quarta-feira, 2 de abril de 2008

Bretanha. S. Pol de Léon




Vitrais da catedral de Saint Pol de Léon, Finisterra, Bretanha

Saint Pol ou em latim Paulus Aurelianus foi um dos sete (número simbólico) refundadores da antiga Armórica que passa a chamar-se Bretanha. Dirigia uma comunidade de bretões do outro lado da Mancha (Grã-Bretanha) que fugia às invasões germânicas. A Bretanha reforça a sua identidade celta e cristianiza-se.
Assim se representa o santo vencendo os génios antigos, o touro e o dragão em especial.

Segundo a wikipédia:

terça-feira, 1 de abril de 2008

Bretanha. Baía de Morlaix

A Bretanha foi durante séculos uma Finis Terra. Ligou-se à França em meados do século XVI mas, até à chegada do comboio em meados do século XIX, era acessível essencialmente por mar. E é o mar e o seu clima temperado marítimo, frequentemente chuvoso que em primeiro lugar caracterizam esta península, até geológicamente diferente do resto da França. Os seus habitantes falavam, ainda hoje cerca de 250000 falam, uma língua céltica, semelhante à do País de Gales e próxima do gaélico da Escócia ou da Irlanda. O mar ligava-a à outra Bretanha e as migrações eram constantes, integrando-se a sua literatura oral no ciclo arturiano, com os seus cavaleiros e a Távola Redonda ou os romances como o de Tristão e Isolda. A Inglaterra anglo-saxonizou-se, depois normandizou-se e os bretões confinaram-se sobretudo a esta Bretanha. No entanto, o mar é um constante apelo e os bretões de Brest, Saint-Malo, Morlaix e de outros portos, baías e rias desta costa constantemente recortada e protegida por ilhas e rochedos, navegaram não apenas para a Inglaterra, outros portos franceses, Holanda, mas também para o Canadá e Terra Nova onde rivalizavam com os portugueses na pesca do bacalhau.
A revolução industrial chegou aqui tardiamente e os bretões, marinheiros e pescadores, camponeses a maioria, eram vistos até à segunda guerra mundial como uns rústicos exóticos, extremamente religiosos, bom terreno para a pesquisa etnográfica ou para a procura da pureza perdida.
Como a Galiza e parte de Portugal, com quem tem afinidades, seja pela abertura ao mar nos confins da Europa, a Oeste, seja pelas tradições megalíticas e célticas, seja pelo atavismo e tradição e cosmopolitismo em conjunto e só aparentemente em contradição, a Bretanha ainda fascina pela sua diversidade e pela resistência à normalização.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Viajar

Pont Aven, Bretanha


Viajar é também uma questão de gosto. Há formas de viajar diferentes e com diferentes perspectivas. Gosto de ver as coisas a partir de fora, do meu país, e de dentro, quando possível, isto é a partir da cultura local, embora saiba que são muitas as dificuldades em compreender os outros.
Cada vez que viajo compreendo melhor o meu país, valorizo as coisas que acho positivas em Portugal, sinto, por vezes, nostalgia de outras que perdemos por motivos vários, pela pressa em imitarmos o que há em outros, pelo desprezo que temos por algumas coisas boas e pelo que poderíamos ter se utilizássemos algumas forças que temos para incorporar empréstimos de outras partes. Quando chego descubro também coisas por onde passei tantas vezes sem olhar.

Por defeito, como se diz nas Matemáticas, por hábito e cultura, não me tirem o nosso clima, apesar de não ser assim tão ameno, com estas amplitudes térmicas diárias e sazonais. O céu azul e límpido e este calor de Primavera que faz rebentar as primícias, são um privilégio que os países do Norte não têm. O passear pelas ruas e praças encontrando gentes a desoras são coisas em que os países latinos, ou melhor, mediterrâneos, ainda têm vantagens, enquanto outros têm as suas chuvas e neves e consequentes dispêndios de energia que os levam a meter-se em casa.
Mas precisamos aprender com os outros, coisas que não seriam difíceis. Respeitar regras de trânsito, por exemplo, perceber que um automóvel é apenas, e só isso, um meio de transporte e não um prolongamento da habitação privada e de um ego em expansão individualista. E permitir andar a pé ou de bicicleta sem medo de mudar de estatuto e apreciar o ambiente que gerações anteriores preservaram. Ou que nada custa ser simpático quando se entra num café, e dizer bom dia, seja-se cliente ou empregado. O que até tem vantagens económicas: quem se sente bem tratado deseja voltar ou passa a mensagem a outros.

