sexta-feira, 23 de maio de 2014

Fazer contas à vida


Teremos eleições europeias dia 25 de maio. No mesmo dia há uma reunião do BCE em Lisboa. Recordemos que o Banco Central Europeu, juntamente com a Comissão Europeia e o FMI emprestaram dinheiro a Portugal com juros muito superiores ao que emprestaram a qualquer banco, que por sua vez emprestava ao Estado, ganhando uma comissão altíssima. A tal Troika, de que falamos, exigiu e continua, abaixamento de salários, diminuição e supressão de direitos que custaram muitos sacrifícios e prisões a conquistar, vendas ao desbarato de empresas estratégicas… Lembremo-nos que pela lei portuguesa, e acho bem, a véspera do dia das eleições é para reflexão e no próprio dia não pode haver qualquer propaganda eleitoral, ideológica que possa influenciar os cidadãos.
Lembremo-nos também que a crise começou por ser financeira, bancária, que foi exportada a partir dos EUA, apanhou a fragilidade dos bancos especuladores europeus, mais a expansão de outros bancos de mafiosos, como O BPN e os estados foram obrigados pelos que mandam e pelos seus eunucos a pagar, o que tem significado, e duramente, que são os cidadãos que têm pago.
Pois o BCE vem fazer uma reunião no dia 25 de maio em Lisboa. O que vem fazer? Por mais que digam outras coisas, vem simplesmente humilhar, enxovalhar, mostrar a prepotência, mostrar quem manda, espezinhar os que têm pago para enriquecer os bancos alemães, franceses e outros, para resolver os seus problemas, à custa dos pagamentos dos povos de Portugal, da Grécia, da Irlanda, de Itália …
Num dia de eleições, vêm esses burocratas que escondem os políticos, que não se responsabilizam ou se vendem, vêm contra a lei de um país independente, mostrar quem manda.
Não venham com essa treta do mercado. Há mercado, há mercados, há mais que uma economia, há economia política, parece que esquecida, há quem ganhe sem trabalho, há especulação e é de especulação que se tem tratado. O dinheiro não desapareceu, mudou de sítio, há quem lucre com os sacrifícios de outros.
Por cá, temos tido um governo de coligação do PSD e CDS. Antes das eleições queriam que viesse a Troika para resolver os problemas, queriam mais que a Troika, foram além da Troika, disseram que era disparate aumentar impostos, não só aumentaram impostos, como geraram desemprego, levaram empresas viáveis à falência, levaram centenas de milhares de pessoas à emigração e … não estão satisfeitos.
 Nem sequer quiseram aprovar projetos que punham limites à promiscuidade entre o mundo das empresas e os cargos políticos, como aqueles que foram apresentados recentemente pelo Bloco de Esquerda e o Partido Comunista. Votaram contra o PSD, o CDS e o PS. Porquê? Porque tiveram e têm compromissos e clientelas.E se não for isso, demonstrem-no com atitudes diferentes.
Também não me venham com a conversa que todos são iguais. Há políticos que não ganharam com o BPN, há políticos que não fizeram o programa económico do PSD e logo ficaram à frente da EDP vendida a um monopólio chinês, há gente que não pertence a essas sociedades que fazem o estado pagar (nós) pelos seus serviços, de que têm benefícios vários.
Há quem prefira a abstenção. Por mais desculpas que se inventem, abstenção é ficar em casa e nada fazer. Admito o voto em branco, como arma política, não é ficar em casa e depois dizer que os outros todos é que têm a culpa, quais crianças inocentes ainda a gatinhar.
Também me aborrecem os “enganados” e os “arrependidos”. Deveriam fazer umas pequenas contas sobre a sua vida e estar um pouco atentos. Poderiam pensar um pouco mais neles e nos outros. Desculpas há muitas, e por vezes, cai-se mesmo no ridículo.
Nestas eleições há que pensar no que tem acontecido em Portugal, um país que ainda tem mais de oito séculos de existência e que não é menos que os outros, dentro do princípio da subsidiariedade, que tem dois lados, a União Europeia, fruto de todos os estados que a integram, e os estados que também exigem.
Queremos ser uma colónia, com um ou dois estados imperiais? Queremos prescindir dos direitos civis, democráticos, sociais, culturais? Queremos uma Europa xenófoba, com uns mais importantes que outros, a mandarem nos que fornecem mão-de-obra barata?
Há que pensar nisto tudo e mais ainda; há que ver que também que isto tudo pode mudar, mesmo não havendo revoluções, mas mais um passo.
Eles também tremem. Treme este governo, tremem outros, treme a Comissão Europeia, treme o mundo financeiro.

Tremem mais se os fizermos tremer.

sábado, 19 de abril de 2014

Sobre Gabriel Garcia Márquez


Eu já não gostava muito daquela expressão “realismo mágico”, sobre este e outros escritores da América do Sul. Mas esta ainda entendo como um ponto de vista. Parece-me que o tal realismo mágico é apenas uma expressão de quem vive noutra civilização, mais industrializada ou que já ultrapassou essa fase, mais eficiente, mais comprometida com objetivos que visam o lucro imediato e a longo prazo: a civilização do relógio, agora digital, do tempo que é dinheiro e vice-versa, onde pode haver uns tempos programados para férias, artes e literaturas. Dificilmente, a partir deste ponto de vista se compreende outras realidades, que aparecem como exóticas, tal como no século XIX aparecia a Espanha ou Portugal, parentes próximos e seguros, ainda com alguma civilização, ao contrário da África dos “selvagens”, embora perto, mas estranhos, ainda reveladores dos costumes do antigo regime, contraditoriamente mantendo os tempos que já tinham passado, de que se sentia alguma nostalgia e também algum carinho protetor.

Muitos não terão reparado que Gabriel Garcia Márquez falava mesmo da realidade, certamente com algumas misturas de realidades, como um excelente contador de estórias que acrescenta qualquer coisa, que sabe usar os tempos das personagens e dos ouvintes. Como por cá, mas sempre de forma diferente, com a delícia de uma linguagem de quem narra para quem ouve e lê, com tempo, como fizeram Camilo Castelo Branco ou Manuel da Fonseca, ou no Brasil Jorge Amado e Graciliano Ramos ou Cervantes de uma literatura que se tornou universal, a partir de aldeias ou regiões reais.

Continua a circular desde há uma dúzia de anos uma falsa carta de despedida de Gabriel Garcia Márquez que circula ciclicamente  e que ele repudiou veementemente. Por muito que custe a alguns, ele não estava arrependido nem nunca produziu um texto onde a palavra Deus aparece tanta vez, num estilo que não era o dele. Há que ler as suas obras inconfundíveis e não cair na esparrela, reproduzindo um texto que não honra a sua memória. Há que ler e não difundir para as redes só porque se acha interessante num primeiro momento.

