quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Dia a dia. Ensino de História no 7º ano
A procissão. Comenda, 14/07/2007
Comenda, concelho do Gavião, distrito de Portalegre, diocese de Portalegre e Castelo Branco, antiga comenda da Ordem e Priorado do Crato, isto é comenda da ordem de S. João de Jerusalém, também conhecida por ordem de Rodes e de Malta.
A procissão espelha a sociedade e a cultura, as suas permanências e mudanças, a religiosidade da Igreja Institucional e a religiosidade popular, os conflitos e as (re)ligações, os que ficam e os que voltam em dias simbólicos.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Rodes e a Turquia aqui tão perto.
Sousel. Senhora da Orada
A Senhora da Orada em Sousel, teria sido fundada por Nuno Álvares Pereira, filho do Prior do Crato ou seja da Ordem de S. João de Jerusalém, Hospitalários, conhecidos por cavaleiros de Rodes e depois por Ordem de Malta.
O largo em que se encontra chama-se Vencerei. Vencerei, porque Nuno Álvares acampou aqui com o seu exército de homens, sobretudo a pé, o que quer dizer essencialmente camponeses, tendo partido no dia seguinte para dar batalha ao exército castelhano em Atoleiros. Venceu a batalha, com os homens a pé, com a táctica do quadrado, técnica inglesa, usada pelo exército inglês em França, durante a Guerra dos Cem Anos.
Era também o exército castelhano composto de muitos portugueses e até irmãos de Nuno Álvares Pereira.
Note-se a inclinação do edifício, técnica de construção que o fez perdurar até hoje.
Rodes, Crato e os Hospitalários
O que significavam quilómetros na Idade Média? Nada. A palavra nem existia. No entanto estes cavaleiros deslocavam-se a cavalo e a pé também, de barco, entre o Ocidente e o Oriente.
O mosteiro de Flor da Rosa, foi fundado pelo pai de Nuno Álvares Pereira, um dos mais de trinta filhos do Prior do Crato que por dever teria feito voto de castidade. O convento era igreja e fortaleza ao mesmo tempo, tinha sacristia e celas e cavalariça e armas.
No Hospital de Rodes andaram também alguns cavaleiros portugueses, juntamente com outros espanhóis, franceses, ingleses etc., a combater os muçulmanos e a tratar os peregrinos. A ordem emprestava dinheiro a reis e outros que poderiam pagar. Por vezes, negociava com os muçulmanos. E os cavaleiros até gostavam dos prazeres do Oriente.
Contradições? Para eles não.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
Entrevista e azedume
O primeiro-ministro deu uma entrevista. Parecia à vontade mas um pouco excitado. Quando falou de Educação ficou mais nervoso, um pouco menos de demagogia do que com o Santana Lopes impreparado do costume mas já com ar de quem perde terreno. Repetia e gesticulava mais.
No Parlamento ouvem-se vozes contrárias a esta política. Mais alto do que era costume.
É necessário que a pressão aumente. Na altitude da maior parte do país a água ferve a 100º. Se não houver demasiada gente a entornar a chaleira por coisas de "lana caprina", mas falando de coisas concretas, de coisas que doem, que preocupam e põem em causa, de coisas que encostem à parede, sem dar argumentos aos demagogos, a panela pode rebentar.
E depois? Ou entorna e queima ou sai cozido à portuguesa!
Se for bem cozinhado aproveita-se.
Deixemo-nos de conversas sobre a Marilu. O que é preciso é picar onde dói, desmontar esse discurso "iluminado" da decisão rápida sem consequências, das reformas inovadoras só por si, da basbaquice e da pseudo-imitação de outros que afinal não conhecem, do discurso de que nós é que sabemos e vocês que obedeçam, dessa gente suburbana que quer mandar neste país.
Ps. Suburbano não tem a ver com as pessoas que vivem nos subúrbios, mas com aqueles que nem são já rurais nem aprenderam as coisas boas da civilização. Rejeitam as raízes e odeiam, proclamando o contrário, a cultura produzida durante séculos por homens e mulheres que produzem e conversam sobre coisas do dia a dia, literatura, ciências, artes e outras coisas que ajudaram a que os homens nem sempre sejam piores que outros seres que existem ou que inventaram.
Kosovo
O Kosovo tem 10887 Km2, cerca de um terço do Alentejo(!), cerca de um nono de Portugal.
Em tempos a maioria da população era sérvia. Com a primeira guerra mundial milhares de sérvios fugiram perseguidos por albaneses, com a 2ª guerra mundial os italianos e depois os alemães ajudaram à limpeza étnica. Com a desagregação da Jugoslávia e o bombardeamento de Belgrado rebentou novamente a crise do Kosovo, território reconhecido internacionalmente como fazendo parte da República Sérvia. Interveio a NATO, depois de uma campanha sobre as valas comuns e seguiu-se nova fuga em massa. Da Albânia, que antes era o farol do comunismo mais maoísta que a própria China e que tanto espantou certos jovens e hoje mandantes da União Europeia, vieram milhares de pessoas, com as respectivas máfias que ocuparam as casas vagas.
A KFOR tem vigiado o mínimo. O Kosovo vive da ajuda internacional; a maior parte do dinheiro fica pelo caminho e os restos nas mãos das novas elites albanesas.