Alinhamento em Carnac

Não foram homens primitivos que fizeram estes alinhamentos. Foi necessário ter conhecimentos técnicos e uma organização social que levasse estas populações a erguer alinhamentos de menhires, de largas toneladas, ao longo de quilómetros, na direcção leste/oeste, nascente/ocidente, de acordo com os solstícios de Inverno e Verão e com o rumo das águas superficiais e subterrâneas.
Civilização, civilizações, que deixaram monumentos na pequena Bretanha (França), na Grã-Bretanha e Irlanda, Galiza e Portugal ..., nas chamadas Finis Terrae, em que um dos traços de união são as comunicações marítimas

quarta-feira, 19 de março de 2008

A dama pé- de-cabra.

A dama pé-de-cabra
(adaptação ao português mais ou menos actual)

Dom Diego Lopes era mui bom monteiro (caçador), e estando um dia na sua armada e esperando quando veria o porco (javali), ouviu cantar em muito alta voz uma mulher em cima de uma penha; e ele foi para lá e viu-a ser muito formosa e muito bem vestida, e enamorou-se logo dela muito fortemente e perguntou-lhe quem era; e ela lhe disse que era uma mulher de alta linhagem, e ele lhe disse que pois era mulher de alta linhagem que casaria com ela se ela quisesse, porque ele era senhor daquela terra toda; e ela lhe disse que o faria, se prometesse que nunca se santificasse, e ele lhe outorgou, e ela foi-se logo com ele. E esta dona era muito formosa e mui bem feita em todo o seu corpo salvando que havia um pé forcado, como pé de cabra. E vieram grande tempo e tiveram dois filhos (…)
E quando comiam juntos, Dom Diego Lopez e sua mulher assentava ele a par de si o seu filho, e ela assentava a par de si a filha de outra parte. E um dia foi ele ao monte e matou um porco muito grande e trouxe-o para a sua casa e pô-lo ao pé de si onde estava comendo com a sua mulher e os seus filhos, e lançaram um osso da mesa e vieram a pelejar um alão e uma podenga sobre ele, de tal maneira que a podenga filou o alão na garganta e matou-o. E D. Diego Lopez quando viu isto, teve-o por milagre e benzeu-se e disse: Valha-me Santa Maria, quem nunca viu tal coisa! E a sua mulher, quando o viu benzer-se, lançou mão da filha e do filho, e D. Diego Lopez segurou o filho e não o quis deixar levar; e ela fugiu por uma janela do paço e foi-se para as montanhas de tal modo que nunca mais a viram nem a filha.
In Livro de Linhagens do Conde de D. Pedro, (adaptação )

A mulher é o diabo. Um diabo maior, porque diabo em forma de mulher. Diabo tem a mesma raiz que Deus. É um Deus antigo que foi vencido pelo novo Deus, o Deus bom. Mas que encanta, atrai. A mulher canta, o homem não, é caçador de animais selvagens, de servos quase indómitos da Mãe Natureza. Ela é formosa, ele não precisa de o ser. Ela é sedutora, orgulhosa de viver nas montanhas e nos bosques, lugares não habitados pelos homens que têm receio do que não é humanizado, civilizado. É “rainha”, de linhagem antiga, dum mundo onde os impulsos da natureza são mais fortes, corporizados na beleza insidiosa e na fealdade do pé de cabra, símbolo da liberdade de andar pelas penhas, e dos instintos não domados. O contrato é aparentemente feito de igual para igual, mas o mundo da Natureza impõe que não haja rituais cristãos, civilizados, portanto.
O inimaginável acontece, o caos da natureza irrompe na ordem: a cadela, fêmea, mata o cão, macho, contra a ordem conhecida pois que no mundo dos animais o macho não mata a fêmea muito menos a fêmea o faz. É uma provocação que põe à prova o juramento feito por amor contra os preceitos estabelecidos. Reage D. Diego, que afinal não conseguiu ser eternamente fiel à Deusa da Natureza com quem tinha feito o pacto, pede a protecção de Santa Maria, a sua mãe simbólica.
A dama foge, desaparece sem retorno, em direcção ao bosque, onde ficará encantada com a sua filha que há-de continuar como a mãe, nos bosques. O filho herdará o poder do pai, o castelo e as montarias, a faculdade de tentar dominar a Natureza indomável, a contradição das origens diferentes e refundação de uma linhagem meio humana meio sagrada, algo diabólica e ao mesmo tempo em luta pela fé.
Mas a mãe não há-de ser esquecida e a irmã voltará a aparecer. Como? E a quem?
E D. Diego o que escolherá?

