sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A profanação dos corpos

[Aquiles] arrastava o cadáver de Heitor, que amarrara atrás do carro.
E depois que o arrastara três vezes em torno do túmulo
Do falecido filho de Menécio, de novo se deitava na tenda.
Mas deixava Heitor estendido, de cara para baixo na poeira.
Porém Apolo afastava da carne todo o aviltamento, com pena
De Heitor, até na morte. Cobriu-lhe o corpo todo com a égide
Dourada, para que Aquiles lhe não dilacerasse a carne ao arrastá-lo.
[Apolo referindo-se a Aquiles] Só que nada obterá de mais belo nem de mais proveitoso.
Que contra ele não nos encolerizemos, nobre embora seja!
Pois ele avilta na sua fúria terra que nada sente.

Ilíada, canto XXIV, tradução direta do grego e em verso feita por Frederico Lourenço.

Aquiles, filho de uma deusa e de um homem,  mata Heitor em combate, porque este tinha morto também em combate, o seu amado e viril amigo Pátrocolo. Não satisfeito, profana o corpo, arrastando-o sucessivamente pela terra. Não só Apolo, o “sol invictus”, deus da Razão, não aceita tal procedimento, como Zeus ordena que o corpo seja entregue ao pai de Heitor, para que a família faça as cerimónias fúnebres. Intervêm também a deusa Tétis, mãe de Aquiles furibundo, que sai das profundezas de uma gruta marítima, fala com o filho e com o venerando ancião, Príamo, pai de Heitor, que vai ter com Aquiles, guiado por outro deus, Hermes. Aquiles por fim acede, entrega o corpo e convida Príamo para uma refeição. Interrompe-se a guerra por doze dias!

Este é um dos episódios marcantes da Ilíada, obra-prima da cultura helénica e europeia, que reivindica ainda hoje a cultura clássica.
Aquiles é o herói sobre-humano, mas não o seria se continuasse a aviltar o corpo de quem combateu e matou, não o entregando a um velho e corajoso pai.

Será que ainda somos herdeiros desta matriz europeia?

Boa Fé, concelho de Évora






sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A "coragem" de nos ir à algibeira

O descaramento, se não fosse o descaramento de nos levar quase tudo, seria ridículo, mas ainda pasmo com esta revolução semântica (ou antes reação, golpe de estado até). Como é possível dizer que um primeiro-ministro, que retira quase tudo e a toda a hora, tem coragem, quando tem a polícia e todo o aparelho de estado para fazer a espoliação? Ainda admito que um bandido isolado tenha coragem ao roubar um banco, porque se expõe e arrisca. Mas este o que arrisca? Tem quem multe os que reagem, tem prisões e cassetetes à disposição, tem propagandistas e publicitários, formigas no carreiro a aplaudirem-no, subservientes quanto baste e aumente, gente disposta a dar uma facadinha para subir mais um degrau, na longa tradição dos familiares do Santo Ofício, "moscas", "bufos", parentes e outros "amigos inocentes" e "enganados", dos que só repetem aquilo que ouviram mas não se comprometem, consegue até que as vítimas se culpabilizem pelo que ele e outros amigos fizeram, têm feito e aprovado.

Não é demais recordar que alguns dos grandes buracos foram feitos por gente do PSD, alguns ministros ou secretários de estado, presidente de um governo regional, presidentes de câmara, gente que passa depressa do governo para empresas que tinham e têm interesses favorecidos pelos primeiros. Recordemos só, e não é pouco, o caso BPN da nossa desgraça, o despesismo e irresponsabilidade na Madeira ao serviço de um grupo que tem enriquecido, o “autarca-modelo” de Oeiras, o outro autarca do futebol que distribui eletrodomésticos e continua enriquecendo, pelo menos desde que andou em grupos armados de extrema-direita, fora as suspeitas atividades anteriores na Guiné, etc. etc. São muitos e demasiados e ainda acumulam reformas, das grandes.
A diferença entre as promessas da campanha eleitoral e o que se faz agora nunca foi tão grande como agora. É mais do que aldrabice. Desconheço na história de Portugal uma mentira comparável, dada a imensidade. E temos tradição de conselheiros Acácios, de ministros do “Ballet Rose”, de almirantes do monopólio do bacalhau (há quem se lembre ainda) …
Desculpam-se com outros e eu não desculpo esses … alguns destes e desses têm mudado tanto, têm-se promiscuído tanto que a diferença pode ser nula.

