domingo, 24 de janeiro de 2010

Eleições para a Universidade de Évora



Num jantar de antigos residentes da Monte Olivete, em Évora, alguns anos depois da juventude.

   Conheço alguns dos candidatos a reitor da Universidade de Évora. Mas há um amigo especial: o Heitor. Conheço-o desde finais de 1974, estava ele na Faculdade de Ciências de Lisboa, onde estudava e onde tinha sobrevivido, sem vergar, a encerramentos da faculdade e da cantina, essenciais a estudantes que não tinham pais ricos. Eu tinha-me candidatado a uma residência universitária, a Monte Olivete, onde ele estava também, como membro da Comissão (após o 25 de Abril eram os estudantes que geriam as residências universitárias). Nesse ano não houve aulas de 1º ano e eu apareci lá, sem avisar e sem conhecer ninguém, imagine-se, para um congresso da CDE, que se transformou em partido. Depois vivi lá cinco anos. Fui recebido à chegada pelo Heitor, sempre com aquele sorriso e vontade de resolver problemas. Sempre à frente e sempre com uma grande capacidade de diálogo e de trabalho. Depois ele saiu, porque trabalhava e estudava, mas continuava a frequentar a residência ali em frente à Faculdade de Ciências.
   Nesses tempos em que se queria mudar o mundo, em que participávamos naquilo que podíamos, sem dinheiro, que também não havia, geraram-se solidariedades que perduram. Alguns dos melhores amigos que tenho foram e são esses companheiros da residência. Todos os anos nos encontramos, em variadas partes do país. Nem sempre todos vão, mas nem por isso deixamos de estar presentes em momentos significativos, nem que seja apenas por algumas palavras.
   O Heitor continua como sempre, activo, solidário, simples, um dia está numa universidade em qualquer país, no dia seguinte aqui em Évora, na universidade, em aulas, em projectos, como vice-reitor, no dia seguinte a organizar viagens a pé nas zonas mais variadas e bonitas do país.
   É essencial discutir a Universidade de Évora (aliás como outras), neste país e nesta região, numa época em que há dificuldades.
   No programa há quatro pontos que são fundamentais e que são prioridades para a região, para a qualidade e internacionalização, que tanta falta faz neste país:
Promoção da Qualidade Institucional
Inserção Regional
Internacionalização
Sustentabilidade

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Citações e in(coerências).

Entre 8 e 11 de Janeiro Vital Moreira e Ana Gomes, ambos deputados europeus pelo PS,escreveram isto no mesmo blogue:

mas os sindicatos tiveram de aceitar aquilo que antes sempre recusaram, designadamente uma avaliação com consequências na carreira e quotas para as classificações mais elevadas. Nunca o teriam feito antes. Nem agora o fariam, se a alternativa não fosse a manutenção do sistema que Maria de Lurdes Rodrigues tenazmente impôs. Não se perdeu tudo...
[…]
Não acompanho a congratulação geral pelo acordo entre o Ministério da Educação e os sindicatos dos professores. Quando se cede em quase tudo, como sucedeu do lado governamental, é fácil concluir acordos. Quando se busca "a outrance" a concordância dos interessados, é sempre a parte pública que perde.
[…]
Passa pouco da uma da manhã e acabo de ouvir as notícias de que, ao fim de uma maratona de 15 horas de negociação, a Ministra da Educação e a maioria dos Sindicatos dos professores terão chegado a acordo.
Se assim é, estamos todos de parabéns: a Ministra Isabel Alçada e os Sindicatos, antes de mais. Mas também os professores, os pais e, sobretudo, os alunos.
[…]Mas sobre o que pretendia Mário Nogueira para os professores não restam dúvidas: não era carreira; era circuito de aviário.

 in
http://causa-nossa.blogspot.com/
(sublinhados nossos)

Resumindo: está tudo de parabéns, ganhou a ministra, perdeu a ministra, ganharam os sindicatos, perderam os sindicatos.
Resta esclarecer a definição do conceito de aviário.
Não foi por acaso que o PS sofreu uma grande derrota nas eleições para o Parlamento Europeu.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O acordo entre o Ministério da Educação e os Sindicatos


O problema da Educação não diz apenas respeito aos professores. Mas dizer ou fazer, como a anterior ministra (agora presidente da fundação Luso-Americana, sabe-se lá porquê), que os professores se devem submeter a tudo, é uma falta de respeito e um desprezo pelos direitos dos profissionais, em especial pela liberdade de ensino, sem a qual não há liberdade de pensamento. Os professores são parte da solução.
Outros, que malharam, fugiram para Bruxelas e deixaram de falar no assunto. Ninguém lhes reconheceu a especialidade, mas arrogaram-se no direito de vilipendiar toda uma classe, confundindo propositadamente e em detrimento das qualidades intelectuais que deveriam ter, os conceitos de classe e corporação. Fantasmas de percursos mal digeridos!
A opinião pública que demagogicamente tinha sido manipulada, numa primeira fase ficou atordoada, depois começou alguma solidariedade e compreensão. Ultimamente os principais problemas teriam que começar a ser resolvidos, até porque todos começavam a estar cansados.
Até os próprios professores. Se em 2009 houve manifestações de mais de 120 000, houve também muitos que entregaram os objectivos, contemporizando com o sistema, por vezes pressionados directamente. Algumas dezenas de milhares resistiram, mas espero que não sejam os que acalmaram antes que venham agora criticar quem negociou.
Houve cedências de parte a parte, mas também se provou que os professores não recusavam a avaliação.
Está tudo resolvido? Não.
Recomecemos a discutir. É do interesse do país.

Água, Saúde, Economia e Responsabilidade.

Tivemos, já há longos anos, a garantia de que a água de Évora iria ser potável.
Foi assim que enfatica e agressivamente se ganharam eleições.

Eu, como outros, soube da falta de água em Évora, cerca das 8.00 horas da passada terça-feira, através de uma torneira que não deitava pinga e pela SIC Notícias. E foi através da televisão e rumores que fui acompanhando a situação.

Esperava eu que as entidades locais responsáveis a quem pago o serviço me tivessem avisado de qualquer coisa. Mas não! Desligaram a água, que demora muitas horas até se esgotar e (talvez) esperaram que a população fosse sabendo, como nas aldeias em que uma notícia se espalha depressa através dos canais da vizinhança.

Que ninguém tem confiança na água de Évora há muito é um facto. Longos anos de nova gerência "renovadora" (ou caquética, já deveriam ter feito alguma coisa e, pelo menos, ter a humildade de explicar e avisar dos problemas.

Mas não, a culpa é sempre dos outros. Assumir responsabilidades não é apanágio de quem gosta de assumir o poder de qualquer forma. Hoje até vi no Diário do Sul um comunicado do PS que, para defender a câmara até atribuí culpas à gestão de há 9 anos, mistura o problema da hemodiálise no Hospital, em franco desrespeito pelos resultados científicos e decisões dos tribunais há tanto tempo, e diz que Montemor-o-Novo está cheio de alumínio. Como se todos fossem obrigados a ser analfabetos ou pior, estúpidos! Nem sequer têm em conta as palavras do presidente que disse que o alumínio era dos sais de alumínio do tratamento!

Seria interessante, e não apenas interessante mas necessário, contabilizar os prejuízos.
Quanto custou o fecho de empresas, de escolas, de serviços vários pela falta de água. Quanto custa esta falta de confiança, os boatos pela falta de esclarecimento?

No Inverno costuma chover. Que se saiba não houve nenhuma catástrofe.

Outras empresas, por exemplo a EDP (a custo), quando não fornecem um serviço ou por causa da falta dele ou de prejuízos relacionados, são obrigadas a indemnizações.
Eu, como toda a população, que até é obrigada a ter água canalizada, não assinei um contrato que me obrigue a beber água de garrafões ou a ter surpresas indesejadas.
Um contrato envolve sempre mais que uma parte. Devemos pagar o fornecimento de água; temos direito a água potável, a esclarecimentos sérios e a indemnizações por incumprimento.
E aqui porque não? Pagamos, temos direito a ser ressarcidos.

Património e este estranho clima.