terça-feira, 18 de março de 2008

Saint Sernin


O meu amigo Hélio recordou-me que a bailia era também cantada por José Afonso.
José Afonso que cantou e recriou poesias e músicas de raiz popular de Portugal, Angola ou Brasil, do cancioneiro medieval e outros mais tardios, Camões, Brecht etc.
Um professor de História que foi afastado do ensino antes do 25 de Abril por ter ideias.
Outra imagem de um capitel românico em Saint Sernin, entre o medo e o desejo do fulgor da natureza, incarnado em figuras como o bode, desde sempre símbolo de pujança sexual e, a partir da cultura cristã, uma representação do diabo. Mas atenção, o diabo em algumas culturas é também uma figura divertida e, por isso, até chamamos às crianças diabinhos.
Dizia Camilo José Cela, salvo erro, que o diabo galego era bem disposto, enquanto o castelhano era negro.
Podia também ser mulher, como na lenda medieval da dama pé de cabra, mulher sedutora e com pés de bode.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Igreja de Saint Sernin. Toulouse, França


Em Toulouse, no caminho para Santiago
Nos capitéis esculpiam-se os monstros e os medos da Idade Média.
Depois bailava-se profanamente, como nesta cantiga de amigo (bailia) de Ayras Nunes de Santiago:

Bailemos nós já todas três, ai amigas,
so aquestas avelaneiras frolidas
e quem for velida como nós, velidas
se amigo amar,
so aquestas avelaneiras frolidas
verrá bailar.

Bailemos nós já todas tres, ai irmanas,
So aqueste ramo destas avelanas,
E quem for louçana como nós, louçanas,
se amigo amar,
so aqueste ramo destas avelanas
verrá bailar.

Por Deus, ai amigas, mentr’al non fazemos,
So aquesto ramo frolido bailemos,
E quem bem parecer, como nós parecemos,
se amigo amar,
so aquesto ramo sol que nos bailemos
verrá bailar.

Competência?

Infelizmente confirma-se. Começa a bandalhice que se previa. Primeiro eram para ser avaliados 15000 professores, dava-se 20 dias úteis para as escolas se prepararem etc.
Agora fica ao critério de cada um, sujeitos, muitos, a pequenos poderes locais.

Depois da intransigência vem a demissão.
O que virá a seguir? O Feudalismo?

E passaram-se meses a provocar a instabilidade nas pessoas! E continua a usar-se a palavra autonomia! Parece que voltamos à época (Idade Média até finais ao liberalismo, exclusive) em que cada localidade tinha as suas leis, os seus particularismos,os seus privilégios ou falta deles.

Um estado centralista que se mete nas coisas mais pequeninas e que, depois cada um, cada escola que se vire. Mas isso tem consequências sobre a vida de cada um e sobre o sistema educativo.

Negociar um decreto caso a caso, depois de publicado? Aplica-se nuns locais e noutros não? Num Estado de Direito? Num Estado em que se presume que este é uma pessoa de bem?
As leis não são universais?