Este governo já está no poder há meses e todos os meses tem havido mais medidas gravosas com os mesmos sempre a pagar. De surpresa em surpresa vão-nos tirando tudo, mas não a todos.
Mas recordemos ainda algumas coisas que não podem servir de desculpa como se faz agora, como se fossem virgens pré-Soror Mariana do Alcoforado.
O governo anterior tinha maioria relativa. Quem viabilizou os orçamentos? Não foi o PSD? Foi. Mas eram incompetentes ou analfabetos? Se não eram uma coisa nem outra viabilizaram porque concordavam no essencial.
Quem viabilizou os PEC I, II e III?  Repete-se a pergunta e as afirmações.
Quem fez o acordo com o FMI, BCE, União Europeia. Não foi o PS, PSD e CDS/PP durante a vigência do anterior governo?

Mas numa coisa têm falado verdade. O que disseram, e é isso que querem, é a diminuição do Estado, das funções sociais do Estado, mas não da proteção do estado àqueles que este e outros governos servem, ultrapassando até as leis que fazem e as que vigoram (temos ou não um Estado de Direito, com uma Constituição, Código de Trabalho?,  etc.) e a glorificação do sacrossanto mercado, de que afinal são agentes, mesmo que os centros de decisão e recolha dos lucros sejam a boa distância deste país de que se proclamam tão patriotas. Mas isso, já Jorge de Sena, tão maltratado por quem aqui mandava, dizia: “A Pátria é o último refúgio dos canalhas”.

Querem-nos, estes e mais alguns lá de fora que mandam cá dentro, que não há alternativas. Há e houve sempre. Como dizia alguém: "De gente imprescindível estão os cemitérios cheios"

sábado, 8 de outubro de 2011

Os homens da “ação psicológica”

O poder dos instalados na Madeira tem resultado de grandes mistificações, que muitos, levados por estes constantes bombardeamentos de palavras gritadas em voz alta contra o "in", o inimigo, que tanto pode ser a Trilateral, a Maçonaria, os "cubanos", os socialistas, os comunistas, o Coelho, Guterres (nem lhe agradeceram o perdão da dívida), o Sr. Silva, por vezes, e tantos outros que até se abraçam tempos depois, acreditam que são verdades consolidadas, óbvias, que não precisam de ser questionadas.

Uma das mistificações é a de uma pretensa luta pela autonomia de Jardim.
 Ora, antes do 25 de Abril, quando não havia liberdades, mas prisões, guerras coloniais, miséria e subdesenvolvimento que levaram a emigrações, autêntico êxodo rural, por onde andava ele e outros? Enquanto havia gente que arriscava, a defender ideias, refastelava-se na pândega, a tirar um curso que levou uma década, despesas pagas pelo Estado e certamente pela família. Defendia o Estado Novo, Salazar, Marcelo Caetano, fazendo propaganda de Deus, Pátria e Família, daquele Deus indiscutível que o ultramontanismo impôs, a Pátria inquestionável, única, sem autonomias nem descentralização, do Minho a Timor, a família do chefe obediente ao Estado, pobrezinho mas honrado, pequeno tirano em casa, mulher menorizada e filhos sem voz. Na tropa foi para a Ação Psicológica. Esta era um serviço que, visto que só a pancadaria não resultava para reprimir os movimentos anticoloniais, onde se tentava, já não só com o pau mas com a cenoura, levar as populações africanas baralhadas com chorrilhos de meias verdades e mentiras, pequenas benesses (um rádio a pilhas, um emprego de mercenário mal pago ...) dadas a denunciantes de familiares e amigos. Respeito pela lei era também coisa que não existia, nem mesmo pelas leis de um país com a mais longa ditadura da Europa Ocidental.
Ora, quem decidiu que a Madeira e os Açores tivessem autonomia foi a Assembleia Constituinte, numa época de maioria de esquerda, numa Constituição, que propunha a construção de uma sociedade socialista (ainda lá continua escrito no preâmbulo). A Assembleia da República continuou o aprofundamento da autonomia. Não foram meia dúzia de indivíduos, sem qualquer apoio popular, que instrumentalizaram uma pretensa independência de arruaça, pronta a entregar-se como protetorado a outra potência.
Mas falando em autonomia, o governo da Região Autónoma retirou a autonomia às autarquias (municípios), sobretudo quando há uma rara oposição. Muita inauguração diz respeito a municípios, coisa que no continente não passaria pela cabeça de muitos autarca e populações (inaugurar uma obra da câmara como se fosse do governo).
Mais. Este governo regional tudo tem feito para o desprestígio da autonomia. Ao esconder as contas, ao fazer festas e comezainas em grande, continuando a dizer que vai gastar mais o que não tem, leva ao caminho perigoso do descrédito da autonomia.