É de pensar quem é que nos controla. Se procurarmos no Google ou outros, aparece nos primeiros lugares o tal discurso e só depois de muito procurar, poderá ser encontrado um artigo de alguém a desmentir. Há organizações que manipulam isto de modo a convencer os outros, utilizando um mito recorrente de que os ateus se voltam para Deus na hora da morte. Noutros casos, quando a informação não agrada a quem manda, a informação desaparece. Há por aí umas tendências totalitárias que querem obrigar ao pensamento único, usando ínvios caminhos de sedução com palavras que entram facilmente no ouvido de quem já as espera ou já desespera de muita coisa. Pelo menos que se respeite os mortos e a obra dos que "da lei da morte se vão libertando".

Há uns que teimam em definir o que os outros são. Há quem olhe para outros como espécies exóticas que nos dão algum prazer nas férias ou noutros descansos. O melhor é ler a obra e que cada um faça dela o que quiser. Foi para isso que foi feita.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Rimas várias para um jantar

Há uns anos (um pouco mais de dez), fiz estes versos por brincadeira. Uma pequena "vingança" pois tinha uma turma que acompanhei durante três anos, várias aulas por semana. No final eram dezasseis alunas, cada uma de sua maneira, normalmente bem dispostas, mas algumas um pouco complicadas, com humores variados. Houve um jantar no final do 12º ano. Não pude ir já não sei porquê. Mandei estes versos de que estava já quase esquecido. Mas lembro-me de quase toda a gente. Algumas quadras eram individualizadas, outras gerais. Alguém se lembrou delas sem já saber do contexto. Mas guardou-as.
Aqui seguem:

Rimas várias para um jantar

PRÓLOGO e INVOCAÇÃO

Entrem senhoras e senhores
Oiçam esta história de pasmar
A história das dezasseis mulheres
Que ao 12º haveriam de chegar

Até Cristo quando subiu aos Céus
Disse a todos os mortais
Aturem-nas agora vocês
Que eu já não as aturo mais

Também Sebastião, o das setas
Tremeu e levantou a mão
Ao ver tanta carta de condução
E o fazer das curvas rectas

E mesmo Maria Madalena
Com seus choros e alegrias
Quase se arrependeu, mas teve pena
De ver na turma tantas Marias

Mas ó Musa minha adorada
Inspira este teu fiel criado
Dá-lhe palavras e alguma pancada
Pois já devia estar deitado
e descansado

E vós ninfas do límpido Xarrama
Ajudai este pobre secretário
Que Neptuno e Vénus que outro ama
Soltem as mágoas do armário

Foram três anos de falatório
Centenas de horas de bichanar
Noventa vezes dois de Purgatório
Quinhentas horas a reclamar

Às duas por três estou mal disposta
Às três por quatro preciso de sair
Vinte faltas e a mesa posta
Três vezes trinta e três para cantar e rir.

Do décimo ao décimo segundo
Vieram atentas e esperançosas
Chegam com as incertezas do mundo
Partem crianças, chegam fermosas

(esta é para rir; também por causa das calorias e outras manias)

Alguém disse que isto era as Doroteias
Desengane-se quem isso ouviu
Já ninguém aqui cose meias
São artistas como nunca se viu

Vamos à história e às personagens
O estimado público espera para ver
Alguma atenção e breves paragens
Abençoado seja este prazer
                        São horas de comer!

ANDANTE (e allegro ma non troppo)


De presidiárias está cheio o mundo
Peregrinemos aqui e além
Seja Sartre o mais profundo
Oito a catorze. Amen!

A verdade acima de tudo,
Alegria, trabalho e amizade.
A protectora do sortudo
Sabe o que é a solidariedade

É uma força da natureza
Sai a ela, à mãe e ao pai
Canta a vida e não tem a certeza
Quer a mudança social ... e vai!

Ribomba o trovão no momento
Desfaz-se no mesmo segundo
E nisto surge um encantamento
Um desejo de mudar profundo.

E espanta-se quando se sente
E o sentir é forma de estar
E é isso que faz a gente
E é esse sorriso que a faz voar

Não é de Tróia mas da terra dura
Sabe o que quer e luta por isso
Segue em frente e fura fura
É ainda uma flor em viço

De profundis levanta a neve
Racional, interroga o mundo
Ajuda os outros, ergue-se breve
O seu discurso é profundo

Olha a criança que já passou
E as contradições que mostra à gente
Será que percebe que já mudou?
E que tem pés para ir em frente?

Não é de Pavia mas vai
Não canta mas segue caminho
Às vezes pensa que cai
Segue em frente, com carinho.

Querem Direito, mas ela não quer
Ela fura, e corre segura
Adora a polémica e o malmequer
Vai fermosa e bem madura

Simplicidade é um dom
Diz tanta coisa sem falar
Tem um jeito simples e bom
Uma forma calma no tratar

Atenta, trabalhadora e simpática
Calma, vai além do que faz
Desde a História à Matemática
Também sabe do que é capaz

Ai essa vontade de dizer mais
Ai esse querer e não saber
Pergunta para onde vais
O caminho é não temer

Sorriso discreto e bem bonito
Simplicidade na forma de estar
Intuição e sentimento límpido
Vontade de ir além e voltar

É uma flor que há-de seguir
Continuam as dúvidas para onde vai
Descobriu algo para onde ir
Ou ainda faz o que não quer ouvir?

Anda a História a nove e tal
Mais uma actriz de carreira
O que pretende afinal?
Devagar sobe a ladeira

EPÍLOGO sem Cântico Final (e com exames à espera)

E sem esquecer os demais
Que no caminho ficaram por ir
Mais do que choros e ais
O melhor é começar por rir!

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A propósito de Mandela

Apenas para lembrar algumas ideias, que hoje parecem evidentes mas que de vez em quando, “por razões de estado”, parecem ser facilmente esquecidas.
Se a figura de Nelson Mandela parece hoje quase consensual, convém recordar que esteve 27 anos preso e torturado, acusado de terrorismo e incitamento à violência, por um regime ditatorial que legalizou o apartheid, portanto, a descriminação racial.
Quando alguém propunha medidas contra a África do Sul e pela libertação dos presos políticos, logo vinham as recusas justificadas pelo incitamento ao ódio da parte do ANC e de Nelson Mandela e pelo perigo comunista. Basta ver as posições de países como Israel, Reino Unido, EUA e Portugal até ao 25 de Abril. Poderíamos falar de outros, porque houve muitos “esquecimentos e  hesitações.
Aqui se transcrevem textos de alguns escritos nesses estados. Repare-se em Locke, a grande referência teórica do sistema parlamentar inglês, há mais de trezentos anos, a Declaração de Independência dos EUA, no século XVIII, a Constituição portuguesa, mais recente.
Parece que alguns governos só reclamam as liberdades para si.