Cita-se o Jornal de Notícias

Os sete mil professores que têm de ser classificados este ano lectivo podem negociar o seu modelo de avaliação com os Conselhos Executivos das suas escolas. O Ministério da Educação reforça a autonomia dos estabelecimentos e não vai dar indicações sobre um regime mínimo de análise comum. O secretário de Estado Adjunto da Educação reuniu-se, ontem, com a Fenprof e FNE. As negociações falharam com ambas as federações por culpa exclusiva dos sindicatos, afirmou Jorge Pedreira, considerando que "o Ministério fez tudo o que pode".Cada escola, consoante as condições de que dispõe para aplicar o decreto regulamentar nº2/2008, decidirá se avalia os professores de acordo com todos os parâmetros definidos na lei ou só alguns, como as fichas de auto-avaliação e "parâmetros de fácil registo" como a assiduidade. Os sindicatos recusaram a multiplicidade de modelos. Confrontado com a possibilidade de criação de desigualdades pelo facto de um professor ser sujeito a uma avaliação exaustiva e outro não, o secretário de Estado limitou-se a responder que a "desigualdade é o risco que existe de se dar a autonomia às escolas". No entanto, sublinhou, o Governo não deseja que docentes da mesma escola e nas mesmas condições (contratados ou em vias de progressão) sejam sujeitos a parâmetros distintos. Depois, argumentou, a possibilidade de acordos individuais de modelos pretende, precisamente, "acautelar os interesses e objectivos de cada docente avaliado".
in Jornal de Notícias, 15 de Março de 2008

Os partidos portugueses

Os partidos portugueses têm uma história diferente das mesmas famílias europeias, o que em si não é mau nem bom, nem as pseudo-questões morais interessam em política.

Comecemos pelo mais antigo. O Partido Comunista nasceu ainda durante a Primeira República em 1921. Foi formado a partir de elementos anarco-sindicalistas que começaram a divergir após a revolução soviética, com a Federação Maximalista Portuguesa.
Os outros partidos comunistas, entre os quais, os mais influentes na Europa Ocidental, o francês, o italiano, o espanhol, até o alemão, surgiram a partir das cisões da Segunda Internacional, em que uns, chamados “revisionistas”, optaram pelas reformas graduais, tendo dado origem aos partidos social-democratas ou socialistas e outros, agora chamados comunista, proclamaram a revolução como fundamental para atingir o socialismo.
Com o Estado Novo, o fascismo português, tradicionalista, integralista e autoritário, o Partido Comunista Português ficou durante muito tempo isolado do movimento comunista internacional e mais ainda após a guerra civil de Espanha, chegando a ser preterido no tempo de Estaline. Tem uma história de clandestinidade ao longo de décadas, durante a ditadura mais longa da História da Europa Ocidental do século XX que o marcou e ainda marca em parte. Por isso e pelos acontecimentos revolucionários de1974/75, também não acompanhou a tendência euro-comunista dos seus congéneres italiano ou espanhol e por fim do francês.

Nos outros países, continuaram as diferentes formas de propor o socialismo e, durante décadas, comunistas e social-democratas continuaram a reclamar-se do marxismo. Só após a segunda guerra mundial alguns partidos social-democratas começam a proclamar-se interclassistas e novamente a rever o marxismo e por fim, já recentemente, a abandoná-lo a favor de um certo pragmatismo.

O caso inglês, como sempre com a Grã-Bretanha, é diferente. A corrente marxista e até mesmo a tendência trotsquista continuaram presentes no Partido Trabalhista, pelo menos até aos anos 70. No entanto, não houve uma cisão assinalável que desse origem a um partido comunista forte. Tal como os outros, mas mais fortemente ainda no caso inglês, havia uma ligação estreita entre o movimento sindical, com origem nas trade-unions e o próprio Partido Trabalhista era financiado pelos sindicatos. Releve-se que na Inglaterra era muito mal visto alguém que não fosse sindicalizado. Tony Blair acabou com isso mas ainda lá estão as raízes.

O Partido Socialista Português nasceu na Alemanha em 1973, com o apoio de Willy Brandt, ele próprio um resistente ao nazismo e combatente na Guerra Civil de Espanha. Os fundadores eram ex-comunistas ou resistentes republicanos. Em 1973 proclamava-se claramente marxista mas o seu crescimento fez-se em 1974 e 1975 num contexto de ruptura contra o Partido Comunista. O engrossamento de militantes fez-se neste contexto (Nacionalizações, Reforma Agrária ...). Fez-se sobretudo contra um projecto e a favor de outro projecto vago, sem a história longa dos outros partidos social-democratas. Um aspecto “estranho” no Partido Socialista Português, em comparação com os outros da Internacional Socialista foi (e é) a presença de católicos que conseguiram formar um grupo de influência importante, sobretudo durante o governo de António Guterres. Isso seria impossível em França, onde a par de toda a luta secular em torno do socialismo há a tradição republicana de separação entre o Estado e a Igreja que vem da Revolução Francesa de 1789 e da corrente anti-clerical jacobina. Também em Espanha onde a guerra civil marcou uma forte oposição entre de um lado, monárquicos, nacionalistas espanhóis, fascistas e católicos integralistas e, do outro, republicanos, socialistas, comunistas, anarquistas e nacionalistas catalães, bascos, galegos e outros autonomistas. Zapatero ainda é a expressão dessa história. Em Itália onde o Papa só reconheceu o Estado Italiano com Mussolini, o anti-clericalismo e o ateísmo têm também origens antigas.

