quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Dia a dia. Ensino de História no 7º ano

Templo romano de Évora. Reservado talvez aos que em algum país podem estudar História e Património.


Diríamos que vivemos num país com uma História de mais de 800 anos. Diríamos que antes da independência passámos pelo mundo islâmico (500 anos), romano etc.

Digamos que fica bem falar dos Descobrimentos, do Brasil, de Timor, do antes e depos do 25 de Abril, da União Europeia e como chegámos aqui. Que da Grécia Clássica surgiu a matriz de uma certa cultura europeia.

Diríamos até que Évora era Cidade Museu, Património Mundial, e caso raro, até toda a cidade intra-muralhas, que já teve 23 conventos, dezenas de igrejas, dezenas de palácios, muralhas, casas pobres, casas judaicas, mourarias ...
E que até é engraçado contar umas historietas sobre alunos que confundem o primeiro rei de Portugal com algum jogador de futebol.


Quem manda achou que os alunos de 7º ano só deveriam ter nove aulas no segundo período, no ano da Graça de 2008. E dois testes e turmas de 28 alunos, e turmas com alguns alunos de 12, 13, 14, 15 e até mais e desenvolver competências sem conhecimentos (?!?!?). E com alunos que ficam à espera e dizem por palavras ou actos: "ensine-me mas quando eu quiser, motive-me e deixe-me fazer o que eu quiser... E que esse discurso é apoiado por alguns dirigentes (de meia dúzia) de Associações de Pais e de alguns jornalistas que se contentam com o diz que disse e de deputados carreiristas e sempre em apologia de ministros que ouviram dizer qualquer coisa e gostam de decidir depressa.

E depois vêm conselhos de turma. E planos de recuperação para os que não estão motivados, para os que a família é disfuncional e só a escola é que deve tratar porque mais ninguém tem ou quer ter a ver com o assunto, e depois tem que se explicar porque é que alguns tiveram negativas, e tem que se explicar aos pais que fazem ou não o favor de aparecer, e é melhor ficar tudo em acta e em relatório, principalmente no Conselho de Turma onde estão professores de mais doze ou treze disciplinas e Áreas Disciplinares, e explicar à Direcção da Escola e explicar à Direcção Regional e precaver a situação perante a avaliação e esperar pelo fim do ano para ver se não há queixas nem vício de forma. E ainda conselhos de outros colegas para deixarmos mais coisas em acta e mais grelhas e mais justificações. E ...

E além dessa turma de 28 alunos, com nove aulas no segundo período, e mais do mesmo, mais outras não sei quantas turmas, e aulas de substituição e mais reuniões e mais a formulação de objectivos individuais e ... ter qualquer dia aulas assistidas com planificações antecipadas e mais justificações numa turma que tem 9 aulas no segundo período. E predispor-se para acções de formação que se têm que cumprir, de acordo com os objectivos de alguém em qualquer lado.


Há algo que não funciona. Não sei se o surrealismo já passou, mas esse surrealismo que conheço era revolucionário e tinha a ver com sonhos e com a transformação da sociedade.

Isto não sei com o que é que tem a ver. O que sei é que, entre outras coisas, se está a impedir, com nove aulas no segundo período e com estas coisas todas, que um aluno normal e já não falo de outros melhores (porque qualquer dia teremos que justificar porque é que uns sabem mais que outros e encontrar estratégias que não se admitam essas surpresas), está-se a impedir repito, que os alunos percebam o que é o Património da Humanidade e que compreendam minimamente como é que o presente funciona.
Diríamos, por fim, que o que se está a fazer é aumentar o fosso entre os que podem e não podem e que a hierarquia social está a aumentar e, em termos mais "terra a terra", diríamos que os pobres continuam a ser tratados como "pobrezinhos", desprezados e relegados para um futuro papel de ignorantes e submissos.

A procissão. Comenda, 14/07/2007

Os habitantes mais fiéis da igreja.

O "turista" e os homens da aldeia.

A Segurança. Necessária (?)

A preparação da festa.

A população. As mulheres vão substituindo os homens

O clero em renovação (?)

Procissão: o clero


Comenda, concelho do Gavião, distrito de Portalegre, diocese de Portalegre e Castelo Branco, antiga comenda da Ordem e Priorado do Crato, isto é comenda da ordem de S. João de Jerusalém, também conhecida por ordem de Rodes e de Malta.

A procissão espelha a sociedade e a cultura, as suas permanências e mudanças, a religiosidade da Igreja Institucional e a religiosidade popular, os conflitos e as (re)ligações, os que ficam e os que voltam em dias simbólicos.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Rodes e a Turquia aqui tão perto.



Rodes (Grécia) em primeiro plano. Montanhas da Turquia ao longe (?).

Aqui termina a União Europeia.

Na Grécia dos filósofos era tudo o mesmo mundo.

Sousel. Senhora da Orada

Senhora da Orada. Sousel.



A Senhora da Orada em Sousel, teria sido fundada por Nuno Álvares Pereira, filho do Prior do Crato ou seja da Ordem de S. João de Jerusalém, Hospitalários, conhecidos por cavaleiros de Rodes e depois por Ordem de Malta.

O largo em que se encontra chama-se Vencerei. Vencerei, porque Nuno Álvares acampou aqui com o seu exército de homens, sobretudo a pé, o que quer dizer essencialmente camponeses, tendo partido no dia seguinte para dar batalha ao exército castelhano em Atoleiros. Venceu a batalha, com os homens a pé, com a táctica do quadrado, técnica inglesa, usada pelo exército inglês em França, durante a Guerra dos Cem Anos.
Era também o exército castelhano composto de muitos portugueses e até irmãos de Nuno Álvares Pereira.

Note-se a inclinação do edifício, técnica de construção que o fez perdurar até hoje.

Rodes, Crato e os Hospitalários

Mosteiro de Flor da Rosa, Crato. Ordem dos Hospitalários.
Rodes, Hospital dos cavaleiros. Ordem dos Hospitalários.

O que significavam quilómetros na Idade Média? Nada. A palavra nem existia. No entanto estes cavaleiros deslocavam-se a cavalo e a pé também, de barco, entre o Ocidente e o Oriente.

O mosteiro de Flor da Rosa, foi fundado pelo pai de Nuno Álvares Pereira, um dos mais de trinta filhos do Prior do Crato que por dever teria feito voto de castidade. O convento era igreja e fortaleza ao mesmo tempo, tinha sacristia e celas e cavalariça e armas.

No Hospital de Rodes andaram também alguns cavaleiros portugueses, juntamente com outros espanhóis, franceses, ingleses etc., a combater os muçulmanos e a tratar os peregrinos. A ordem emprestava dinheiro a reis e outros que poderiam pagar. Por vezes, negociava com os muçulmanos. E os cavaleiros até gostavam dos prazeres do Oriente.

Contradições? Para eles não.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Entrevista e azedume

Há qualquer coisa que anda no ar e talvez aterre. Talvez!
O primeiro-ministro deu uma entrevista. Parecia à vontade mas um pouco excitado. Quando falou de Educação ficou mais nervoso, um pouco menos de demagogia do que com o Santana Lopes impreparado do costume mas já com ar de quem perde terreno. Repetia e gesticulava mais.
No Parlamento ouvem-se vozes contrárias a esta política. Mais alto do que era costume.
É necessário que a pressão aumente. Na altitude da maior parte do país a água ferve a 100º. Se não houver demasiada gente a entornar a chaleira por coisas de "lana caprina", mas falando de coisas concretas, de coisas que doem, que preocupam e põem em causa, de coisas que encostem à parede, sem dar argumentos aos demagogos, a panela pode rebentar.

E depois? Ou entorna e queima ou sai cozido à portuguesa!
Se for bem cozinhado aproveita-se.

Deixemo-nos de conversas sobre a Marilu. O que é preciso é picar onde dói, desmontar esse discurso "iluminado" da decisão rápida sem consequências, das reformas inovadoras só por si, da basbaquice e da pseudo-imitação de outros que afinal não conhecem, do discurso de que nós é que sabemos e vocês que obedeçam, dessa gente suburbana que quer mandar neste país.