O Kosovo continua com o mesmo território, os sérvios continuam a fugir, os ciganos nem se fala, os turcos kosovares e as outras minorias não albanesas o mesmo, e até os albaneses que têm a mania do respeito pelas leis e pelos direitos também. A ajuda internacional continua igual ou pior, o desemprego e a desocupação semelhantes (mais de metade da população), estado quase não existe. Máfias sim, as da Âlbânia e do Kosovo que dominam grande parte do tráfico humano na Europa, além de outros negócios de cocaína e similares, só superados pela N'Dranghetta do Sul de Itália (que tem mais negócios destes que a Camorra Napolitana ou a Máfia Siciliana).
E torna-se independente!
O que se virá a seguir?
O País Basco. Por que não? É das zonas mais ricas de Espanha.
A Catalunha? Por que não? É um dos motores da economia espanhola e já quase ninguém aí fala castelhano.
A Irlanda do Norte? Há séculos que eles lutam contra os ingleses.
A Córsega?
A Flandres? Por que não? É a zona mais rica da Bélgica, já ninguém aí fala francês; a Bélgica há meses que não tem governo central.
O Norte de Itália?
República turca de Chipre ? Também já proclamou a independência há uns bons anos.
E se a Alemanha começar outra vez a exigir territórios da Polónia?
E se na Rússia começarem a exigir a independência de tantos territórios e repúblicas (Tchétchénia ...) ?
....
????
Rodes cosmopolita
Uma igreja bizantina, um minarete de uma mesquita, muralhas do tempo dos cavaleiros de S. João de Jerusalém, os Hospitalários.
Em tempos o Mediterrâneo era assim: cristãos de várias qualidades, muçulmanos diferentes entre si, judeus e outros.
Hoje tem que se ser grego, turco, albanês, sérvio, com exclusão de outros.
Rodes e a mistura
Rodes só se integrou na Grécia em 1947. Andaram e deixaram descendentes ou converteram-se sucessivamente, gregos das épocas arcaica e clássica, judeus helenizados e romanizados, cristãos primitivos, gregos bizantinos, cavaleiros cristãos latinos e de variadas partes da Europa, piratas alguns, banqueiros outros, turcos mamelucos e otomanos até italianos fizeram de Rodes uma extensão de um império romano de ilusões e intrusões.
domingo, 17 de fevereiro de 2008
As leis são para se cumprir?
Decreto-Lei n.o 200/2007 de 22 de Maio
Artigo 4.o
Fixação de vagas
…
4—A estruturação em departamentos dos grupos de recrutamento constante do anexo I tem efeitos apenas para o concurso a que se refere o presente decreto-lei, não prejudicando a actual organização dos agrupamentos de escolas ou escolas não agrupadas.
Constituição da República Portuguesa (em vigor).
É bom não nos esquecermos que existem leis. Sublinhei alguns artigos.
Artigo 9.º(Tarefas fundamentais do Estado)
São tarefas fundamentais do Estado:
…
b) Garantir os direitos e liberdades fundamentais e o respeito pelos princípios do Estado de direito democrático;
c) Defender a democracia política, assegurar e incentivar a participação democrática dos cidadãos na resolução dos problemas nacionais;
Artigo 37.º(Liberdade de expressão e informação)
1. Todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informados, sem impedimentos nem discriminações.
2. O exercício destes direitos não pode ser impedido ou limitado por qualquer tipo ou forma de censura.
...
CAPÍTULO II
1. Todos os cidadãos têm o direito de tomar parte na vida política e na direcção dos assuntos públicos do país, directamente ou por intermédio de representantes livremente eleitos.
...
Artigo 42.º(Liberdade de criação cultural)
1. É livre a criação intelectual, artística e científica.
2. Esta liberdade compreende o direito à invenção, produção e divulgação da obra científica, literária ou artística, incluindo a protecção legal dos direitos de autor.
Artigo 43.º(Liberdade de aprender e ensinar)
1. É garantida a liberdade de aprender e ensinar.
2. O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas.
3. O ensino público não será confessional.
Artigo 59.º(Direitos dos trabalhadores)
1. Todos os trabalhadores, sem distinção de idade, sexo, raça, cidadania, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, têm direito:
a) À retribuição do trabalho, segundo a quantidade, natureza e qualidade, observando-se o princípio de que para trabalho igual salário igual, de forma a garantir uma existência condigna;
b) A organização do trabalho em condições socialmente dignificantes, de forma a facultar a realização pessoal e a permitir a conciliação da actividade profissional com a vida familiar;
c) A prestação do trabalho em condições de higiene, segurança e saúde;
d) Ao repouso e aos lazeres, a um limite máximo da jornada de trabalho, ao descanso semanal e a férias periódicas pagas;
CAPÍTULO III
1. Todos têm direito à educação e à cultura.
2. O Estado promove a democratização da educação e as demais condições para que a educação, realizada através da escola e de outros meios formativos, contribua para a igualdade de oportunidades, a superação das desigualdades económicas, sociais e culturais, o desenvolvimento da personalidade e do espírito de tolerância, de compreensão mútua, de solidariedade e de responsabilidade, para o progresso social e para a participação democrática na vida colectiva.
Artigo 77.º(Participação democrática no ensino)
1. Os professores e alunos têm o direito de participar na gestão democrática das escolas, nos termos da lei
Lembremo-nos
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
A minha vizinha
Não tem pressa não dá opiniões definitivas nem pretende mostrar o que não é.
