terça-feira, 24 de agosto de 2010

Esculturas sem rotundas em Alcoutim

Aqui, em Alcoutim, homenagearam-se figuras da terra ligadas ao rio, como o contrabandista, o pescador e o guarda fiscal.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Cursos médios, bacharéis, licenciados, mestres, doutores


   Já aqui referi que pouco me interessa a relação entre um título académico e a ascensão social, a não ser do ponto de vista de uma análise da sociedade. Um dos problemas do nosso desenvolvimento tem sido até esse. Durante demasiado tempo entregavam-se grandes e pequenos poderes a indivíduos licenciados em Direito, apenas porque o eram e não porque tivessem formação em gestão ou áreas específicas; assim como engenheiros dirigiam empresas em vez de se dedicarem a funções técnicas e por aí adiante. Ainda hoje há quem pense que por alguém ter um determinado título académico pode dar opinião sobre tudo, como se houvesse especialistas em geral.
   Surge este artigo a propósito de uma petição sobre a equiparação dos antigos licenciados a mestres. Há aqui algumas confusões e algumas omissões, omissões essas de que geralmente não se fala, com receio de ofender o vizinho, guardando-se os ressentimentos para pequenos círculos ou as desconfianças e os mal-estares também.
   Não se trata aqui de prosápia nem de piadas sobre quais os melhores cursos e os defeitos dos outros. Mas vejamos exemplos:
   - Antigamente havia os chamados cursos médios: regentes agrícolas, professores primários, enfermeiros. Geralmente ingressava-se nestes com o antigo 5º ano do liceu e faziam-se mais dois anos. Muitos dos que se formaram assim foram promovidos administrativamente a bacharéis. Ora o conceito de bacharel era diferente, implicava uma formação na universidade.
   - Normalmente os cursos superiores (das universidades) tinham dois graus: o bacharelato (três anos) e a licenciatura (mais dois), com a excepção de Medicina (mais um ano) e em tempos arquitectura. Uma licenciatura eram cinco anos e antes do 25 de Abril fazia-se uma tese.
   - Quem quisesse integrar-se no ensino como profissional fazia um estágio de mais dois anos (cinco de licenciatura mais dois de estágio e cadeiras pedagógicas ou ciências de educação).
   - Entretanto começaram a surgir cursos via ensino, primeiro nas faculdades de ciências e depois em novas universidades (curso de cinco anos, com estágio integrado).
   - Com a reforma do Cardia a maior parte das licenciaturas passaram para 4 anos. Os que não estavam nos cursos via ensino faziam o estágio à parte.
   - Vai-se dando uma autêntica explosão do ensino superior com a proliferação de universidades públicas, e sobretudo universidades privadas e a diversidade torna-se cada vez maior.
- Os institutos politécnicos, que inicialmente tinham outros fins, foram conferindo primeiro o grau de bacharel e depois licenciado. As ESEs, que no início formavam professores de 1º ciclo entraram em concorrência directa com as universidades. Foram ainda criados outros cursos, mais ou menos rápidos, que conferiam o grau de licenciatura a quem tinha bacharelato ou equivalente.
   - Os mestrados, quando surgiram, implicavam teses inovadoras e trabalhosas que levavam a que as pessoas geralmente ultrapassassem os quatro anos. Depois houve alguma redução mas o rigor continuava, de tal maneira que a maior parte desistiam sem fazer a dissertação. Doutoramentos eram para poucos.
   Hoje, com o processo de Bolonha uma licenciatura geralmente é de três anos e com mais dois anos obtém-se o grau de mestre, com ou sem dissertação, conforme os cursos.
   A confusão e a trapalhada instalaram-se, mas não foi só agora. Resolver o problema como? Também não sei, como também não percebo bem porque é que não se quis continuar a chamar bacharelato a cursos de três anos. Ou antes, no entender de alguns, bacharelato seria uma designação menor, com menos prestígio. Deve ser esse o motivo já que se foi fazendo o possível para “gastar” o termo. Como se faz agora com as licenciaturas. Basta ver que, segundo o “espírito de Bolonha”, o estudante com uma licenciatura deveria estar preparado para ingressar no mundo do trabalho. Em Portugal na maior parte dos casos não é assim: transformou-se a licenciatura numa etapa.
   Promover administrativamente todos os licenciados a mestres, quando já as licenciaturas não eram iguais? E depois, os que já eram mestres passam a doutorados e os antigos doutorados passam a quê? Inventamos outra designação? E depois quem reconhece o quê?
   Já não vivemos neste Portugal autocrático e pequenino em que uma minoria estudava e tinha lugar certo. Quem tira um curso deveria poder estar preparado para o mercado de trabalho, pelo menos europeu. É também esse o “espírito de Bolonha”. Se nos preocuparmos apenas com títulos académicos, sucessivamente desvalorizados, qualquer dia ninguém lhes liga.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Um outro Algarve