Outra mistificação é a das obras. Compara-se com o que era antes da autonomia, compara-se com o que era antes do 25 de abril. Dá para ver as diferenças. Apesar de tudo, a diferença é enorme. Mas é enorme em todo o país! Todo o país se renovou, se desenvolveu, não foi só a Madeira. Miséria havia em todo o país, hoje muito menos, apesar da grande diferença social e das assimetrias regionais.
O que admira não é haver obras, é não se ter feito mais pelo desenvolvimento da população da Madeira. Os impostos ficam lá, geridos pelo governo regional, as transferências do estado fazem-se (pagas por quem paga impostos), os subsídios da União Europeia também (mas repare-se que Portugal também contribui para a União Europeia).
Depois há coisas muito esquisitas numa região que se inclui num Estado de Direito. As incompatibilidades: como é possível que governantes sejam também acionistas de empresas que fazem obras? E quando alguém lhes responde à letra refugiam-se numa imunidade criada pelos próprios, não se coibindo de pôr outros em tribunal.

Relacionado com isto, o desenvolvimento. O rendimento per capita aumentou mas não para os cidadãos. Ilusão para a população. O aumento do rendimento tem sido feito com o off shore, que prejudica todo o país, pela diminuição de impostos, mas sem quase gerar empregos na região. O rendimento está concentrado em empresas de escritório ou caixa postal ou nos que ganham as benesses da proximidade do poder. Que o digam as vítimas do temporal, já antes pobres e depois despejados por ribeiras encanadas, ainda à espera de transferências já feitas pelo governo da República e por particulares.

Diz-se ainda que libertou os camponeses da colonia, uma contribuição medieval que permitia que alguns senhores vivessem do rendimento dos camponeses pobres. Também no continente havia os foros. Tudo isso foi extinto no Portugal pós-25 de Abril. A Constituição, com o regime democrático, acabou com esses resquícios de feudalismo. Infelizmente há quem se gabe disso, só para manter as pessoas na dependência, na subserviência.

E só para terminar a mistificação mais propagandeada, que alguns, à força de ouvir deixam que se imponha como a mentira que repetida se torna verdade. A oposição Continente/Madeira. Os cidadãos da Madeira são tão cidadãos de Portugal como qualquer outro e a Madeira não pode ser um couto só para alguns. Não é esta gente que defende os cidadãos da Madeira; defendem os seus interesses. É ridículo até, como pessoas que tanto defenderam o colonialismo, agora usem esse argumento, alguns que até decidiram para si privilégios quase coloniais, que nem os outros do continente nem a maioria dos madeirenses têm.

As dicotomias, o preto e branco, sempre foram os falsos argumentos que ditatorialmente alguns querem impor para seu  proveito. Entrar nisso é fazer o jogo deles. Nenhum minhoto precisa deles para viver na Madeira, nenhum madeirense precisa de autorização deles para viver no Alentejo, ir ou voltar quando lhe apetecer.