John Locke, The Second Treatise of Civil Government, CHAP. XIX,1690

[…] whenever the legislators endeavour to take  away, and destroy the property of the people, or to reduce them to slavery under arbitrary power, they put themselves into a state of war with the people, who are thereupon absolved from any farther obedience, and are left to the common refuge, which God hath provided for all men, against force and violence. Whensoever therefore the legislative shall transgress this fundamental rule of society; and either by ambition, fear, folly or corruption, endeavour to grasp themselves, or put into the hands of any other, an absolute power over the lives, liberties, and estates of the people; by this breach of trust they forfeit the power the people had put into their hands for quite contrary ends, and it devolves to the people, who. have a right to resume their original liberty […]

We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness. — That to secure these rights, Governments are instituted among Men, deriving their just powers from the consent of the governed, — That whenever any Form of Government becomes destructive of these ends, it is the Right of the People to alter or to abolish it, and to institute new Government, laying its foundation on such principles and organizing its powers in such form, as to them shall seem most likely to effect their Safety and Happiness.

Constituição da República Portuguesa, 1976
Artigo 7.º
Relações internacionais
[…]
2. Portugal preconiza a abolição do imperialismo, do colonialismo e de quaisquer outras formas de agressão, domínio e exploração nas relações entre os povos, bem como o desarmamento geral, simultâneo e controlado, a dissolução dos blocos político-militares e o estabelecimento de um sistema de segurança colectiva, com vista à criação de uma ordem internacional capaz de assegurar a paz e a justiça nas relações entre os povos.
3. Portugal reconhece o direito dos povos à autodeterminação e independência e ao desenvolvimento, bem como o direito à insurreição contra todas as formas de opressão.

Nota: os textos estão no original, não por uma moda qualquer, mas porque assim “soam” melhor, são mais autênticos; realçamos algumas frases a negrito. 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

As mulheres da Europa e as japôas


A visão que se tem do mundo reflete não apenas o que se consegue ver mas também a forma como se vê a cultura de que se faz parte.

Algumas frase de Luís Fróis, escritor da segunda metade do século XVI, jesuíta, que fala sobre as mulheres da Europa e do Japão. Certamente também um ponto de vista masculino, apesar da curiosidade pelo outro (neste caso as outras, que os padres não são imunes a estas vistas).









in História e Antologia da Literatura Portuguesa do Sé. XVI, Fundação Calouste Gulbenkian

sábado, 2 de novembro de 2013

Honra à sua memória.


As Alterações de Évora de 1637 foram fundamentais para o processo que levou à Restauração de 1640. Foram motivo de grande preocupação para a monarquia, dado o exemplo que se poderia seguir nos outros reinos do mesmo monarca, o que de facto aconteceu: em 1640 estala a grande revolta da Catalunha, começada pelos camponeses que afluíram a Barcelona, “Els segadors” (os ceifeiros). Ainda hoje o hino da Catalunha é a eles dedicado.

A revolta amedrontou a nobreza portuguesa, uns ficaram em casa discretamente, como o Duque de Bragança, outros continuavam na corte em Madrid ou nos exércitos espanhóis na Flandres, Itália etc., outros ajudarão na repressão. Mas era comum da parte da nobreza o desprezo pela gente vil e sem nome e pelos “arruaceiros”, os pícaros da rua, gente de ofícios mecânicos, inferiores a eles, que eram de mãos limpas. (as expressões em itálico eram assim usadas no Antigo Regime, algumas das quais nestes extratos). Mas repare-se o espanto: revoltavam-se, eram pobres mas não roubavam nada, apesar de, no momento terem tudo nas mãos. Mas os inquietos destruiam balanças, ecritos etc. que punham em causa as fontes de rendimento da monarquia e da nobreza, os privilégios e o seu papel na manutenção da ordem.

Repare-se também na posição do duque de Medina Sidónia, ele que era irmão da futura rainha de Portugal (aquela de quem se diz que mais valia ser rainha por um dia que duquesa toda a vida): segundo o cronista foi ainda mais duro para com os populares, para mostrar o seu poder, como um dos grandes de Espanha.

Poderia ainda perguntar-se: se não tivesse havido esta revolta teria havido a Restauração da Independência? Será que os catalães teriam feito a revolta de 1640, permitindo que os portugueses preparassem a defensiva, enquanto os exércitos andavam a combater os revoltosos? O que teria sido o Brasil: talvez um conjunto de colónias francesas (os franceses já tinham tentado ocupar o Rio de Janeiro, andavam pelo Maranhão), ou holandesas (estabeleceram-se no Recife) …?


Notas: a negrito enfatizam-se algumas expressões do texto citado de D. Francisco Manuel de Melo, Epanáforas …. As imagens são da atual Praça do Giraldo: uma placa comemorativa na parede exterior da Igreja de S. Antão, com os nomes dos que dirigiram a revolta e a fonte henriquina, coroada por Filipe I de Portugal com a coroa dos Habsburgos.


Porèm o Povo mais indignado, com esta fugida, aumentava suas desordens cõ mayores delitos. Afirmase por cousa rara, que toda a prata, ouro, e dinheiro q despojavão, queimarão na Praça sem algum respeito, como cousa pestifera, não havẽdo entre tãta multidão (q constava da peor gente da Republica) hũa só pessoa, que se movesse a salvar por seu proveito qualquer joya, das que outros entregavão ás chamas tão liberalmente. Tal era o odio, que pode mais que a cobiça, mais poderosa que tudo. Passou adiante o dano, e forão trazidos ao fogo todos os livros reaes, que servião de registro aos dereitos publicos; romperão as balanças dõde se cobrava o novo imposto da carne; devassárão a cadea, dando liberdade aos prezos de quem esperavão [A32] ser ajudados, saqueàrão os Cartorios, desbaratando papeis, e livros judiciaes. Porèm em todas suas acçoens, se mostrou sempre mayor â indignação, que ó interesse.
”[…]
. Queixavãose, e dizião: Que os senhores, e poderosos de Evora, não sentião deshumanamente a execução do Povo de sua Patria, porque não erão do Povo; que para os Grandes, nunca havia novas leys, que não fossem interpretadas em seu comodo; e que ainda contra a observancia das antigas, se armavão de privilegios; porque ou não querião dever, usando de sua franqueza, ou não pagar, abusando de sua autoridade. Que procuravão merecer com o Principe, á custa das ruìnas da patria, e agora se congraçavão com o Povo, para se justificarem despois com el Rey, oferecendo por victima, ao sacrificio de sua fidelidade, o inocente, e simples vulgo, cujo sangue derramasse, como de animaes obedientes, costumava a barbara gentilidade; porèm que havendose justificado com el Rey, serião os mais crueis algozes para o Povo; finalmente, que ou se ajuntassem com os Populares, ou entre si se dividissem, ou procederião contra elles, como contra inimigos do bem publico.
[…]
Fora poucos annos antes, conhecido em aquella Cidade, hum homem doudo, e dizidor, e por isso [A40] aceitissimo ao Povo, cujo nome era Manoel, e por jogo, e sua notavel grãdeza irònicamente Manoelinho. Usava fazer pràticas pellas ruas ao vulgo; a quẽ com vozes desordenadas, e historias rediculas excitava sẽpre a alegria, dõde procedeo ser na Cidade, e seus contornos, a pessoa mais conhecida; a cuja lembrãça recorrẽdo algũs de aquelles inquietos, foi ordenado entre elles, que todas as convocações, cartas, editos, e ordẽs, se despachassem debaixo do sinal de Manoelinho de Evora; porq assi se escusava de ser jà mais conhecido o Autor destas obras; ficando aquelle nome, desde então, constituido por sinal publico, para que se pudessem entender sem confusão, em seus chamamentos. Nesta observancia amanhecião cada dia fixados pellas praças, e portas da Cidade, Provisões, Bandos, e Decretos pertencentes ao estabelicimento de sua defensa: debaixo desta forma, se  escrevião, e despachavão cartas às Camaras do Reyno, se despedião os Ministros de seus oficios, e se acomodavão nelles outros, em virtude de hũ simples provimẽto, assinado por Manoelinho de Evora. […]