Ainda há gente assim.
Avaliação de professores
Projecto de José Sócrates. Fotografia do Público
Para quê os professores andarem tão preocupados com esta avaliação do governo?
O processo está tão atabalhoado, as confusões são tantas ...
Geralmente o exemplo vem de cima. Se um projecto destes passou, isto é, foi avaliado positivamente e continua no mesmo sítio, qualquer um que faça qualquer coisa também será avaliado positivamente. E, se for preciso mais acções de formação pode também fazer um examezinho à maneira do projectista!
Definam-se parâmetros tendo em conta projectos desta qualidade.
E depois todos seremos bons, já que o número de excelentes está definidos nas quotas.
Para ser mau é preciso ser demasiado descuidado!
Não sejamos mais papistas que o Papa! Andar a fazer fichas como se estivéssemos no início da carreira? Arranjarmos lenha para nos queimarmos? Mais papéis com mais cruzinhas? Mais justificações?
Ainda há quem acredite que se está a exigir qualidade?!
Salazar e Carlos de Bragança, o prazer e o sacrifício, os espectadores e os actores.


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
Trovadores de um país desaparecido e mulheres famosas e formosas.
Foi uma cultura florescente na Idade Média, no Sul da actual França. Trovadores cantavam às suas amadas, as suas amadas faziam também poesias. As cruzadas contra os cátaros destruiram esta maneira diferente de estar na Idade Média. Analfabetos guerreiros e fundamentalistas aniquilaram condados onde se fazia poesia e se discutiam ideias, entre o Norte, de "bárbaros" recém-cristianizados e a Hispania (Península Ibérica) das Três Culturas (cristã, judaica e muçulmana).
A placa homenageia em occitano os "Filhs glorios", os filhos gloriosos de "Narbona La Onrada".
Lembremos um poeta português, o rei D. Dinis que no século XIII prestava homenagem a esta literatura trovadoresca (prouençal/provençal) do Sul de França e às mulheres formosas, cultas e bem dispostas.
Nota: em português arcaico senhora escreve-se senhor.
Quer' eu en maneira de prouençal
fazer agora um cantar de amor
e querrey muit' i loar mha senhor,
a que prez nem formosura non fal,
ne bondade, e mais vos direi en:
tanto a fez Deus comprida de ben
que mais que todalas do mundo ual.
Ca mha senhor quis Deus fazer tal
quando a fez, que a fez sabedor
de todo o b~e e de mui grã valor;
E cõ tod' esto é mui comunal,
ali hu deve; er deu-lhe bõ sen
e des y nõ lhi fez pouco de ben,
quando nõ quis que lh' outra foss' igual.
Ca en mha senhor n~uca Deus pos mal,
mays pos hi prez e beldad' e looor
e falar mui b~e e rijr melhor
que outra mulher; des i é leal
muyt' e por esto nõ sei hoi' eu qu~e
possa compridam~ete no seu b~e
falar, ca nõ á, trá lo seu ben, al.
D. Dinis
Há cem anos, a Imprensa portuguesa e o Regicídio
Escreveu Rocha Martins, jornalista na época.
Escrevera-se que “a monarquia em Portugal havia regressado ao regime dos quadrilheiros, fugidos por cobardia das estradas”. João Franco era “o bandido que anunciou os adiantamentos ilegais, feitos em benefício da realeza (…) e aparece agora armado - cínico e ladrão – em saque aos cofres públicos, em benefício das damas do Paço e do Chefe de Estado”(…) e chamava-se ao ditador” doido protegido por um bandido e servo desse bandido”. Assim se alcunhava o Rei.
Martins, Rocha, O Regicídio, Lisboa, Gradiva, 2007
Estava-se em plena ditadura. O jornal O Mundo tinha sido suspenso por 30 dias. Mesmo assim conseguiu fazer sair à rua esta edição.
Chamavam doido ao primeiro-ministro (presidente do Conselho); o rei era apelidado de bandido.
Apesar de tudo, não houve grandes consequências em relação aos jornalistas. Mas ditadura no século XIX nada tinha a ver com as que surgiram no século XX.
Quem é que se atreveria a chamar doido e bandido a Salazar na imprensa vendida na rua?
Não subscreveria esses impropérios, mas acho estranho haver tanta falta de críticas nos dias actuais.
De facto, o Estado Novo interrompeu a evolução deste país!
Pavia. A cultura permanece.
Anta em Pavia. Capela de S. Dinis.
As antas ou dolmens têm milhares de anos (4000... 6000 ...), foram feitas por sociedades agro-pastoris. A orientação é Leste-Oeste, de acordo com o ciclo solar, orientação que as igrejas cristãs também tomaram.
Era também, até há décadas, uma sociedade agro-pastoril que dominava no Alentejo. Certamente mais civilizada, isto é com técnicas mais eficientes, inserida num mundo industrial que quase não chegava aqui e também mais hierarquizada. Fernando Namora, enquanto médico por estas bandas, descreveu-a em romances que vale a pena ler.
De dólmen passou a capela, manteve-se o culto; alterou-se a superfície, ficou o essencial.
Até hoje!?