Vi há pouco no Diário do Sul estas informações sobre o Património construído em que a culpa da degradação se deve ao clima e aos tremores de terra, de acordo com entidades responsáveis e responsabilizáveis.
Cheias, quedas de árvores, derrocada de uma casa que estava a ser utilizada como restaurante na vila medieval de Monsaraz e as fissuras existentes no Paço dos Henriques, na vila de Alcáçovas, foram as principais consequências da forte precipitação que ocorreu durante as últimas semanas.
[…]Fernanda Ramos avançou que a Comissão de Protecção Civil foi informada de que na freguesia das Alcáçovas, mais precisamente no Paço dos Henriques, existem algumas fissuras. "A Câmara interpreta essa situação como resultante do recente tremor de terra, agora agravado pela chuva",
A Direcção Regional de Cultura do Alentejo (DRCA) anunciou que vai prestar apoio técnico ao município de Campo Maior (Portalegre) relativamente à salvaguarda das muralhas do castelo que têm registado derrocadas.
"A câmara tem um plano de salvaguarda e a nossa missão passa por dar apoio técnico, acompanhar a autarquia nas suas decisões e efectuar as respectivas avaliações", disse a directora da DRCA, Aurora Carapinha.
As muralhas do castelo de Campo Maior têm registado várias derrocadas nos últimos anos, a última das quais ocorreu na madrugada de terça-feira. A situação está a colocar em risco dezenas de famílias que vivem em condições precárias junto ao monumento.
Embora sublinhe que o plano de salvaguarda que a autarquia de Campo Maior possui deverá ser revisto, para adequar-se ao actual enquadramento legal, Aurora Carapinha explicou que já foi entregue ao município um relatório que indica as "razões" que poderão estar na origem das derrocadas.
"Nós já estivemos no local logo após a última derrocada e estamos a acompanhar o caso e a dialogar com o presidente da câmara", sublinhou.
 Seria um pouco estranho um tremor de terra só afectar o Palácio das Alcáçovas e as chuvas afectarem mais o Património que outros lugares. Deus e a Natureza, conforme se escolha, não são assim tão selectivos.
O que se passa é que o Palácio dos Henriques está já abandonado há muitos anos, as muralhas de Campo Maior também e ainda por cima há uma sociedade e poderes políticos que não se resumem às câmaras (as que têm menos culpa) que consentem esta degradação.
No caso do Palácio dos Henriques, o abandono é tanto mais vergonhoso quando foi neste lugar, um palácio exemplar da arquitectura manuelino-mudéjar, que foi assinado um primeiro tratado em que se dividiu o mundo descoberto e a descobrir entre Portugal e Castela.
No caso de Campo Maior, muralhas que foram importantissimas para a defesa nacional, são agora ocupadas por pessoas que vivem num estado miserável num país da união Europeia.
Seguem imagens antes da chuva e solicita-se ao Estado e não simplesmente às câmaras que faça alguma coisa!


Palácio dos Henriques, Alcáçovas



 
 
Muralhas de Campo Maior

sábado, 9 de janeiro de 2010

O casamento

Esta semana foi tomada uma decisão pela Assembleia da República que constitui uma ruptura histórica.
Histórica como outras ao longo da História. A instituição do casamento mudou ao longo dos tempos. Em geral assumiu a forma pública e entre dois sexos. Actualmente é um contrato entre duas partes livres.Mas há sociedades em que é ou foi poligâmico (veja-se o casamento do presidente da África do Sul), em diversas formas, em que um homem pode casar com várias mulheres ou até em que uma mulher pode ter vários homens. Numas culturas o casamento é durável, noutras não. Na sociedade portuguesa actual já não é assim: o número de divórcios já é superior ao dos casamentos e cada vez se casam menos pessoas.

Na nossa sociedade foi sacralizado pela Igreja Católica, sobretudo a partir do século XVI. Mas também nem sempre foi assim. Na civilização romana não era preciso nenhuma religião para oficializar o casamento e mesmo na Idade Média nem sempre a Igreja se atrevia a meter-se em assuntos de família.

O facto de a moral católica enformar durante séculos, como poder também, não tem sentido em Portugal, uma República separada das religiões, com um interregno não muito claro mas com efeitos impositivos no dia dia totalitário do regime do Estado Novo. A Igreja Católica, as igrejas cristãs, muçulmanas ou outras não têm que interferir no Estado de direito. Ponham-se no seu lugar, que já houve quem abusasse muito. Felizmente o Cardeal Patriarca, que não é chefe da Igreja Católica em Portugal, tem tido até algum sentido pragmático e algum respeito pelas leis. E não deve passar disso porque não há nenhuma religião dos portugueses.

Há um grupo, com muitas assinaturas que quer um referendo. Ora isto põe duas questões: a necessidade ou não do referendo e os direitos.
Quanto aos referendos à partida não valorizo muito a sua necessidade e geralmente são objecto de grande manipulação de grupos não representativos dos cidadãos. Repare-se, por exemplo, na questão da interrupção voluntária da gravidez. Por que é que se tem que referendar as opções dos casais ou das mulheres em relação à gravidez? Que direito têm os outros de mandar na gravidez das mulheres? Ou pensarão que alguma aborta por prazer? Por vezes, referendos, como na Suíça, chegam até ao ponto de aprovar teses racistas, como a da proibição de minaretes. Democracia não é isso. Os direitos fundamentais, desde a revolução francesa, ou mesmo na tradição americana e inglesa, são considerados como inalienáveis e imprescritíveis. Mesmo os que atribuem os direitos a Deus, nessa lógica blasfemam quando se arrogam o direito de interpretar Deus, que para eles é omnisciente.

Mas nas regras da democracia portuguesa quem tem o poder legislativo é a Assembleia da República, com deputados eleitos, por voto universal e secreto, para não haver influências de terceiros. Não é um grupo de 70000 que manda neste país! Mau seria se minorias quisessem mandar nas maiorias para depois ostracizar outras minorias.

Se a questão é de direitos, os direitos não são referendáveis.

Deixem que cada um faça a sua vida, que se case ou que fique solteiro, que viva com uma mulher ou com um homem, que faça vida em comum ou não. Isso é problema pessoal.
É motivo de regozijo, de festa? Para alguns pode ser, para mim não, mas por que é que eu ou outros temos que intervir na vida de cada um?
Tratemos de outros problemas, que não são poucos.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A água de Évora novamente


Hoje em Évora não há água na rede. Um dos problemas é o alumínio.
Há uns bons anos, um médico, portanto com alguma formação em Química também, fez declarações e uma campanha contra a CDU, de que ele tinha feito parte como presidente da Assembleia Municipal, acusando a Câmara de tudo. Com esta campanha, com que contou com apoios de muitos lados, e dinheiro a rodos, muita demagogia e muita falta de seriedade científica, conseguiu ser poder nesta cidade, através do aparelho de estado primeiro e depois como presidente.
Esperavam os incautos, os distraídos, e outros de boa vontade que a água de Évora iria tornar-se bebível.
Passaram-se tantos e tantos anos e afinal o rei vai nu, como estava. A água não presta e hoje nem sequer existe.
Hoje não há água em Évora e está quase tudo fechado e com problemas.
Hoje, o presidente da Câmara, que é o mesmo, falou. E até me parece que falou a sério. A água que vem parar à barragem vem inquinada, os remoinhos levantam o que está no fundo, o tratamento é feito com sais de alumínio.
Se é assim, e até creio que é, pergunta-se como é que é possível vir parar tanta porcaria às albufeiras e cursos de água? O que é que se tem feito a montante e a jusante?
Sabemos e vimos que, quando chove mais, aparecem televisões (aparelhos), máquinas, entulhos vários, águas de pocilgas … de tudo, nos regatos imprevisíveis (!), nos ribeiros e ribeiras, albufeiras, rios. O Estado que tanto se preocupa com o tabaco nas garagens é ineficiente com a água!
Sabemos da ineficiência, sabemos que não é fácil resolver os problemas.
Mas passados tantos anos, quem tem estado no poder e conquistou a câmara de Évora à custa do alumínio, apresentando canos na televisão e noutros sítios, com tanto tempo para actuar, por que é que ainda não resolveu o problema da miséria da água de Évora?
Evidentemente que isto não é um problema de uma pessoa que quis conquistar o poder pelo poder, mas de uma máquina com muitos apoios que se instalou aqui e no país.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Solstício e Mitra ou o Natal

Mitra, o Deus Menino nasceu a 25 de Dezembro, filho de uma virgem.
 Sucede a festa ao festejo do solstício de Inverno, já antes glorificado pelos romanos, Sol Invictus: dia em que o Sol começa a crescer, depois de (re)nascido (natus).
Era um culto de origem oriental (persa), que se tornou quase universal no Império Romano, sobretudo no exército, antes do cristianismo se tornar obrigatório. O sincretismo religioso já era usual, as religiões iam continuando o que estava na origem. Por isso também se faziam fogueiras, a luz da noite em contraponto com a do dia.