O Conselho de Estado de Espanha, ainda que não tão florente, como nos tempos passados, se achava todavia rico de sugeitos de grande prudencia, a quem parecia: Que o açoute soministrado aos Inquietos, se devia reger com grande temperança, olhandose o estado do Imperio, dilatação, e contrastes de Espanha. Que por nenhum modo fosse tal, que estimulados de lástima, ou medo, os Vassallos, que em Portugal se achavão firmes (mais, e melhores) quisessem obrar de maneira, que recebendo todos o golpe, sahisse mais pequeno a cada hum: porque muytas vezes sucede, que a porfia, ou excesso da emenda, estraga pella desesperação [A135] de muytos, muyto mais, que com a pena de poucos remedêa. Que a revolação se não deixasse, nem à ira, nem ao esquecimento, antes q cõ vagarosa, e apressada destreza, se fosse cauterizando aquelle erpe interior, que lavrava pello corpo da nação Portugueza, primeiro que chegasse ao coração, e se fizesse mortal, decepandoo da união da Monarquia. Que o remedio, continha duas partes: a presente de castigo, que se havia de executar logo, e a futura de prevenção, que tambem desde logo, se havia de ir introduzindo. Mas que medidas ambas, não erão de tanta importancia a primeira, como a segũda. […]

Em quanto em Alentejo, e suas fronteiras, ou jà os Ministros das armas, ou da justiça, procedião desta sorte, pello Reyno do Algarve, andava mais soberba a vingança. Estava seu castigo (como dissemos) á conta do Duque de Medina Sidonia, que jâ havia arribado a Ayamonte, com hum suficiẽte troço de exercito, de gente mais lustrosa, que disciplinada. He certo, que aquelle Duque, não tinha outras ordens de mayor rigor, que o de Bejar, acerca da entrada no Reyno; mas ou porque julgandose mais soberano, lhe parecesse q o negocio donde sua pessoa intervinha, della só havia de ser dependẽte, ou porq o Marques de Valparayzo, que o acõselhava, por de terrivel natural, o guiase por caminhos mais asperos, [A137] determinou proceder no Algarve, mais q o de Bejar, em Alentejo, riguroso, e absoluto.
[...]
A Justiça foi proseguindo em suas averiguaçoens, atè proscrever, como Reos de sedição, e cabeças de amotinados, a Sesinando Rodrigues, e João Barradas: pello qual  crime, forão condenados à morte, e em estàtua justiçados, com horrẽdos pregões, e bandos, prometedores de grãde honra, e interesse, a qualquer pessoa, que vivos, ou mortos, os entregasse nas mãos da Justiça. Algũs outros dos que na alteração tiverão menor parte, e por isso menos advertidos se confiárão, forão tãbem presos, econdenados, huns á forca, outros a galés, e desterros perpetuos; mas  todos homẽs vìs, e sem nome, e que os mais erão delinquentes, e por outros delitos merecedores das penas, que só ao caso da sedição referião.

Alterações de Évora e exércitos espanhóis


   Cõstava este exercito de Cãtâbria, de varios terços de Infãtaria Castelhana, quasi toda forçada para [A85] a guerra; a qual entre a aspereza dos montes de Guepúzcua, agora detida dos frios, agora dificultada do aperto dos passos, se conservava, mas sempre com vivo desejo de liberdade. Estimavase seu numero, dentro dos quarteis, em oito mil Infantes, que marchando soltos, e por terras largas, e conhecidas, se diminuìrão de sorte, que antes de arribarem â Estremadura, erão menos de quatro mil, e menos os que chegàrão ao novo alojamento. A mais rigurosa parte de aquellas armas, consistia em hum Regimento de Dragoens: nova milicia entre nós, e que de Alemanha trouxera a seu cargo Dom Pedro de Santa Cizilia, de quem no livro primeiro de nossa Catalunha, fazemos particular menção. Foi nomeado por General deste exercito, o Duque de Bejar, moço de desasete annos; havendose sua riqueza, e estado por suficiencia, disserão: Que por ser o mayor senhor da Estremadura, donde o exercito se juntava, lhe competia o posto[…]

   Mas como já no Reyno do Algarve, mostrava para revolverse mayores designios, foi tãbem mayor o cuidado de se lhe aplicar o remedio; porque os portos, de q aquelle Reyno he abũdante, causavão muyto mais receyo, que suas proprias forças. Por esta razão se ordenou, que o Duque de Medina Sidonia, Capitão General da Andaluzia, ajuntasse da gente de seu cargo, atè seis mil Infantes, e com os ginetes da costa, e alguns voluntarios, formasse outro exercito, com q se avesinhasse ao Algarve.

   O rei Filipe IV de Espanha, terceiro de Portugal estava a braços com várias guerras na Europa e no mundo, Países Baixos, Inglaterra, França e corsários, piratas, contrabandistas, com as remessas de prata do Perú a diminuírem, gastos da monarquia cada vez maiores e resolve, a conselho ou por ordem do seu valido, o Conde-Duque de Olivares, aumentar ainda mais os impostos. Os do reino de Castela já não aguentavam mais, já tinha havido até uma revolta popular no País Basco, a população até diminuía com a fome. Os súbditos dos outros reinos (Aragão, Portugal …)  entendiam que não deveriam financiar as guerras de Castela, invocando as suas leis e autonomia. E, no entanto, os impostos aumentavam e os recrutamentos militares também.