Ps. Suburbano não tem a ver com as pessoas que vivem nos subúrbios, mas com aqueles que nem são já rurais nem aprenderam as coisas boas da civilização. Rejeitam as raízes e odeiam, proclamando o contrário, a cultura produzida durante séculos por homens e mulheres que produzem e conversam sobre coisas do dia a dia, literatura, ciências, artes e outras coisas que ajudaram a que os homens nem sempre sejam piores que outros seres que existem ou que inventaram.

Kosovo

Não tenho nenhuma imagem do Kosovo nem tenciono ir lá tão depressa mesmo que conseguisse aí ficar ou sair com a minha integridade física assegurada.

O Kosovo tem 10887 Km2, cerca de um terço do Alentejo(!), cerca de um nono de Portugal.

Em tempos a maioria da população era sérvia. Com a primeira guerra mundial milhares de sérvios fugiram perseguidos por albaneses, com a 2ª guerra mundial os italianos e depois os alemães ajudaram à limpeza étnica. Com a desagregação da Jugoslávia e o bombardeamento de Belgrado rebentou novamente a crise do Kosovo, território reconhecido internacionalmente como fazendo parte da República Sérvia. Interveio a NATO, depois de uma campanha sobre as valas comuns e seguiu-se nova fuga em massa. Da Albânia, que antes era o farol do comunismo mais maoísta que a própria China e que tanto espantou certos jovens e hoje mandantes da União Europeia, vieram milhares de pessoas, com as respectivas máfias que ocuparam as casas vagas.
A KFOR tem vigiado o mínimo. O Kosovo vive da ajuda internacional; a maior parte do dinheiro fica pelo caminho e os restos nas mãos das novas elites albanesas.
O Kosovo continua com o mesmo território, os sérvios continuam a fugir, os ciganos nem se fala, os turcos kosovares e as outras minorias não albanesas o mesmo, e até os albaneses que têm a mania do respeito pelas leis e pelos direitos também. A ajuda internacional continua igual ou pior, o desemprego e a desocupação semelhantes (mais de metade da população), estado quase não existe. Máfias sim, as da Âlbânia e do Kosovo que dominam grande parte do tráfico humano na Europa, além de outros negócios de cocaína e similares, só superados pela N'Dranghetta do Sul de Itália (que tem mais negócios destes que a Camorra Napolitana ou a Máfia Siciliana).

E torna-se independente!

O que se virá a seguir?
O País Basco. Por que não? É das zonas mais ricas de Espanha.
A Catalunha? Por que não? É um dos motores da economia espanhola e já quase ninguém aí fala castelhano.
A Irlanda do Norte? Há séculos que eles lutam contra os ingleses.
A Córsega?
A Flandres? Por que não? É a zona mais rica da Bélgica, já ninguém aí fala francês; a Bélgica há meses que não tem governo central.
O Norte de Itália?
República turca de Chipre ? Também já proclamou a independência há uns bons anos.

E se a Alemanha começar outra vez a exigir territórios da Polónia?

E se na Rússia começarem a exigir a independência de tantos territórios e repúblicas (Tchétchénia ...) ?
....
????

Rodes cosmopolita



Uma igreja bizantina, um minarete de uma mesquita, muralhas do tempo dos cavaleiros de S. João de Jerusalém, os Hospitalários.

Em tempos o Mediterrâneo era assim: cristãos de várias qualidades, muçulmanos diferentes entre si, judeus e outros.

Hoje tem que se ser grego, turco, albanês, sérvio, com exclusão de outros.

Rodes e a mistura

Rodes tem de tudo o que o Mediterrâneo tem. É Grécia mas quase parece uma cidade islâmica moderna, ou antes parece meio grega meio turca e além disso turística, que é ainda outra cultura. No entanto pergunte-se a um grego se há alguma influência turca e ele responderá quase ofendido, que não. E, no entanto, de um lado bebe-se um café turco e do outro um café grego com o mesmo sabor. E a música parece a mesma mas mas as línguas é que são diferentes. O geito para o comércio é igual. E faz-se negócio nas ruas como em tantos países do Mediterrâneo.
Rodes só se integrou na Grécia em 1947. Andaram e deixaram descendentes ou converteram-se sucessivamente, gregos das épocas arcaica e clássica, judeus helenizados e romanizados, cristãos primitivos, gregos bizantinos, cavaleiros cristãos latinos e de variadas partes da Europa, piratas alguns, banqueiros outros, turcos mamelucos e otomanos até italianos fizeram de Rodes uma extensão de um império romano de ilusões e intrusões.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

As leis são para se cumprir?

Escola em França. Nada de especial em termos de edifício. Mas qualquer escola tem inscrita a divisa: LIBERTE, EGALITE, FRATERNITE

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
Decreto-Lei n.o 200/2007 de 22 de Maio
Artigo 4.o
Fixação de vagas


4—A estruturação em departamentos dos grupos de recrutamento constante do anexo I tem efeitos apenas para o concurso a que se refere o presente decreto-lei, não prejudicando a actual organização dos agrupamentos de escolas ou escolas não agrupadas.

Constituição da República Portuguesa (em vigor).

Como não encontrei rua ou monumento em Portugal com este nome resolvi reproduzir esta imagem, nome de rua em Toulouse, em francês e occitano.

É bom não nos esquecermos que existem leis. Sublinhei alguns artigos.

Constituição da República Portuguesa
Artigo 9.º(Tarefas fundamentais do Estado)
São tarefas fundamentais do Estado:

b) Garantir os direitos e liberdades fundamentais e o respeito pelos princípios do Estado de direito democrático;
c) Defender a democracia política, assegurar e incentivar a participação democrática dos cidadãos na resolução dos problemas nacionais;

...
Artigo 37.º(Liberdade de expressão e informação)
1. Todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informados, sem impedimentos nem discriminações.
2. O exercício destes direitos não pode ser impedido ou limitado por qualquer tipo ou forma de censura.
...
CAPÍTULO II
Artigo 48.º(Participação na vida pública)
1. Todos os cidadãos têm o direito de tomar parte na vida política e na direcção dos assuntos públicos do país, directamente ou por intermédio de representantes livremente eleitos.
...

Artigo 42.º(Liberdade de criação cultural)
1. É livre a criação intelectual, artística e científica.
2. Esta liberdade compreende o direito à invenção, produção e divulgação da obra científica, literária ou artística, incluindo a protecção legal dos direitos de autor.
Artigo 43.º(Liberdade de aprender e ensinar)
1. É garantida a liberdade de aprender e ensinar.
2. O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas.

3. O ensino público não será confessional.


Artigo 59.º(Direitos dos trabalhadores)
1. Todos os trabalhadores, sem distinção de idade, sexo, raça, cidadania, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, têm direito:
a) À retribuição do trabalho, segundo a quantidade, natureza e qualidade, observando-se o princípio de que para trabalho igual salário igual, de forma a garantir uma existência condigna;
b) A organização do trabalho em condições socialmente dignificantes, de forma a facultar a realização pessoal e a permitir a conciliação da actividade profissional com a vida familiar;
c) A prestação do trabalho em condições de higiene, segurança e saúde;
d) Ao repouso e aos lazeres, a um limite máximo da jornada de trabalho, ao descanso semanal e a férias periódicas pagas;
CAPÍTULO III

Direitos e deveres culturaisArtigo 73.º(Educação, cultura e ciência)
1. Todos têm direito à educação e à cultura.
2. O Estado promove a democratização da educação e as demais condições para que a educação, realizada através da escola e de outros meios formativos, contribua para a igualdade de oportunidades, a superação das desigualdades económicas, sociais e culturais, o desenvolvimento da personalidade e do espírito de tolerância, de compreensão mútua, de solidariedade e de responsabilidade, para o progresso social e para a participação democrática na vida colectiva.
Artigo 77.º(Participação democrática no ensino)
1. Os professores e alunos têm o direito de participar na gestão democrática das escolas, nos termos da lei

