terça-feira, 30 de março de 2010

Procissão do Senhor dos Passos, em Mértola






Procissão do Senhor dos Passos, em Mértola, domingo de Ramos.
Encontro entre o filho martirizado e a mãe. Encontros entre amigos e parentes.
Os pescadores levam o "pendão", com o SPQR, função que passa há muito de pais para filhos.
Ironia do destino: o percurso termina na antiga mesquita, onde, para além de um espaço completamente diferente de uma igreja, ainda se encontra o mirhab, o nicho para onde se orava em direcção a Meca.

Festival do Peixe do Rio, Pomarão. Jornadas Ambientais

http://www.alsud.pt/pt/AnexosNoticias/PROGRAMA.pdf

segunda-feira, 29 de março de 2010

A Primavera em S. Barão

S. Barão era um eremita, que vivia numa lapa de um monte perto de Mértola. O nome vem do latim, vir, viris, homem. Segundo a lenda ajudava os homens casados a tornarem-se pais.
A partir deste monte, onde vivia S. Barão, sente-se a fertilidade da terra, no esplendor do despertar da Primavera.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Reflexões sobre o ensino secundário (cursos científico-humanísticos)- 2

  O curriculum é hoje mais diversificado. E é bom que o seja. Mas só na aparência é que os alunos escolhem. Volto outra vez ao exemplo do Latim, disciplina que é estudada em países com línguas germânicas ou outras, mas que por cá é desprezada. Acrescento o exemplo de Évora, cidade que teve outrora grandes latinistas: não se estuda Latim em Évora no ensino secundário, embora existam três escolas secundárias. A disciplina de Literatura Portuguesa é opcional e só alguns a escolhem ou têm direito a escolher. Os alunos do agrupamento de Ciências Sócio-Económicas raramente têm História, porque têm que escolher entre História B e Geografia. No curso de Línguas e Humanidades podem ter que escolher entre Literatura Portuguesa, Latim ou Geografia. No 12º ano raros são já os que têm Física ou Química ou Filosofia e mais raros ainda os que podem ter Ciência Política ou Antropologia Cultural. Qualquer dia quase ninguém percebe a necessidade, porque as gerações se foram resignando e desabituando. Apesar de haver aqui três escolas secundárias, o que acontece é que em cada uma não existem inscrições suficientes e, por isso vão sendo convidados a “escolher” outras disciplinas. Pior ainda em escolas onde há menos alunos, como são muitas por esse país fora.

   Ora o problema resolver-se-ia se houvesse uma rede a sério, em que os alunos tivessem direito efectivo de escolher, independentemente de haver ou não outros com a mesma escolha. Pelo menos uma escola em cada distrito ou em determinada área, deveria ter todas as disciplinas do curriculum, ou seja umas escolas teriam umas disciplinas, outras teriam outras, mas com a garantia que nessa área existiriam todas, independentemente do número de inscrições. Se numa escola houvesse três inscrições, noutra duas e noutra quatro, funcionaria, pelo menos numa, essa disciplina. É um direito que não deveria ser sonegado por motivos administrativos ou corporativos. Se fosse necessário (e é), o Estado deveria assegurar transportes gratuitos ou residências de estudantes em condições (e não acabar com elas). Até ficaria mais barato, porque caro é os alunos serem obrigados a escolher áreas ou disciplinas que não querem e depois reprovarem. E sublinho, é um direito, para mais agora que o 12º ano passa a ser obrigatório.

