segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Valter Lemos ou o rosto oficial do Ministério.

Há já uns bons anos, em 1997, Filomena Mónica publicou, depois de vários artigos na imprensa, um livro com o título Os Filhos de Rousseau: Ensaios sobre os Exames.

Chega a conclusões como:
A cultura dominante é a inculcada nos cursos de Ciências de Educação. Trata-se, em resumo, da mistura entre o legado de Rousseau e algumas ideias, mal digeridas, da Sociologia da Educação, com ênfase para as que contestam a autoridade do professor, a validade dos conteúdos curriculares e a disciplina nas salas de aula. Evidentemente que ninguém conseguirá – nem o julgo desejável – reconstituir a autoridade como ela existiu no passado. Mas a ideia de que é possível aprender sem esforço, a subalternização do professor, a ambiguidade perante a avaliação, degradaram as escolas para além do tolerável (Mónica, 1997, pp. 48,49).
A autora, ao criticar os programas de Português vai mais longe:


Ora este senhor tem sido nos últimos anos Secretário de Estado da Educação. Se já sabíamos alguns coisas sobre as suas reacções tempestuosas e virulentas, agora verificámos que há muito que já o fazia, ao pôr-se em bicos de pés em qualquer lado.
Mas o pior não é isso. É que ele representa a política oficial, das ideias à estratégia, do Ministério da Educação.
Enfim, um cursozinho de boas maneiras, a que vulgarmente se chama educação, não lhe ficava mal.

Olhemos agora a disciplina de Português. Mais do que a História, esta cadeira tem sido vítima de modas, do estruturalismo ao pós-modernismo, da psicanálise ao marxismo, do desconstrucionismo ao feminismo […] Foi este tipo de brincadeiras que liquidou a Língua materna. Ao contrário do que dizem alguns linguistas, a subalternização das regras gramaticais afecta de forma particular os alunos dos estratos mais desfavorecidos, os quais não têm, em casa, quem lhes explique como se fala correctamente, como se pensa logicamente, como se escreve rigorosamente. Ao valorizar a linguagem popular, sem reconhecer os limites do seu vocabulário, os pedagogos de esquerda estão a enclausurar os filhos dos pobres no mundo esquálido onde nasceram (Mónica, 1997, pp. 59,60) .
Ora, Filomena Mónica é socióloga e tem feito muitos estudos, nomeadamente sobre os parlamentares no século XIX, Eça de Queirós, Cesário Verde etc. Ao contrário de outros, prova as afirmações, embora discutíveis e certamente a necessitar de mais elementos.
O que achei interessante também foi a reacção de uma determinada pessoa, na época quase desconhecida. Estamos em 1997!
Diz ela:
A crítica mais insólita apareceu num jornal regional, A Gazeta do Interior. Identificando-me com os “hippies” dos anos 60, o articulista, Valter Lemos, declarava que não só fora forçado a aturar as sandálias, vestidos indianos e histeria sociologista da minha geração (devo dizer, para a posteridade, que nunca usei sandálias ou vestidos indianos e que ninguém se pode gabar de ter assistido a qualquer acto de histeria da minha parte provocado por teses sociológicas, como tinha agora de ouvir as minhas ideias “pimbas”. Era ainda acusada de albergar no meu seio um “conceito facilitista de selecção dos mais fortes e exclusão dos mais fracos e de “branquear” o regime salazarista. Sobre a relação que ele postulava, entre estes pecados e Marco Paulo, o autor não era claro (Mónica, 1997, p. 9).

2 comentários:

Alexandre disse...

Nos anos 60 foi forçado a aturar as sandálias e, presentemente, é forçado a aturar os professores. Triste destino o deste homem que podia muito bem ter sido alguém na vida.

João F.B.R. Simas disse...

Tentei consultar a biografia de Valter Lemos na página do Ministério da Educação, mas não não é acessível). Numa contas por alto deve ter aí uns 52 ou 53 anos. Portanto, nos anos 60 era criança e não deveria ter grandes conhecimentos sobre os "hippies" em Penamacor.
Mas Filomena Mónica diz que nunca andou nessas coisas.
Só resta uma conclusão: o que ele disse foi uma invenção e uma provocação barata. Não é assim que se contestam as ideias dos outros.