Lembremo-nos

Antes de começar lembro-me da história da rã e da panela.
Um "experto", experimentou a lançar uma rã para dentro de uma panela com água quente. Como é óbvio a rã saltou. Ninguém, nem mesmo um ser menos racional gosta de um escaldão sem mais nem menos. O experto tentou de outra maneira: mandou a rã para a água fria, isto é para uma água mais ou menos pantanosa mas com uma temperatura próximo do razoável. Para a rã, convenhamos.
Digamos que a experiência não foi feita por um professor de Biologia de Castelo Branco, esperto, alguma coisa em Biologia e vereador em certos intervalos em Penamacor. A experiência é mais antiga, é do tempo em que os escritores traduziam fábulas de tempos antigos.
Ora a rã deixou-se ficar na tal água mais ou menos mal cheirosa. Mas o experto, que tinha aprendido e agora ensinava uns cursos sobre avaliação, acendeu um bico de Buzen por baixo da panela que continuava com a tal água mais ou menos mal cheirosa, com um pouco mais de metano, que o tempo estava a passar.
A chama meio luminosa começou a fazer o seu trabalho planificado. E a água mal cheirosa começou a aquecer, lentamente. E a rã mergulhava e nem sentia o metano, nem nada, nem queria saber do sapo que era um grande malandrão. Além disso, o sapo nem tinha andado nos laboratórios da Faculdade de Ciências de Lisboa nem sequer ensinava em cursos sobre como se devia nadar, segundo os parâmetros pseudo-europeus de segunda classe nem tinha feito doutoramentos sobre engenheiros. E a água foi aquecendo e parecia menos fétida, ou mais ou menos, a rã esbracejava antes do tempo, esbracejava mas dava-lhe sono, esbracejava e tinha calores, já não esbracejava e falava do tempo e de qualquer coisa vaga que a incomodava e depois já não esbracejava nem falava do tempo que aquecia e depois já nem falava nem se mexia. Nem teve tempo para aprender inglês técnico nem fazer projectos com marquises.
E morreu cozida!
Agora uma parte do rol.
Lembremo-nos do que custou aos professores terem um estatuto, um Estatuto da Carreira Docente. Foram muitos anos de luta que começou antes do 25 de Abril. Veio este governo e perverteu-o de alto a baixo.
Lembram-se das aulas de 50 minutos? Por que é que não havemos de repensar estes tempos? Quando numa disciplina, por exemplo História no 7º ano, só há 90 minutos por semana, será que os professores podem cumprir algum programa e conseguir que os alunos tenham todas essas competências?
Alguém se lembra de quando não havia aulas supervenientes?
E de quando não se estava em parada, a ver passar o tempo, sem aulas de substituição?
E quando se pressupunha que por cada hora lectiva deveria haver uma para preparar (só por isso é que os professores tinham 22 horas, no tempo em que o horário normal de trabalho era de 44 horas)?
E de quando faziam uma visita de estudo que tinham que preparar não sei quanto tempo antes e estar com os alunos não sei quanto tempo durante e depois, mas não tinham que andar a fazer permutas?
E de quando tinham reduções a partir de certa idade, depois de muitos anos à espera, num Estado em quem confiavam e não confundiam com um canalha qualquer?
E de quando os professores pensavam que podiam ir até ao 10º escalão?
....
E de quando havia algum bom senso?
E ... ?

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Azaruja. Fala-se e escuta-se.

A minha vizinha

A minha vizinha está sempre bem disposta e disposta a ajudar. Faz parte da rua viva, conversa com quem passa, aconselha e é aconselhada, escuta e é escutada, sempre com um sorriso, mete-se com as crianças, chama-lhes bonecas e bonecos, sabe o que se passa na rua sem ser cuscovilheira.
Não tem pressa não dá opiniões definitivas nem pretende mostrar o que não é.
Ainda há gente assim.

Avaliação de professores




Projecto de José Sócrates. Fotografia do Público

Para quê os professores andarem tão preocupados com esta avaliação do governo?

O processo está tão atabalhoado, as confusões são tantas ...

Geralmente o exemplo vem de cima. Se um projecto destes passou, isto é, foi avaliado positivamente e continua no mesmo sítio, qualquer um que faça qualquer coisa também será avaliado positivamente. E, se for preciso mais acções de formação pode também fazer um examezinho à maneira do projectista!

Definam-se parâmetros tendo em conta projectos desta qualidade.

E depois todos seremos bons, já que o número de excelentes está definidos nas quotas.

Para ser mau é preciso ser demasiado descuidado!

Não sejamos mais papistas que o Papa! Andar a fazer fichas como se estivéssemos no início da carreira? Arranjarmos lenha para nos queimarmos? Mais papéis com mais cruzinhas? Mais justificações?

Ainda há quem acredite que se está a exigir qualidade?!

Salazar e Carlos de Bragança, o prazer e o sacrifício, os espectadores e os actores.



Salazar. D. Carlos I
Duas imagens de homens que dirigiram o país. Em ditadura.
Salazar sempre sonhou com um país rural, respeitou e impôs a autoridade, estudou no seminário, foi quase padre, monárquico na juventude, só saíu do país, a custo, para visitar o general Franco, só se ria, às vezes, na intimidade, detestava discussões, detestava a República, o liberalismo, a democracia, o socialismo, o comunismo, o anarquismo, ... promovia e fazia-se à imagem dos santos e heróis e missionários que espalharam a Fé e o Império pelos continentes. Quis sempre manter a imagem de homem de respeito e sacrificado pela Nação, de Salvador da Pátria, sem perguntar se todos queriam ser salvos. Era pragmático e manhoso, conhecia bem a retórica e a arte de convencer analfabetos, só arredou do poder já velho, porque caíu de uma cadeira. Morreu solteiro e quis mostrar que era casto.
No Palácio de S. Bento aquecia-se com mantas.
D. Carlos era rei, neto do rei de Itália que a unificou e a quem o Papa não perdoava pela conquista dos seus territórios, bisneto do rei e imperador que esteve à frente da independência do Brasil e da segunda revolução liberal em Portugal.
Gostava de comer e beber, mulheres muitas, fumava charutos, caçava, viajou por vários países, dava festas frequentemente, gostava de música, pintava com alguma qualidade e coleccionava espécies marítimas nas suas deambulações no iate Amélia. Era liberal mas menos democrata, quis reformar um país que estava dividido entre a pasmaceira e a revolução. Fanfarrão, apresentou-se no Terreiro do Paço, de peito descoberto, alvo perfeito para tiros de carbonários.
Dois modelos diferentes, que ainda hoje perduram, talvez mais o do político sacrificado no Altar da Pátria que gosta de mostrar que prescinde da vida pessoal, que decide e raramente se engana.
Felizmente não precisamos de escolher entre um e outro modelo. Podemos até começar por escolher as nossas ideias e lutar por elas e até ironizar com as historietas de sacrificados e fanfarrões que, afinal, sempre tiveram pés de barro como os outros.
Como alguém dizia: "de imprescindíveis estão os cemitérios cheios"

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Trovadores de um país desaparecido e mulheres famosas e formosas.

Lápide em memória dos trovadores e da viscondessa Ermengarda em Narbonne.

Foi uma cultura florescente na Idade Média, no Sul da actual França. Trovadores cantavam às suas amadas, as suas amadas faziam também poesias. As cruzadas contra os cátaros destruiram esta maneira diferente de estar na Idade Média. Analfabetos guerreiros e fundamentalistas aniquilaram condados onde se fazia poesia e se discutiam ideias, entre o Norte, de "bárbaros" recém-cristianizados e a Hispania (Península Ibérica) das Três Culturas (cristã, judaica e muçulmana).

A placa homenageia em occitano os "Filhs glorios", os filhos gloriosos de "Narbona La Onrada".

Lembremos um poeta português, o rei D. Dinis que no século XIII prestava homenagem a esta literatura trovadoresca (prouençal/provençal) do Sul de França e às mulheres formosas, cultas e bem dispostas.

Nota: em português arcaico senhora escreve-se senhor.


Quer' eu en maneira de prouençal

fazer agora um cantar de amor

e querrey muit' i loar mha senhor,

a que prez nem formosura non fal,

ne bondade, e mais vos direi en:

tanto a fez Deus comprida de ben

que mais que todalas do mundo ual.