Um Algarve sem Scuts, com nomes muito concretos (Eira) ou que provavelmente vêm de outras línguas que já não se falam por aqui.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

As novas oportunidades


   Não vou dizer nada de novo mas estou farto de ouvir palavras matraqueadas sem um sentido racional, um chorrilho de preconceitos que não me agradam.
   Mas também expresso dúvidas, até porque não tenho dados credíveis. O exercício que aqui faço tem pouco fundamento, mas um pouco mais do que as mensagens que tenho recebido sobre o facilitismo, que também não fundamentam a opinião.
   Há um exercício que faço: o pôr em dúvida as opiniões, entre as quais a minha. Sou contra o relativismo, aquela ideia que no meio está a virtude, qualquer que seja a opinião. Nem todas as opiniões têm o mesmo valor: há umas que são fundamentadas e outras não, há algumas que merecem dúvidas, outras que carecem de prova, outras ainda são apenas qualquer coisa primária, apenas uma expressão de uma ideologia sem disfarces. As dicotomias são perigosas também, porque expressas de uma forma autoritária, em que não se apela à consciência mas a uma tomada de posição.
   Ao longo da História, em Portugal, mas não só, os diplomas têm tido várias funções, entre as quais destaco: a certificação de conhecimentos ou competências e a promoção social. Durante muito tempo a última foi decisiva e, em parte, ainda é.
   Nascia-se numa determinada família ou a família tinha uma estratégia que levava os jovens a estudar e, seguindo naturalmente o percurso ou furando todos os estigmas e recorrendo a todos os meios possíveis, económicos ou outros, conseguia-se estudar e, no final, uma promoção social. Nada fácil para muitos, num país que apenas tinha três universidades até ao 25 de Abril, fora a Universidade Católica e outros institutos que ainda contavam pouco. Os liceus ainda eram escassos, praticamente o único meio de se chegar à universidade. As escolas técnicas eram desvalorizadas.
   Não sou daqueles que pensam que antes era só rigor e conhecimentos. Não podemos esquecer o contexto de uma sociedade onde pouco se promovia o ensino e continuava a censura política, moral, científica … e uma hierarquia social ainda rígida. Nem sempre os melhores eram promovidos, o que não significa que os promovidos o fossem só por facilitismo ou por pertencerem a determinado grupo.
   Pertenço a uma geração que viu muitos ficarem pelo caminho, não por serem menos inteligentes ou menos esforçados, mas simplesmente porque não podiam continuar a estudar. Não quer dizer que, só por isso fossem melhores, mas nem o Estado nem a sociedade ou as famílias o permitiram.
   Tenho conhecido pessoas que ao longo da vida foram aprendendo, foram fazendo … Fala-se de Saramago; não foi isso que fez? Fala-se aqui (ou já se fala menos) de Túlio Espanca, que tantos estudos publicou, embora apenas tivesse o diploma da 4ª classe.
   Há tantas pessoas que merecem ser certificadas, tantas que têm o direito de aprender. O que precisam ,e muitos exigem, é ter uma certificação digna.
   Não se confunda hierarquia social, diplomas e facilidades ou dificuldades. Não se confundam preconceitos com saber e mérito.
Há também que haver melhores estudos para falarmos com deve ser.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Quadras

Estive, até há pouco tempo, num Curso de Formação Especializada em Bibliotecas Escolares. Houve um dia, ou uma noite, que depois de uma sessão contínua (Março de 2009), cheguei a casa e fiz estas quadras, já que não conseguia dormir, depois de ter mal dormido.

Quadras sem escárnio, com um pouco de mal dizer.

Oiçam senhoras e senhores
Esta estória de pasmar:
Todos são professores
E não se fartam a trabalhar.

Já lá vem a bela infanta
E o D. Quixote no Rucinante.
Um computa, outra canta,
O caminho é pra diante.

Já os pássaros fazem ninhos,
Anda o capuchinho de cinzento.
Vão por todos os caminhos,
À espera do grande momento!

É a wiki para aqui,
É o fórum para acolá,
É da biblioteca para ali,
É da ESE para lá.

Já em Viseu não cai a neve,
Nem nas Caldas vive a rainha.
Quem pensou que isto era leve,
Já nem juízo tinha!

De Évora, Beja e arredores
Há projectos mil e um.
Ninguém liga a pormenores,
Anda tudo num trinta e um.

(Epílogo)
Até fazer :
Pim!
Pam!
Pum!