Aulas de substituição
Mantenho o que disse e verifico que, nas escolas onde se continuam a fazer "piquetes" para as eventuais aulas de substituição, em que os professores são chamados na hora para "apagar o fogo" numa turma que não conhecem, numa sala qualquer para onde são chamados no momento, só tem contribuído para o fomento da indisciplina e a falta de respeito pelos professores que, por enquanto, a sociedade ainda vai considerando.
Por outro lado continuo a lembrar-me que na Constituição e mesmo no actual Estatuto está consagrada a liberdade de ensinar e, portanto, a escolha de métodos que nunca se poderão resumir a uma escolha feita por outrem.
O texto era este.
O problema das aulas de substituição tem sido frequentemente tratado de ânimo leve, inclusivamente pelo próprio Ministério de Educação, centralista e uniformizador em quase tudo, descentralizador quando não quer resolver problemas, deixando a sua resolução para as escolas, desde que não envolvam meios financeiros, mas sempre obrigadas a dar conta de tudo à Inspecção e Direcções Regionais e sempre sujeitas a ulteriores críticas e sanções. Ninguém contesta que os alunos devem estar ocupados durante o seu horário lectivo e em contexto escolar, de aprendizagem.
Parece que se esquece tanta coisa que a Humanidade levou séculos e milénios a conquistar! Em primeiro lugar a relação pedagógica. Há uma relação dialéctica entre quem ensina e aprende. Sabe-se isso, pelo menos, desde Sócrates. Quantas vezes, um bom professor experimenta com um aluno formas diferentes de o abordar, de o interrogar, de o pôr a trabalhar, até que um dia esse aluno sente o que Arquimedes gritou: Eureka.
Por último, onde fica a liberdade de ensinar quando se executa um plano de alguém que não foi sequer discutido por aquele que foi administrativamente chamado? O professor que executa não tem o direito de acrescentar nada? O que pensarão os alunos no dia seguinte? Tiveram um mestre ou um programa?
João Simas
Évora
Sobre os anónimos
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
Pavia. Igreja Matriz
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
Sobre a situação dos professores
João Francisco Baeta Rebocho Simas, professor do ensino secundário, residente na Rua de Serpa Pinto, em Évora, vem expor situações que considera preocupantes em relação à forma como são, têm sido e irão ser tratados os professores, a continuar esta política ministerial, com graves implicações no futuro da Educação e Ensino.
Parto de situações concretas, das que conheço pela minha experiência pessoal e de outras que se podem multiplicar por muitas ao longo deste país. Sou licenciado em História, pela Faculdade de Letras de Lisboa, mestre em Culturas Regionais Portuguesas, pela FCSH da Universidade Nova de Lisboa, professor do quadro e titular da Escola Secundária de Severim de Faria, em Évora, tenho 27 anos de serviço, fui assistente convidado pela Universidade de Évora durante cinco anos e tenho ocupado cargos variados nas escolas, nomeadamente Coordenador da Biblioteca e Presidente do Conselho Pedagógico, o que me permite alguma visão do sistema e da sua evolução.
Não sou dos mais prejudicados nesta carreira mas a minha vida profissional tem-se degradado à semelhança dos demais professores. Não preciso de referir a quebra de rendimento que se tem vindo a acentuar desde o governo de Durão Barroso. Têm sido também a perda de direitos que estavam consignados no anterior estatuto e que não pude adquirir, apenas por meses e por um novo estatuto imposto contra os professores. Cito, por exemplo, as reduções de horário: aos cinquenta anos, que fiz em Maio de 2007, corresponderia uma redução de duas horas, aos vinte e sete anos de serviço, que fiz em Outubro, corresponderia a redução máxima. Como, “tive o azar” de fazer anos escassos meses depois de Janeiro, já só terei uma redução de duas horas aos sessenta anos. Bastava ter tirado um curso de três ou quatro anos e não de cinco ou fazer um estágio em um ano e não em dois para ter obtido esses direitos retirados sem grande aviso prévio. Mas aos próximos (?) professores, ser-lhes-á apenas exigido, no caso de História e Geografia, um curso de três anos, mais dois de disciplinas pedagógicas e estágio que conferem mestrado, isto é uma ano e pouco de aprendizagem de História no ensino superior, para ensinar História. Assim também se vê o que o Estado pensa sobre as habilitações e a qualidade pretendida.
Em vez disso o Ministério aumenta o horário. Como cada aula diminuiu cinco minutos, “inventaram-se” as aulas supervenientes para compensar, isto é, mais duas aulas semanais. Antes, os professores do ensino secundário tinham duas horas de redução, agora essas também acabaram, como se fosse o mesmo preparar aulas e avaliação de alunos, sujeitos a exame de 12º ano ou 11º ano, sujeitos, os professores a todas as críticas (algumas legítimas) da imprensa e da sociedade em geral e das universidades, sobre os “rankings” e a preparação dos alunos. Restam-nos, para preparar aulas, sete horas semanais em casa. Só quem não percebe nada de ensino ou que acha que os professores têm que trabalhar muito mais que em qualquer profissão toma uma medida destas. Sete horas semanais é o mínimo que eu gasto para elaborar um teste de 12º ano e avaliar as respostas de uma turma de vinte e tal alunos de História.
Exige-se também aos professores acções de formação creditadas e com uma maior percentagem na área da disciplina, mas fora do horário lectivo. Como se toda a gente vivesse perto de centros de formação ou instituições de ensino superior ou que estas disponibilizassem cursos sempre adequados ou interessantes. Parece que não vale a pena pensar e produzir mas apenas respeitar percentagens.