Imagem atribuída a Mitra, no museu de Mérida, antiga capital da Lusitania. Aqui ainda jovem antes de se sacrificar.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Paços do Concelho de Alvito



Câmara de Alvito: a inspiração mudéjar numa torre símbolo do poder municipal.

Centro Histórico de Évora. Limite de velocidade:30 km/hora

Existe um erro comum da parte de muitas pessoas que circulam no Centro Histórico de Évora. Como se aprende que, de um modo geral, o limite de velocidade em zonas urbanas é de 50 km/hora, há quem presuma que não é necessário olhar para os sinais.
Em todas as entradas do Centro Histórico há sinais com a limitação de 30 km/hora. É esse o limite em toda a área há muitas décadas. E também, contrariamente ao que alguns pensam, não é obrigatório ir à velocidade máxima permitida. Em muitas ruas e praças a prioridade é para os peões, assinalado já em muitos pavimentos. E em ruas estreitas que não têm passeios isso é muito claro.

Trânsito da Rua da Ladeira

É necessário discutir a cidade como um todo, como um sistema em que as várias partes têm influência umas nas outras. Acima de tudo porque a cidade deve ser vivida por todos, permitindo a liberdade de cada um sem que essa se sobreponha aos outros. Discutir e fazer. Uma proposta:

No sentido da valorização do centro histórico de Évora e no bem estar dos seus habitantes, umas das principais preocupações que tenho neste âmbito está associada ao trânsito. Entre os vários casos que se poderiam escolher, considero cada vez mais importante pensar no trânsito na Rua Gabriel Vítor do Monte Pereira, antiga Rua da Ladeira. O clube dos Vinte, o Centro de Actividades Infantis e a Adega do Alentejano criam um fluxo de viaturas e paragens de viaturas incorrectamente a que se acrescenta o trânsito oriundo do Largo de Santa Catarina e veraneios entre a Praça do Giraldo e o Largo Joaquim António de Aguiar, onde há novos espaços de funcionamento nocturno. Todos estes equipamentos tornaram a vida dos moradores insuportável dia e noite. A rua não apresenta condições técnicas para o fluxo de viaturas que a atravessam, originando graves problemas de acessibilidade e poluição aos seus moradores. Com esta observação não estou a questionar a importância das actividades das entidades que citei, pelo contrário, o objectivo é que se dignifiquem de forma articulada com a sua envolvente social, pois existem soluções para isso, que poderei enumerar e que já foram aplicadas noutras cidades.


O sinal da zona de cargas e descargas no pequeno Largo junto ao centro de actividades infantis, está incorrectamente sinalizado e vários condutores fazem desse reduzido espaço parque de estacionamento permanente, esquecendo que os moradores precisam de o utilizar, no mínimo, para descarregar os produtos alimentares para suas casas. Os serviços técnicos da CME alhearam-se desse problema à revelia de orientações superiores - quero dizer da presidência do município - para a correcção da sinalética do local. A PSP intervém na medida das suas possibilidades, mas a má colocação dos sinais limita-a na execução da sua actividade fiscalizadora. É urgente corrigir esta situação.

Uma chamada de atenção aos sócios do clube dos vinte certamente resolve algumas das situações de paragem indevida, é gente de bem e que compreende as situações, a mesma atenção deve ser seguida pela adega pela direcção da adega do alentejano

Os familiares das crianças do centro de actividades infantis colocam as viaturas em frente das portas impedindo o acesso aos seus moradores numa clara situação de falta de educação cívica e moral, para com os idosos que aí vivem, num claro exemplo como a degradação de valores tem afectado a sociedade eborense. A responsabilidade deste comportamento não é da direcção da "escolinha", mas a sensibilização da direcção junto dos familiares das crianças para esta situação parece justa e adequada e poderia trazer resultados benéficos para todos. Deve ser colocado um polícia ou alguém com autoridade no período das entradas e saídas das crianças para evitar estas situações, tal como acontece noutras cidades, inclusive para segurança das crianças e familiares ao atravessar a rua.

A criação de novos espaços comerciais na Rua dos Penedos, no prolongamento da Rua de São Cristóvão irá agravar a situação de trânsito nesta rua. É necessário resolver esse assunto, pois existem formas simples e eficazes, assim haja vontade política e disciplina dos técnicos para a execução das decisões. O acesso à rua deve ser de imediato restringido apenas aos moradores até que um plano geral de acessibilidade e trânsito para o centro histórico apresente soluções para a resolução global deste problema.

Feliciano de Mira, morador

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Acrópole XXI (Évora) e outras coisas fundamentais.

Vai estar em discussão pública, ou já começou, o projecto Acrópole XXI. O arquitecto que ganhou o concurso, de acordo com os parâmetros definidos, já o teve que redefinir várias vezes. O espaço a intervencionar é essencialmente o interior da antiga cerca romana. Um dos pomos da discórdia é o da construção de um parque de estacionamento por baixo do actual Jardim Diana. Salvaguardando a questão da preservação da muralha romana e a eventual descoberta de achados arqueológicos (estudo que já deveria estar feito há muito), embora se saiba que muito do que ali está é entulho do século XX, não tenho nada contra.

Porque uma das questões que se põe é a da circulação. Mais de dois terços da população, mais jovem até, vive fora do Centro Histórico. Uma percentagem pequena vive na antiga Cerca Romana. Portanto há que resolver o modo como é que as pessoas poderão ir até à Sé, assistir ou participar numa conferência na Biblioteca Pública, no museu agora renovado, um concerto na Fundação Eugénio de Almeida, um espectáculo de cinema ou teatro na Joaquim António de Aguiar, na rua, em espaços reencontrados, ir às compras, passear … viver.

Automóveis não cabem mais, nem isso é desejável. Ir a pé também não dá para todos, sobretudo a partir de certa distância. Pense-se em vir à noite a partir do Bairro do Bacelo: a pessoa ou é atropelada ou fica a mercê de outros em zonas escuras.

Qualquer cidade da Europa, da França para cima pelo menos, quatro ou cinco vezes maior que esta cidade, tem menos automóveis a circular. Veja-se a cidade do momento, onde se faz a Cimeira do Ambiente: 37% das pessoas empregadas vêm de bicicleta, segundo o "Público" de hoje. E em Copenhaga chove, há neve e temperaturas negativas. Mas existe uma rede de vias para ciclistas, com prioridade sobre os automóveis e meios de transporte colectivos.

Aqui há problemas e muitos para resolver. Não é só uma questão de voluntarismo de algumas pessoas. Se alguém vier de bicicleta por certas vias e rotundas corre o risco de ser atropelado, mesmo descontando os impropérios de certa gente. Se alguém quiser andar de transportes públicos arrisca-se a nunca chegar a horas ou ficar a pé a outras horas. E a noite, sobretudo, é para quem tem sorte, ou para os ricos ou para quem não se importa com os outros, com os automóveis em cima de qualquer coisa.