Reflexões sobre o ensino secundário- 1


   O ensino secundário em Portugal já é um pouco diversificado. Actualmente existem os cursos científico-humanísticos, os cursos tecnológicos e os cursos profissionais. Os cursos tecnológicos estão em fase de extinção e os profissionais em expansão, sobretudo nas escolas secundárias, onde há uns anos não existiam. 
    Falemos dos cursos científico-humanísticos, aqueles que mais directamente visam o prosseguimento de estudos. Antes de analisar o curriculum, o problema deveria ser visto a jusante e a montante.
    Um dos factos é que os alunos, em média, vêm com muitas lacunas do 3º ciclo. Não cabe aqui atribuir culpas, até porque isso não leva a nada, mas se compararmos o que os programas do ensino secundário exigem, à partida, com os conhecimentos e competências que a média dos alunos apresentam, existe um grande desfasamento, visível nos dados estatísticos relativos às reprovações e desistências no 10º ano, embora tenham diminuído, mercê também de grande pressão sobre os professores e as escolas. Haveria que avaliar a sério se os alunos têm ou não os pré-requisitos essenciais para entrarem no décimo ano destes cursos. Há soluções, desde exames a entrevistas estruturadas com profissionais dos serviços de Psicologia e Educação. E dar oportunidades: entra neste sistema se está em condições, se não está deve ter apoios suficientes da escola para poder entrar em condições para estes cursos. Entrar só porque se quer ter um diploma é que não tem sentido nenhum.
   A jusante o problema é com as universidades que se têm demitido sistematicamente. As universidades não deveriam sequer poder queixar-se que os alunos não têm conhecimentos e competências quando entram. Deveriam escolhê-los e, aí, teriam obrigação de fazer o máximo possível. Seria estranho (parece que em Portugal não é) reprovarem a maioria logo no 1º ano, se os escolhessem. Não é para isso que pagam os contribuintes. Não se trata de elitismo (e em certo sentido é): as pessoas têm que aprender e ser bons profissionais, os diplomas têm que ter credibilidade ou então não servem para nada. Se o ensino superior não confiasse/desconfiasse nos exames do ensino secundário, talvez o ensino secundário fosse melhor e os alunos, pais e as escolas teriam outras estratégias. Por exemplo, se num curso de Português uma faculdade exigisse que os alunos tivessem conhecimentos de Latim e Literatura Portuguesa (que quase não se estudam), haveria alunos candidatos que escolheriam essas disciplinas. Como não me parece razoável que faculdades de engenharia aceitem alunos sem bases de Física ou Química, para além da Matemática ou que a futuros professores de 1º ciclo não seja exigida a Matemática.

domingo, 7 de março de 2010

Património degradado em Évora


Ruas da Moeda e de Alcoutim, em pleno Centro Histórico de Évora, Património Mundial. Algumas destas casas estão abandonadas há dezenas de anos. Na rua da Moeda, a casa ainda tem portais góticos, provavelmente do século XV; numa delas existia a “mezuzah”, uma ranhura onde os judeus punham um fragmento da Tora, para proteger a habitação. Vê-se que foi também uma adega, pois ainda lá está uma talha de boas dimensões. Na outra, já na rua de Alcoutim, pegada com a primeira, há uns anos vivia por lá uma pessoa que “alugava” quartos a raparigas e outros que não tinham para onde ir. Não tinha água nem electricidade e as pessoas iam buscar água a um fontanário no Largo dos Mercadores. A outra casa na rua de Alcoutim era, há dez anos ou mais, um restaurante. O tribunal ordenou o despejo e, de vez em quando, a porta, ou o que resta, é arrombada e serve frequentemente a um ou outro sem-abrigo ou consumidores de drogas.
A solução que a Câmara Municipal tem usado é emparedar as portas e, agora, fechar a rua.
Como se ninguém tivesse responsabilidades definidas: o proprietário, a Câmara Municipal, o IGESPAR.
Por vezes estes prédios têm dezenas de proprietários que não se entendem. Mas nós não temos culpa disso. A Câmara Municipal tem instrumentos suficientes para compelir a fazer obras ou tomar posse administrativa. No final pode apresenta a factura.
O que não se justifica é este perigo público e este miserável estado sanitário. Explico melhor: estes prédios podem ruir, como os quarteirões antigos funcionam em conjunto, os prédios vizinhos são também afectados, os ratos acumulam-se, os pombos também, com doenças associadas. E a defesa do Património, emblema de Évora, até o Turismo, essencial para a economia, o que é deles?