Ca mha senhor quis Deus fazer tal

quando a fez, que a fez sabedor

de todo o b~e e de mui grã valor;

E cõ tod' esto é mui comunal,

ali hu deve; er deu-lhe bõ sen

e des y nõ lhi fez pouco de ben,

quando nõ quis que lh' outra foss' igual.


Ca en mha senhor n~uca Deus pos mal,

mays pos hi prez e beldad' e looor

e falar mui b~e e rijr melhor

que outra mulher; des i é leal

muyt' e por esto nõ sei hoi' eu qu~e

possa compridam~ete no seu b~e

falar, ca nõ á, trá lo seu ben, al.


D. Dinis

Há cem anos, a Imprensa portuguesa e o Regicídio

O Mundo, 23 de Junho de 2007, em plena ditadura de João Franco e D. Carlos.

Escreveu Rocha Martins, jornalista na época.

Escrevera-se que “a monarquia em Portugal havia regressado ao regime dos quadrilheiros, fugidos por cobardia das estradas”. João Franco era “o bandido que anunciou os adiantamentos ilegais, feitos em benefício da realeza (…) e aparece agora armado - cínico e ladrão – em saque aos cofres públicos, em benefício das damas do Paço e do Chefe de Estado”(…) e chamava-se ao ditador” doido protegido por um bandido e servo desse bandido”. Assim se alcunhava o Rei.

Martins, Rocha, O Regicídio, Lisboa, Gradiva, 2007


Estava-se em plena ditadura. O jornal O Mundo tinha sido suspenso por 30 dias. Mesmo assim conseguiu fazer sair à rua esta edição.
Chamavam doido ao primeiro-ministro (presidente do Conselho); o rei era apelidado de bandido.

Apesar de tudo, não houve grandes consequências em relação aos jornalistas. Mas ditadura no século XIX nada tinha a ver com as que surgiram no século XX.
Quem é que se atreveria a chamar doido e bandido a Salazar na imprensa vendida na rua?

Não subscreveria esses impropérios, mas acho estranho haver tanta falta de críticas nos dias actuais.

De facto, o Estado Novo interrompeu a evolução deste país!

Pavia. A cultura permanece.



Anta em Pavia. Capela de S. Dinis.

As antas ou dolmens têm milhares de anos (4000... 6000 ...), foram feitas por sociedades agro-pastoris. A orientação é Leste-Oeste, de acordo com o ciclo solar, orientação que as igrejas cristãs também tomaram.

Era também, até há décadas, uma sociedade agro-pastoril que dominava no Alentejo. Certamente mais civilizada, isto é com técnicas mais eficientes, inserida num mundo industrial que quase não chegava aqui e também mais hierarquizada. Fernando Namora, enquanto médico por estas bandas, descreveu-a em romances que vale a pena ler.

De dólmen passou a capela, manteve-se o culto; alterou-se a superfície, ficou o essencial.

Até hoje!?

Aulas de substituição

Em Outubro de 2006 envieei para o jornal "O Público" um texto sobre as aulas de substituição.
Mantenho o que disse e verifico que, nas escolas onde se continuam a fazer "piquetes" para as eventuais aulas de substituição, em que os professores são chamados na hora para "apagar o fogo" numa turma que não conhecem, numa sala qualquer para onde são chamados no momento, só tem contribuído para o fomento da indisciplina e a falta de respeito pelos professores que, por enquanto, a sociedade ainda vai considerando.
Por outro lado continuo a lembrar-me que na Constituição e mesmo no actual Estatuto está consagrada a liberdade de ensinar e, portanto, a escolha de métodos que nunca se poderão resumir a uma escolha feita por outrem.

O texto era este.

Aulas de substituição


O problema das aulas de substituição tem sido frequentemente tratado de ânimo leve, inclusivamente pelo próprio Ministério de Educação, centralista e uniformizador em quase tudo, descentralizador quando não quer resolver problemas, deixando a sua resolução para as escolas, desde que não envolvam meios financeiros, mas sempre obrigadas a dar conta de tudo à Inspecção e Direcções Regionais e sempre sujeitas a ulteriores críticas e sanções. Ninguém contesta que os alunos devem estar ocupados durante o seu horário lectivo e em contexto escolar, de aprendizagem.
Mas o que significa substituir um professor que deixou um plano de aula, por outro que terá que executar esse plano? Será que se considera que os professores são peças intercambiáveis numa máquina pré-programada? Considera-se que os alunos são também peças, tábuas rasas, vasos que se enchem de forma pré-determinada em que se espera que o produto final esteja de acordo com o desejado por alguém?

Parece que se esquece tanta coisa que a Humanidade levou séculos e milénios a conquistar! Em primeiro lugar a relação pedagógica. Há uma relação dialéctica entre quem ensina e aprende. Sabe-se isso, pelo menos, desde Sócrates. Quantas vezes, um bom professor experimenta com um aluno formas diferentes de o abordar, de o interrogar, de o pôr a trabalhar, até que um dia esse aluno sente o que Arquimedes gritou: Eureka.
Esquece-se que uma aula não é apenas uma aula, faz parte de um processo.
Em segundo lugar, o tempo de preparação de uma aula. Há aulas que podem demorar pouco tempo a preparar, fruto dos conhecimentos e da experiência; há outras que implicam novas leituras, novas investigações, discussões com outros, preparação de estratégias. Pode executar-se qualquer aula para o dia seguinte?

Por último, onde fica a liberdade de ensinar quando se executa um plano de alguém que não foi sequer discutido por aquele que foi administrativamente chamado? O professor que executa não tem o direito de acrescentar nada? O que pensarão os alunos no dia seguinte? Tiveram um mestre ou um programa?

João Simas
Évora

Sobre os anónimos

Já tenho recebido comentários anónimos. Em princípio não os publico, porque toda a gente tem nome e é preciso respeitar os nomes das pessoas e as suas ideias. E, embora não se trate do caso, lembro-me sempre dos que deram a cara e sofreram por terem ideias em situações difíceis. Além disso, o anónimo não dá direito de resposta e, se alguém se expõe deve ter direito a responder de igual modo.

Cano. Antigos Paços do Concelho


Igreja da Misericórdia. Cano


terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Pavia. Igreja Matriz

Igreja cristã mas com influências mouriscas, manuelino-mudéjares.
Apesar da guerra de religiões aproveitavam-se os alarifes ou alvanéis (pedreiros) para fazer boa arquitectura.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Sobre a situação dos professores

Aqui vai um texto longo para variar. Enviei-o para alguns deputados da Assembleia da República. O presidente da Comissão de Educação já me respondeu.