O PPD, nasceu da Ala Liberal do fim do Estado Novo, com Sá Carneiro e outros, acusados por uns como colaboradores, por outros elogiados como inovadores sem serem revolucionários. Nasceu após o 25 de Abril e construiu-se num ambiente em que, por um lado havia gente que queria a renovação do país de uma forma democrática e por outro, de pessoas que entravam recentemente na política, muitos anti-políticos que não queriam a hegemonia nem do Partido Comunista nem do Partido Socialista. A ideologia nunca foi muito clara.
Ao contrário do PS, do PC e mesmo dos grupos de extrema-esquerda, o PPD poucas ligações tinha com movimentos internacionais. Quis apresentar-se como social-democrata mas ninguém o reconheceu. O CDS tem sido também fruto de equívocos e evoluções, desde o tempo em que ninguém se queria assumir de direita até aos tempos actuais em que oscila entre as colagens e o populismo.

A partir dos anos sessenta e sobretudo após o Maio de 68, cresceram nas universidade os partidos de extrema-esquerda, uns mais libertários e, sobretudo, os chamados marxistas-leninistas, maoístas ou quando se provou a falência da doutrina chinesa, pró-albaneses. Eram grupos pequenos mas fortemente aguerridos. A maior parte foram-se dissolvendo mas , a sua experiência política e organizativa fez com que muitos se tornassem quadros do PPD/PSD e do PS que se tinham tornado partidos de massas mas tinham falta de gente experiente . Aproveitaram também estes partidos, outros que se tinham formado no Partido Comunista que durante décadas era das poucas formações que tinha uma estrutura organizada.

Entretanto, a longa e permanente propaganda do Estado Novo que inculcava insistente nas pessoas que “a política é o meu trabalho” levou a que muitos achassem que a política é só para os senhores que mandam ou dos que “estão contra a Nação”, os perigosos ou aldrabões. No final do Estado Novo era essencialmente essa a ideologia da ANP, que continua a dar frutos.

Se as origens não explicam tudo, até porque não há uma história teleológica, a história recente pode ajudar a compreender alguns aspectos da política actual.

"In taberna quando sumus ..." (Cancioneiro de Carmina Burana).

Ontem, fiquei "meio estarrecido" com uma pseudo-crónica na Rádio Diana. Não vou citar quem a fez para não promover esse tipo de pessoas. Mas, para quem quiser consultar basta ir ao sítio desta rádio e ouvir o "comentarista". É, por estas e por outras, que é preciso apostar num ensino de qualidade, para que daqui a alguns anos diminua o número de indivíduos que mandam palpites ofendendo tudo o que está à volta, na tentativa (vã) de se autopromoverem, sem fazerem o trabalho de casa.
Sou contra censuras. Mas a Rádio Diana poderia ter mais atenção em relação a estas coisas.

Extracto da mensagem que enviei à Rádio citada.

Exmos. senhores.

Gostaria de receber uma resposta sobre o assunto que passarei a referir.