Tudo ao molho e a tempo inteiro


Num país onde para resolver problemas simples em tribunais se demoram anos e anos, onde está inscrito na Constituição há 35 anos a regionalização e outras coisas de que se fala de vez em quando, onde se discute de vez em quando a reabilitação de centros urbanos a cair há décadas, onde ciclicamente se promete uma reforma eleitoral que aproxime eleitos dos eleitores … tomam-se rapidamente medidas sobre Educação que podem afectar a vida de centenas de milhares de pessoas.
Poderá isto parecer um pouco de demagogia, porque só se deve comparar o que é comparável. Mas o erro é habitual. Sem uma avaliação suficiente, sem conhecer a realidade do país, tomam-se, por vezes medidas drásticas, neste caso no ensino.
A resolução do Conselho de Ministros nº 44/2010:
Assim, determina -se que as escolas do 1.º ciclo do ensino básico devem funcionar com, pelo menos, 21 alunos. Esta orientação permitirá encerrar, até ao final do ano lectivo de 2010 -2011, aquelas escolas cuja dimensão prejudica o sucesso escolar dos seus alunos
Num país envelhecido isto significa que aldeias com perto de mil habitantes ficam sem escola; significa que milhares de aldeias vão ficar sem escola, que vão crianças de 5, 6 … anos andar todos os dias dezenas de quilómetros, esperando uns pelos outros, levantando-se às seis, sete da manhã e regressando ao fim da tarde. Isto, num país onde as câmaras municipais estão quase na falência ou pelo menos descapitalizadas, sem dinheiro para arranjar mais transportes nem proceder à manutenção de estradas.
Se tivémos um êxodo rural desde os anos 50, este governo continua a provocar a continuação deste êxodo, com as populações a ficar sem serviços de saúde, de educação, policiamento … nada, a não ser umas paisagens humanizadas com alguns velhos que por ali perduram, no meio de umas ruas desertas, umas capelas a cair, um silêncio e ar puro, quase ideal para quem gosta de Arqueologia, recordar memórias antigas ou simplesmente tirar umas fotografias exóticas e apreciar o turismo rural, a panaceia do desenvolvimento. Um fim-de-semana para turistas, uma fuga e um adeus para os que lá vivem, um sonho que acabou para os que pensaram ainda em regressar.
No entanto, repare-se: será que Portugal tem um interior com um destino de decadência inelutável? Será que o nosso interior é mais periférico que as aldeias da Finlândia, onde se vive?
Cite-se ainda, a grande preocupação do legislador:
“Todos os alunos devem frequentar espaços dotados de refeitório, de biblioteca e de sala de informática, espaços adequados para o ensino do inglês, da música e da prática desportiva. Pretende -se, com esta resolução, garantir que todos os alunos frequentem espaços que permitam a concretização da escola a tempo inteiro e que promovam uma efectiva igualdade de oportunidades.”
As grandes preocupações são a informática, o inglês (nada sobre outras áreas de conhecimento), refeitórios, as bibliotecas. Será que estas últimas passarão a ser um centro de entretenimento permanente, pejadas de computadores, mas quase sem livros, visto que, exceptuando a Gulbenkian, quase ninguém tem interesse em disponibilizar verbas para mais aquisições. Exceptue-se também o Plano Nacional de Leitura, para os alunos mais novos, onde é aconselhado a todos na mesma turma a ler o mesmo, à mesma hora.
Mas a resolução vai mais longe ainda, como se não bastasse:
pretende –se adequar os projectos educativos ao objectivo de uma escolaridade de 12 anos para todos. Torna -se necessário promover condições para a criação e consolidação de unidades de gestão que integrem todos os níveis de ensino e que permitam a um aluno completar a escolaridade obrigatória no mesmo agrupamento de escolas.
Nesse sentido, esta resolução estabelece critérios que promovem a existência de agrupamentos verticais, que devem incluir, quando possível, todos os níveis de ensino e que possibilitam a concretização de projectos educativos para um percurso formativo que se inicia na educação pré- escolar e se estende até ao ensino secundário.
Agrupamento enormes, um único agrupamento em concelhos com mais de 1000 km² de extensão, como no Alentejo e noutras regiões, várias escolas, de vários ciclos, juntas.
Há anos que se fala e se escreve sobre autonomia das escolas. De uma penada destrói-se o que se foi fazendo, acaba-se com práticas de escolas que foram criando a sua própria cultura, projectos em curso, experiências de gestão que não chegam ao fim. Escolas secundárias que foram alvo de profundas obras de reestruturação vêem agora entrar meninos do 1º ciclo, o que vai obrigar a novas alterações dos espaços e da gestão dos mesmos.
Será útil misturar crianças de 5, 6 anos com alunos jovens de 17, 18?
Vai-se ainda infantilizar mais os jovens?
Não creio que os objectivos sejam só economicistas. Parece que há uma vontade de controlar tudo, não deixar tempo para os alunos pensarem, lerem com tempo um livro, discutirem entre si, desenvolverem projectos sem ter um adulto em cima, algum sossego para consolidar conhecimentos, sem o ruído constante de múltiplos cartazes, contos da carochinha censurados e infantilizados, computadores com muita cor, movimento e som, como panaceia para a falta de ideias e disfarce de plágios.
Parece a consagração oficial da imagem da “mãe-galinha”, que não deixa o menino autonomizar-se e crescer sabendo, trocando o medo da possível nova experiência do rebento, pelo controle através da brincadeira constante.
No fundo, uma violência! Uma fábrica de pensamento unidimensional, apresentada como a mais moderna, mais divertida e mais integradora.
 