Exmo. senhor deputado

João Francisco Baeta Rebocho Simas, professor do ensino secundário, residente na Rua de Serpa Pinto, em Évora, vem expor situações que considera preocupantes em relação à forma como são, têm sido e irão ser tratados os professores, a continuar esta política ministerial, com graves implicações no futuro da Educação e Ensino.
Parto de situações concretas, das que conheço pela minha experiência pessoal e de outras que se podem multiplicar por muitas ao longo deste país. Sou licenciado em História, pela Faculdade de Letras de Lisboa, mestre em Culturas Regionais Portuguesas, pela FCSH da Universidade Nova de Lisboa, professor do quadro e titular da Escola Secundária de Severim de Faria, em Évora, tenho 27 anos de serviço, fui assistente convidado pela Universidade de Évora durante cinco anos e tenho ocupado cargos variados nas escolas, nomeadamente Coordenador da Biblioteca e Presidente do Conselho Pedagógico, o que me permite alguma visão do sistema e da sua evolução.
Não sou dos mais prejudicados nesta carreira mas a minha vida profissional tem-se degradado à semelhança dos demais professores. Não preciso de referir a quebra de rendimento que se tem vindo a acentuar desde o governo de Durão Barroso. Têm sido também a perda de direitos que estavam consignados no anterior estatuto e que não pude adquirir, apenas por meses e por um novo estatuto imposto contra os professores. Cito, por exemplo, as reduções de horário: aos cinquenta anos, que fiz em Maio de 2007, corresponderia uma redução de duas horas, aos vinte e sete anos de serviço, que fiz em Outubro, corresponderia a redução máxima. Como, “tive o azar” de fazer anos escassos meses depois de Janeiro, já só terei uma redução de duas horas aos sessenta anos. Bastava ter tirado um curso de três ou quatro anos e não de cinco ou fazer um estágio em um ano e não em dois para ter obtido esses direitos retirados sem grande aviso prévio. Mas aos próximos (?) professores, ser-lhes-á apenas exigido, no caso de História e Geografia, um curso de três anos, mais dois de disciplinas pedagógicas e estágio que conferem mestrado, isto é uma ano e pouco de aprendizagem de História no ensino superior, para ensinar História. Assim também se vê o que o Estado pensa sobre as habilitações e a qualidade pretendida.
Em vez disso o Ministério aumenta o horário. Como cada aula diminuiu cinco minutos, “inventaram-se” as aulas supervenientes para compensar, isto é, mais duas aulas semanais. Antes, os professores do ensino secundário tinham duas horas de redução, agora essas também acabaram, como se fosse o mesmo preparar aulas e avaliação de alunos, sujeitos a exame de 12º ano ou 11º ano, sujeitos, os professores a todas as críticas (algumas legítimas) da imprensa e da sociedade em geral e das universidades, sobre os “rankings” e a preparação dos alunos. Restam-nos, para preparar aulas, sete horas semanais em casa. Só quem não percebe nada de ensino ou que acha que os professores têm que trabalhar muito mais que em qualquer profissão toma uma medida destas. Sete horas semanais é o mínimo que eu gasto para elaborar um teste de 12º ano e avaliar as respostas de uma turma de vinte e tal alunos de História.
Exige-se também aos professores acções de formação creditadas e com uma maior percentagem na área da disciplina, mas fora do horário lectivo. Como se toda a gente vivesse perto de centros de formação ou instituições de ensino superior ou que estas disponibilizassem cursos sempre adequados ou interessantes. Parece que não vale a pena pensar e produzir mas apenas respeitar percentagens.
No 3º ciclo reduziram-se as aulas de História, a 90 minutos semanais no 7º ano, a 90 ou 90+45, conforme as escolas, no 8º e no 9º ano, para um programa feito para 3 aulas de cinquenta minutos. Basta haver um feriado para o professor estar quinze dias sem ver os alunos. Em algumas escolas a redução implicou uma perda de cem aulas num ciclo. Nas ciências (Biologia e Física) a situação é semelhante. Isso tem como consequência imediata que um professor tenha inúmeras turmas de 28 alunos, com múltiplos problemas diferentes, obrigado a inúmeros planos de recuperação, a inúmeras reuniões e preenchimento de inúmeras fichas e justificações e cada vez mais, porque vai ter que provar à exaustão que determinado insucesso se pode dever a causas exteriores a si. E depois há quem se queixe que os nossos alunos não têm uma memória histórica, que não tenham quase noções, por exemplo, do que foi a República (há programas sobre História Contemporânea que nem sequer a referem), o Estado Novo ou o 25 de Abril. Eles não sabem porque não têm aulas suficientes para aprender, no meio de uma confusão de disciplinas e áreas disciplinares e com professores envolvidos em tarefas burocráticas, cada vez mais carregados com outras funções, até de resolver problemas que outras instâncias hipocritamente lançam para as escolas e constantemente pressionados para trabalharem para as estatísticas e ao mesmo tempo confrontados com estudos internacionais que demonstram não haver melhorias na aquisição de conhecimentos e competências.
O infantilismo permitido e estimulado, o puerocentrismo desresponsabilizador, o sociologismo fácil, o constante ataque aos professores, sem estudos abalizados que permitam distinguir entre boas e más práticas, têm permitido que toda a gente dê palpites e que se transformem problemas, que deveriam ser resolvidos, em simples culpabilização de professores, que deveriam, nessa óptica, ser motivadores permanentes sem exigir qualquer trabalho aos estudantes. E o remédio tem sido, mais planos, mais papéis … e invenção de mais problemas e tarefas. A acrescer, generalizaram-se situações de professores em piquete para aulas de substituição que vão passar algum tempo com alunos que não conhecem e com os quais é impossível manter uma relação pedagógica, o que tem provocado ainda mais a humilhação daqueles e a indisciplina, ao efectuar-se um trabalho considerado inútil pelos alunos e pelos próprios. Por exemplo, custa a perceber porque é que alunos dos últimos anos do secundário, com 16,17,18 anos, têm que ter obrigatoriamente aulas de substituição que os fazem perder tempo, enquanto eles precisam de estudar e preparar-se para entrar no ensino superior. Ainda por cima são os que não faltam é que têm que substituir os outros.
Agora vem uma avaliação precipitada sobre cada um dos professores. Precipitada porque começa já vai longe o ano lectivo, sem que as escolas tenham definido projectos educativos consistentes, sem diagnósticos sobre os alunos à entrada ou durante o processo, sem objectivos mensuráveis que agora se pretendem de repente, sem horários compatíveis de avaliadores e avaliados, sem a legislação ainda completa e coerente…
A DGRE decidiu que haveria quatro avaliadores por escola, sem ter em conta a diferente organização das escolas em departamentos. Os avaliadores têm que ser escolhidos entre os coordenadores já eleitos, que por sua vez só o poderiam ter sido se fossem professores titulares (uma minoria). Como no concurso do ano anterior só puderam ascender a professores titulares, entre várias condições, professores que nos últimos sete anos (porquê?) tivessem exercido determinados cargos, foram preteridos muitos professores, que têm “aguentado”as escolas nos exames e nos mal explicados e seleccionadores “rankings”, ao contrário de outros, que por quase não terem horário lhes eram dados cargos como directores de turma. Por exemplo, na minha escola ficou como avaliador para os professores de Matemática, Física, Biologia e Educação Tecnológica, um professor de Educação Tecnológica, das antigas Técnicas Agrárias. Noutra escola de Évora, de 2º e 3º ciclo ficou como avaliadora para os professores das mesmas disciplinas uma professora de Sociologia.
Que fique bem explícito que eu, como muitos, queremos também a avaliação de professores a sério, até porque durante dezenas de anos fui ficando para trás de outros, apenas pelo facto de ter menos alguns meses de serviço (e continuo) e não pelo melhor ou pior trabalho.
Se, como tudo indica pela intransigência do Ministério, for aprovado o decreto sobre a gestão, então poderemos contar em muitas escolas com o autoritarismo dos directores e com jogos locais de tomada do poder. O director vai nomear os professores do Conselho Pedagógico bem como todos os outros cargos, as Câmaras Municipais vão ter vários representantes no Conselho Geral, sem que sejam obrigadas a contrapartidas, os pais também vão ter vários representantes sem que se sintam obrigados a tomar responsabilidades, os professores têm que ficar em minoria e são considerados incapazes para presidir. Dado que na maioria das escolas, nas actuais assembleias de escola, o representante da autarquia, ou não aparece ou é um funcionário sem poderes, os pais demitem-se frequentemente, duvido muito que este sistema não se revele num aumento de poder discricionário de um órgão unipessoal.
Enfim, perante este recrudescer do autoritarismo e aventureirismo e da campanha permanente contra os professores em geral, visível e com efeitos no bloqueamento da carreira da maioria, no inferno em que começa a ser o ambiente em muitas escolas, revelado até no modo em que tantos, que antes participavam em projectos e que agora só falam em reforma, creio mesmo que se está à beira de uma ruptura que terá efeitos negativos durante largos anos.
E mais, estimula-se o medo, a humilhação, o carreirismo e a adulação, até a delação, coisas muito perigosas no Ensino, num país que teve ainda recentemente 48 anos de ditadura e miserabilismo, o que poderá não ser um fado ou um destino se assim o quiserem os representantes do povo português.
Évora, 11 de Fevereiro de 2008
João Simas

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Quintal, Cano

Passo aqui muitos dias, como Sísifo, sem nunca chegar ao fim. Ainda não consegui uma natureza domesticada nem um quintal civilizado.