Se se quer que as pessoas vivam o Centro Histórico, se se quer que o usufruam há que haver alternativas e estas não podem passar por mais automóveis, ou então só andam automóveis engalfinhados uns nos outros contra os peões, que é o que já acontece. A não haver alternativas civilizadas, as pessoas fogem, que é o que vem acontecendo nas últimas décadas, o que tem já e vai ter cada vez mais custos: construir mais fora, com mais custos em infra-estruturas, de água, electricidade, cabos inúmeros, mais ruas, mais automóveis, mais tempo desperdiçado, um Centro Histórico a cair e a ser abandonado cada vez mais e com turistas também a abandoná-lo porque não há qualquer interesse em ver tudo fechado e a cair.

PS. Veja-se aqui perto Badajoz, para quem admira muito as proezas espanholas. Deixaram cair a cidade antiga, aliás em grande parte destruída pelo general Yague do exército de Franco em 1936, e construiram uma nova ao lado. Incaracterística "por supuesto".

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Direitos Humanos




No dia em que se comemoram mais uma vez os Direitos Humanos, um poema de Boris Vian, quando o governo francês ainda queria manter o Vietname sob domínio colonial

Le déserteur

Monsieur le Président
Je vous fais une lettre
Que vous lirez peut-être
Si vous avez le temps
Je viens de recevoir
Mes papiers militaires
Pour partir à la guerre
Avant mercredi soir
Monsieur le Président
Je ne veux pas la faire
Je ne suis pas sur terre
Pour tuer des pauvres gens
C'est pas pour vous fâcher
Il faut que je vous dise
Ma décision est prise
Je m'en vais déserter

Depuis que je suis né
J'ai vu mourir mon père
J'ai vu partir mes frères
Et pleurer mes enfants
Ma mère a tant souffert
Elle est dedans sa tombe
Et se moque des bombes
Et se moque des vers
Quand j'étais prisonnier
On m'a volé ma femme
On m'a volé mon âme
Et tout mon cher passé
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
J'irai sur les chemins

Je mendierai ma vie
Sur les routes de France
De Bretagne en Provence
Et je dirai aux gens:
Refusez d'obéir
Refusez de la faire
N'allez pas à la guerre
Refusez de partir
S'il faut donner son sang
Allez donner le vôtre
Vous êtes bon apôtre
Monsieur le Président
Si vous me poursuivez
Prévenez vos gendarmes
Que je n'aurai pas d'armes
Et qu'ils pourront tirer


terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Vila Nova da Baronia






Apesar de ser bastante antiga tem o nome de Vila Nova. Foi antigo concelho, extinto em 1836. Da baronia porque pertenceu aos domínios do 1º barão, depois conde-barão de Alvito. A igreja matriz, de finais do século XVI é enorme, provavelmente para demonstrar o poder do barão. Ainda se vêem outros edifícios como a antiga câmara municipal com uma torre sineira. Por dentro, as igrejas têm frescos e outras pinturas, mas como é habitual está quase tudo fechado.

António Tabucchi e a censura berlusconiana

O presidente doSenado italiano, Renato Schifani, exige a soma de 1.350.000 euros por causa de um artigo onde o escritor António Tabucchi pergunta pelo seu passado.

O que está em causa é a liberdade de expressão num país onde Berlusconi domina a quase totalidade dos media e não aceita as opiniões de gente que quer que este país continue em democracia.
A petição é esta:

http://www.mediapart.fr/club/blog/la-redaction-de-mediapart/181109/signez-lappel-international-pour-antonio-tabucchi

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A língua portuguesa

Escreveu Fernado Pessoa:

Não chóro por nada que a vida traga ou leve. Há porém paginas de prosa me teem feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noute em que, ainda creança, li pela primeira vez numa selecta, o passo celebre de Vieira sobre o Rei Salomão, "Fabricou Salomão um palacio..." E fui lendo, até ao fim, tremulo, confuso; depois rompi em lagrimas felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquelle movimento hieratico da nossa clara lingua majestosa, aquelle exprimir das idéas nas palavras inevitaveis, correr de agua porque ha declive, aquelle assombro vocalico em que os sons são cores ideaes - tudo isso me toldou de instincto como uma grande emoção politica. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda chóro. Não é - não - a saudade da infancia, de que não tenho saudades: é a saudade da emoção d'aquelle momento, a magua de não poder já ler pela primeira vez aquella grande certeza symphonica.
Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m'a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

Ora Fernando neste texto não está a dizer, como muita gente pensa, que a pátria é onde se fala Português. O problema era o mau uso da língua. A ortografia nem sequer era o pior dos males, embora ele preferisse uma ortografia mais clássica.
Hoje há quem brade contra a nova ortografia. Mas a que defendem é a dos anos quarenta e não a que Fernando Pessoa usava.

Mas pior que a ortografia é este "portínglich" que está na moda. Não sou purista da língua mas penso que não há necessidade de tanto inglês misturado com português, que mais parece uma gíria que uma língua.
É a toda a hora as evidências, a realização (com significados em inglês, diferentes do português), o benchmarking, advocacy, the big picture, lay out, slideshow, bookcrossing, feed-back, e-mail, labs, links, spam etc. etc. e isto tudo misturado com siglas e acrónimos.

Outra questão é a do esquecimento dos clássicos.


domingo, 6 de dezembro de 2009

Galileu no Império da China através do Padroado Português


Vai ter lugar no próximo dia 9 de Dezembro na Biblioteca Pública de Évora, pelas 21.00 horas, a Conferência:
Galileu no Império da China através do Padroado Português

O Padroado Português do Oriente concedia ao Estado Português privilégios especiais na jurisdição da Igreja Católica no Oriente (Índia, Japão, China, África Oriental, Malaca, Timor …), nomeadamente na escolha dos bispos e sacerdotes. Os padres da Companhia de Jesus participavam nessa estratégia política e religiosa.

A companhia de Jesus era a principal responsável pela evangelização dos territórios, mercê da sua organização e por ter padres com grande formação intelectual em diversas áreas, tendo penetrado em áreas tão diferentes como a Índia, os Himalaias, a China, Japão e outras, além do Brasil e outros territórios da América, e exercendo uma forte influência na Europa através das universidades, próprias como Évora, como Coimbra, Lovaina (actual Bélgica), entre muitas.
Os jesuítas adaptavam os métodos de evangelização aos povos e às culturas. Assim, no Brasil construiram "aldeias comunitárias" com os índios, as reduções, onde pregavam em língua geral, uma língua franca, baseada nas línguas tupi e guarani, que chegou a ser a língua mais utilizada no Brasil, mesmo pelos portugueses; na Índia alteraram os ritos, os chamados ritos malabares, assim como em territórios chineses usaram os ritos malabares. Fizeram também dicionários de várias línguas.
Uma das formas de exercer influência junto do imperador chinês era através de conhecimentos de Astronomia.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Suíça lava mais branco

Os eleitores suíços decidiram num referendo proibir a construção de minaretes.

Como se não tratassem já os portugueses como gente de 2ª classe e os muçulmanos com gente de terceira ou quarta, agora estão a caminho de proibir os muçulmanos de rezar.

Não querem minaretes, só querem gente para lhes limpar o lixo e estar caladinhos, prontos para serem expulsos.

Não os querem mas dá-lhes jeito para fazerem os trabalhos que eles não querem.

É já tradição suíça. O único compromisso é com o dinheiro.

Na segunda guerra mundial recebiam o ouro que os nazis roubavam por todo o lado. Aceitavam os depósitos dos judeus e depois expulsavam-nos para a Alemanha, que os levava directamente para os campos de concentração.

Têm recebido o dinheiro de todos os ditadores que despudoradamente roubam os respectivos povos, dos mafiosos, dos traficantes de armas, de drogas, de pessoas. As contas são numeradas para garantirem o anonimato.

E dizem-se civilizados!

Desta vez dou razão a Cohn-Bendit, deputado europeu, antigo radical do maio de 68, depois mais manso: os árabes ricos deveriam deixar de depositar dinheiro na Suíça. Só assim aprenderiam, porque o que lhes dói é a falta de dinheiro e não os direitos.

E a ONU, com as suas declarações dos Direitos Humanos vai continuar na Suíça?

Bin Laden e outros, afinal têm aliados. São todos tão puritanos!
Os suíços esforçaram-se por construir mais ghettos.