Mas se o problema fosse só uma pessoa ... ou será que quem tanto fala e gesticula é apenas o rosto de um grupo restrito? Quem é que manda afinal?

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Sobre literatura e história no ensino



Senhora partem tam tristes
Meus olhos por vós, meu bem,
Que nunca tam tristes vistes
Outros por ninguém.

Tam tristes, tam saudosos,
Tam doentes da partida,
Tam cansados, tam chorosos,
Da morte mais desejosos
Cem mil vezes que da vida.
 
Partem tam tristes os tristes,
Tam fora de esperar bem,
Que nunca tam tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém. 

Esta poesia de Joam Roiz de Castello Branco aparecia nas antologias de Português do antigo liceu, no correspondente hoje ao terceiro ciclo. Eu, tal como outros, sabíamo-la de cor, não por obrigação mas por gosto, tal como as “flores do verde pino”, de D. Dinis ou aquele começo do livro de Bernardim Ribeiro “menina e moça me levaram da casa da minha mãe para muito longe”, ou ainda aquelas expressões de Fernão Lopes como “novo mundo se levantou” e “desvairadas gentes”. Teríamos 13, 14 anos, outros mais, porque naquela altura reprovava muita gente, nas duas secções do liceu. No 5º ano, passávamos longas horas a dividir orações dos Lusíadas, uma tortura é certo, mas quem não se lembra ainda da primeira estrofe dos Lusíadas? É verdade também, que nesse regime, que não deixou saudades, os próprios Lusíadas eram alvo de censura, Eça de Queirós tolerado (mas não a Relíquia ou o Primo Basílio) e os autores contemporâneos estavam quase todos na lista negra.

Hoje optou-se por uma ideologia (porque não passa disso) mais pragmática, com a literatura em segundo plano ou a par da aprendizagem do preenchimento de requerimentos. Aumenta-se o número de horas a Português, sem objecto quase, como se não se aprendesse Português com a língua falada e escrita nas outras disciplinas, como História, por exemplo, em que é fundamental a análise a interpretação.
Mas este “pragmatismo”, esta pretensa preparação para a realidade só com o estudo do actual, só com o aumento do número de horas, a Português e Matemática sem o contexto de outras disciplinas (como se não se aprendesse também matemática, por exemplo, em Física e até nas Ciências Sociais), leva também à perda da cultura e da identidade, e não sei se se ganha mais com isso.

Pergunte-se a alguns alunos se sabem o que o país sofreu na primeira metade do século XIX, com as invasões francesas, guerras civis, Maria da Fonte incluída etc. ou as consequências da participação de Portugal na Grande Guerra e se Portugal recebeu ou não alguma indemnização por parte dos que agora lucram e são credores (refiro-me à Alemanha) ou quantas centenas de milhares de pessoas ficaram marcadas pelas guerras coloniais e emigração e provavelmente ele ficará admirado com as perguntas, como ficará admirado de que o Português seja uma das línguas modernas com uma literatura mais antiga na Europa.

Em tempos fiz as contas. Só a disciplina de História perdeu cerca de 100 horas no terceiro ciclo na maioria das escolas, com o mesmo programa, agora dado à pressa e com cada vez maiores simplificações. Como se preserva a memória e a identidade se não se dá a possibilidade, sobretudo aos que provêm de famílias que foram excluídas da escolarização, quando não se dão os instrumentos para enfrentar o mundo, isto é uma cultura que permita lidar com a globalização e a massificação determinada por outros?