No 3º ciclo reduziram-se as aulas de História, a 90 minutos semanais no 7º ano, a 90 ou 90+45, conforme as escolas, no 8º e no 9º ano, para um programa feito para 3 aulas de cinquenta minutos. Basta haver um feriado para o professor estar quinze dias sem ver os alunos. Em algumas escolas a redução implicou uma perda de cem aulas num ciclo. Nas ciências (Biologia e Física) a situação é semelhante. Isso tem como consequência imediata que um professor tenha inúmeras turmas de 28 alunos, com múltiplos problemas diferentes, obrigado a inúmeros planos de recuperação, a inúmeras reuniões e preenchimento de inúmeras fichas e justificações e cada vez mais, porque vai ter que provar à exaustão que determinado insucesso se pode dever a causas exteriores a si. E depois há quem se queixe que os nossos alunos não têm uma memória histórica, que não tenham quase noções, por exemplo, do que foi a República (há programas sobre História Contemporânea que nem sequer a referem), o Estado Novo ou o 25 de Abril. Eles não sabem porque não têm aulas suficientes para aprender, no meio de uma confusão de disciplinas e áreas disciplinares e com professores envolvidos em tarefas burocráticas, cada vez mais carregados com outras funções, até de resolver problemas que outras instâncias hipocritamente lançam para as escolas e constantemente pressionados para trabalharem para as estatísticas e ao mesmo tempo confrontados com estudos internacionais que demonstram não haver melhorias na aquisição de conhecimentos e competências.
O infantilismo permitido e estimulado, o puerocentrismo desresponsabilizador, o sociologismo fácil, o constante ataque aos professores, sem estudos abalizados que permitam distinguir entre boas e más práticas, têm permitido que toda a gente dê palpites e que se transformem problemas, que deveriam ser resolvidos, em simples culpabilização de professores, que deveriam, nessa óptica, ser motivadores permanentes sem exigir qualquer trabalho aos estudantes. E o remédio tem sido, mais planos, mais papéis … e invenção de mais problemas e tarefas. A acrescer, generalizaram-se situações de professores em piquete para aulas de substituição que vão passar algum tempo com alunos que não conhecem e com os quais é impossível manter uma relação pedagógica, o que tem provocado ainda mais a humilhação daqueles e a indisciplina, ao efectuar-se um trabalho considerado inútil pelos alunos e pelos próprios. Por exemplo, custa a perceber porque é que alunos dos últimos anos do secundário, com 16,17,18 anos, têm que ter obrigatoriamente aulas de substituição que os fazem perder tempo, enquanto eles precisam de estudar e preparar-se para entrar no ensino superior. Ainda por cima são os que não faltam é que têm que substituir os outros.
Agora vem uma avaliação precipitada sobre cada um dos professores. Precipitada porque começa já vai longe o ano lectivo, sem que as escolas tenham definido projectos educativos consistentes, sem diagnósticos sobre os alunos à entrada ou durante o processo, sem objectivos mensuráveis que agora se pretendem de repente, sem horários compatíveis de avaliadores e avaliados, sem a legislação ainda completa e coerente…
A DGRE decidiu que haveria quatro avaliadores por escola, sem ter em conta a diferente organização das escolas em departamentos. Os avaliadores têm que ser escolhidos entre os coordenadores já eleitos, que por sua vez só o poderiam ter sido se fossem professores titulares (uma minoria). Como no concurso do ano anterior só puderam ascender a professores titulares, entre várias condições, professores que nos últimos sete anos (porquê?) tivessem exercido determinados cargos, foram preteridos muitos professores, que têm “aguentado”as escolas nos exames e nos mal explicados e seleccionadores “rankings”, ao contrário de outros, que por quase não terem horário lhes eram dados cargos como directores de turma. Por exemplo, na minha escola ficou como avaliador para os professores de Matemática, Física, Biologia e Educação Tecnológica, um professor de Educação Tecnológica, das antigas Técnicas Agrárias. Noutra escola de Évora, de 2º e 3º ciclo ficou como avaliadora para os professores das mesmas disciplinas uma professora de Sociologia.
Que fique bem explícito que eu, como muitos, queremos também a avaliação de professores a sério, até porque durante dezenas de anos fui ficando para trás de outros, apenas pelo facto de ter menos alguns meses de serviço (e continuo) e não pelo melhor ou pior trabalho.
Se, como tudo indica pela intransigência do Ministério, for aprovado o decreto sobre a gestão, então poderemos contar em muitas escolas com o autoritarismo dos directores e com jogos locais de tomada do poder. O director vai nomear os professores do Conselho Pedagógico bem como todos os outros cargos, as Câmaras Municipais vão ter vários representantes no Conselho Geral, sem que sejam obrigadas a contrapartidas, os pais também vão ter vários representantes sem que se sintam obrigados a tomar responsabilidades, os professores têm que ficar em minoria e são considerados incapazes para presidir. Dado que na maioria das escolas, nas actuais assembleias de escola, o representante da autarquia, ou não aparece ou é um funcionário sem poderes, os pais demitem-se frequentemente, duvido muito que este sistema não se revele num aumento de poder discricionário de um órgão unipessoal.