E nós vamos deixar que eles proibam minaretes, religiões que não sejam a calvinista, luterana ou católica (há que conservar os guardas do Vaticano), qualquer dia pretos, depois latinos e mais coisas que os suíços se hão-de lembrar ?

Nem todos os suíços votaram assim, mas foram mais de metade.

Deveria começar-se a mexer nas benesses do dinheiro da confederação Helvética

sábado, 28 de novembro de 2009

As meias tintas

Governo e oposição.


É normal as pessoas em democracia votarem onde querem. Os partidos propõem ideias e sujeitam-se ao escrutínio. O que não podem é pensar que só há a verdade absoluta de um partido.

Faz parte do pacto político: quando se tem a maioria absoluta pode-se cumprir a maior parte daquilo que se propôs, respeitando a Lei e os direitos das minorias, dentro de uma determinada conjuntura; quando a maioria é relativa tem que se ter também em conta as ideias dos outros que foram eleitos. Ou então não se aceita ir para o poder.

Da parte das oposições há também que respeitar a vontade dos eleitores. Se a posição for só sim ou não, então também não se deve aceitar o lugar.

Na maior parte dos regimes parlamentares não há maiorias absolutas. E, no entanto, governam-se e há estratégias. Por que é que em Portugal não pode ser assim?

O pior são as meias tintas e a navegação à vista.

O PS se está no governo tem que conversar a sério e definir uma estratégia e dialogar a sério com os outros para obter apoios. Não pode andar a fazer-se de vítima a toda a hora.

Se não queria governar assim por que é que aceitou? Ou será que quer mudar de regime?

Os cidadãos precisam de saber o que é que se quer fazer nos próximos tempos.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Professores primários em Portugal em 1835



Decreto do Ministro e Secretario d’ Estado dos Negocios do Reino
7 de Setembro de 1835

Repare-se no tempo de serviço necessário para obter a reforma (jubilação): 25 anos

sábado, 21 de novembro de 2009

Propostas precisam-se

As línguas são uma grande ilusão. Pensam as pessoas que estão a falar de uma coisa e há outros que não percebem ou não estão para perceber.
Num país como Portugal, que até tem uma língua já usada oficialmente há muitos séculos (quando no reinado de D. Dinis o Português se tornou língua oficial, ainda os ingleses da corte usavam um francês normando), falam-se muitos discursos que só alguns grupos entendem. O que é que significa para a maior parte das pessoas, num país com elevada iliteracia, usar expressões como avaliação formativa, objectivos individuais, competências, pedagogia, didáctica, construtivismo etc. etc. ? E quando começam com siglas, PE, DE, PCE e outras, ainda muito menos

Não estou aqui armado em arrogante, mas há ainda muitos que não lêem um artigo de um jornal, têm dificuldade em preencher um requerimento simples e quando vêem uma notícia na televisão, ligam mais à imagem e à emoção transmitida do que às informações dadas. Outros sabem, ou julgam saber e depois desligam, porque pensam que há outros assuntos que merecem atenção. Outros ainda presumem que só o que eles e o grupo fazem é que é importante, dividindo em escalas hierárquicas em que uns são superiores e outros inferiores, e mais importantes se pensam quando acham que subiram muito.

Falemos agora da avaliação de professores. Não basta ter razão na contestação. É preciso que o discurso passe. Os professores (quais?) até conseguiram, mas isso pode ser uma ilusão temporária. Ainda têm um capital de prestígio, fruto de as pessoas terem quase todas passado pela escola ou concluído que esta era importante ou porque ainda há muitos professores na sociedade, nas autarquias, em associações e assembleias (até da República), capazes de influenciar.

Mas quando se contesta, não basta apenas reagir. É preciso ter propostas razoáveis e, sobretudo enquanto a opinião pública ainda está desperta.

Não ter propostas claras, pode levar a impasses e ao cansaço, dos próprios que reagem e dos que poderiam apoiar. E se passa demasiado tempo, alguém decide.

O país não vai passar anos a discutir questões dos professores e do ensino. O tempo urge e as pessoas cansam-se.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O cheque em branco do PSD e a pouca credibilidade perdida.


Bordalo Pinheiro

Afinal o PSD e o PS são bons amigos. Já se sabia: tomaram conta do aparelho de estado há muito, rodam nos lugares de nomeação política, das empresas públicas, sucedem-se nos escândalos da apropriação deste capitalismo português, em que raramente se percebe ou distingue se é o Estado que manda nas empresas ou se são as empresas que mandam no Estado.

O PSD na última legislatura votou pela suspensão do processo de avaliação dos professores. Sucessivamente questionado durante a campanha eleitoral sempre declarou que iria apresentar uma proposta de suspensão ou votaria nas propostas de outros partidos que propusessem a suspensão.

Agora limitou-se a trair as próprias palavras juradas e votou com o partido do governo, dando-lhe um prazo de um mês. Votou na farsa desacreditada da avaliação e passou um cheque em branco, como se o PS desse garantias de cumprir.

Afinal voltou ao que era. Quando o estatuto dos professores foi publicado não dizia nada, quando foi publicada a avaliação também não; eram os tempos em que Manuela Ferreira Leite não falava.
Quando começou a ver grandes manifestações, então acordou e vá de prometer.

Agora que já tem os votos volta àquilo que  foi e que no fundo queria: fazer a mesma política que o PS.

Quando não há ideologia, quando não há princípios, é assim!
Tristes figuras!

Respostas3

De um deputado do PSD:

Muito obrigado pela sua pertinente reflexão, quer no que diz respeito ao disgnóstico do modelo que ainda vigora, quer quanto às propostas que apresenta.

Cumprimentos

Respostas2

De deputados do PS:

Caro Professor João Simas

Tem razão quando diz que o momento é de debate de propostas que possam equacionar um modelo exequível e equilibrado de avaliação. O ministério, como é público e diariamente acompanhado por todos, está em reuniões de trabalho com os representantes dos professores. As notícias e declarações dos intervenientes deste processo levam a crer que estarão a ser resolvidas todas as questões que fragilizavam o anterior modelo. Creio que, e resumindo a uma generalidade, cada escola tem meios suficientes para fazer a avaliação dos seus docentes, entre avaliadores e órgãos de gestão e pedagógicos. A ideia das aulas assistidas apenas em determinados momentos da carreira, nomeadamente na mudança de escalão, parece-me bem – para mim, até deveria ser menos, em dois ou três momentos-chave…
Devemos esperar as conclusões que julgamos deverão ser do agrado de ambas as partes.
Cumprimentos
..................................

Caro Amigo João Simas

Obrigado pelo teu contributo. Agora, como no passado, estamos empenhados em garantir, aos cidadãos, um serviço público de educação que garanta a máxima qualidade e confiança. Para garantir essa finalidade, entendemos que é necessária a existência de um paradigma e de uma prática de avaliação rigorosa, objectiva, transparente, justa e exequível. É nisso que todos, os que defendem estes princípios, estamos a trabalhar.
Espero continuar a receber os teus contributos e envio-te votos de bom trabalho.
Um abraço
..........................................