segunda-feira, 1 de março de 2010

Uma perspectiva pessoal sobre a Madeira


Tive a feliz oportunidade de conhecer a Madeira, pela primeira vez em 1974. Foi na viagem de finalistas do 7º ano do liceu em 1974, pouco antes do 25 de Abril. Não era fácil ir lá nessa altura, num país extremamente pobre como o nosso. A Madeira era contraditória. Pela primeira vez fui a uma discoteca, coisa que não havia em Évora, nem na maior parte do país, fui levado a sítios numa perspectiva de turista. Mas vi também uma pobreza muito grande, sobretudo em Câmara de Lobos. Há poucos anos, numa viagem organizada por amigos da Madeira, apercebi-me melhor, no terreno, das dificuldades imensas dos camponeses que iam até às vilas e ao Funchal, a pé, carregando às costas, descendo e depois subindo por caminhos íngremes, a pé, porque em muitos nem um burro passava, ou nem sequer tinham um animal de carga para levar as coisas que vendiam no mercado, em troca de pouco para o dia a dia. As comunicações eram feitas por essas encostas e depois pelo mar, as estradas que havia eram estreitas e perigosas. Ainda por cima esses camponeses tinham que pagar colonia, uma prestação feudal, semelhante ou pior que os foros que se pagavam no continente, abolidos depois do 25 de Abril. A vida destas famílias tinha muitas semelhanças com a exploração colonial.
Os madeirenses não eram (ainda não são) muito politizados, mas são activos. Emigraram (e ainda emigram, como grande parte do país) para a África do Sul, Venezuela, ilhas inglesas…, como antes foram para os colonatos de Angola. A sua persistência e habilidade são conhecidas, desde a antiga especialidade em fazerem levadas, que levou até a que Afonso de Albuquerque pensasse neles para desviar o curso do Nilo a fim de secar o Egipto, até aos empresários e especuladores conhecidos ou aos inúmeros pequenos comerciantes e industriais em países de emigração.
Alberto João Jardim percebeu esta gente e usou de todas as tácticas que aprendeu durante a guerra colonial, fazendo guerrilha e contra-guerrilha palavrosas, em nome de um desenvolvimento, com um discurso contra o Estado, contra elites, promovendo um estado clientelar em aliança com a Igreja, paternalista, pragmaticamente repressivo. Tornou-se um líder carismático, populista e creio que até é sincero nas suas convicções, embora o seu discurso seja contraditório e tenha forjado novos clientes do Estado. Mas não se preocupa com incoerências, porque a guerrilha permanente é o essencial para obter mais. Muitos acreditam nele, até porque o vêem no terreno, bebem uns copos, nas festas, no Carnaval. Ele está e outros não, por motivos vários, e os outros são outros em quem não se confia, tal como os camponeses não confiam em quem está distante e não é da terra. Alguém que andou descalço, emigrou para a Venezuela, chegou e viu uma festa com um líder a beber uns copos, com charutos e abraços e umas alarvidades, acredita no discurso da Joana Amaral Dias, que continua com ar de "menina fina", de Lisboa? É mais fácil acreditar naquele que fez umas estradas, promoveu umas festas à chegada daqueles que lutaram uma vida inteira. Quer tenha ou não razão. Certas elites portuguesas não compreendem isto, à direita ou à esquerda. Ou cedem cobardemente ou dão lições a quem não os ouve e na hora imprópria como hoje. As pessoas que estão desesperadas não estão para ouvir discursos de culpas. Elas ouvem quem está no terreno e faz alguma coisa, mesmo mal feita.
Felizmente há um sentimento nacional de solidariedade. E é isso que interessa neste momento. Esperemos, e tenho dúvidas, que a reconstrução não privilegie os lugares de turismo imediato e que seja feita uma avaliação dos erros para que não se cometam os mesmos depois, até porque a Madeira não é apenas um problema dos madeirenses. Mas tem que começar pelos madeirenses, e eles têm capacidade de reconstruir.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Escutas em restaurantes