Ouvi ontem uma crónica do senhor (...) que desconheço quem seja.
Fiquei impressionado com algumas afirmações feitas. Afirma que dantes é que havia professores com vocação etc. Como refere, no início, diz que tem mais de 50 anos. Presumo, portanto, que se está a referir à época anterior ao 25 de Abril, em que havia censura e prisões, em que os professores como todos os funcionários do estado tinham que assinar uma declaração em que se “repudiava activamente o comunismo”, na lata acepção que o regime dava a isso.
Uma época, em que os liceus referidos apenas recebiam uma percentagem mínima de jovens. Os outros iam trabalhar desde cedo.
O senhor (...) não gosta também de manifestações de professores. Felizmente que o direito à manifestação foi produto de uma longa conquista e que é um direito incontestável em democracia.
Como também tem o direito de ter saudades do antigamente. Até aqui cada um pode escolher e expressar as ideias de que mais gosta.
Como não o conheço, gostava de saber em que estudos se baseou e qual a sua experiência no ensino, bem como as suas habilitações relacionadas com o assunto em causa. Porque neste comentário não encontrei argumentos nem qualquer sustentação em relação à opinião emitida.
O que ouvi foi uma acusação generalizada em que diz que o Ensino “acolhe todo o tipo de pessoas incompetentes”. Diga-me senhor (...), quantos são os incompetentes e são incompetentes em que aspectos. Como prova isso? Diz também que se trata de uma “geração rasca”. Aqui parece-me que não há qualquer conceito minimamente definível. Deduzo então que não passa de uma ofensa generalizada a dezenas de milhares de profissionais.
E isso deve ser explicado sob pena de ser considerado como alguém que provoca e ofende sem qualquer consideração pela dignidade profissional e pessoal dos outros. Não explicando, as acusações que fez são-lhe muito naturalmente devolvidas.

Para que não haja desculpas nem críticas “no ar” aos anónimos, declaro que não o sou e aqui vão as referências:
Com os melhores cumprimentos.

João Francisco Baeta Rebocho Simas
(...)

sexta-feira, 14 de março de 2008

Corfu. Grécia. O negócio


Corfu. Grécia. Ócio


Não havia necessidade

Custo a perceber. Não sou estratega nem tenho jeito para tácticas e em negociações não sou dos bons na classificação ou talvez o seja na normalidade.
Mas pergunto-me. Porquê a intransigência e depois os recuos e o passar da bola para os outros? E o continuar da intransigência?
Pretendia-se, de repente, avaliar 150000 professores, a meio do ano, com horários inadequados. Os prazos eram curtos e os critérios inúmeros e sem estudos prévios. As escolas mergulharam num sem número de reuniões, de discussões, até de desconfianças e de alguns que gostam de aproveitar as migalhas.
Humilhou-se, provocou-se fizeram-se discursos prepotentes, demagógicos, libertaram-se fantasmas.
Agora parece que ..., ontem parecia que não, amanhã há-de parecer outra coisa ainda, afinal já não são 150000, são apenas 7000 contratados ou a passar de escalão, as recomendações hão-de vir, mas têm que fazer os instrumentos de avaliação, mas as escolas têm autonomia, se puderem fazem, se não, não fazem, afinal não é preciso assistir a aulas se não houver condições mas se já fizeram muito trabalho então têm que aproveitar e preencher todas essas fichas e ...

Mas o Estado tem que ser uma pessoa de bem!
Se não for uma pessoa de bem, se não acreditarmos num estado de boa fé onde é que vamos parar?

E os eleitos o que é que dizem em relação à inépcia?
No meu entender, o problema deveria ser resolvido pelos eleitos, isto é, os deputados da Assembleia da República e o Presidente da República.

Liceu Nacional de Évora. Ano lectivo de 1973/74

Finalistas do 7º ano do Liceu em 1973/74


Este foi o último ano lectivo do fim do velho Estado Novo. Marcello Caetano ainda sorria nas suas "Conversas em Família" e Américo Thomaz cortava fitas e fazia ora o discurso número um ora o número dois e quando não trazia papel dizia que "era a primeira vez que venho aqui depois da última vez ...".
Na fotografia as meninas ainda estão de bata, obrigatória. Além dos alunos, alguns professores e o reitor, e o senhor Francisco, chefe dos contínuos e "encarregado de educação" de muitos ao longo de várias gerações. Sempre educado e sempre pronto a ajudar, que na altura havia muitos que só iam a casa de vez em quando num tempo em que o telefone era um luxo.
Eramos os alunos 7º ano do liceu. Além do Liceu de Évora, havia no distrito a Secção do Liceu de Évora em Estremoz que começara três anos antes e alguns colégios que não iam além do 5º ano. Havia também as escolas técnicas em Évora e Estremoz e duas mais pequenas em Montemor-o-Novo e Reguengos de Monsaraz, além da Escola Agrícola em Valverde. A Universidade de Évora estava quase a nascer e os Jesuítas começavam a formar futuros sociólogos e economistas.
Hoje, no nosso país, o número de estudantes é cerca de 2o vezes maior do que em 1973.