Caro Senhor

Agradeço a amabilidade que teve ao enviar-me a sua opinião. Como sabe, foi definido o calendário e a metodologia a seguir nas negociações entre o Ministério da Educação e os representantes dos sindicatos representativos dos docentes, que decorrerão até final deste ano. Os temas que refere estão no centro dessa negociação. Todos esperamos que elas conduzam a bons resultados.
Cordiais saudações

Respostas1

Entretanto recebi respostas.
Do Grupo Parlamentar do PCP:

Foram hoje debatidas as várias iniciativas parlamentares relativas ao estatuto da Carreira Docente e à avaliação dos professores, entre as quais se conta o Projecto de lei n.º 2/XI apresentado pelo Grupo Parlamentar do PCP.
Do debate resultou, no essencial, a insistência por parte do PS na manutenção em vigor do actual modelo de avaliação enquanto se procede à sua revisão. Mas resultou igualmente uma posição preocupante por parte do PSD.
Depois de, na anterior Legislatura, ter apresentado um Projecto de Lei e dois Projectos de Resolução propondo a suspensão da avaliação e de ter votado favoravelmente todas as iniciativas apresentadas no mesmo sentido, o PSD prepara-se agora para inviabilizar a aprovação dos Projectos de Lei e de Resolução apresentados pelos vários Grupos Parlamentares.
Esta lamentável atitude do PSD, violando inclusivamente os compromissos assumidos no programa eleitoral que apresentou em Setembro, poderá comprometer os objectivos centrais visados pela luta dos professores: impedir que o actual modelo de avaliação produza mais prejuízos e reparar aqueles que entretanto foram causados.
O PCP manter-se-á firme e coerente nas posições que tem assumido, em solidariedade com os professores e a sua luta na defesa de uma escola pública de qualidade.
Se os restantes partidos da oposição adoptarem a mesma posição, certamente amanhã sairá da Assembleia da República uma Lei que suspenda o actual modelo de avaliação e reponha alguma tranquilidade nas escolas portuguesas.
Se o mesmo não ocorrer, os professores portugueses continuarão a ter no PCP uma força política que não poupará esforços na intervenção política para que esta questão seja resolvida, na Assembleia da República e fora dela.
Junto anexamos a Intervenção do Deputado Miguel Tiago na abertura do debate e os vídeos das intervenções decorrentes do mesmo.


Intervenção do Deputado Miguel Tiago
http://www.pcp.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=34670&Itemid=196
Intervenção do Deputado João Oliveira
http://80.251.167.42/videos-gppcp/2009-11-19Prof3.wmv
Intervenção do Deputado António Filipe
http://80.251.167.42/videos-gppcp/2009-11-19Prof4.wmv
Intervenção do Deputado Bernardino Soares
http://80.251.167.42/videos-gppcp/2009-11-19Prof5.wmv

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Onde está a Ministra da Educação?

A Assembleia da República está a discutir a avaliação dos professores.
Por que é que a Ministra da Educação não apareceu na principal casa da democracia?
Há respostas urgentes a dar.

A farsa do 1º ciclo de avaliação dos professores.

O primeiro ciclo de avaliação correspondia aos anos lectivos de 2007/2008 e 2008/2009. O decreto de avaliação saiu a meio do ano lectivo de 2007/2008, já o ano lectivo ia por aí adiante. Só teria sentido se fosse publicado antes, porque os objectivos só têm sentido se forem propostos no início de um ciclo. Ora apresentar a meio de um ano lectivo já pressupunha efeitos retroactivos.

Mas a coisa piorou. Em 2009 foi publicado o decreto “simplex” que contrariava e anulava os objectivos propostos, já que a legislação tinha mudado,  já o processo ia a mais de meio.

Depois deu para tudo. Quem apresentou objectivos, estivessem ou não de acordo com o Projecto de cada escola, apresentou quando quis ou segundo a “boa vontade das escolas”, uma forma de desacreditar o processo ainda mais e prejudicar os que se mantiveram coerentes: uns em Fevereiro, Março… até em Junho, depois do final das aulas.

É ou não uma farsa classificar professores que propuseram meses e até anos (repare-se nas datas) depois de iniciado o ciclo? Que sentido tem dar Muito Bom ou Excelente a quem no fim do processo (alguns dos quais até tinham assinado documentos contra) apresentou objectivos e teve aulas assistidas? Com efeitos retroactivos, com prejuízo dos outros?

Desrespeito para com os que no final se lembraram de ser avaliados?

Alguém formulou objectivos no início do ciclo? Agora que no final formularam objectivos têm que ser premiados em desfavor dos outros?


Todos os partidos da oposição votaram a favor da suspensão do processo na última legislatura. Todos os partidos da oposição durante a campanha eleitoral prometeram a suspensão da avaliação.
A suspensão é necessária e os partidos têm obrigação de serem coerentes e respeitar os resultados das eleições.

Parece, pelo que vejo agora na Assembleia da República, o PSD está a “roer a corda”.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Assembleia da República. O nosso poder legislativo

Hoje enviei uma mensagem (semelhante ao texto que aqui escrevi ontem) a vários deputados.
É altura de os professores escreverem novamente aos deputados sobre a situação no ensino.
Nem todos vão ler, mas há muitos que vão pensar sobre as informações que cada um der.
Uma mensagem pode levar à mudança de atitude de um deputado hesitante.
Amanhã há discussão na Assembleia da República.

O e-mail dos deputados está em:
http://www.parlamento.pt/DeputadoGP/Paginas/Deputados.aspx

Poetas perdidos? Bernardim Ribeiro e o Alentejo


Monte do Álamo, Cano

Hesitei em (re,re) publicar esta poesia, porque deveria ser muito mais conhecida.
Mas tenho chegado à conclusão que os alunos do ensino básico e secundário já não têm oportunidade de usufruir destas coisas.
Os programas mandam-lhes fazer relatórios, analisar textos de natureza diversa: contratos, requerimentos, regulamentos, artigos científicos e técnicos (será que ...?), reclamações (será que se habituam?), ... e também textos literários que sejam argumentativos, líricos... Estudam-se autores "a propósito de". Por exemplo, o Padre António Vieira, porque fez textos argumentativos.
A literatura medieval e o seu contexto quase desapareceram, não fosse uma disciplina optativa escolhida por uma minoria: Literatura Portuguesa.
Muitos autores teriam desaparecido, não fosse o bom senso de alguns professores.
Recordo aqui um que vai entrando no rol do esquecimento. Um alentejano, provavelmente do Torrão, entre os séculos XV e XVI. Também refere o abandono, problema actual:

ÉCLOGA II

Dizem que havia um pastor
antre Tejo e Odiana,
que era perdido de amor
per da moça Joana.
Joana patas guardava
pela ribeira do Tejo,
seu pai acerca morava
e o pastor de Alentejo
era, e Jano se chamava.


Quando as fomes grandes foram
que Alentejo foi perdido,
da aldeia que chamam o Torrão
foi este pastor fugido.
Levava um pouco de gado,
que lhe ficou doutro muito
que lhe morreu de cansado;
que Alentejo era enxuito
de água e mui seco de prado.


Toda a terra foi perdida;
no campo do Tejo só
achava o gado guarida:
Ver Alentejo era um dó!
E Jano, pera salvar
o gado que lhe ficou,
foi esta terra buscar;
e, se um cuidado levou,
outro foi ele lá achar.
[…]
Bernardim Ribeiro

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O problema continua por resolver: a avaliação dos professores.

   Agora que na Assembleia da República há vontade de discutir os assuntos e não apenas votar batendo palmas ao governo e com as oposições a falarem sozinhas, mercê do voto popular que não quis que fosse só um a mandar, é altura de contribuirmos também para a discussão, não permitindo, na medida da nossa possibilidade de influenciar, que se façam acordos de bastidores, renegando o que se prometeu em campanha eleitoral.

  É necessária uma avaliação dos professores? É.

   Já muito foi dito sobre o modelo “coqueluche” do PS. A avaliação em vigor era burocrática até ao limite, inquisidora, permitindo até que pequenos ditadores em potência impusessem a sua verdade sobre como se devem dar aulas, o preenchimento de inúmeras e continuamente reinventadas grelhas, e penalizadora e culpabilizadora dos avaliados.

   Esta avaliação punha (põe) até as escolas “de pernas para o ar”, como se a principal missão de uma escola não fosse ensinar e educar, mas avaliar quotidianamente, as palavras, os gestos, as atitudes, o modo de ser de cada professor, o decalque ou o afastamento em relação à ideologia tecnicista e quase totalitária do “pensamento único”.

   Levada a sério, segundo os propósitos do ministério e demais ideólogos e "expertos" do regime e seus clientes, seria um preenchimento constante de fichas e relatórios e de práticas à defesa, com mais relatórios e fichas, dado que a concorrência poderia ir até a um plano em que avaliadores e avaliados lutariam por lugares. Os avaliadores passariam também o tempo com a avaliação, nalguns casos a ter que aprender matérias dos avaliados, por serem de grupos diferentes e as suas aulas passariam para segundo ou terceiro plano. Porque, ou o tempo esticava ou os professores iriam colectivamente tratar-se ou teriam que se arranjar outros horários, o que também ficaria caro, já que se avaliados e avaliadores passassem a maior parte do tempo a “trabalhar” para a avaliação, teria que se contratar mais professores para leccionar.