Confesso que não me informei devidamente sobre a matéria e que pouco me interessa o que classifico à partida, salvo melhor informação, como baixa política.
Não gosto da política deste primeiro-ministro, nem simpatizo pessoalmente com ele, nem sequer gosto das técnicas do discurso usadas, mais parecidas com as de um vendedor em que falta autenticidade. Socorro-me, a propósito, de um exemplo de homem da política para explicar melhor:
Churchill era conservador, arrogante, colonialista, coisas de que não gosto, mas soube fazer frente ao nazismo não hesitando em fazer alianças com regimes que até tinha combatido. Tinha convicções e soube escolher. Mas não era nada inocente. Hoje nem na Inglaterra nem na maior parte do mundo ocidental seria escolhido, porque tinha defeitos que actualmente não são tolerados: fumava insistentemente charutos caros, comia e bebia demais e certamente diria algumas asneiras durante os almoços. Aí apraz-me ver que se apresentava como humano.
Vem isto a propósito de um escândalo que anda por aí porque o primeiro-ministro num almoço com amigos disse umas coisas e um jornalista ouviu, escreveu uma crónica que não foi publicada, mas foi publicada, e mais o diz que disse, mais a vitimização e etc. etc. Para já, acho que há alguma falta de pudor até em ir para um restaurante ouvir as conversas dos outros. Eu, por mim, quando vou a um restaurante ou a uma tasca, esqueço-me momentaneamente da conta que irei pagar e quero é gozar o que como e bebo e as conversas com os amigos e, se calhar, digo e oiço também algumas alarvidades, com algum respeito pelos que estão à volta, mas sem pensar nas virgens impolutas que não podem, pelo menos nestes lugares, ouvir palavras menos sacrossantas, com os seus ouvidos atentos. Como ao telefone com amigos, se me apetecer também falo mal dos juízes, dos polícias, dos padres, das freiras, dos parvos e até dos amigos. Certamente há coisas que digo em privado mas que não escreverei nem direi em lugares oficiais. Faz parte da liberdade pessoal e ninguém tem nada a ver com isso, nem um sistema judicial que se deve reportar às suas funções e ser eficaz, que é para isso que os cidadãos pagam impostos, e não deixar escapadelas fora do contexto.
Num país que durante 48 anos se aguentou com bufos e pides, aldrabões de vária ordem armados em puritanos, que deixaram este país na maior miséria da Europa até 74, custa-me a sobrevalorização das escutas, as fugas parciais e a conta-gotas em momentos estrategicamente determinados por poderes que não dão a cara.
As coisas têm que ser provadas com factos, com uma justiça célere, em que o objectivo seja a preservação do bem público e não a coscuvilhice que deixa marcas e suspeitas. Que o primeiro-ministro, o presidente da República, o arcebispo, o juiz ou outro qualquer arrotem, pouco me incomoda, desde que não cheire demasiado. O que me preocupa é a política que fazem, excepto a do arcebispo que deve é cuidar de outras coisas num Estado laico ou o juiz que faça Justiça.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Misticismos e mitos fundadores nas Astúrias


O reino das Astúrias foi o primeiro reino da chamada reconquista cristão face ao poder islâmico. Entraram facilmente os muçulmanos em 711 na Península (a Hispania ou as Espanhas) e até com apoios locais ou pelo menos com a aquiescência de muitos povos que preferiram o poder dos novos senhores menos opressivos que os descendentes dos visigodos em guerras civis constantes. Afinal, estes novos senhores nem sequer eram assim tão estranhos pois quando aqui chegaram eram herdeiros e continuadores das culturas e civilizações do Mediterrâneo, de vastos territórios do Império Romano, cristianizados antes, como a Síria (recordemos o grande impulsionador do cristianismo, S. Paulo que se converteu na estrada de Damasco), Palestina, Egipto e restante Norte de África, por sua vez herdeiros da cultura helenística e de outras mais antigas que se foram mesclando. Linguagens e saberes, formas de estar comuns à maioria da Península, com algumas excepções como as montanhas do Norte, onde até hoje resistiram línguas milenares como o basco. Erroneamente chamam-lhes árabes, tomando a parte pelo todo, pois que muitos eram de outras partes do novo império, sírios por exemplo ou mouros berberes do Magrebe, muitos recentemente convertidos, passando directamente do cristianismo (monofisita em particular) para o islamismo.