quinta-feira, 13 de março de 2008

É tempo de reflectir e não parar

Costumo seguir estes conselhos para mim próprio

Antes de agir convém interrogarmo-nos sobre os nossos próprios princípios. Depois adequá-los à prática sem tergiversar nos pontos essenciais. Torna-se fundamental propor ideias e projectos mesmo antes de alguém no poder divulgar ou querer impor os seus. Conhecer a sociedade e os grupos em que vivemos é uma condição necessária, sem prescindir das utopias. Mas utopias desligadas das realidades não funcionam e, insistir nelas, desligadas daquelas, pode levar a efeitos perversos. O tudo ou nada leva quase sempre à perda de tudo o que já tínhamos. Podem até fazer bem aos nossos egos atitudes de rejeitar tudo o que não obedece ao nosso modelo, que frequentemente não é nenhum. Antecipar pode levar-nos a compreender melhor o que outros propõem e prever estratégias. Depois é preciso ver o ponto de vista dos outros, mesmo que sejam os nossos piores inimigos e compreender os diversos patamares onde se podem encontrar em momentos diferentes, aliados, adversários e inimigos de várias qualidades. E humildade intelectual recomenda-se; humilhação não. E neste caso, sem abdicar de princípios, usar as armas dos poderosos contra eles próprios e minar o poder que têm, até porque quem está no poder também tem fraquezas e medos. O processo é dialéctico, e a discussão e a luta dos contrários levam também à absorção e à modificação das posições de outros, e à geração de coisas que serão mais inesperadas se não estivermos predispostos à compreensão dos problemas.

Só as bruxas, os oráculos, os adivinhos e outros semelhantes é que adivinhavam o futuro e mesmo assim, como quando fazemos palpites sobre o tempo do dia seguinte: pode fazer chuva ou sol que teremos sempre 50% de probabilidades de acertar sem esforço. Mas podemos prever e sabemos que se nos mexermos teremos possibilidade de modificar alguma coisa, isto é, não convém que o poder fique totalmente na mão de alguns, sob pena de ficarmos ainda mais submissos àqueles que gostam de ultrapassar o poder que lhes deram.

Vem isto a propósito de todas estas questões relacionadas com o ensino nos últimos tempos.

O que é melhor: Ficar em casa? Rejeitar tudo? Oferecer pretextos e argumentos aos outros? Criticar participando? Participar criticando? Não aceitar princípios que ofendem os nossos e tolerar pormenores? Aceitar pormenores e claudicar perante os nossos princípios? Aceitar ideias contrariadas pelas práticas? Mudar de rumo por sentir uma pequena contrariedade, por uma crítica de alguém que acordou tarde? Desistir por ninharias e trocos ou por pequenas percalços? Indignar temporariamente ou ir até ao fim?

Ser radical não é fazer mais barulho. É ir à raiz dos problemas. E actuar.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Residência de estudantes e benefícios do ensino

Antigos residentes da Residência de Estudantes Monte Olivete em Lisboa

Estive numa residência em Lisboa na segunda metade dos anos 7o. Na época era dos mais novos. Até porque alguns tinham interrompido os estudos e passaram anos na guerra colonial. Durante algum tempo eu era o único que andava em Letras. A maior parte estudavam na Faculdade de Ciências, destes alguns passavam para o Técnico, outros estavam em Economia, Medicina, Direito ....
A maior parte eram de famílias com poucos recursos e pouca instrução. Hoje são engenheiros, professores do ensino secundário e da universidade, médicos, economistas, advogados, alguns políticos de áreas diferentes.
Vamos conseguindo juntar-nos quase todos os anos.
Aqui foi na Madeira. Também lá estou. Procuro não falhar porque se formaram amizades sólidas.

A bicharada

Cães à solta em Mértola à procura de parceira.

Aviso: dado o contexto refiro que a imagem nada tem a ver com a situação política.
Trata-se simplesmente da bicharada no despertar da Primavera. E também de terras onde ainda se podem ver animais à solta, sem trela e sem qualquer perigo.
Mas enfim, a sociedade actual exige trelas para os animais e cartões com chips para as pessoas.