Enfim, perante este recrudescer do autoritarismo e aventureirismo e da campanha permanente contra os professores em geral, visível e com efeitos no bloqueamento da carreira da maioria, no inferno em que começa a ser o ambiente em muitas escolas, revelado até no modo em que tantos, que antes participavam em projectos e que agora só falam em reforma, creio mesmo que se está à beira de uma ruptura que terá efeitos negativos durante largos anos.
E mais, estimula-se o medo, a humilhação, o carreirismo e a adulação, até a delação, coisas muito perigosas no Ensino, num país que teve ainda recentemente 48 anos de ditadura e miserabilismo, o que poderá não ser um fado ou um destino se assim o quiserem os representantes do povo português.
Évora, 11 de Fevereiro de 2008
João Simas
domingo, 10 de fevereiro de 2008
Quintal, Cano
Outras árvores
No lugar do limoeiro doce perdido, de que já não tinha esperanças de encontrar algum, plantei uma alfarrobeira (à esquerda). Quem ma deu, num vaso, foi o tio Pedro Simões, homem de muitas aventuras pelo Rio Guadiana e também de muitos filhos. Plantei-a porque recordava também o Algarve da minha mãe.
Do lado direito, tenho um luxuriante jacarandá, em homenagem ao Brasil, uma palmeira, sonho de infância e outras que o meu avô plantou ou deixou ficar, laranjeiras, tangerineira, romanzeira ...
Ao fundo o pátio, essa herança mediterrânea que nos permite uma sala de jantar e de conversa ao ar livre, com o clima amenizado.
Limoeiro doce
Há vinte anos que não os provo. Talvez daqui a dois anos já haja limões.
Estas plantas têm uma história e uma história pessoal ou familiar. A uns metros deste havia um limoeiro doce antigo, plantado pelo meu avô, enxertado noutro mais rústico. Estes limões prestavam-se a histórias de espantar, quando alguns viam-nos a comer limões como se tivéssemos algum poder especial contra os ácidos.
Alguém cortou demais o antigo limoeiro e ele não resistiu.
Muitos anos depois, depois da minha sobrinha ter ingressado num convento em Campo Maior, descobri que havia lá também um limoeiro doce. O hortelão do convento enxertou um ramo numa laranjeira brava e, dois anos depois, isto é, há cerca de um mês, plantei-o próximo do local onde tinha existido o limoeiro doce do meu avô.
É preciso dar tempo ao tempo, fazer perdurar o tempo e saborear este crescimento no tempo!
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
A loja dos meus avós e da minha tia
A loja do meu avô. Da minha tia Zézé.
Aqui se vendiam tecidos, linhas, agulhas, fazendas de chita e outras, capotes, sapatos até, pregos, cevada e aveia, chouriços e morcelas, chocolates, petróleo, sabão e álcool, cigarros, lápis, livros da escola primária.
Sorrisos e boa vontade eram de graça. Rebuçados frequentemente.
Fiados alguns.
Senhora do Carmo, Sousel. A paciência tudo acaba.
Pena se queres gozar
Baixa se queres subir
Perde se queres ganhar
Nada te turve (?)
Nada te espante
Tudo passa
Deus não se muda
A paciência tudo acaba
E só Deus basta
Ano 1758
Senhora do Carmo. Sousel
Senhora do Carmo. Serra de Sousel.
Aqui se faziam grandes romarias. Missa para alguns, comezainas para todos, bebedeiras para a maior parte da população masculina na segunda-feira de Páscoa, a celebração da Primavera e da vida. A serra é um mar de oliveiras, mato em alguns cumes, com zambujeiros e medronheiros, um cheiro intenso e pagão.
Carnaval em Sousel
O Entrudo é a época de pôr o mundo ao contrário, de pernas para o ar. É a altura em que se pode provocar sem consequências imediatas, sem as censuras normais. Homens provocam mulheres, fazem uma farsa dos seus segredos, as mulheres, mais dançarinas, provocam, imitam, desconstroem.
É assim o Entrudo, assim que deveria ser. Entrudo/Carnaval nada tem a ver com crianças em desfile, alinhadas conforme o gosto dos adultos.
Entrudo é desalinhamento, é imaginação, provocação.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
Portel. Castelo
Invasões francesas
Há duzentos anos Portugal estava ocupado pelos franceses.
A questão que se põe é: por que é que Portugal sobreviveu como estado independente?
Grandes e pequenas potências foram absorvidas pelo Império. Algumas mais tarde renasceram, outras não.
Uma pequena lista das que perderam a independência:
- Veneza;
- O reino das duas Sicílias;
-Ragusa;
-Outros estados italianos
- Holanda (Países Baixos);
-Vários estados alemães;
- Espanha. A família real foi obrigada a abdicar. Apenas ficou como presumível herdeira, Carlota Joaquina, casada com D. João, príncipe regente de Portugal. Um irmão de Napoleão foi nomeado rei de Espanha. Por isso, os espanhóis falam das invasões como guerra da independência.
...
Recorde-se: Há duzentos anos todo o país pagava para alimentar o exército francês.
domingo, 3 de fevereiro de 2008
Dubrovnik/Ragusa
Dubrovnik/Ragusa
Napoleão acabou com a república, depois foi a vez da Áustria a ocupar. Fez parte da antiga Jugoslávia. Foi fortemente bombardeada durante a guerra civil entre sérvios e croatas.