terça-feira, 22 de junho de 2010

A propósito de Saramago

   A primeira vez que vi José Saramago foi no Anfiteatro 1 da Faculdade de Letras de Lisboa, pouco tempo depois do 25 de Novembro de 1975, talvez em Dezembro ou já Janeiro de 1976. Eram vários jornalistas e escritores, que também escreviam para os jornais. Tinham sido despedidos em massa no próprio dia 25 de Novembro, sem direito a qualquer indemnização nem explicação. Se alguns, como Urbano Tavares Rodrigues, tinham outra profissão, no caso professor na Faculdade de Letras, outros como Saramago, estavam quase na miséria, mas a renascer das cinzas. O Diário de Notícias voltou a ser o que era, um órgão do regime, O Século acabaria pouco tempo depois.

   Nesse tempo, havia na Faculdade, inúmeras conferências e colóquios, organizados por estudantes e professores. “Anti-académicos, como José Gomes Ferreira, ou mais frequentadores de outras tertúlias, como Manuel da Fonseca, contavam histórias de encantar, um com o seu irreal quotidiano, outro com o seu quotidiano mais concreto, do heróico ao picaresco, relatando com humor coisas do Alentejo, Lisboa e outras desvairadas partes. Nestas sessões e noutras, onde se discutia o futuro e os projectos da Faculdade e a sua intervenção no país, iam também professores e escritores, como os seus cachimbos, como Manuel Ferreira e David Mourão-Ferreira. Investigadores como Jacinto do Prado Coelho e, sobretudo, Lindley Cintra, cuja intervenção cívica, antes e depois do 25 de Abril, seja pela literatura, pela sua postura face ao autoritarismo anterior ou pela alfabetização, não é de somenos recordar. António José Saraiva passeava-se por onde lhe apetecia, parando quando e onde calhava, porque tinha uma nova ideia ou revisto as ideias dos dias anteriores. Nas aulas, a que assisti, faltando a outras, visto que não era seu aluno, falava de temas do início ou do fim do programa ou até fora dele, mais frequentemente e desligava o aparelho auditivo quando não estava para aturar cópias de trabalhos pouco interessantes. Depois recebíamos ainda outras e outras visitas, cantores, músicos, nacionais, estrangeiros, espanhóis ainda em tempo de ditadura e até Álvaro Cunhal lá foi falar de arte e literatura, perante uma plateia onde havia tantos de extrema-esquerda, que o respeitaram, coisa menos habitual. Refiro-me apenas a acontecimentos relacionados com a Literatura, pois noutras áreas ia sucedendo o mesmo.

   Nesse ano, organizou-se um grupo de jovens, o Movimento Alfa que, no Verão, partiu (éramos centenas) para a alfabetização no interior do país, sobretudo no Alentejo.
Experiências marcantes, que levaram muitos a apreciarem pequenas grandes coisas desta vida!

   A impressão que tive de Saramago, na época ainda pouco conhecido, é que era um homem de convicções, que não desistia de lutar, com método. Mais tarde vi-o, já célebre e polémico ou polemizado, naquele confronto antigo entre os “castiços” que sabem tudo e desprezam os outros com a mesma intensidade e os outros, apelidados de “estrangeirados”, mas que apenas querem agitar um pouco as águas, com algumas “pedradas no charco”.

   Parecia um pouco duro na expressão do rosto, mas era a dureza da vida de quem não nasceu em berço de ouro nem de família. Afinal, era um homem simples, afável sem salamaleques “académicos”, sem dívidas para com as elites, que falava, escrevia e intervinha, perseguindo uma Utopia, mas com os pés na terra, mesmo na terra vulcânica, mesmo com saudades das terras do Ribatejo, Alentejo, Lisboa e outras gentes, a que regressava sempre que necessário.
E que continue a regressar, com a sua obra e o seu exemplo!