Outras árvores

Em jovem, não gostava da Botânica que aprendia no liceu, isto é, num colégio sem condições, em que teríamos que decorar tudo, sem imagens nem plantas, para fazer os exames do antigo 5º ano do liceu. Apesar de viver num mundo rural, onde a conversa era sobre a agricultura e o tempo e o tempo da agricultura, a Botânica era um livro que deveríamos saber de cor e eu, apesar das descomposturas, não tinha paciência para isso. Não se punha o problema da motivação, essa palavra era desconhecida de todos, principalmente para os sujeitos a exames. Não motivados, eram na altura os preguiçosos. Não se discutia a Pátria, nem a Família, nem a Autoridade, quanto mais a motivação. Isso era assunto resolvido com castigos, incluindo chapadas e reguadas.

No lugar do limoeiro doce perdido, de que já não tinha esperanças de encontrar algum, plantei uma alfarrobeira (à esquerda). Quem ma deu, num vaso, foi o tio Pedro Simões, homem de muitas aventuras pelo Rio Guadiana e também de muitos filhos. Plantei-a porque recordava também o Algarve da minha mãe.
Do lado direito, tenho um luxuriante jacarandá, em homenagem ao Brasil, uma palmeira, sonho de infância e outras que o meu avô plantou ou deixou ficar, laranjeiras, tangerineira, romanzeira ...
Ao fundo o pátio, essa herança mediterrânea que nos permite uma sala de jantar e de conversa ao ar livre, com o clima amenizado.

Limoeiro doce

É um limoeiro doce. Doce aqui significa que não é amargo. Os limões são iguais aos normais, podem-se comer, ajudam à digestão dos doces e das gorduras.
Há vinte anos que não os provo. Talvez daqui a dois anos já haja limões.
Estas plantas têm uma história e uma história pessoal ou familiar. A uns metros deste havia um limoeiro doce antigo, plantado pelo meu avô, enxertado noutro mais rústico. Estes limões prestavam-se a histórias de espantar, quando alguns viam-nos a comer limões como se tivéssemos algum poder especial contra os ácidos.
Alguém cortou demais o antigo limoeiro e ele não resistiu.
Muitos anos depois, depois da minha sobrinha ter ingressado num convento em Campo Maior, descobri que havia lá também um limoeiro doce. O hortelão do convento enxertou um ramo numa laranjeira brava e, dois anos depois, isto é, há cerca de um mês, plantei-o próximo do local onde tinha existido o limoeiro doce do meu avô.
É preciso dar tempo ao tempo, fazer perdurar o tempo e saborear este crescimento no tempo!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

A loja dos meus avós e da minha tia

Cano, Rua Cândido dos Reis.

A loja do meu avô. Da minha tia Zézé.
Aqui se vendiam tecidos, linhas, agulhas, fazendas de chita e outras, capotes, sapatos até, pregos, cevada e aveia, chouriços e morcelas, chocolates, petróleo, sabão e álcool, cigarros, lápis, livros da escola primária.
Sorrisos e boa vontade eram de graça. Rebuçados frequentemente.
Fiados alguns.

Senhora do Carmo, Sousel. A paciência tudo acaba.

Por cima da porta de entrada para a capela (transcrito em português actual).

Morre se queres viver
Pena se queres gozar
Baixa se queres subir
Perde se queres ganhar
Nada te turve (?)
Nada te espante
Tudo passa
Deus não se muda
A paciência tudo acaba
E só Deus basta
Ano 1758
A lápide tem uma escrita que se aproxima da pronúncia popular alentejana. Por exemplo "queris" em vez de queres, ou "i" em vez de e ("i so Deus basta"). Estas capelas eram de culto popular e frequentemente olhadas com algumas dúvidas pela hierarquia católica.
Duas vezes refere Deus e não a Santissima Trindade como é usual.
Faz lembrar a oração islâmica quando se diz que há um só Deus.
Há quem ponha a hipótese de algumas destas capelas serem na origem "ribats", uma espécie de eremitérios islâmicos, em forma de cubo e com um tecto em abóbada semi-esférica, representando o Céu. Há muitas por este Alentejo fora e geralmente em locais altos.
No Norte de África também.

Senhora do Carmo. Sousel


Senhora do Carmo. Serra de Sousel.
Aqui se faziam grandes romarias. Missa para alguns, comezainas para todos, bebedeiras para a maior parte da população masculina na segunda-feira de Páscoa, a celebração da Primavera e da vida. A serra é um mar de oliveiras, mato em alguns cumes, com zambujeiros e medronheiros, um cheiro intenso e pagão.

Carnaval em Sousel


Carnaval
O Entrudo é a época de pôr o mundo ao contrário, de pernas para o ar. É a altura em que se pode provocar sem consequências imediatas, sem as censuras normais. Homens provocam mulheres, fazem uma farsa dos seus segredos, as mulheres, mais dançarinas, provocam, imitam, desconstroem.
É assim o Entrudo, assim que deveria ser. Entrudo/Carnaval nada tem a ver com crianças em desfile, alinhadas conforme o gosto dos adultos.
Entrudo é desalinhamento, é imaginação, provocação.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Portel. Castelo


O castelo ou alcácer de Portel foi uma importante fortaleza e paço. Em primeiro plano vê-se também o que resta de uma igreja manuelina.
Pertence à Casa de Bragança. Este antigo morgadio, formado a partir dos bens de Nuno Álvares Pereira, a Casa de Bragança, só está em mãos portuguesas porque o último rei de Portugal, D. Manuel II assim o deixou em testamento. De contrário poderia estar na mão de alguma família estrangeira, herdeira da esposa deste, já que ele faleceu primeiro sem deixar descendentes.
Nota 1: Não haja confusões. Duarte Pio, descendente de D. Miguel é um parente afastado de D. Manuel II. Recebe uma pensão da Casa de Bragança mas não é herdeiro do último rei de Portugal, nem os seus ascendentes queriam ter qualquer relação com reis constitucionais. E, desde a República e até aos nossos dias, os títulos nobiliárquicos foram e estão abolidos, mesmo que pretensamente a eles alguém tivesse direito.
Nota 2. D. Manuel II nunca apoiou tentativas de restauração da monarquia através de invasões ou golpes de estado, tentados durante a República. Os "legitimistas", apoiantes dos descendentes de D. Miguel também contestavam D. Manuel II e os integralistas lusitanos, em particular, eram inimigos declarados do último rei constitucional. Em contrapartida foram admiradores e seguidores de Salazar.

Invasões francesas

Imagem em exposição na Biblioteca Nacional de Lisboa.

Há duzentos anos Portugal estava ocupado pelos franceses.
A questão que se põe é: por que é que Portugal sobreviveu como estado independente?

Grandes e pequenas potências foram absorvidas pelo Império. Algumas mais tarde renasceram, outras não.

Uma pequena lista das que perderam a independência:

- Veneza;
- O reino das duas Sicílias;
-Ragusa;
-Outros estados italianos
- Holanda (Países Baixos);
-Vários estados alemães;
- Espanha. A família real foi obrigada a abdicar. Apenas ficou como presumível herdeira, Carlota Joaquina, casada com D. João, príncipe regente de Portugal. Um irmão de Napoleão foi nomeado rei de Espanha. Por isso, os espanhóis falam das invasões como guerra da independência.
...

Recorde-se: Há duzentos anos todo o país pagava para alimentar o exército francês.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Dubrovnik/Ragusa

Claustro de convento franciscano. Capitéis com mensagens que antes se entendiam.

Dubrovnik/Ragusa

Mercado de rua no Centro Histórico de Dubrovnik.

Qual é o problema de haver mercados de rua?
Também não se vêem automóveis.

Dubrovnik/Ragusa

A actual Dubronik croata foi até ao tempo de Napoleão a República de Ragusa, uma importante potência do Mediterrâneo. Manteve a sua independência durante séculos, face aos inimigos mais próximos, República de Veneza e Império Otomano, embora pagasse a este um tributo. Era uma cidade italiana e croata ao mesmo tempo, com uma comunidade judaica, entre o Oriente e o Ocidente. Esse cosmopolitismo perdeu-se no século XIX e XX.
Napoleão acabou com a república, depois foi a vez da Áustria a ocupar. Fez parte da antiga Jugoslávia. Foi fortemente bombardeada durante a guerra civil entre sérvios e croatas.
Os monumentos foram recuperados. Perdeu a grandeza de outros tempos e o movimento fervilhante dos mercadores de outros tempos mas agrada aos turistas a quem esconderam todos os vestígios de balas e sangue.