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Ainda a avaliação de professores

À falta de melhor termo, confesso que o tema já me provoca tédio. Não é bem como aquele mau estar do Jacinto em Paris nem o tom das crónicas de Vasco Pulido Valente. Talvez seja aquela fartura do desgaste do ver baralhar de novo para ficarem algumas coisas na mesma e piores ainda.
Há uma cultura que teima em ressuscitar por trás de novas/velhas ideologias que se pretendem científicas. O que conta essencialmente é o tempo e cada vez mais o seguidismo. Não é para mim surpresa, mas tem-me impressionado o “masoquismo” em tantas escolas e com tantos professores a inventarem ainda mais grelhas e mais extensas do que as do próprio ministério. Alguns parecem aquele Tântalo da mitologia helénica que vivia cheio de sede num lago e que, cada vez que tentava beber a água, esta desaparecia para seu desespero continuado. Apesar da condenação, do destino, ainda tinha alguma esperança, mas nem o fado nem os deuses o deixavam libertar-se.
Fala-se tanto em mérito mas continua a esquecer-se o que as pessoas têm feito ao longo da profissão e não apenas no último ano. Uma ou duas aulas para relator ver podem ser mais importantes que um percurso, que um curriculum. Tanto faz que se tenha feito uma licenciatura em cinco anos e mais dois de profissionalização ou que se tenha estudado cinco com tudo incluído, ou ainda um curso médio promovido administrativamente a bacharelato, mais uns trabalhos para ficar com licenciatura. Tanto faz que se continue a estudar e a fazer investigação, novas experiências, como não. Tanto faz fazer cursos de pós-graduação, mestrados e doutoramentos (antes ou depois de Bolonha), aqui ou ali, como não. Tanto faz a pessoa inserir-se em projetos, que envolvem sempre riscos, como apenas fazer o mínimo sem dar nas vistas. O que vai contando é o tempo de serviço, a sorte ou o azar de ter feito a profissionalização, antes ou depois de outros, aqui ou ali.

Há quem fique contente com isto. Mas será que vale a pena esperar apenas que o tempo passe?

Outras crises

Capela do Senhor dos Passos em Campo Maior

Será que é assim que vamos ficar de cada vez que ouvimos o ministro das Finanças?

quarta-feira, 29 de junho de 2011

New York Times noticia Évora

Sabe-se que este é um dos jornais mais lidos no mundo e que influencia a opinião de muita gente. O jornalista, com um ar quase anónimo entrou, tomou notas, gostou e publicou sobre este casa na Rua de Serpa Pinto, antiga Rua de Alconchel (Alconxel):

The surrounding streets offer glimpses of local life, with lots of small cafes and taverns and more than a few unusual shops like Lojatelier 73 (Rua Serpa Pinta 73), a brand-new store selling updated local handicrafts including ceramics, as well as aprons, bags and totes that the shop owner Isabel Bilro designs herself. 

Notícia completa em:

http://travel.nytimes.com/2011/06/26/travel/from-lisbon-a-visit-to-evora-overnighter.html?pagewanted=1



Nota: Sempre dá algum gozo especial interessar-se mais o "New York Times", do que alguma imprensa e instituições locais!

terça-feira, 21 de junho de 2011

Um dia importante na democracia.

Estabeleceu-se há muito a independência dos poderes. Mas as tentativas de sobreposição são frequentes, mesmo na República, na res publica.

Os incidentes com Fernando Nobre foram um bom exemplo do que não se deve fazer ao menorizar o Parlamento e o voto daqueles que elegem os seus representantes ou que simplesmente votam, mesmo em branco, uma opção legítima quando se contesta um sistema emperrado.

Não ponho em causa a personalidade de Fernando Nobre nem o seu trabalho na AMI. Mas todo o seu discurso contra “os políticos”, num tom populista e com ares de salvador nunca me agradou. Os saltos ideológicos e estratégicos em tão pouco tempo, a arrogância de quem sabe mas não explica e os outros que o sigam, também não me serve. Não precisamos de “salvadores”, e os que assim se presumiam e exigiam que os outros assim os considerassem e se submetessem, deram mau resultado. 

Não gosto também daqueles que querem transformar as eleições para deputados num simples acto plebiscitário para escolha do primeiro-ministro. Frequentemente plebiscitos são a antecâmara das ditaduras, quando não as são já. Não chega dizer sim ou não, a preto e branco; é essência das democracias discutir as questões, numa pluralidade de opiniões e representações, e não apenas fazer uma cruz um dia. Trata-se de eleger deputados; o primeiro-ministro e o governo vêm depois.