Os monumentos foram recuperados. Perdeu a grandeza de outros tempos e o movimento fervilhante dos mercadores de outros tempos mas agrada aos turistas a quem esconderam todos os vestígios de balas e sangue.
O véu islâmico e a Turquia laica
A Turquia anda há dezenas de anos a tentar entrar para a CEE/União Europeia. O processo tem sido protelado sucessivamente, até com argumentos pouco claros. Um deles, não assumido coerentemente, mas veiculado permanentemente pela imprensa do poder e mais descaradamente pelos tablóides, é o islamismo e os perigos advenientes desse islamismo.
A Turquia é um país que tem também tradições europeias. Alguns dos grandes sábios gregos da Antiguidade viviam e produziam filosofia e ciência na Ásia Menor. Os primeiros cristãos, nomeadamente S. Paulo, refundador do cristianismo andava incessantemente pela Ásia Menor. O antigo Império Otomano participou na cena política europeia e era para aí que se dirigiam muitos dos judeus e cristãos novos portugueses fugidos à Inquisição.
A revolução dirigida por Kemal Ataturk nos anos 20 quis modernizar a Turquia. Foi uma ditadura, mas ao contrário da de Salazar, que tinha saudades do século XVIII antes do iluminismo e um medo terrível do mundo industrial, o kemalismo quis tornar a Turquia um país do século XX e acabar com tudo o que o califato mantinha imutável, decadente e conservador. Um dos problemas que se tentou resolver foi o da educação e, em particular, a educação de metade da população, ou seja, as mulheres.
As mulheres na escola, sem véus, não sujeitas aos imãs nem aos pais, tios … vizinhos que as obrigavam a andar anónimas mas guardadas em casa, a cozinhar, obedecer e parir filhos. Tomou-se como modelo a França, aliás como a nossa Primeira República, na separação entre o Estado e a Religião.
Por isso as mulheres turcas não podem usar véus nas escolas nem edifícios públicos.
E agora, vêm as críticas de alguns europeus. Está em causa a liberdade religiosa! As mulheres turcas deveriam poder andar com a cara tapada, como andam muitas mulheres islâmicas em Londres ou outras cidades europeias. Esquecem-se também que muitas mulheres usam o véu porque as obrigam em casa, como as obrigam a casar com quem a família quer, mesmo na Europa, perante a indiferença do estado e dos críticos.
Numa Europa em que a rainha de Inglaterra é também a chefe religiosa da Religião Anglicana, em que o Estado e a Igreja Ortodoxa na Grécia continuam unidos, em países como Portugal ou a Bélgica (a Espanha menos) que têm concordatas que privilegiam a Igreja Católica, é estranho a Turquia ser acusada de ser islâmica (como o foi no referendo esquecido em França sobre a esquecida ou renovada Constituição Europeia, agora Tratado) e, ao mesmo clamar-se pela liberdade dos véus. Esquecem-se até que a própria Igreja Católica aboliu os véus há apenas algumas décadas, porque o véu era um símbolo da submissão da mulher.
Ontem em Ancara estiveram mais de cem mil pessoas em manifestação a protestar contra um projecto do governo que prevê a permissão de véus nas escolas!
Igrejas pombalinas
O discurso magnânimo e protector do poder
AUGUSTO INVICTO PIO
RESTAURADOR
DAS ARMAS DAS LETRAS
DO COMMERCIO DA AGRICULTURA
REPARADOR
DA GLORIA E DA FELICIDADE PUBLICA
CLEMENTISSIMO PAY DE SEUS VASSALOS
PROTECTOR DA INNOCENCIA
VINGADOR SUPREMO DA OPPRESSÃO
CONSERVADOR DA PAZ PUBLICA
E INIMIGO DA DISCORDIA
O COMMERCIO DAS PESCARIAS
DESTA VILLA REAL DE SANTO ANTÓNIO
LEVANTADA EM CINCO MEZES PELAS
SUAS REAIS PROVIDENCIAS E DECRETOS
QUE COM TODO OZELLO EXECUTOU
O MARQUEZ DE POMBAL,
DA INUNDAÇÃO DO OCEANO,
EM QUE SÉCULOS ANTES ESTEVE SUBMERGIDA
ERIGIO ESTE OBELISCO
PARA PERPETUO PADRAÕ DO SEU
HUMILDE E IMMORTAL RECONHECIMENTO
ANNO DE 1775
sábado, 2 de fevereiro de 2008
Traduções da Bíblia na Idade Média ou que a mulher gire a mó para outro.
«Das leis que o senhor Deos deu aos judeus no momte Synay per Moyses», retiradas do livro do Deuteronómio. Uma das leis diz o seguinte: «Nam emtrara o çujo ou sovalhados ou cortados os testicolos ou sua natura em a cassa do senhor, nem emtrara manzil e naçido de putanheiro em cassa do senhor ate deçima geraçam». Esta passagem é bastante fiel à da Vulgata, onde se baseou: «non intrabit eunuchus adtritis vel amputatis testiculis et absciso veretro ecclesiam Domini non ingredietur mamzer hoc est de scorto natus in ecclesiam Domini usque ad decimam generationem» (Deut. 23, 2-3). (…) A tradução portuguesa dos Capuchinhos afasta-se significativamente quer de uma, quer de outra, optando o tradutor por termos mais inócuos: «Aquele que se tornou eunuco, por acidente ou por mutilação, não será admitido na assembleia do Senhor. O filho ilegítimo também não será admitido na assembleia do Senhor; nem mesmo a sua décima geração poderá ser ali admitida.»