   Depois de outros motins é a vez da grande revolta popular de Évora que se estende pelo Alentejo, Algarve e Beiras: As alterações de Évora, também conhecidas por revolta do Manuelinho..
D. Francisco Manuel de Melo vem ao serviço do rei a Évora e descreve, tal como Severim de Faria os acontecimentos e o contexto.

   O Conde-Duque não confiava muito nos portugueses e por isso envia exércitos espanhóis, apesar da nobreza portuguesa não ter participado nos acontecimentos, opondo-se até aos vis populares, tal como D. João, Duque de Bragança, rei a partir de 1640. É interessante que um dos exércitos, que sai da Andaluzia é comandado pelo Duque de Medina Sidónia, da família Guzman, irmão de D. Luísa de Gusmão e cunhado de D. João, que anos mais tarde haveria de tentar uma conspiração para a separação da Andaluzia, com o apoio do rei de Portugal, que foi paga com a morte do Marquês de Ayamonte (também Guzman), por ordem do Conde- Duque (também Guzman).
O outro exército, não fosse os crimes cometidos, quase caía no ridículo. Segundo o cronista, saí da Cantábria e País Basco com 8000 homens a pé (imagine-se atravessar a Espanha, quase sem estradas) e chega à fronteira portuguesa com apenas 4000, isto é cerca de metade teriam desertado. Ainda por cima é comandado por um rapaz de 17 anos, porque era da família mais importante da Extremadura.

Nota: sublinhados nossos. Ver também texto de Severim de Faria sobre Alterações de Évora

Textos de D. FRANCISCO MANUEL DE MELO, EPANÁFORAS DE VÁRIA HISTÓRIA PORTUGUESA, EDIÇÃO SEMIDIPLOMÁTICA, POR EVELINA VERDELHO, CENTRO DE ESTUDOS DE LINGUÍSTICA GERAL E APLICADA (CELGA) FACULDADE DE LETRAS, UNIVERSIDADE DE COIMBRA, 2007

sábado, 21 de setembro de 2013

Évora será cidade

Por vezes é preciso ter memória. Quando se fala em autarquias, em eleições, em poderes autárquicos é preciso recordar algumas coisas, mas não reviver o passado.
Até 1974, durante o Estado Novo, os presidentes das câmaras eram nomeados pelos governadores civis, por sua vez nomeados pelo Ministro do Interior (o mesmo de quem dependia a PIDE/DGS, ou que dela dependia), nomeado pelo Presidente do Conselho. Autonomia não existia, os presidentes das câmaras, quando muito pedinchavam qualquer coisa, servilmente, ou defendiam os interesses de grupo, também servilmente. Dinheiro não havia quase, que era quase tudo para as guerras coloniais e para os grupos que se serviam do Estado para enriquecer num estado controlado, onde não podia haver greves nem manifestações nem direitos cívicos, políticos ou sociais.
Évora não podia crescer. Era a cidade intra-muros, com alguns bairros admitidos e dezenas de bairros clandestinos, porque as pessoas fugiam dos campos e tinham que viver em algum lado.
Fez-se um esforço coletivo imenso após o 25 de Abril. Participou muita gente anónima, inúmeros grupos de voluntários, moradores, outros que vieram de fora, fizeram-se experiências urbanísticas com a participação da população, urbanistas e arquitetos que haveriam de ser reconhecidos internacionalmente, como Siza Vieira e Nuno Portas, mas desprezados por alguns “esclarecidos” suburbanos que ascenderam rapidamente.
Évora recomeçou a ser reconhecida nacional e internacionalmente pelas escolas de teatro, pioneiras, por festivais de música, tantas manifestações culturais. Milhares de famílias não tinham sequer água e esgotos, no centro e nos bairros clandestinos e começaram a ascender às condições mínimas- à dignidade!, o que é pouco para gente satisfeita com o seu umbigo e que faz da ignorância um gesto contínuo de arrogância.
Évora chegou a Património Mundial, coroando esforços, estudos, participação de muitos cidadãos que demonstraram que Évora poderia ser uma cidade, cosmopolita, aberta, inovadora. Havia problemas, certamente, mas participação de muitos e vontade de resolvê-los.
Infelizmente, porque noutras regiões do país há diferenças, grande parte dos que mandam no Partido Socialista local foram-se organizando contra tudo o que eles entendiam que era comunista, sem ver sequer que muito do que se fazia era o que uma cidade digna desse nome, uma cidade de cidadãos, era muito maior do que preconceitos que qualquer reacionário (aquele que não quer mudar e que age contra) subscreveria. Alguns nem sabem que o Partido Socialista, na sua fundação, se proclamava como herdeiro do marxismo, que propunha também uma sociedade igualitária e que ainda mantém oficialmente como hino a Internacional.
O PS local, que durante muitos anos esteve na oposição, contestando apenas, conseguiu tornar-se poder. Como os que mandam no PS local não tinham programa, como se habituaram a ter lugares de nomeação (CCDR, governo civil, EDIA …) o seu programa foi destruir e mostrar quem manda. Não olharam a meios publicitários e propagandísticos, utilizando o aparelho de estado a seu favor, alianças espúrias, favores de empresas, favorecidas também. E ainda pensam que são importantes, socialmente, imprescindíveis. Pensam que são uma espécie de self made man à portuguesa, porque partiram da aldeia e conquistaram o poder, esquecendo-se que o poder que lhes foi dado nessa instituições que lhes permitiram subir, o foi através de uma rede caciquista que nada tem a ver com mérito e muito menos com princípios democráticos.
Hoje saúda-se que tem coragem de querer estar à frente desta autarquia, com vontade de mudar, através de eleições democráticas. Porque a cidade de Évora está minada, falida, o centro histórico com problemas de difícil resolução, esventrado e sem gente, porque os que têm mandado têm desprezo, raiva e inveja pela vivência numa cidade, até porque o seu ideal suburbano é o de uma cidade para a fotografia, onde os que podem circulam nos seus automóveis rapidamente e descansam nas suas vivendas com piscina, enfadados do bulício, das misturas sociais – da cidade.