Morreu Saramago; Viva Saramago!

domingo, 13 de junho de 2010

Camões, dia de Portugal e o Ultramar.


   Este já chegou a ser o dia da Raça, coisa mal explicada, porque o Estado Novo sempre falava numa Pátria pluricontinental, onde caberiam todos os que fossem patriotas à maneira oficial, apesar do Estatuto Colonial que definia claramente que havia portugueses (e alguns de segunda), assimilados e indígenas, estes considerados como uma espécie de crianças que haveriam de ser evangelizados, mas que serviam claramente para trabalhar. Eram anti-patriotas e, portanto, não portugueses, os que se opunham. Era assim a lei e mais ainda a prática consolidada de décadas, em que já era difícil acreditar que Portugal pudesse ter algumas coisas que os outros já tinham há muito . Já a escravatura tinha acabado a contragosto no século XIX, mas continuavam nas colónias os “contratados”, isto é aqueles que eram apanhados sem um cartão de trabalho e se viam obrigados a trabalhar por um salário qualquer nas roças. Os que iam trabalhar para os cafezais do Norte de Angola ou para S. Tomé, geralmente ficavam a dever dinheiro ao patrão que tinha um empregado ou sócio na cantina que lhes vendia comida ou vinho à colher pelo preço que lhe convinha, e tinham que prolongar o contrato, além de levar umas pauladas.
Quando oiço falar de Ultramar lembro-me também de uma senhora que fazia limpezas e era analfabeta, como tantos neste Alentejo e em todo o país, mais ainda em Timor que no Minho e que tinha um filho em Angola na tropa, coisa generalizada que demorava aí uns quatro anos. Dizia ela ao ouvir um fado na telefonia, talvez do António Mourão, num programa chamado Música no Trabalho: “Ai senhora, até a música no “Tramar” é triste!
   Neste país “vivia-se como habitualmente”. Nos anos sessenta e até mais tarde, nas tardes de Junho, nas vilas do Alentejo, não se ouvia nem se via quase nada, a não ser uma ou outra carroça puxada por mulas, a chiar, passando pelas covas das calçadas ou dos terreiros, que raras eram as alcatroadas ou calçadas, em algumas corriam ainda esgotos, via-se um ou outro rapaz, às vezes em grupos, daqueles que não estavam a trabalhar, porque a maior parte da população estava no campo, onde já havia máquinas, mas muitos ainda ceifavam com foice, outros estariam nas eiras, separando o trigo e levantando a palha e a poeira e limpando o suor com o lenço. Os divertimentos dos rapazes eram os da imaginação: jogar ao pião, aos cowboys, andar à pedrada aos gatos ou aos ninhos, fumar uns mata-ratos às escondidas … Os mancebos (assim apareciam nos editais), com 20 anos iam para a tropa, alguns voluntários até mais cedo, para Angola, Moçambique, Guiné, os mais sortudos para Cabo Verde ou S. Tomé ou ainda para Timor, onde a população ainda gostava dos portugueses porque os deixavam viver como no século XVI, ao contrário dos japoneses que lá estiveram na 2ª guerra mundial, que matavam qualquer um só por pisar a sombra deles.
   O dez de Junho era também feriado. Alguns homens iam a cafés ou tabernas, onde, em poucos, se ouviam os discursos patrióticos no único canal de televisão, em que se impunham medalhas a mortos, recebidos pelas viúvas dos militares. Bebia-se vinho de pouca qualidade ou “a martelo”, de marcas como Camilo Alves, até porque o proteccionismo estatal não deixava cultivar vinhas na maior parte do Alentejo (Borba, Vidigueira, Redondo … eram excepções).
O entusiasmo pelos discursos era pequeno, a não ser um ou outro que pensava subir na vida, tecendo elogios a pequenos senhores. Também havia alguns convencidos mas o entusiasmo de “Angola é Nossa já estava fora de moda. A reacção também não era muita, até porque o vizinho do lado poderia ser informador da PIDE. Silêncio e copos, ou conversas mais entusiasmadas sobre o futebol ouvido nos relatos da rádio ou então sobre os feitos dos forcados e cavaleiros nas touradas.
   Do calor e das moscas varejeiras, que Fialho tão bem descreveu, dos salários e trabalhos medievais, da ordem e da vida controlada, do espírito ao corpo, aos passos e espaços, o controlo social, do regime, dos senhores, dos padres, dos moralistas, das vizinhas e vizinhos, muitos já tinham fugido em desespero. Alguns para França, como na maior parte do país, mas estes, por aqui, mais para a Margem Sul de Lisboa: Barreiro, Fogueteiro, Samouco …, que dinheiro para ir mais longe não havia e, se o houvesse, ainda era preciso ir a salto, porque ter um passaporte era coisa para muito poucos, que o regime não gostava de grandes andanças.
   Era um pouco assim este país onde alguns se orgulhavam do Ultramar, onde gerações de jovens (mais de 800000) perderam alguma inocência, pernas, braços e até a vida, outros que ainda hoje sonham obsessivamente com o que lá se passou, outros (e não foram poucos) que por motivos políticos ou em desespero tomaram os caminhos de França e do resto do mundo. Um país, onde a segunda cidade mais habitada por portugueses eram os “bidonvilles” de Paris, um país que perdeu mais de um milhão de pessoas que emigraram, um país onde nos manuais escolares se falava das grandes obras do Estado Novo, como a única auto-estrada de Lisboa a Vila Franca, mas em que na maior parte das aldeias ainda não havia electricidade, esgotos e água canalizada, habitado por camponeses em fuga. 
Quase por ironia, festejava-se o dia em que Camões morreu, mas não se dava o direito  de o ler à maioria, num país de 40% de analfabetos ainda no início dos anos 70.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Lobos, javardos e cornudos