Outra das leis diz o seguinte: «Nam sera puta das filhas de Isrraael nem putanheiro dos filhos de Israel nem offereçeras merçe de puta nem preço de cam em a cassa do senhor Deos teu porque abominaçam e çugidade he açerqua do senhor Deos teu.» Esta passagem é bastante fiel à da Vulgata: «Non erit meretrix de filiabus Israhel neque scortator de filiis Israhel, non offeres mercedem prostibuli nec pretium canis in domum Domini Dei tui quicquid illud est quod voverint quia abominatio est utrumque apud Dominum Deum tuum non fenerabis fratri tuo ad usuram pecuniam nec fruges nec quamlibet aliam rem» (Deut. 23, 18-19). (...) A tradução portuguesa dos Capuchinhos é bastante mais suave nos termos utilizados: «Não haverá prostituta sagrada entre as filhas de Israel, nem prostituído sagrado entre os filhos de Israel. Não levarás à casa do Senhor, teu Deus, como oferta votiva de qualquer espécie o salário de uma cortesã ou o que receberes em troca de um hierodulo porque, uma e outra coisa, são abominadas pelo Senhor.»
O terceiro contexto ocorre no Livro de Job, capítulo XIX: «Se o meu coraçam foy emganado sobre molher e se assechey aa porta do meu amigo, seja a minha molher putarya de outrem e sobre ela se deytem outros; ca isto he grande maldade e grande aleive; e he fogo que destrue ate o acabamento de todo e que arranca todallas gerações.»
Esta passagem é bastante fiel à da Vulgata: «Si deceptum est cor meum super mulierem et si ad ostium amici mei insidiatus sum scortum sit alteri uxor mea et super illam incurventur alii hoc enim nefas est et iniquitas maxima ignis est usque ad perditionem devorans et omnia eradicans genimina» (Job 31, 9-12). (...) Já na tradução portuguesa dos Capuchinhos, para evitar o termo indecoroso, o tradutor optou por uma metáfora: «Se o meu coração se deixou seduzir por uma mulher e estive à espreita à porta do meu próximo, que a mulher gire a mó para outro e que os estrangeiros a possuam! Porque é um grande crime e uma iniquidade horrenda, fogo que devora até à destruição e que arruinará todos os bens.»
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
O verdadeiro português
Na Crónica dos Sete Primeiros Reis de Portugal (1419), diz o rei D. Afonso IV
acerca da índole dos Portugueses:
«Sabee sem duvida que tres cousas nunqua portugueses reçearom, convem a saber, usar de luyta e averem guera com castelhanos e demandar de boa mente molheres. E certeficovos que não ha muito tempo que mandei enforcar hum azemel de hum meu cavaleyro porque dormira com sua senhora, e não pasarom depois muytos dias quando outro homem de pequena conta a começava de demandar. E portamto os que gaboom os portugueses dizem deles que erom bõos de pee e de mãoo e de piça.»
in O léxico obsceno na prosa medieval portuguesa de José Barbosa Machado
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
Castelo de Portel e os cuidados que se devem ter com certas mulheres
Na Crónica de D. João I, Fernão Lopes relata as lutas entre os partidários de Castela e de D. João, mestre de Avis. Fernão Gonçalves, alcaide de Portel ter-se-ia deixado levar pela sua mulher a aderir ao partido de Castela e foi vencido. D. Nuno Álvares Pereira deixou-o partir mas Fernão Gonçalves que
«era o mais saboroso homem que em Portugall avia, e mui sollto em suas pallavras»,
culpa a sua esposa das desgraças que lhe aconteceram e, como bom português, já tem saudades antes de partir, triste com a sua condição de homem quase violado e expulso de casa como qualquer triste vilão, ele que tinha nascido de boas famílias:
«Quamdo Fernam Gomçallvez e sua molher ouverom de partir da villa, pero pouco prazer tevesse, começou dizer que lhe chamassem as trombas pera tamger, dizemdo a sua molher:
"Amdaa per aqui, boa dona, e hiremos balhamdo, vos e eu, a ssoom destas trombas; vos
por maa puta velha, e eu por villaão fodudo no cuu ca assi quisestes vos.»
E inventa uma moda que haveria de ser dançada:
tome o que ganou;
melhor era Portell e Villa Ruiva,
que nom Çafra e Segura,
tome o que ganou,
dona puta velha.
Ps. Esta crónica de Fernão Lopes, ao contrário do que pode parecer hoje, era para ser lida por gente letrada e de boa educação e foi encomendada pelo rei. A linguagem que hoje ainda se considera obscena era utilizada na rua ou na corte.
Portel
De onde vem este nome?
Há inúmeros lugares com o nome de porto, portela e semelhantes. Portela era um local de passagem para as pessoas e os gados, por onde se passava os rios a vau ou vales entre montanhas.
Não é em Portel que se passa do Alto para o Baixo Alentejo?
Era também este um dos caminhos da transumância.
Tudo depende de gente séria e pacata se incomodar.

Legenda:O Rei Dom Carlos, a rainha D. Amélia e infante D. Manuel no regresso de uma viagem de Paris. in http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt
Parece que adivinhava os acontecimentos. E percebia que não tinha grande apoios.