   A civilização islâmica era essencialmente de cariz urbano e comercial, com uma agricultura e artesanato inovadores direccionados essencialmente para o mercado. Por isso, a esses novos senhores interessavam sobretudo as cidades do Sul, os terrenos agrícolas onde antes havia villae romanas ou alguns territórios produtivos do Norte como a antiga Galaecia romana, que incluía parte de Portugal. Tal como os romanos foram deixando os montanheses mais ou menos auto governados, até porque estes montanheses sóbrios eram guerrilheiros que davam trabalho a submeter.

   É neste contexto que se forma o primeiro reino asturiano que ao longo de séculos vai dar origem aos reinos de Leão, Castela, Portugal… que vão reivindicar a memória visigótica e o cristianismo, erguendo a Cruz (in hoc signo vinces) e o apóstolo Santiago, que se há-de transformar em Mata Mouros.
O pai, o rei fundador, é Pelágio das Astúrias, de onde descendem os monarcas destes reinos, entre os quais o nosso, embora o primeiro rei de Portugal seja filho de um francês ou melhor dizendo de um borgonhês, que Borgonha foi uma potência até ao início do Renascimento.
Pelágio venceu os muçulmanos na batalha de Covadonga e fez de Cangas de Ónis a capital do reino rebelde. Quem foi, não se sabe bem. É possível que primeiro tenha sido vassalo do poder islâmico e que se tenha revoltado em 722. Como vassalos do Califado de Córdova foram posteriormente alguns reis e senhores cristãos, embora nem sempre obedientes. Alianças e desavenças eram constantes. Recorde-se por exemplo, séculos mais tarde, D. Afonso Henriques ao tentar conquistar Badalhouce (Badajoz) teve que fugir, mas foi preso e partiu uma perna, porque o seu primo, tão cristão como ele, Fernando de Leão, veio em auxílio dos muçulmanos de Badajoz, ou o mítico Giraldo que conquistou Évora mas se passou para o lado dos muçulmanos, tendo sido morto em Marrocos.



E é a partir do Reino das Astúrias que se inicia a "Reconquista"cristã. Curiosamente uma das regiões menos cristianizadas na época, onde conviviam práticas cristãs (e Roma ou Constantinopla ficavam muito longe) e Toledo era domínio muçulmano), com práticas pagãs de religiões ancestrais.
Covadonga é um lugar místico. Inserida numa área de altas montanhas que descem abruptamente até ao mar é nela que aparece uma Nossa Senhora, como antes já tinha aparecido uma deusa, numa gruta de onde jorra água. Grutas e fontes são sempre símbolos femininos e estão sempre associadas a divindades femininas, desde a Deusa Mãe, que tantas vezes mudou de religião. Acrescentem-se outros elementos misterioso e telúricos como as montanhas, a neve e o nevoeiro que levam os homens a sentir a sua pequenez, o fraco, transitório e fugaz poder e temos todo um ambiente mágico e perturbador, que nos leva ao confronto connosco e com a Natureza e ao prazer dionisíaco da nossa matriz selvagem (de silvis, oposto à civilização) e pagã.
O mito popular tornou-se mito fundador e legitimador dos novos reinos. É constantemente reinterpretado e usado, novamente a partir do século XIX pelo nacionalismo espanhol (contra a fragmentação perturbadora de outros nacionalismos primeiro românticos e depois eficazes, como o catalão ou o basco) e pelo catolicismo ultramontano, contra as correntes ateístas e agnósticas ou reformadoras da nova sociedade industrial, exacerbadas pelo franquismo que venceu a luta entre a “Espanha Vermelha” contra a “Espanha Negra”.
Hoje o turismo e a modernidade reabsorvem todas estas contradições que são aliás inerentes aos mitos. E as montanhas restituem-nos esse ideal de pureza ainda não conspurcada.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Crónica biscainha, ou impressões do País Basco