O véu islâmico e a Turquia laica

Portal da Sé de Évora. O bem triunfa sobre o mal. Em baixo (o mal) um mouro e um judeu.



A Turquia anda há dezenas de anos a tentar entrar para a CEE/União Europeia. O processo tem sido protelado sucessivamente, até com argumentos pouco claros. Um deles, não assumido coerentemente, mas veiculado permanentemente pela imprensa do poder e mais descaradamente pelos tablóides, é o islamismo e os perigos advenientes desse islamismo.


Confunde-se tudo no mesmo saco e aplica-se a essa noção de islamismo uma conotação negativa que vai do reaccionarismo dos costumes ao terrorismo internacional da Al Qaeda que ninguém sabe bem o que é. Esquecem-se que a lapidação das mulheres, a escravidão dos imigrantes, a decapitação ou corte das mãos dos pequenos ladrões, acontecem sobretudo em países com ditaduras tão retrógradas como a Arábia Saudita com quem se tem excelentes relações comerciais e poucas críticas, apesar de Bin Laden e outros serem sauditas.


A Turquia é um país que tem também tradições europeias. Alguns dos grandes sábios gregos da Antiguidade viviam e produziam filosofia e ciência na Ásia Menor. Os primeiros cristãos, nomeadamente S. Paulo, refundador do cristianismo andava incessantemente pela Ásia Menor. O antigo Império Otomano participou na cena política europeia e era para aí que se dirigiam muitos dos judeus e cristãos novos portugueses fugidos à Inquisição.


A revolução dirigida por Kemal Ataturk nos anos 20 quis modernizar a Turquia. Foi uma ditadura, mas ao contrário da de Salazar, que tinha saudades do século XVIII antes do iluminismo e um medo terrível do mundo industrial, o kemalismo quis tornar a Turquia um país do século XX e acabar com tudo o que o califato mantinha imutável, decadente e conservador. Um dos problemas que se tentou resolver foi o da educação e, em particular, a educação de metade da população, ou seja, as mulheres.


As mulheres na escola, sem véus, não sujeitas aos imãs nem aos pais, tios … vizinhos que as obrigavam a andar anónimas mas guardadas em casa, a cozinhar, obedecer e parir filhos. Tomou-se como modelo a França, aliás como a nossa Primeira República, na separação entre o Estado e a Religião.


Por isso as mulheres turcas não podem usar véus nas escolas nem edifícios públicos.


E agora, vêm as críticas de alguns europeus. Está em causa a liberdade religiosa! As mulheres turcas deveriam poder andar com a cara tapada, como andam muitas mulheres islâmicas em Londres ou outras cidades europeias. Esquecem-se também que muitas mulheres usam o véu porque as obrigam em casa, como as obrigam a casar com quem a família quer, mesmo na Europa, perante a indiferença do estado e dos críticos.


Numa Europa em que a rainha de Inglaterra é também a chefe religiosa da Religião Anglicana, em que o Estado e a Igreja Ortodoxa na Grécia continuam unidos, em países como Portugal ou a Bélgica (a Espanha menos) que têm concordatas que privilegiam a Igreja Católica, é estranho a Turquia ser acusada de ser islâmica (como o foi no referendo esquecido em França sobre a esquecida ou renovada Constituição Europeia, agora Tratado) e, ao mesmo clamar-se pela liberdade dos véus. Esquecem-se até que a própria Igreja Católica aboliu os véus há apenas algumas décadas, porque o véu era um símbolo da submissão da mulher.


Paternalismo e relativismo perigosos!


Ontem em Ancara estiveram mais de cem mil pessoas em manifestação a protestar contra um projecto do governo que prevê a permissão de véus nas escolas!

Igrejas pombalinas

Igreja matriz de Portel

Igreja matriz de Vila Real de S. António
Alguns pensam que o Marquês de Pombal era ateu ou anti-clerical. Nada disso, apenas expulsou os Jesuítas e pôs em ordem a Inquisição e ... o país todo.

O discurso magnânimo e protector do poder

Obelisco em Vila Real de Santo António, na Praça Marquês de Pombal


A ELREY D.JOSÉ
AUGUSTO INVICTO PIO
RESTAURADOR
DAS ARMAS DAS LETRAS
DO COMMERCIO DA AGRICULTURA
REPARADOR
DA GLORIA E DA FELICIDADE PUBLICA
CLEMENTISSIMO PAY DE SEUS VASSALOS
PROTECTOR DA INNOCENCIA
VINGADOR SUPREMO DA OPPRESSÃO
CONSERVADOR DA PAZ PUBLICA
E INIMIGO DA DISCORDIA
O COMMERCIO DAS PESCARIAS
DESTA VILLA REAL DE SANTO ANTÓNIO
LEVANTADA EM CINCO MEZES PELAS
SUAS REAIS PROVIDENCIAS E DECRETOS
QUE COM TODO OZELLO EXECUTOU
O MARQUEZ DE POMBAL,
DA INUNDAÇÃO DO OCEANO,
EM QUE SÉCULOS ANTES ESTEVE SUBMERGIDA
ERIGIO ESTE OBELISCO
PARA PERPETUO PADRAÕ DO SEU
HUMILDE E IMMORTAL RECONHECIMENTO
ANNO DE 1775
Quem lê determinados documentos antigos sem ter em conta o contexto pode acreditar em algumas das maiores mentiras que quem os escreveu quis passar para a História.
Toda a cidade de Vila Real foi feita para glorificação do poder. Era a Praça Real (hoje Marquês de Pombal), a Rua da Rainha, a Rua do Príncipe, a rua da Princesa, do Conde etc. Desses nomes já só resta a Rua da Princesa.
A cidade foi edificada racionalmente, com praça, linhas rectas, construída em cinco meses segundo o obelisco. Demorou certamente mais um pouco, mas foi rápida a sua edificação. Os arquitectos fizeram a planta em Lisboa, as janelas e outros materiais nobres também, com medidas rigorosissimas, veio quase tudo da capital que se reconstruía, de barco. Apenas os materiais simples, para fazer os caboucos e encher as paredes vieram da serra.
A fachada virada para o Guadiana parece propositadamente um palácio, para mostrar aos espanhóis quem mandava.
Foi construída em terrenos antes alagados pelo mar, depósitos que assorearam o antigo porto de Castro Marim.
Muitos não queriam ir para Vila Real, preferiam Monte Gordo mais próximo do riquissimo mar onde se pescavam as sardinhas e o atum. Ainda por cima o negócio das pescas estava dominado por espanhóis, andaluzes e catalães.
O clementissimo pay de seus vassalos, obrigou a população a habitar Vila Real. Como não queriam mandou-se o exército queimar as centenas de palhotas onde viviam. O mesmo protector da innocencia já antes tinham mandado torturar, matar ou prender os Távoras. O vingador supremo da opressão e conservador da paz pública tinha expulso os Jesuítas e acabado com a dintinção entre cristãos novos e cristãos velhos e transformado a Inquisição agora ao serviço do Estado, do despotismo esclarecido e pragmático.
Nota: Não é de adminar a falta de acentos nas palavras esdrúxulas. Não se usavam, como passarão a não se usar quando o acordo ortográfico entrar em vigor.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Traduções da Bíblia na Idade Média ou que a mulher gire a mó para outro.