É preciso devolver o cosmopolitismo a esta cidade, elevar a participação das populações, reconstruir o que tem sido desfeito.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A grande e a pequena fraude


Começo pela grande fraude: Obama. Não é que tivesse grandes esperanças mas resta sempre uma réstia, como as cebolas que ao descascar nos afetam os olhos, sem que a visão desapareça. Obama sabe discursar, é inteligente, tem ideias, alguma visão do mundo, ao contrário de outros presidentes pouco alfabetizados como Reagan ou Bush(s). Parecia até não ser arrogante. Mas para governar os EUA, há que contar com os eleitores que existem, os sistema eleitorais obsoletos que existem, os inúmeros e poderosos lóbis (alguns numa certa Europa poderiam ser simplesmente acusados de corrupção), os eleitores eleitos com o financiamento dos lóbis etc. : um sistema político que se bloqueia a si próprio para manter o status quo dos interesses empresariais e uma política económica liberal quanto baste para defendê-los e quando não baste manda-se um exército, umas bombas, uns espiões, uma multitude de meios para manter a hegemonia. E prisões com tortura em Guantánamo que Obama prometeu acabar mas que ...
Quanto ao Médio Oriente interessa-lhes o petróleo, o gaz, a supremacia e o Estado crescente (de crescer) de Israel, a Terra Santa exclusiva para alguns (sublinhe-se alguns, mas poderosos) grupos judaicos, outras seitas religiosas, que talvez não sejam seitas, porque isso é mais questão de poder e número, que creem que pode ser aí o Paraíso fundamentalista, com exclusão dos outros, árabes sobretudo, quer sejam muçulmanos, cristãos ou sem religião.
Talvez ainda interesse a Obama, mas nada a outros que mandam, que a Síria foi um dos berços das culturas ocidentais, referência bíblica constante, um dos centros da cultura helenística, província essencial do Império Romano, lugar primordial dos primeiros cristãos e dos que se seguiram, centro da civilização islâmica, do tempo em que os poetas, filósofos, astrónomos e tantos outros davam lições de cultura ao mundo. Mas esses puritanos que decoram e citam a Bíblia constantemente, assumindo ares civilizadores, dominadores e arrogantes, esquecem ou desconhecem e nem vislumbram que estes povos são descendentes desses que eles, na América e outras partes se presumem como donos da verdade e herdeiros do povo eleito, que reservam uns vestígios de liberdade para eles mas que negam os direitos aos outros, em nome da liberdade económica reservada. Esquecem, apesar de usarem constantemente a palavra Deus (cristão) e até escreverem nas notas de dólar “in God we trust”, que foi a caminho de Damasco, capital da Síria, que o refundador do cristianismo, S. Paulo, teve a visão, a queda e a elevação que levou o cristianismo ao mundo, “urbe et orbi”.
Que Assad é um ditador, sabemos e não devemos permitir. Mas financiar grupos fundamentalistas e fascistas, como se fez no Afeganistão ou no Iraque, para substituir um regime e cair num estado falhado como no Iraque ou Somália ou Afeganistão, com perseguições a minorias significativas de cristãos, muçulmanos alauitas e outros, laicos, ateus, permitir o retrocesso e destruir património cultural mundial, obrigar as mulheres a voltarem a tempos “inquisitoriais”, para se conformarem com a moral vaabita da Arábia Saudita?
Entretanto Israel, que continua a ocupar os Montes Golã sírios, aproveita e ninguém põe em causa que tenha armamento nuclear e químico.

A pequena fraude é a pequena França de Holande. Parece que certos franceses querem voltar aos tempos do colonialismo na Síria. Ainda não engoliram as sucessivas derrotas no Vietname e na Argélia e ainda pensam que estão no tempo de Napoleão (que também foi derrotado por povos, como o português e russo). E diz-se socialista!? Mas também o que conta quem pouca influência tem e se quer pôr em bicos de pés de vez em quando, mudando de opinião quando uma alemã mandona exige?

terça-feira, 18 de junho de 2013

Dos comentadores e dos seus estudos não quotidianos



Continuo a dizer que o mal de alguns comentaristas profissionais é não se informarem. No mundo atual não dá para dar opiniões sobre tudo, como se fossem verdades indiscutíveis. Nunca deu! Percebo que se ganhe com isso, quando se tem fama. Mas fica mal, para já não falar de alguma desonestidade intelectual.
Sousa Tavares fala de uma escola primária numa aldeia perdida no Norte, onde terá andado. Havia frio, uma professora esmerada etc.
Lembra-se de coisas de há décadas. Sabemos que a memória nos trai. Lembramo-nos de coisas que nos emocionaram, de outras não. Felizmente não chega a fazer a apologia do Portugal dos pequeninos, dos que diziam, repetindo Salazar, que “a minha política é o trabalho” (o que significava não participar naquele terrível mundo urbano, cosmopolita, mas defender, mesmo contra os vizinhos, aquela sociedade autoritária, camponesa e patriarcal reinventada), mas … quase.
Também eu andei em escolas primárias com condições ínfimas, com o frio do Alentejo que não é menor que o do Litoral Norte. Também tive colegas, em Alter do Chão, que andavam descalços. Também eu tive colegas que todos os dias apanhavam reguadas e que nem se atreviam a dizer em casa, porque apanhavam mais. Também tive professores interessados nos seus alunos. Parece-me e tenho a certeza que ainda há muitos, muitos anónimos.
Mudei de escola primária para Sousel, também no Alentejo. Dos meus colegas da 4ª classe, que eu saiba apenas uns dois, talvez mais um, onde me incluo, tiraram um curso superior (ou o que o era na época), na idade “normal”. Outros ficaram pelo caminho e, não fosse haver um colégio, que nem todos podiam pagar, com condições hoje inacreditáveis, talvez outros não tivessem feito o ensino secundário ou parte.
Esquece-se, ao falar dessa escola, do ambiente que tinha em casa. Esquece-se dos livros que tinha, de uma mãe escritora e um pai jornalista e dos círculos de amigos da família. Também eu tive alguma “sorte” nesse aspeto. Mas a maioria não tinha.
Parte da sua experiência particular. Quase como se fosse possível voltar atrás. É, infelizmente o mesmo vício de raciocínio de Nuno Crato, quando pensa que é possível voltar ao paradigma dos antigos liceus, dos alunos que vivem só para exames, para entrar na universidade.

Parte do princípio que antes, “nesses tempos fundadores”, os professores não faltavam e hoje faltam. Dados não lhe interessam, mas sim afirmações, baseadas na sua opinião, no seu senso comum, sem que se dê ao trabalho de ir ao terreno, ver o que é uma escola e informar-se que é o dever de um jornalista. É o mesmo pensamento reacionário de tantos que, partindo dos seus preconceitos, decretam a verdade. Infelizmente há muitos por aí. Arrogantemente pensam e proclamam, inculcam, repetem até à exaustão, do alto das páginas dos jornais, numa comunicação unilateral, gostam de ofender, como se isso fosse coragem, satisfazem-se como Narciso a apreciar a sua própria imagem nas águas, mas … “o mundo pula e avança”. E o mundo de hoje, já tem muito mais gente com instrução e que sabe pensar, sem precisar das ideias feitas e das verdades inquestionáveis, “ex-cathedra”.

Junto esta imagem de um livro com muitos depoimentos, onde também contei a minha memória das escolas em que andei.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Grécia. E agora como é?