  (esta já é na Cantábria)
Estive há dias em Bilbau. Ideias anteriores havia muitas. Queria ver o Museu Guggenheim e pouco mais. Imaginava uma cidade rica, mas um pouco escura, fruto da Revolução Industrial, coisa rara na Península Ibérica. Do País Basco já tinha algumas imagens visuais, uma antiga, em que ao passar por lá em Setembro, nos anos setenta ainda, por estradas entre montanhas, verdes sempre, porque sempre chovia, depois de atravessar uma Espanha semidesértica, S. Sebastian foi em tempos uma revelação: montanhas, mar e rio, numa cidade viva.  Hei-de lá voltar um dia, embora tenha passado ao lado várias vezes. Outras vezes também atravessei na auto-estrada e vi cidades mal construídas à beira da estrada, com chaminés fumegantes. Há dois anos até, entrei num bar, perto de Donostia (S. Sebastian) e, sinceramente, fiquei mal impressionado: cheiro a fritos, um barulho impressionante para quem chega de França, papéis e beatas no chão, dois polícias bascos com ar ostensivo, com pistolas bem à vista.
   As impressões são míticas e ideológicas e contraditórias. Há muito que simpatizo com os ideais de resistência de muitos bascos, a sua persistência na manutenção da identidade, embora muito dessa identidade tenha sido reconstruída a partir do século XIX, mais ainda que a catalã. Impressiona-me ainda a resistência basca durante a Guerra Civil, a luta contra um dos piores fascismos da Europa (o franquismo massacrou muito mais gente que o fascismo italiano e durou muito mais tempo; décadas, uma vergonha para a democracia). Até os padres bascos foram fuzilados em massa, crime perpetrado por um regime que se proclamava católico, mas que não hesitava em usar tropas mouras para chacinar espanhóis, apesar de usar uma ideologia de cruzada contra os mouros em nome da fé católica.
Hoje continua a ETA que força a identificação do País Basco com a sua actividade. Esta organização mudou ao longo dos tempos e hoje está longe do que em tempos foi, assumindo práticas bombistas até contra incautos e inocentes e práticas até xenófobas.
   Mas deixemos isso. Gostei de Bilbau! Gostei do atrevimento arquitectónico do museu Guggenheim e de outros edifícios e espaços modernos, também uma mostra de um nacionalismo e cosmopolitismo basco que não precisa do poder central.
   E gostei do movimento das ruas de Bilbau, tanto da novíssima Bilbau, como da Bilbau do século XIX em diante, como do “casco” velho que continua vivo e vivido. Em poucas horas experimentei a simpatia dos bascos, em pequenos episódios. Vinha eu de Santander (Cantábria) quando um camião soltou uma pedra para o vidro do pára-brisas. Fiquei preocupado, porque existe a possibilidade das estrias irem alargando. Por um engano qualquer, daqueles que acontecem aos viajantes, fui parar a uma zona industrial. Parei numa oficina e o empregado ou patrão imediatamente me indicou outra oficina onde reparavam vidros com uma resina própria; fui a essa e também um empregado simpático disse-me que não havia problemas e entretanto deu-me outras indicações sobre Bilbau. Mais tarde, depois do Guggenheim e cidade nova fui à cidade antiga, visitei várias coisas entre as quais a catedral e Plaza Mayor, vi uma manifestação com frases em basco que evidentemente não percebi (mas pareceu-me que era sobre presos), um início de desfile de Carnaval, uma tapas que provei e, pensei comprar uma “mítica” boina basca (que afinal não é como as boinas militares). Dirigi-me a uns senhores dos seus setenta e perguntei-lhes onde poderia encontrar. Tinham algumas dúvidas sobre o local mais indicado, discutiram entre dúvidas, explicaram-me que havia vários tipos e lá me deram indicações. Não encontrei logo a loja mas, entretanto vi outro senhor à entrada de uma loja de roupas (percebi que a mulher estava lá dentro e ele um pouco enfastiado. Acompanhou-me durante um quarteirão até mostrar onde havia e, de acordo com as informações dos outros e dele, lá comprei uma boina “Tchapela Elósegui”.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Fotografia de 1933/44