   
   Há uma frase antiga, homo lupus homini, o homem é o lobo do homem. Tomara que fosse! Neste país onde tantos pequenos e grandes poderes crescem, lembrando hábitos antigos que não foram erradicados, pequenos e grandes poderes sobrepostos e desorientados que exigem “evidências”, que ordenam e desordenam, fazem leis próprias para serem interpretadas subjectiva e contraditoriamente, verborreiam, exibem o seu poder pelo poder, confundem teimosia ignorante com persistência e fazem dos outros súbditos, de quem se espera que fiquem encantados com as “iluminações” do momento, que há-de ser contraditório com o que se afirmou ontem e se nega amanhã. Amanhã, a começar por hoje, pode ser que, com pessimismo também, se vão juntando alguns para correr com a mediocridade e alcançar alguma Utopia, não numa ilha distante, mas por aqui.

   Começamos muitos a estar demasiados fartos destes autoritarismos dispersos e de pensamentos únicos.

   Entretanto falemos de animais e de gente que dá pouco nas vistas, que não anda na febre das “evidências” imediatas, para tentar ofuscar outros com “power points” e outros estardalhaços que aumentam a vaidade e ruído na comunicação.

   Falemos de lobos e javardos e de alguns cornudos também. Dos verdadeiros, que só são selvagens, porque vivem in silvis e quanto mais estão fora desses espaços mais “humanizados” se tornam, adquirindo maiores perversões, dependendo, claro, dos humanos que os controlam ou submetem.

   As imagens que se seguem são da Tapada de Mafra, onde se tem preservado e recuperado a flora, os javalis, os veados, gamos …, bufos (genuínos), outras aves de rapina e o Centro de Recuperação do Lobo Ibérico. Aqui se vêem javalis um pouco gulosos, mais à procura de qualquer coisa de comer do que a investir contra alguém, um lobo mais velho a apanhar sol, uma loba jovem curiosa, um irmão desta mais tímido …

   Dentro das possibilidades, com muita persistência, muito tempo de estudo, medidas sem “evidências” imediatas, fazem-se aqui trabalhos fundamentais. Há gente neste país que faz coisas boas! Desfazem-se preconceitos e contribui-se para o conhecimento!

Ver:
www.tapadademafra.pt

http://lobo.fc.ul.pt

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Hino de Riego. Hino da revolução liberal e da República Espanhola

Agora que em Espanha a extrema-direita, a começar pela Falange (porque é que ainda existe?), pretende silenciar o juiz Baltazar Garzon e, sobretudo a memória das centenas de milhares de pessoas fuziladas, bombardeadas, torturadas, durante e após a guerra civil (1936-39), recordemos que a Espanha já teve outro Hino Nacional, oficial após a revolução liberal de 1820 (no mesmo ano que a portuguesa) e durante a 2ª República (1931-39):
O Hino de Riego

Encontrei também, por acaso, uma busto de homenagem ao general liberal Riego, em Oviedo.