Portal da Sé de Évora


Livro das Histórias da Bíblia (de meados do século XIV)

«Das leis que o senhor Deos deu aos judeus no momte Synay per Moyses», retiradas do livro do Deuteronómio. Uma das leis diz o seguinte: «Nam emtrara o çujo ou sovalhados ou cortados os testicolos ou sua natura em a cassa do senhor, nem emtrara manzil e naçido de putanheiro em cassa do senhor ate deçima geraçam». Esta passagem é bastante fiel à da Vulgata, onde se baseou: «non intrabit eunuchus adtritis vel amputatis testiculis et absciso veretro ecclesiam Domini non ingredietur mamzer hoc est de scorto natus in ecclesiam Domini usque ad decimam generationem» (Deut. 23, 2-3). (…) A tradução portuguesa dos Capuchinhos afasta-se significativamente quer de uma, quer de outra, optando o tradutor por termos mais inócuos: «Aquele que se tornou eunuco, por acidente ou por mutilação, não será admitido na assembleia do Senhor. O filho ilegítimo também não será admitido na assembleia do Senhor; nem mesmo a sua décima geração poderá ser ali admitida.»
Outra das leis diz o seguinte: «Nam sera puta das filhas de Isrraael nem putanheiro dos filhos de Israel nem offereçeras merçe de puta nem preço de cam em a cassa do senhor Deos teu porque abominaçam e çugidade he açerqua do senhor Deos teu.» Esta passagem é bastante fiel à da Vulgata: «Non erit meretrix de filiabus Israhel neque scortator de filiis Israhel, non offeres mercedem prostibuli nec pretium canis in domum Domini Dei tui quicquid illud est quod voverint quia abominatio est utrumque apud Dominum Deum tuum non fenerabis fratri tuo ad usuram pecuniam nec fruges nec quamlibet aliam rem» (Deut. 23, 18-19). (...) A tradução portuguesa dos Capuchinhos é bastante mais suave nos termos utilizados: «Não haverá prostituta sagrada entre as filhas de Israel, nem prostituído sagrado entre os filhos de Israel. Não levarás à casa do Senhor, teu Deus, como oferta votiva de qualquer espécie o salário de uma cortesã ou o que receberes em troca de um hierodulo porque, uma e outra coisa, são abominadas pelo Senhor.»
O terceiro contexto ocorre no Livro de Job, capítulo XIX: «Se o meu coraçam foy emganado sobre molher e se assechey aa porta do meu amigo, seja a minha molher putarya de outrem e sobre ela se deytem outros; ca isto he grande maldade e grande aleive; e he fogo que destrue ate o acabamento de todo e que arranca todallas gerações.»
Esta passagem é bastante fiel à da Vulgata: «Si deceptum est cor meum super mulierem et si ad ostium amici mei insidiatus sum scortum sit alteri uxor mea et super illam incurventur alii hoc enim nefas est et iniquitas maxima ignis est usque ad perditionem devorans et omnia eradicans genimina» (Job 31, 9-12). (...) Já na tradução portuguesa dos Capuchinhos, para evitar o termo indecoroso, o tradutor optou por uma metáfora: «Se o meu coração se deixou seduzir por uma mulher e estive à espreita à porta do meu próximo, que a mulher gire a mó para outro e que os estrangeiros a possuam! Porque é um grande crime e uma iniquidade horrenda, fogo que devora até à destruição e que arruinará todos os bens.»

in José Barbosa Machado, O léxico obsceno na prosa medieval portuguesa
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
Comentários póstumos.
O que estava em causa na Bíblia não era a prostituição masculina ou feminina nos templos, mas a hipótese de alguém do povo eleito praticar essa actividade, como "puta" ou "cão".
Interessante é também o castigo de um homem olhar para outra mulher, inocentemente enganado pelo coração de outra, sendo casado. Quem sofre o castigo não é ele mas a sua mulher que se irá tornar prostituta de outros, "putaria de outrém" ou como dizem os capuchinhos "que a mulher gire a mó para outro" !!!
Também não se admitem homens incompletos, sem os testículos ou "natura", nem sujos ou sovalhados, nem nascidos de "putanheiros" ou ilegítimos, na versão capuchinha.

O verdadeiro português

Zé povinho, caricatura de Rafael Bordalo Pinheiro.


Na Crónica dos Sete Primeiros Reis de Portugal (1419), diz o rei D. Afonso IV
acerca da índole dos Portugueses:

«Sabee sem duvida que tres cousas nunqua portugueses reçearom, convem a saber, usar de luyta e averem guera com castelhanos e demandar de boa mente molheres. E certeficovos que não ha muito tempo que mandei enforcar hum azemel de hum meu cavaleyro porque dormira com sua senhora, e não pasarom depois muytos dias quando outro homem de pequena conta a começava de demandar. E portamto os que gaboom os portugueses dizem deles que erom bõos de pee e de mãoo e de piça.»

in O léxico obsceno na prosa medieval portuguesa de José Barbosa Machado
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Castelo de Portel e os cuidados que se devem ter com certas mulheres

Castelo de Portel

Na Crónica de D. João I, Fernão Lopes relata as lutas entre os partidários de Castela e de D. João, mestre de Avis. Fernão Gonçalves, alcaide de Portel ter-se-ia deixado levar pela sua mulher a aderir ao partido de Castela e foi vencido. D. Nuno Álvares Pereira deixou-o partir mas Fernão Gonçalves que
«era o mais saboroso homem que em Portugall avia, e mui sollto em suas pallavras»,
culpa a sua esposa das desgraças que lhe aconteceram e, como bom português, já tem saudades antes de partir, triste com a sua condição de homem quase violado e expulso de casa como qualquer triste vilão, ele que tinha nascido de boas famílias:

«Quamdo Fernam Gomçallvez e sua molher ouverom de partir da villa, pero pouco prazer tevesse, começou dizer que lhe chamassem as trombas pera tamger, dizemdo a sua molher:

"Amdaa per aqui, boa dona, e hiremos balhamdo, vos e eu, a ssoom destas trombas; vos
por maa puta velha, e eu por villaão fodudo no cuu ca assi quisestes vos.»


E inventa uma moda que haveria de ser dançada:

Pois Maria baillou,
tome o que ganou;
melhor era Portell e Villa Ruiva,
que nom Çafra e Segura,
tome o que ganou,
dona puta velha.

Ps. Esta crónica de Fernão Lopes, ao contrário do que pode parecer hoje, era para ser lida por gente letrada e de boa educação e foi encomendada pelo rei. A linguagem que hoje ainda se considera obscena era utilizada na rua ou na corte.

Portel

Portel.

De onde vem este nome?

Há inúmeros lugares com o nome de porto, portela e semelhantes. Portela era um local de passagem para as pessoas e os gados, por onde se passava os rios a vau ou vales entre montanhas.
Não é em Portel que se passa do Alto para o Baixo Alentejo?
Era também este um dos caminhos da transumância.

Tudo depende de gente séria e pacata se incomodar.


Legenda:O Rei Dom Carlos, a rainha D. Amélia e infante D. Manuel no regresso de uma viagem de Paris. in http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt


Funeral do rei e do príncipe. in http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt
Fez cem anos no dia 1 de Fevereiro que se deu o regicídio.
Faz sentido ainda discutir o regime?
D. Carlos já quase não tinha apoios, os partidos monárquicos do rotativismo tinham sido afastados do poder e alguns dos dirigentes detestavam o rei, os republicanos tentavam a conquista do poder. A monarquia sobreviveu ainda cerca de dois anos e em 5 de Outubro caíu quase sem resitência. A alegoria da República em baixo, mostra cenas do 5 de Outubro, com alguns esporádicos tiros e alguns civis com fraca preparação militar a apoiar as tropas sublevadas. O resto do país aceitou a República através de telegramas enviados de Lisboa, com muita indiferença pelo meio. D. Manuel II foi exilado para Inglaterra, onde se manteve apenas com meia dúzia de amigos. Também muitos monárquicos o achavam pouco capaz, demasiado respeitador dos regimes parlamentaristas; o ideal de muitos era ainda o regime autoritário de D. Miguel.
Escrevia D. Carlos a João Franco em 6-XII-1906:
Governe-se com o parlamento, é esse o meu maior desejo, mas para isso é necessário que ele também faça alguma coisa. É preciso obras e não palavras.
E em 6-VIII-1906:
Quanto a eleições, sou da tua opinião por completo. Tudo depende da gente séria e pacata se incomodar; se assim for, terá o governo uma manifestação que bem útil será ao nosso prosseguir; mas, seja como for e suceda o que suceder, temos que caminhar para diante, ainda que a luta seja rude e áspera (e espero-a) porque aqui mais do que nunca, parar é morrer, e eu não quero morrer assim ... nem tu!

Parece que adivinhava os acontecimentos. E percebia que não tinha grande apoios.
Um século depois também há ainda muita gente séria e pacata que pouco se incomoda e um parlamento pacato e pouco dado a obras.

Alegoria da República