   As consequências deste processo foram, umas imediatas, outras que vão perdurar. Inquinou-se o ambiente nas escolas e só não se foi mais além porque os professores colectivamente reagiram e a sociedade compreendeu. Os resultados viram-se logo nas eleições europeias e depois na perda da maioria absoluta (não só por esta razão, mas esta teve peso). Milhares de professores com experiência, muitos dos quais participaram entusiasticamente em projectos ao longo de uma vida, pediram a reforma antecipada, outros ficaram com uma sensação de vazio perante a desvalorização demagógica do trabalho feito, com a utilização intensiva dos media, onde durante algum tempo imperaram os “idiotas de serviço”.

   A demagogia continuou. O ministério recuou e publicou um decreto com uma avaliação “self-service”, em que o que interessava era obedecer sem perguntas. Quem quisesse, poderia ter aulas assistidas, quem não quisesse não teria; até deu para em certas escolas entregarem os objectivos, que quase ninguém leu, depois das aulas terem acabado !!!

   Como se dizia numa língua quase exterminada no ensino secundário, o Latim: mons parturiens, a montanha pariu um rato.

   Agora falemos em propostas. Os professores devem ser avaliados nas actividades lectivas e não lectivas, em projectos que tenham a ver com a escola e no contexto da escola, com o grande objectivo de melhorar as suas actividades e formação e a escola. Por isso é também importante avaliar as aulas. Mas não é preciso que vá alguém assistir a várias aulas por ano: basta que isso seja feito no ano em quando se muda de escalão, por exemplo. E condição necessária, que se seja avaliado por alguém da sua área e que tenha mais experiência ou curriculum e que não seja um avaliador apenas, mas um júri, preferencialmente com pessoas de dentro e de fora da escola, para garantir alguma independência.

   Continuaremos. Vamos ver o que a Assembleia da República delibera e o que é que a senhora ministra pretende.

Penha de Águia




Pequena povoação construída por pescadores do Guadiana.

Poetas esquecidos. Jerónimo Corte-Real

Nada resiste ao tempo, tudo vence,
Tudo desfaz, consume e tudo gasta,
Grandes males e perdas, grandes danos,
Grandes desgostos dá ao esquecimento.
Leva-nos da memória em pouco espaço
Aquilo que antes era espanto à gente,
E o que nos assombrou ontem, já hoje
Leve o faz parecer, brando e tratável.
Não há tristeza grande que não cure,
Não há dor que co'ele seja grave.
Todo o mal e rigor, toda aspereza
Este velho cruel nos torna fácil.

Corte-Real, J. (1598). Naufrágio e Perdição de Sepúlveda e Leonor.

Suspensão da avaliação de professores. De novo.

Na última legislatura houve votações no sentido de suspender a avaliação dos professores. Houve propostas que tiveram votos de todos os partidos da oposição e de mais quatro deputados do PS, entretanto saneados.
Na campanha eleitoral CDS, PSD, CDU e Bloco de Esquerda prometeram votar favoravelmente a suspensão.
Vamos ver se mantêm todos a mesma posição ou se algum partido "rói a corda".

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O muro de Israel

Dados da ONU indicam que, até o momento, Israel construiu 413 km dos 709 km planejados para o muro.

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/11/091109_cisjordania_rc.shtml

Nota: o muro de Berlim tinha 61,5 Km, um exagero.
Mas foi derrubado!
Este continua a ser construído, contra as leis internacionais.

Os muros


Muro na Cisjordânia/ Muro de Berlim

Nos vinte anos da queda do muro de Berlim houve festa, aliás compreensível. Acabou também um estado policial. Houve ênfase com a ida de muitos presidentes e representantes de muitos estados.
A televisão e o pensamento dominante não falam de contextos. Em 1961, quando foi feito o muro (indefensável do ponto de vista dos direitos inalienáveis e imprescritíveis), estava-se em plena Guerra Fria. Em Berlim Oriental havia tropas soviéticas e polícia, em Berlim Ocidental havia tropas americanas e a CIA. Ambas as partes, a cidade dividida, eram bastiões de propaganda e de muitas perversões para demonstrar que o outro lado estava errado. Na RDA eram proibidos os partidos ou organizações chamadas capitalistas, na RFA era proibida a propaganda comunista. As Alemanhas estavam pejadas de exércitos estrangeiros. A desnazificação, iniciada em 1945, foi logo atalhada, o tribunal de Nuremberga mal teve tempo de condenar alguns criminosos e outros foram aproveitados, seja para fins científicos, seja para manter poderes. Do lado da RDA "não havia "ex-nazis, do lado da RFA foram "esquecidos".

O muro era a fronteira entre duas grandes ideologias, a fronteira política.

O mundo de lá desmoronou-se. Gorbatchev e outros tiveram aí um grande papel. O muro caíu sem sangue, de podre. A RFA anexou a RDA e, ainda hoje continuam os problemas. A RDA estava entre as dez maiores potências industriais. Perdeu mercados a Leste, desindustrializou-se, acabou-se o pleno emprego, ensino e saúde gratuitos, e ainda hoje põem-se problemas de identidade e de discriminação dos “ossies”. Convém aqui lembrar que a Alemanha, ou o império alemão, só existe a partir de 1871 e com grandes mudanças de fronteiras e transferências de populações em massa ao longo do século XX.

Em tempos Kennedy teve uma célebre frase:
“Ich Bin ein berliner”

“I have a dream”. Gostaria que, em vez de se festejar só, com tanto presidente a queda do muro de há vinte anos, se festejassem também as quedas de muros ainda mais electrificados, betonizados e armados que existem aí, como o muro que separa, contra a lei internacional e as decisões das Nações Unidas, o território ocupado da Palestina. É que esse muro não é só político, é racista, confina famílias separadas a territórios, até que desapareçam.

Não espero que venha um presidente americano a dizer em árabe: eu sou palestiniano; nem espero que venha tanto presidente em regozijo e festa.
Mas seria importante considerar que há mais seres humanos com direitos.

Veja-se também o que a insuspeita BBC mostra em relação a muros existentes:

http://news.bbc.co.uk/2/hi/in_depth/world/2009/walls_around_the_world/default.stm

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Lévi-Strauss


Nambinkwara, in Tristes Trópicos

Morreu Claude Lévi-Strauss aos 100 anos.

Lévi-Strauss é ainda uma referência na Antropologia Cultural.
Os seus trabalhos de investigação começam no Brasil, nos anos 30, para onde foi com a“missão francesa" para a Universidade de S. Paulo, tendo percorrido em várias expedições o Mato Grosso, Amazónia e outras terras, por locais onde raramente tinha penetrado o “homem civilizado”. Por lá, andando a pé ou no dorso de mulas, em locais sem caminhos, na densa floresta, onde se altera a noção de espaço, na sombra colectiva de árvores enormes e outra vegetação entremeada, onde mal se vê o Sol e se pode cair numa ravina imensa inesperada, no meio de bicharada estranha, ruídos e silêncios, encontrou tribos que conviviam com a Natureza, com uma sabedoria, um conhecimento dos sons e dos cheiros e outros sentidos já perdidos pelos homens ocidentais.

Um dos muitos livros publicados, “Tristes Trópicos”, relata essas viagens, onde se sente a nostalgia das culturas que se vão perdendo. Um livro de Etnologia, um romance de aventuras, uma viagem por outros mundos que confrontam visões preconcebidas.

E essa viagem começou quase por um acaso e por uma visão europocentrista, que afinal, por acaso, deu resultado com o homem certo, numa França ainda com pretensões coloniais e civilizadoras e num Brasil que se queria desenvolver e conhecer.