sábado, 17 de abril de 2010

D. Pedro, Um herói romântico.


Agora que se comemora a República, que se fez contra a monarquia, mas também pela Regeneração de Portugal e pelos ideais de cidadania, lembremos que algumas dessas ideias já existiam antes, com formas e práticas, obviamente diferentes.
D. Pedro foi uma figura singular e contraditória. Não sei porque é que em Portugal ou no Brasil não se fez um filme a sério sobre esta figura. Talvez tenha faltado aqui um Visconti para retratar toda esta comédia e tragédia. Os ingredientes dessa história pessoal, familiar e nacional (ais) poderiam dar imensas ou inúmeras obras, onde não falta o drama, a intriga e o clímax.
Neto de uma rainha que ensandeceu e que chegou ao Brasil com uma corte com senhoras carecas, devido à praga de piolhos, situação que em S. Salvador da Bahia de Todos os Santos (grandes nomes, um pouco como o da Cidade do Santo Nome de Deus de Macau), levou a que as senhoras da elite pensassem que era moda na Europa, até porque nenhum rei ou corte tinha entretanto chegado às Américas. Seu pai, algo compulsivo na arte de comer frangos e de algum aparente desprezo pela política, coisa que muitos portugueses ainda se sentem herdeiros, soube fazer o que os seus parentes espanhóis não conseguiram: preservar o trono. Aqueles, ao contrário deixaram-se prender por Napoleão, que os substituiu por um seu irmão. Entretanto a única da família Bourbon que escapou tornou-se rainha de Portugal, D. Carlota Joaquina, mãe de D. Pedro e D. Miguel, havendo até quem a quisesse para rainha de Espanha ou até para rainha para os lados do rio da Prata. Só que ela não gostava de liberais argentinos, nem da América em geral, nem do marido, que em troca lhe chamava megera. D. João VI ou os seus ministros, entretanto aproveitaram para alargar o Brasil, conquistando terras aos espanhóis ou ao que restava deles, a província Cisplatina, hoje chamada Uruguai e investindo também na Guiana Francesa, alargando a Amazónia. Por cá deixou os portugueses entregues aos franceses e também aos espanhóis, que primeiro aproveitaram e depois se tornaram amigos, se bem que tivessem ficado com Olivença, libertada e depois entregue a Espanha pelos ingleses que ficaram aqui a mandar neste protectorado.
D. Pedro lá foi crescendo no Brasil com o seu irmão D. Miguel, que as más-línguas diziam que era apenas meio-irmão, e talvez pelos calores, talvez por uma tradição herdada de outros seus ascendentes, como D. João V, que gostava de freiras, mas não de uma qualquer, ou de D. José que se interessava pelas Távoras, tendo ainda apanhado um tiro, no coche pelo menos, dizíamos, D. Pedro foi-se interessando pelas senhoras mais jovens, que dado o interesse, também lhe cresciam as respectivas barrigas, em particular a Marquesa de Santos. Não foi tradição que tivesse acabado, pois um seu descendente D. Carlos, também não se esquecia de quase nenhuma, senhora ou criada. O seu irmão, nem tanto, preferia touradas e tradição. Um castiço.
Com a revolução liberal, em 1820, Portugal incendeia-se em entusiasmos liberais e no Brasil também, pelo menos alguns que podiam e não eram escravos.
D. Pedro, educado para ser absolutista, desconfiado dos liberais radicais, mas liberal conservador, proclama a independência, depois de dizer Fico, perante o ultimatum das cortes em Lisboa.
Proclama a independência do Brasil, do alto de um cavalo, em Ipiranga, hoje um bairro de S. Paulo e escreve uma Carta Constitucional para o Brasil. Após a morte do pai, torna-se rei de Portugal, o que não agrada aos portugueses do Brasil, agora brasileiros. Dá o trono a sua filha, D. Maria, visto que o filho mais velho lhe sucederia no Brasil, filha esta que casaria com D. Miguel, depois de jurada a Carta Constitucional, o que este fez, para logo a seguir proclamar o absolutismo.
Depois das perseguições habituais nestas circunstâncias, com o “malhados” (liberais) a serem malhados constantemente, prisões e enforcamentos incluídos, outros a fugiram do país, quando podiam, D. Pedro regressa à frente de voluntários e mercenários, outros que a pouco e pouco vêem que os ventos estão a mudar, e implanta definitivamente o liberalismo, nacionalizando conventos e outros bens, com reformas que mudaram a face do país, se bem que com alguns aproveitamentos particulares e outras guerras e guerrilhas que se seguiriam até meados do século.
D. Pedro foi herói libertador do Brasil, imperador liberal, acusado depois de ditador, abdicou do Império, abdicou do título de rei de Portugal também, fez uma Carta constitucional para o Brasil, fez uma Carta Constitucional para Portugal, como músico que era (à semelhança de D. João IV), fez um hino para o Brasil, outro para Portugal. Morreu novo, como duque de Bragança.
Os hinos das monarquias liberais do Brasil e de Portugal falam também da Liberdade e da Constituição, coisa que os monárquicos miguelistas sempre abominaram.


Alexandre Herculano. Esquecido!?

