóis” e às escondidas, perto da cantina, onde havia um grande matagal. No Carnaval é que era bom, porque arranjávamos bisnagas ou garrafas com água que serviam de pistolas. Também havia uma zona com barro onde fazíamos bolinhas e um jogo em que se espetavam paus. De tudo isso eu gostava, mas ainda me escandalizava com os rapazes que iam aos ninhos ou que se juntavam à noite para ir aos gatos, isto é atirar pedradas aos gatos, embora gostasse de fisgas, ou aqueles que, ao sair da escola, urinavam em arco no meio de um Largo, longe das vistas do professor, como que a marcar território, num gesto de rebeldia fugaz. No caminho para a escola, sempre a pé, sozinho ou com amigos meus, gostava de parar ao pé do castelo, apanhar joaninhas, pendurar-me na traseira das carroças que passavam e ainda ouvir um papagaio que dizia asneiras, e cumprimentar as pessoas que passavam.
Na primeira classe tive três professores: uma professora nova, com ar simpático, mas que abandonou a escola para se casar, um professor novo, também simpático, que foi chamado para o exército, e o professor Calado Mendes que sabia aliar a disciplina e o saber à simpatia. Continuou a ser meu professor na segunda e terceira classe. Lembro-me de fazer muitos aaa e ooo e desenhar castelos e aviões. Começaram depois as primeiras frases, cópias e ditados e a tabuada e, de vez em quando, uma canada na cabeça. Também havia catequese, mas essa era dada na igreja. Aprendi correctamente as orações, algumas duas vezes, porque houve mudança de ritual e as missas passaram a ser em português, com sacerdote voltado para os fiéis. Mesmo assim, ainda uma vez apanhei uma descompostura em plena missa, porque mordi, sem querer, a hóstia.
A meio da terceira classe fui morar para Sousel. No início, os meus colegas provocavam-me chamando-me lisboeta, eu que nem conhecia Lisboa e talvez porque usasse bata branca, a “farda” da outra escola, enquanto eles usavam bata aos quadrados.
A minha professora era a D. Emília, uma senhora já de cabelos brancos, zelosa em todas as actividades, também simpática e disciplinadora. Era bom aluno na época, dava mais erros nas cópias (poucos), do que nos ditados e redacções. Aprendia os verbos e os adjectivos, os pr0nomes, as preposições, tudo bem decorado, a História, desde o Viriato a Salazar, passando pela Deuladeu Martins e padeira de Aljubarrota, mas o meu herói preferido era D. Nuno Álvares Pereira. Também gostava de Geografia e conhecia os nomes dos rios e das serras, desde o Monte Ramelau, em Timor, à Serra da Estrela, os rios Zambeze e Tejo, mas o que me fazia alguma confusão eram alguns afluentes do Douro e os ramais do caminho-de-ferro, mais ramificados que os de Angola. Outra coisa que me confundia também, era aquela eterna imagem de Salazar na parede, ainda novo, quando a outra imagem que eu tinha dele era de alguém com uma voz fraca, de quem não se podia falar muito. Interrogações solitárias!
Na sala havia três filas: duas de rapazes e uma de raparigas, que vieram para esta classe, porque a escola feminina estava cheia. Os rapazes da fila ao pé da janela eram maiores, repetentes e apanhavam reguadas todos os dias. Eu também apanhei duas vezes: uma porque me enganei no pretérito mais que perfeito, a outra por causa das reduções. A primeira foi uma das grandes revoltas da minha infância, senti-me injustiçado e quando cheguei a casa chorei sozinho no meu quarto.
Na quarta classe havia também a preparação para o exame de admissão ao liceu. Éramos poucos e ficávamos na escola até quase às 20.00 horas, com a professora a dar-nos explicações adicionais gratuitas. Eram umas horas com um ambiente mais agradável, talvez por sermos menos e de mais confiança.
Os intervalos eram também uma alegria: corríamos, jogávamos “à inteira”, às escondidas, às touradas, ao pião e ao berlinde, enquanto as raparigas, no outro recreio, cantavam, faziam rodas e outras coisas “estranhas” a que nós não dávamos importância. Também contávamos histórias e outras coisas. No recreio , eu gostava de contar contos e recitar algumas poesias que sabia de cor; um amigo meu sabia muitas anedotas, das que não se podiam dizer em público, que lhe ensinava um tio que era pastor. Era uma troca de ideias e visões do mundo, uma aprendizagem semi-clandestina e alegre em que íamos crescendo. Aprendi uma linguagem nova e o prazer da subversão.
Foram tempos que perduraram: de aprendizagem e perda de inocência
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João Simas

Um comentário:

Antonio luis disse...

Amigo João:
A "coisa"começou a complicar nos últimos anos do colégio do Pe Fernandes e em Estremoz !!!!


Mas lá que foram bons tempos foram!!!

Um abraço e continua a escrever como muito bem sabes!!!