quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Lévi-Strauss


Nambinkwara, in Tristes Trópicos

Morreu Claude Lévi-Strauss aos 100 anos.

Lévi-Strauss é ainda uma referência na Antropologia Cultural.
Os seus trabalhos de investigação começam no Brasil, nos anos 30, para onde foi com a“missão francesa" para a Universidade de S. Paulo, tendo percorrido em várias expedições o Mato Grosso, Amazónia e outras terras, por locais onde raramente tinha penetrado o “homem civilizado”. Por lá, andando a pé ou no dorso de mulas, em locais sem caminhos, na densa floresta, onde se altera a noção de espaço, na sombra colectiva de árvores enormes e outra vegetação entremeada, onde mal se vê o Sol e se pode cair numa ravina imensa inesperada, no meio de bicharada estranha, ruídos e silêncios, encontrou tribos que conviviam com a Natureza, com uma sabedoria, um conhecimento dos sons e dos cheiros e outros sentidos já perdidos pelos homens ocidentais.

Um dos muitos livros publicados, “Tristes Trópicos”, relata essas viagens, onde se sente a nostalgia das culturas que se vão perdendo. Um livro de Etnologia, um romance de aventuras, uma viagem por outros mundos que confrontam visões preconcebidas.

E essa viagem começou quase por um acaso e por uma visão europocentrista, que afinal, por acaso, deu resultado com o homem certo, numa França ainda com pretensões coloniais e civilizadoras e num Brasil que se queria desenvolver e conhecer.

O próprio Lévi-Strauss começa pela Filosofia e conta em Tristes Trópicos , "não tanto por uma verdadeira vocação como por uma repugnância suscitada com outros estudos".Mas "a Filosofia não era ancilla scientiarum, a serva e auxiliar da investigação científica, mas sim uma espécie de contemplação estética por si própria".(...) Deste ponto de vista o ensino filosófico exercitava a inteligência ao mesmo tempo que secava o espírito"

No Outono de 1934 recebe um convite do director da Escola Normal de Paris para apresentar a sua candidatura para ser professor de Sociologia na Universidade de S. Paulo no Brasil. " Os arredores estão cheios de índios, poderá dedicar-lhes os seus fins-de-semana " . Pode parecer ridículo, já que S. Paulo era uma metrópole densamente habitada, mas era assim que se pensava em Paris.
 Foi o começo das longas e penosas viagens de exploração e estudo e mais tarde os E.U.A., onde contacta com a antropologia americana, obrigado a fugir da invasão alemã e Governo de Vichy, especialistas na purga de cérebros, sobretudo se fossem de origem judaica (como era o caso).
E do Brasil, França e EUA partiu para muitos outros mundos.

2 comentários:

josé manuel chorão disse...

«Estamos num mundo a que já não pertenço. Aquele que conheci, aquele de que gostei, tinha 1500 milhões de habitantes. O mundo actual tem seis mil milhões de humanos. Já não é o meu.» C.L-S. Obituário no New York Times e Le Monde. Entrevista com Bernard Pivot em 1984.
Fica a minha simples homenagem a este grande pensador que me ensinou que não há culturas superiores nem inferiores.Tinha eu 18 anos.
jmc

isaflores disse...

Muito me ensinou também a mim.
Coninuará bem vivo entre nós, o que o recordamos, bem como à sua obra