O discurso sobre a democracia é longo nesta Europa recente, depois de guerras genocidas e submissão de povos, com alguma acalmia nas recentes décadas. Sobretudo quando o que alguns entendem por democracia dá resultado, de acordo com as previsões dos meios financeiros ou de alguns imperialismos, às claras ou não, que (cada vez mais) mandam.
Juristas e políticos vários recomendáveis e insuspeitos têm recomendado o respeito pela lei, pelas constituições, pelos tratados. Parecia consensual num processo imparável de progresso. Só teriam entrado, só entraram para a União Europeia os estados que respeitassem os princípios de um estado de direito democrático. E terão entrado porque provaram que cumpriam as regras constitucionais democráticas. Não entraram repentinamente. Veja-se, por exemplo, as provas que têm sido exigidas à Turquia desde há longas décadas, sem que este estado tenha conseguido ainda provar ser merecedor da entrada neste exemplo de democracia.
As eleições gregas foram válidas, ninguém contestou o processo. Os cidadãos gregos votaram segundo a sua consciência, princípio incontestável, pelo menos até agora, na União Europeia.
O problema é que votaram contra o que as instituições financeiras e os estados que mandam,  mas que não poderiam mandar segundo as regras aceites, porque os tratados exigem consensos ou maiorias. Afinal os partidos gregos que aprovaram todas as sujeições para a Grécia constituem uma minoria e não deveriam formar governo,  pois seria  contra uma das regras essenciais da democracia, o poder do povo, o poder da maioria no respeito pela lei feita pelos representantes do povo, dos cidadãos e não de escravos ou súbditos, que, por definição não fazem leis e apenas obedecem.
Afinal os cidadãos gregos podem votar ou não, ou só podem votar desde que os que mandam aceitem? Só podem votar naquilo que os outros lhe ditam, sobretudo os que mandam e ninguém elegeu? E os outros cidadãos da Europa terão que ser obrigados a votar apenas nos partidos que obedecem às instituições que niguém sufragou?
Afinal qual é o conceito de democracia? Ou será que para alguns, os resultados eleitorais só são aceitáveis quando os cidadãos são obedientes aos ditames dos que, não se sujeitando às regras da democracia, mandam porque mandam?
Podemos ou não votar em consciência ou só naquilo que nos mandam votar seja a que pretexto for?

Já há perto de duzentos anos Almeida Garrett escrevia sobre o dia 24 de Agosto de 1820:

Escravos ontem, hoje livres; ontem autómatos da tirania, hoje homens; ontem miseráveis colonos, hoje cidadãos; qual seria o vil (não digo bem), qual seria o infeliz que não louve, que não bendiga o braço heróico que nos quebrou os ferros, os lábios denodados que ousaram primeiro entoar o doce nome Liberdade?

Mas se almas há ainda tão abjectas, se corações tão pusilânimes, tão acanhados espíritos, tão baixos ânimos, tão envilecidos peitos, tão desprezíveis homens, que são esquecidos que são cidadãos, de que são homens, de que são Portugueses, ousam duvidar um momento da legitimidade, com que a mais nobre [,] a mais ilustre porção desta cidade clamou por uma constituição política, reuniu as suas forças para fim tão glorioso [...], se alguns timoratos e duvidosos, receiam e tremem; eis aqui quando um homem de bem, quando um Português, que o é, deve, acendendo o facho da filosofia, e das letras, fazer servir as suas luzes, e ilustrar a sua pátria, sacrificar-lhe as suas vigílias, mostrar que é cidadão.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Feriados ainda e amanhã também.


Há por aí muitos que falam de valores e sobretudo da perda de valores. Este ano houve por aí uma discussão (ligeira) sobre os feriados. E, para alguns intransigentes dos valores, a discussão sobre as promoções da tal cadeia com um patrão nacionalista mas com uma sede holandesa, de supermercados, como outras, passou como se fosse apenas uma liberdade de escolha, porque o 1º de Maio era uma coisa do passado, essa coisa das oito horas de trabalho ou os direitos sociais, uma ficção que não se coaduna com os tempos pragmáticos atuais. Talvez fosse interessante saber a reação se fosse uma promoção de carne na sexta-feira santa ou outra qualquer na noite de Natal. Talvez aí viessem com outros valores!

Há uns, envergonhados, que ainda dizem que o 1º de Dezembro deveria continuar feriado, porque defendem a toda a hora os valores nacionais, a Fé e o Império, D. Miguel ou D. Sebastião. Claudicaram também! O argumento é quase sempre o mesmo: os outros estragaram tudo e agora temos que fazer sacrifícios (digo eu, alguns ou a maioria). A culpa é sempre dos outros, sobretudo para quem continua sentado!

Já há muito que não aguento moralistas! Sobretudo os incoerentes! Preguem moralismos ao espelho e que fiquem satisfeitos. Pouca paciência também tenho para os relativistas.

Não é preciso grandes demonstrações para provar que o problema não é o número de feriados. Estados, como a RFA, têm mais feriados que nós e são apresentados como países “do trabalho”. Os trabalhadores alemães até trabalham menos horas que os portugueses e, se particularizarmos, as mulheres portuguesas são das que trabalham mais na Europa. Confunde-se, e propositadamente (um dos sintomas de que o capitalismo em Portugal ainda está afastado da maturidade e enredado nas teias de sociedades hierarquizadas, onde ainda se despreza o valor do trabalho e mérito), horas de trabalho com produtividade.

Meus senhores (porque assim querem ser, o que implica que outros sejam súbditos), se quiserem que os portugueses trabalhem mais, promovam o trabalho para os que estão desempregados, porque estes querem trabalhar e já muitos têm formação!

Portugal é uma República, em que o Estado está separado da Igreja, das igrejas. A questão dos feriados põe-se em termos políticos e não religiosos. Cada um pode ter ou não ter a religião que quer ou não ter nenhuma. Ninguém pode ser obrigado a ter uma religião, histórica ou moderna.

Felizmente, a própria Igreja Católica Apostólica Romana já não exige a supremacia que teve noutros tempos. Mas há sempre, e literalmente, alguns que são mais papistas que o Papa.

Pelo que percebi, o governo transigiu sem qualquer necessidade. Quer, autoritariamente ,acabar com o dia que simboliza a República e com o dia que simboliza a Independência. Sinais dos tempos! De alguns!