Discussão e comentaristas

O importante é a discussão. Com o mínimo de regras.
Já tenho aqui publicado textos de amigos. Embora não seja muito importante, prefiro que sejam textos que não tenham ainda aparecido noutros lados para não andarmos sempre a ler o mesmo.
Em relação a certos comentários que aparecem em jornais, alguns prefiro ignorá-los. Respeito opiniões diferentes e, em muitos casos, contesto-as. Mas provocações parece-me que nem vale a pena tê-las em conta. Mesmo que seja de pessoas que se consideram importantes. Alguns apenas se expõem ao ridículo quando atacam com raiva sem o mínimo de argumentos.
PARA UMA REFORMA EDUCATIVA A SÉRIO: RANGEL A MINISTRO DA EDUCAÇÃO, JÁ!

Ele aí está, no seu melhor: o homem que disse poder vender um presidente, como venderia um detergente! O sábio doutrinário que proclamou não ser função da televisão educar, mas somente ganhar dinheiro, não importa como! O genial criador do lixo televisivo à portuguesa! O pioneiro dos reality shows, reconhecidamente uma das maiores contribuições pós 25 de Abril para a elevação do nível cultural do povo português!

Ele aí está1 E na sua missão sagrada de educador das massas, de sentinela da ordem, de defensor implacável de uma escola de “cólidade”, insurge-se, muito justamente, contra 100 000 malandros que travestidos de professores, invadiram Lisboa no último sábado, guinchando mais alto que os figurantes dos seus programas televisivos, quando era líder de audiências.

Os malandros não querem trabalhar! Os malandros andam à boleia nos autocarros do Partido Comunista! Os malandros estão a soldo do Partido Comunista para instalar o caos neste país! Os malandros até devem ter tido lanche pago pelo Partido Comunista! Com garrafões de vinho tinto e tudo, o que explica aquele ar de operários da Lisnave!......

Um “hórrór”! E, ainda por cima, vestem mal (o preto nem sequer está na moda esta estação!), penteiam-se pior, não têm estilo, não fazem capa da “Caras”, decisivamente! Como é que as crianças e os jovens deste país poderão aprender alguma coisa de útil com tais criaturas?

Admirável visão política de Rangel! Ele compreendeu, em toda a sua dimensão, as razões profundas da crise do sistema educativo português: dantes é que era bom (dantes, mas muito dantes…mesmo dantes da reforma Veiga Simão….)! “In illo tempore” em que os professores que, com certeza, foram referência para Rangel, usavam pente, cheiravam a sabonete Rosa-Alface, iam regularmente à modista ou ao alfaiate, vestiam modelos da “Modas e Bordados”, enfim, eram verdadeiros senhores “dótores”, dignos professores dos filhos de outros senhores “dótores”!
Bons tempos esses! Excelentes métodos! Que deixaram muitas saudades! Como a “menina dos cinco olhos”, nome ternurento por que era conhecida a palmatória, e as pedagógicas “ orelhas de burro”……

Perante tamanha lucidez e sábio escrutínio políticos, reconheço que a exigência de demissão, por parte dos professores, da ministra da Educação, tem toda a razão de ser: que se demita e dê lugar a quem possa salvar a escola portuguesa!

Conjugando as suas inovadoras concepções pedagógicas, com a brilhante experiência no domínio do Audiovisual, Emílio Rangel saberá implementar as medidas que colocarão Portugal na vanguarda da Educação: um revolucionário paradigma que combine a palmatória com o “ Não se esqueça da escova de dentes”, uma Neo-Telescola hi-tech, bem dentro do espírito do plano tecnológico.

É, portanto, um dever patriótico, um desígnio nacional!

Todos juntos exijamos: EMÍLIO RANGEL P` RÁ 5 DE OUTUBRO, JÁ!!!!!!!

Maria Antónia Pereira
Évora

terça-feira, 11 de março de 2008

Salários dos professores. Dados da OCDE


Dados da OCDE
Chart D3.2. Teachers' salaries (minimum, after 15 years experience, and maximum) in lower secondary education (2005)
Annual statutory teachers' salaries in public institutions in lower secondary education, in equivalent USD converted using PPPs, and the ratio of salary after 15 years of experience to GDP per capita

Ora também sabemos que o PIB per capita em Portugal é menor do que a maior parte dos países considerados. Mas os livros, computadores etc. não são mais baratos em Portugal.

Além disso muita coisa foi congelada nos últimos anos