Foi um mau exemplo escolher alguém com a promessa que seria presidente da Assembleia da República, mesmo antes das eleições, mesmo antes de os deputados eleitos poderem eleger o seu presidente. Foi uma tentativa arrogante de menorizar o parlamento, os deputados e quem os elege. Foi uma derrota vergonhosa e bem merecida para tantas ultrapassagens de regras básicas e da Ética da Democracia.

Hoje a Assembleia da República cumpriu a sua função e elegeu uma presidente que falou em Razão, Esperança, em Direitos, mesmo daqueles anónimos que têm dificuldade em exercê-los.

Fez um discurso político. É disso que precisamos. Foi aplaudida de pé por todos os deputados e jurou cumprir humildemente as suas funções.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Nuno Crato e o ministério

Começo pelo ministério, agora dois em um, como antes, há uns anos.
É complicado, e muito. Com muitos organismos, muita burocracia que se alimenta a si própria, muitas ideologias, que ultrapassam o sistema partidário.
O ministério é grande, grande demais. Centralista, mesmo quando se apregoa a autonomia. Com direcções regionais que aumentam ainda mais o excessivo tempo da burocracia de “Ancien Régime”. Basta ver quando sai uma lei nova, um decreto-lei, logo surgem inúmeras circulares, a explicar, ou mais frequentemente a desvirtuar o que foi decretado. E a partir do princípio, não explícito que os outros têm compreensão lenta, ou que são apenas súbditos. E se fosse só uma lei de vez em quando! Mas não, nem se avalia o que já foi feito e já aí vêm mais.
Um dos problemas é o da confiança. O ministério não tem confiança nos seus agentes, nem em ninguém. São mais importantes os formalismos, como nos exames, do que os conhecimentos e as aprendizagens dos alunos. Ao contrário do que se diz, parte-se do princípio que todos são culpados até provarem que não são. O problema não é só deste ministério, é comum a outros e à administração em geral.
Daí a papelada, daí a moderna papelada informática, em conjunto com a antiga. Daí que a autonomia das escolas (coisa diferente de um neo-feudalismo em acção e repressão) não seja levada à prática.
E os lobbies, os corporativismos, os grupos de pressão? Não se fala já das maçonarias, que existem, da Opus Dei, em crescimento, das ideologias de algumas ESEs e universidades, das “contra ideologias” de outras universidades, das “tias” ou “madrinhas” que vão infantilizando os alunos e os utentes das bibliotecas, que querem festas e avaliações mas que não se preocupam com aquilo com que se fazem os melões, a começar por uns míseros tostões entregues a quem sabe fazer coisas, com autonomia e sem subserviências.
Temos um novo governo que vai executar as decisões do FMI e dos poderes europeus, piores ainda. Um governo que pretende ir mais além do que os outros que agora mais mandam em nós. Um governo que pensa que tudo deve ser privatizado e que tem uma componente conservadora, para além dessa difusa ideologia neo-liberal, claramente interveniente, corporizada pelo PP de Paulo Portas e outros, a quem os meios de comunicação e instituições têm dado muito mais poder do que aquele que teriam pelos votos.
Agora é cortar nas despesas. Percebe-se, mas em quais? Corta-se no ensino público e vai-se aumentar nos privados que vivem à custa do estado, promovendo o ensino religioso ou ideologias conservadoras e elitistas?
Nuno Crato contestou muita coisa que se fez nestes últimos anos no Ministério da Educação.
Vamos ver. Vamos ver se aguenta tanta pressão. Vamos ver se passar das opiniões à acção muda alguma coisa que não está bem, sem destruir o que funciona melhor.
Ao contrário de outros, confio nas pessoas até ser provado que agiram mal.

terça-feira, 7 de junho de 2011

A fulanização e a ralé

Continuo a pensar que a participação e a discussão política são essenciais. Com argumentos, claro.

Não venho em defesa de alguém agora. Pouco me interessa a vida privada de Paulo Portas, de Sócrates (nem deste nem do original), de Passos Coelho, de qualquer com apelido Coelho, Cavaco, nomes sonantes ou da moda, franceses, americanos ou outros.