 Mas fez um favor, talvez inútil, acordou com a Igreja, a suspensão de dois dias santos por cinco anos! E acabou com os feriados civis, republicanos, patrióticos! Como se alguém lhes tivesse dado o poder de acabar com símbolos pelos quais tanta gente e tanta gerações lutaram e se sacrificaram! Como se se sentissem na missão de, em nome de todos e sem lhes perguntar, acabar com tudo o que levou séculos a conquistar! Em nome de uns trocos do FMI e de uma ideologia neoliberal, conservadora e até reacionária e do ... salve-se quem puder!
Triste gente inútil que haveremos de um dia levar a que tenham alguma consciência do que é a RES PUBLICA.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Freguesias/Antigos Concelhos

Montoito (actual Concelho do Redondo)



Oriola (actual Concelho de Portel)

Vimieiro (actual Concelho de Arraiolos)

Cano (actual Concelho de Sousel)

 Pavia (actual Concelho de Mora)

Pretende este governo extinguir de uma penada milhares de freguesias. Mais que provado está que não são estas que contribuíram para o descalabro das finanças públicas. Pelo contrário, as juntas de freguesia, através de milhares de cidadãos, com trabalho essencialmente voluntário, resolvem problemas quotidianos que, se fossem pagos, ou deixariam de ser feitos ou custariam muitos milhões.

 Para além disso, há a identidade das populações que perdura através dos tempos. Muitas delas existiam ainda antes da nacionalidade, que já vai longa, quer se chamassem freguesias ou simplesmente paróquias.

Recordemos, pelas imagens, algumas que foram concelhos por centenas de anos, muitas delas extintas em 1836. Em muitas ainda se veem símbolos do antigo poder municipal ou reminiscências deste: a torre, quase sempre com o relógio, o edifício dos paços do concelho que também servia de tribunal, bem como a antiga cadeia, numa praça pública, antigamente apenas praça, frequentemente chamada Praça da República após o 5 de Outubro, que agora alguns também querem esquecer.

(re) Inauguração do mercado em Mértola

Foi reinaugurado o mercado em Mértola dia 7 de Abril.



A lampreia, gerações de pescadores e o rio de onde tudo parte e regressa.




terça-feira, 20 de março de 2012

Promover o Património

Há formas simples de promover o Património, aproveitando as disponibilidades e o sentimento de orgulho de quem sente que o património faz parte da sua identidade. Percebo o medo dos roubos e dos vandalismos, mas há por aí tantos sítios que as pessoas gostariam de visitar e estão continuamente fechados! É frustrante ver as câmaras ou as regiões de turismo a gastar dinheiro na promoção e depois chega-se aos sítios e está tudo fechado. Bastaria por vezes dar apenas algumas benesses a voluntários reformados que se sentiriam mais úteis.

Segue-se um exemplo interessante na vila do Redondo.



A porta da Ravessa

As medidas da vila na Porta da Ravessa (a vara e o côvado).


Porta do Postigo

segunda-feira, 19 de março de 2012

Castelo de Valongo, Évora

Castelo antiquissimo, medieval, pelo menos, com vestígios islâmicos, no Concelho de Évora, mas perto de Montoito.Em ruínas, fechado, porque o proprietário dos terrenos assim o decidiu, embora seja património. Simplesmente fechou uma estrada pública e de tempos imemoriais.
Bem perto uma ermida em ruínas.


 

quarta-feira, 14 de março de 2012

Sobre a Parque Escolar

Acompanhei, enquanto me foi possível, algumas reuniões com a Parque Escolar, num projeto concreto, em algumas questões localizadas. De pormenores não falarei por uma questão ética. Continuo a crer, pela minha experiência, que houve sempre diálogo, apesar de nem sempre concordar e apesar de outras instituições terem interferido sem dar a cara, ou na presunção de que alguns mandam, sem que a outros possa ser dada a possibilidade de participação no processo. Essa é outra questão que não tem a ver com os técnicos desta empresa pública.

Há aspetos em que discordei desde início. Não compreendo como é que património do Estado passa para uma empresa, mesmo que seja empresa pública. No futuro se verá o que é que uma empresa fará com a propriedade que ganhou. Espero que nunca seja privatizada nem tenha que vender este património.

Há outros problemas que não se resumem às opiniões abalizadas dos técnicos. A arquitetura não é só um problema de arquitetos, a engenharia não é só um problema de engenheiros. Ou há de servir a sociedade ou então são obras sem utilidade. Os utentes têm uma palavra a dizer.

Há escolas que estavam degradadas, outras menos, a maior parte sim, e que não estavam preparadas para o mundo atual, pelo menos, se nós (portugueses) quisermos um ensino melhor e com uma perspetiva de futuro. Em termos de espaços, não poderíamos continuar apenas com escolas frias (ou quentes quando não podemos mais), com infiltrações, com salas apenas com ardósias ou coisas parecidas, e giz, com simulacros de bibliotecas, de laboratórios, ginásios etc. Se queremos que o país avance, se acreditamos que a educação promove o desenvolvimento temos que ter melhores estruturas físicas. Não podemos compararmo-nos com o miserabilismo terceiro-mundista e reacionário do Estado Novo e podemos almejar viver num mundo de cidadãos informados e participativos.

No nosso país, por vezes, fazemos as melhores leis da Utopia. A Utopia continua a ser uma meta, mas quando se proclama antes de tempo, como se já feita, pode dar efeitos perversos. Fez-se uma lei sobre a qualidade do ar. Segundo o que ouvi numa reunião, a renovação seria de cerca de 60 m3 por pessoa por hora. Quem informou utilizou uma expressão semelhante a uma ventania permanente. Daí veio a ideia do AWAC, um sistema caríssimo, com gastos insustentáveis, mal implementado e agora parado em quase todas as escolas e com problemas não resolvidos, mas que se pagam, não apenas quando funcionam, mas quando param e se degradam.

Os equipamentos variaram conforme a época. Nos melhores tempos do PTE as escolas receberam, por exemplo, computadores novos quase à discrição. As que não estavam ainda em obras não receberam, prevendo-se que receberiam depois. Só que algumas ficaram a meio do tempo das “vacas gordas” e as que entraram no fim não recebem nada ou quase nada.

Agora é fácil usar toda a demagogia. Compreende-se, a custo, alguém, que sem informação nem responsabilidades, mande palpites. Mas um ministro, um matemático, um homem que há longos anos fala sobre educação, mesmo sem dados, já custa a acreditar que use uma linguagem que renega todos os valores e métodos que tantas vezes proclamou. E agora fica tudo parado, à espera até quando? Há que fazer cálculos

Há que analisar se os custos programados foram sobre um determinado universo ou se esse universo aumentou, isto é, por exemplo, se o orçamento inicial incidia sobre um determinado número de escolas e com quantos alunos ou se o número de escolas aumentou e o número de alunos por escola aumentou também.

Há que falar de questões concretas e vermos o que é que queremos e que país poderemos ter. Emendar os erros e resolvê-los o mais depressa possível, porque o país não pode esperar e parar sem sentido algum.

Nota: sou um cidadão como outro qualquer. Nada tenho a ver com o anterior governo nem com este. Sou apenas um contribuinte sem alguma relação com empresas envolvidas.