   Encontrei esta fotografia no Facebook, na página dos Antigos Alunos do Liceu de Évora. É interessante ver a evolução destas fotografias. São quase sempre no claustro, onde hoje é a Universidade e onde foi a antiga Universidade dos Jesuítas, na escadaria, tendo como fundo a Sala dos Actos e as colunas. Em muitas delas aparece o Reitor, professores, um ou dois funcionários, entre os quais o senhor Francisco, chefe dos contínuos, o homem que tocava a sineta para o início e fim das aulas, sempre solícito e prestável, encarregado de educação de muitos estudantes deste Alentejo. As fotografias são formais, mas a formalidade evolui com o tempo. Em tempos mais antigos, os rapazes tinham que andar de capa e batina, as raparigas com vestuário discreto. Mais tarde as raparigas usam bata e os rapazes vão ficando com o vestuário quotidiano. Tudo evolui, do vestuário ao penteado, até à pose menos formal, com a banalização da fotografia, já nos finais do regime.
   Esta fotografia é de 1933/34. Ano terrível da História da Europa, com a ascensão do nazismo, com a implantação do Estado Novo em Portugal, formalizado por uma constituição corporativista, o Estatuto do Trabalho Nacional, com a fascização dos sindicatos, o Acto Colonial, com a “missão civilizadora”, que dividia as gentes das colónias em portugueses, assimilados e indígenas …
O Liceu de Évora, ainda chamado Liceu Central André de Gouveia, era o único do distrito, mas atraía alunos de outros, de concelhos de Portalegre ou de Beja. Poucos! O ensino era ainda elitista, a maior parte não estudava ainda. Recorde-se que por essa altura havia mais de 50% de analfabetos, quanto mais alunos nos liceus. Neste edifício funcionava no claustro do rés-do-chão, o Liceu, no segundo andar a Escola Técnica, evolução a partir da Casa Pia, que se situava num segundo claustro e ainda existiam outros serviços, como o Arquivo Distrital. Assim se resumia o ensino secundário oficial no distrito! Para diferenciar, os alunos do Liceu eram obrigados a andar de capa e batina.
   Esta fotografia emocionou-me porque está ali o meu pai, o primeiro do lado esquerdo, por baixo da coluna. E está ali, porque havia uma família solidária, de outro modo não teria estudado. Um tio e duas tias, irmãs da minha avó, moravam em Évora, onde tinham uma loja de fazendas na Praça do Giraldo. Protegeram os sobrinhos, sobretudo sobrinhas que foram estudando em Évora, alugaram quartos a parentes que também foram estudar. Uma das tias achou que o meu pai também merecia e foi assim que veio para esta cidade.
   Na fotografia está também um antigo ministro da Justiça e professor de Direito, Antunes Varela, natural do Ervedal. Foi colega do meu pai desde a escola primária. Outra história que relembra  também a solidariedade familiar. Os meus avós viviam no Cano, concelho de Sousel. Havia algumas dificuldades em os alunos da escola primária fazerem a 4ª classe. O ensino obrigatório, e não era obrigatório para todos, ia até à 3ª classe. Segundo consta, o professor primário do Cano estava zangado com o de Sousel, onde os alunos do concelho fariam exame da 4ª classe. Uma tia, desta vez, do lado paterno, casada mas sem filhos, levou o meu pai para a escola primária do Ervedal.  Era a mais velha dos irmãos e já tinha ajudado alguns deles a obter uma profissão (ao que parece o meu bisavô era bem disposto, mas não demasiado preocupado).
   E foi assim que o meu pai veio parar a esta fotografia.

domingo, 24 de janeiro de 2010

O rio e os homens


Em 2007 foi publicado este livro pela Câmara Municipal de Mértola, fruto de um trabalho que fiz até 2000.
Como já existem poucos exemplares, resolvi colocá-lo também aqui. O pdf não é de grande qualidade e foi o último que me mandaram antes da revisão final, com algumas gralhas. Por isso também as imagens (no final) têm uma qualidade menos boa.
Quem quiser ler ou fazer um download, basta carregar em:
http://www.scribd.com/doc/25722704/O-rio-e-os-homens-a-comunidade-ribeirinha-de-Mertola