Ninguém pode ser crucificado por insinuações. Qualquer um tem direito ao bom nome, à vida privada e à imagem. Os problemas devem ser resolvidos no seu lugar; se há indícios de crime que sejam tratados nos tribunais, se os tribunais não funcionarem, ponham-se os tribunais a funcionar.

Mesmo os facínoras! Por exemplo, achei péssimo que Ceausescu tivesse sido executado sem um julgamento a sério. Muita coisa se saberia se se tivesse tratado o caso com acusações fundamentadas e um processo claro. Talvez por isso muitos já não se lembram dele, o que permite que apareça alguém semelhante. Fiquei sempre com a suspeita que os que o mataram tinham também algo a esconder, conivências, sobretudo.

Com as imagens o mesmo. Não apreciei aquela fotografia de Savimbi morto, rodeado de moscas ou de Sadam desmazelado e enforcado, embora detestasse ambos. Há diferenças entre Justiça e a vingança que roça o sadismo. Tantos séculos de proselitismo cristão, parece que não servem aos que apregoam essa moral. Mas também não é a moral que me interessa.

As regras têm que servir para um universo de casos. Fui bombardeado ao longo de anos com mails sobre José Sócrates e outros. Fui prejudicado pela política deste Partido Socialista, não apenas pessoalmente, mas sobretudo pelo que fez, ou não fez, a este país.

Mas também não me venham com essa atitude de virgens ruborizadas de outros tempos, perante uma entrevista insensata de Ana Gomes. Não me venham sobretudo com moralismos, aqueles que têm o hábito de se satisfazer com insinuações, acusações anónimas, do género "não sei se é verdade mas repasso". Nem essa atitude, nem só para um lado.

Que se trate rapidamente dos submarinos, dos sobreiros, do BPN e dos seus tentáculos e promiscuidades, das nomeações, favoritismos etc., com provas, e que se faça justiça e que os culpados paguem pelo que fizeram.

E que se vá em frente, porque se há gente na política (não gosto do termo políticos, porque isso não é uma profissão nem herança) que é corrupta, há outros que o não são.
Não confundamos as coisas para que só uns ganhem há custa do ruído.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O POVO E A RALÉ


 De Hannah Arendt um texto que vale a pena reler

4. O POVO E A RALÉ

Se o erro comum dos nossos tempos é imaginar que a propaganda pode conseguir tudo e que um homem pode ser persuadido a fazer qualquer coisa, contanto que a persuasão seja suficientemente forte e atraente, era crença comum naquela época que a "voz do povo era a voz de Deus", e que a tarefa de um líder era, como disse Clemenceau com tanto desdém, seguir essa voz com esperteza. As duas atitudes derivam do mesmo erro fundamental de considerar-se a ralé idêntica do povo, e não uma caricatura dele.
A ralé é fundamentalmente um grupo no qual são representados resíduos de todas as classes. É isso que torna tão fácil confundir a ralé com o povo, o qual também compreende todas as camadas sociais. Enquanto o povo, em todas as grandes revoluções, luta por um sistema realmente representativo, a ralé brada sempre pelo "homem forte", pelo "grande líder". Porque a ralé odeia a sociedade da qual é excluída, e odeia o Parlamento onde não é representada. Os plebiscitos, portanto, com os quais os líderes modernos da ralé têm obtido resultados tão excelentes, correspondem à táctica de políticos que se estribam na ralé. Um dos mais inteligentes líderes dos adversários de Dreyfus, Déroulède, clamava por uma "República através do plebiscito".
A alta sociedade e os políticos da Terceira República haviam apresentado à ralé francesa uma série de escândalos e fraudes públicas. Invadia-os agora um tenro sentimento de familiaridade paterna por seu rebento, um sentimento misto de admiração e medo. O menos que a sociedade podia fazer pela sua sua filha era protegê-la com palavras. 

Arendt, H. (2006). As origens do totalitarismo. Lisboa: D. Quixote.

Nota: por uma questão de facilidade o texto é um misto de uma edição brasileira com uma portuguesa