O próprio Lévi-Strauss começa pela Filosofia e conta em Tristes Trópicos , "não tanto por uma verdadeira vocação como por uma repugnância suscitada com outros estudos".Mas "a Filosofia não era ancilla scientiarum, a serva e auxiliar da investigação científica, mas sim uma espécie de contemplação estética por si própria".(...) Deste ponto de vista o ensino filosófico exercitava a inteligência ao mesmo tempo que secava o espírito"

No Outono de 1934 recebe um convite do director da Escola Normal de Paris para apresentar a sua candidatura para ser professor de Sociologia na Universidade de S. Paulo no Brasil. " Os arredores estão cheios de índios, poderá dedicar-lhes os seus fins-de-semana " . Pode parecer ridículo, já que S. Paulo era uma metrópole densamente habitada, mas era assim que se pensava em Paris.
 Foi o começo das longas e penosas viagens de exploração e estudo e mais tarde os E.U.A., onde contacta com a antropologia americana, obrigado a fugir da invasão alemã e Governo de Vichy, especialistas na purga de cérebros, sobretudo se fossem de origem judaica (como era o caso).
E do Brasil, França e EUA partiu para muitos outros mundos.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A República


Assembleia da República.

Governo de diálogo?

Neste país há muita gente com tendência a subverter as palavras.
Há uns anos António Guterres usou a palavra diálogo e logo se banalizou na opinião publicada. Apesar das minhas divergências, estou convencido que era sincero e tentou fazê-lo. Também é preciso ver o contexto: tínhamos saído de governos de Cavaco Silva que dizia que nunca se enganava. Retirou-se Guterres do governo antes de tempo e logo vieram alguns gozar ainda mais com a palavra diálogo. E quando gozam querem dizer que o diálogo é uma fraqueza, algo que não interessa a quem detém o poder. Triste conceito de democracia, falta de humildade perante as votações dos eleitores!
Agora o primeiro-ministro, depois de uma constante atitude de sobranceria e apoio repetido aos ministros e secretários de estado arrogantes volta a falar de diálogo.
Durante o último governo preocuparam-me mais as atitudes intransigentes da ministra da Educação e a atitude continuada de provocação do secretário de estado Valter Lemos, do que as gaffes de Manuel Pinho ou os dislates de Mário Lino.
A ministra da Educação foi-se embora, porque era impossível manter-se pelos estragos que fez. Mesmo alguns próceres do PS já começavam a duvidar de tanta iluminação, tanta reforma inovadora (ou reaccionária), contra quase todos.
Mas este governo manteve muitos e catapultou outros, cujo currículo foi a militância de começar por colar cartazes e continuar a dizer sim. Pelo meio, aparecem outras caras mais simpáticas e com obras noutros lados.
Não são as pessoas em si que me interessam, mas como governantes e as políticas que anunciam e executam.
Um sinal muito mau deste governo, que contraria totalmente a ideia de diálogo (forçado porque o governo não tem maioria e é obrigado a dialogar) é o lugar de secretário de estado de Valter Lemos no Ministério do Trabalho.

Esperemos! Esperar em tempo útil é necessário. Vamos ver o programa, o orçamento, as linhas de actuação e os factos.

Mas pôr alguém que nunca soube dialogar, que fez uma guerrilha constante, usando a demagogia no quotidiano, diabolizando os inimigos que criou, e uma apetência pelo poder já sem rebuços, é mesmo um sinal muito mau, é mesmo uma provocação, como dizia Carvalho da Silva há dias. Aliás, para um primeiro-ministro que se apresenta tão esperto, é uma falha mais na anunciada apaziguação. Mas tem companhia, o homem que gosta de "malhar", embora na sua juventude fosse contra os "capitalistas e generais", frase repetida pelos trotsquistas portugueses de há uns anos. Mas isso foi aquilo que alguns consideram "dislates" da juventude, embora alguns companheiros de antanho pensem que se trata de falta de coerência.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Ainda as Bíblias e os escritores

Falo em bíblias porque, no essencial, o Alcorão (agora há quem diga Corão, mas em português a palavra usada ainda leva o al, como quase todas as outras de origem árabe) é uma outra versão da Bíblia, adaptada a outros crentes, mais recentes historicamente, pois que Maomé viveu muitos séculos depois dos textos estarem fixados (ou não, mas isso é ainda outro problema). E aqui há também que não confundir com o ponto de vista cristão que juntou e dividiu em duas, o Antigo e o Novo Testamento (não é este que está em causa).
Se falamos de Bíblia, em sentido estrito e mais universal, é aquela escrita antes de Jesus (aliás Cristo não escreveu nada e quem escreveu foi muito tempo depois e com escolhas, para que os textos fossem mais coerentes entre si, o que nem sempre se conseguiu).

Só para realçar um pouco a ideia, tanto na Bíblia como no Alcorão os profetas são os mesmos e os anjos também. Aliás, Maomé, que era analfabeto no início, recebeu as mensagens através do anjo Gabriel, o mesmo que anuncia outras coisas e que fala com Maria, também venerada pelos muçulmanos, tal como Jesus para eles é um dos grandes profetas.

Ora o Deus que aparece na Bíblia, nas várias versões antigas, é frequentemente arbitrário e exclusivista, protegendo uns, arrasando outros. Costuma-se dizer que os desígnios de Deus são insondáveis. Trata-se de Fé e contra a Fé, por natureza, não há argumentos racionais, porque não se trata de Lógica mas de Crença.

Escandalizam-se alguns, mas também são parciais. José Rodrigues dos Santos publicou agora um livro explícito no seu título:  Fúria divina. Vende-se mas não dá escândalo. Porquê? Afirma mais ou menos o mesmo que Saramago e vai até mais longe ao referir o Alcorão. Se fosse vendido no Afeganistão ou na Arábia Saudita (clandestinamente claro) certamente teria grandes problemas. Aqui não, felizmente. Nem os muçulmanos portugueses reagiram como alguns católicos em relação a Saramago.

Mas se houver alguém que publique um livro do mesmo género em que se baseie só na Bíblia que os judeus usam seria acusado de anti-semitismo.

Mas afinal não é mais ou menos o mesmo? O Deus dos Exércitos, o Deus arbitrário e vingativo está nestas Bíblias.
Alguns dos que acharam graça às caricaturas de Maomé saídas num jornal dinamarquês e que acharam indmissíveis as reacções de alguns muçulmanos, agora indignam-se com Saramago.
Será que ainda pensam que são o Povo Eleito (bíblico), com exclusão dos outros e que a indentidade portuguesa ou europeia obriga a que sejam castigados os blasfemos e que os restantes façam profissão de fé?

Há quase cem anos (faz este ano) foi proclamada a República com a separação do Estado e das Igrejas. Já antes noutros países também. Na Turquia desde a década de vinte.

Já era tempo de alguns perceberem isso.

sábado, 24 de outubro de 2009

A nova ministra da Educação

Isabel Alçada foi indigitada para Ministra da Educação.
É uma pessoa respeitada, que tem escrito livros para adolescentes e fez um trabalho interessante com o Plano Nacional de Leitura.
Mas apoiou totalmente a política da ex-ministra da Educação.
Vi pessoas entusiasmadas com a nova ministra.
Mas, para lá das simpatias ou antipatias pessoais, não será melhor pensar qual é a política que vai ser seguida, conhecer o programa do governo?
Afinal Maria de Lourdes Rodrigues só lá esteve os quatro anos porque tinha a confiança reiterada do primeiro-ministro.
O primeiro-ministro é o mesmo e não mudou de ideias.

O que vale, não é a nova cara de ministra, o importante é que a Assembleia da República mudou e os partidos da oposição comprometeram-se a mudar a política da Educação. Até aqui o PS era irredutível. Agora vai ter que respeitar a vontade dos eleitores que recusaram a maioria absoluta e as "verdades" incontestáveis e o achincalhamento de quem não estava alinhado.

Vamos ver se os compromissos vão ser assumidos.Só depois de saber o programa do governo, as primeiras medidas em relação aos temas da polémica e a reacção de cada deputado é que poderemos formar opinião.

Até aqui está tudo como dantes. A legislação contestada está em vigor. Se nada mudar logo nas primeiras decisões, então teremos que estar mais atentos e mostrar que os cidadãos estão vivos. Neste governo de continuidade não pode haver dilatação de tempos de espera. Cada dia de espera é o agravar do que já foi feito.

Temos urgência em ver o que vai mudar.
É preciso mais que um sorriso.