Este ano seria o das comemorações do nascimento de Alexandre Herculano. Historiador, escritor, um dos "bravos do Mindelo", que participou ao lado de D. Pedro na luta contra o Antigo Regime miguelista, depois de passar por um exílio, visto que o poder absolutista não admitia a cidadania. Lutou pelas suas convicções políticas sempre,até ao seu "exílio" voluntário, em Vale de Lobos, onde se dedicava à agricultura, à História e à Literatura, recusando cargos honoríficos e títulos. Sem ele muitos documentos de arquivos teriam tido um triste fim. Não se preocupou com festarolas constantes nem estardalhaços inúteis, mas fez muito mais por bibliotecas (a da Ajuda, por exemplo), arquivos, pelo património, pela investigação, com um método rigoroso, do que muitos retóricos habituais seus contemporâneos. Tornou-se pessimista dizendo: "quanto mais conheço os homens, mais estimo os animais". Mesmo assim intervinha discretamente; não desistia.  Alguns ainda não lhe perdoaram, querendo remetê-lo para o esquecimento. Usual neste país, onde expor as ideias, discutir e intervir é ainda coisa mal vista, mesmo por alguns (ou algumas) que anunciam revoluções que descobriram há pouco, querendo que todos e todas obedeçam, e com elogios, à sua voz iluminada de comando.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Para dormir?

Três músicas para embalar crianças.
Uma é de Trás-os-Montes, cantada em mirandês, pela Brigada Vítor Jara. O mirandês é falado em Portugal, mas é uma variante do leonês, língua em parte absorvida pelo castelhano, em Espanha. Nela uma mulher canta para o menino mas marca um encontro com o amante junto ao moinho.


Na segunda, que é a mesma, numa versão galega, uma língua falada em Espanha (ou será que é uma variante do português?), fala-se em moinho e menino e não molino ou niño como na portuguesa.


Na última, turca, ou antes de judeus espanhóis, cantada em ladino, também se canta a uma criança (menina). Só que esses judeus sefarditas, não eram apenas do actual estado espanhol: eram também portugueses. Durante séculos castelhanos,catalães, portugueses ... consideravam-se espanhóis, porque eram da Península Ibérica, Espanha ou as Espanhas, Al-Andaluz em árabe, Sefarad em língua judaica. Repare-se que não se diz duerme, como em castelhano, mas durme e escola e não escuela.

sábado, 10 de abril de 2010

A Igreja Católica e os escândalos pedófilos

Dou uma importância relativa a certas explicações que relacionam a Igreja Católica e o celibato dos sacerdotes com a homossexualidade, pedofilia, assédio sexual e outras.
   São coisas diferentes e cada uma merece uma explicação, se a houver, já que o ser humano não é propriamente o “homo sapiens”, antes aproximando-se da definição de “homo demens”. Nem todos, nem a maior parte, certamente. E, em termos de Estado de Direito, teremos que começar com as responsabilidades individuais, sob pena de andarmos a procurar culpas colectivas que podem levar à desresponsabilização, aquilo que na linguagem comum é traduzido como a “culpa morreu solteira”.
    Na história da Igreja Católica há uma obsessão com o sexo, proibido para solteiros, oficializado e permitido com casais heterossexuais, mas regulado incessantemente. Nas igrejas protestantes também, sobretudo entre puritanos ou calvinistas, que transformaram este mundo no crescimento incessante do capitalismo. Muitos muçulmanos e judeus fizeram interdições. Basta ler os Livros, seja a Bíblia, o Alcorão, a Tora e, sobretudo, as práticas. Nem sempre foi assim: mesmo naquilo que chamamos matriz europeia (e não só), nas culturas grega e latina clássicas, o sexo era encarado de modo diferente. Basta visitar Pompeia ou a ilha de Delos para ver que a sexualidade era mais “natural”, do que os séculos que se seguiram.
Não é só na Igreja Católica que há sinais de pedofilia. Entre outros também, mas não relativizemos a questão.
    Um dos problemas, que não explica tudo, é a relação entre um poder não contestado e o sexo, sobretudo com uma moral repressora e a manutenção desse poder que leva a desprezar as vítimas e a esconder os abusos, ainda que com o esquecimento de princípios constantemente apregoados.
    Vejamos o caso da Irlanda. Uma luta secular pela independência e contra o colonialismo inglês e protestante levou a que os irlandeses transferissem parte do seu poder como cidadãos para a Igreja Católica, incontestada assim. Isso permitiu que orfanatos dirigidos por padres pudessem fazer o que queriam com crianças que nunca poderiam exigir nada, nem denunciar nada porque ninguém os ouviria. Como também por cá, como noutros lugares.
    O problema não é a religião mas o poder, os ambientes totalitários, concentracionários, católicos ou outros, que permitem que as vítimas possam ser sujeitas a sevícias várias. Uma ou outra prática ou moral religiosa pode agravar, mas o poder incontestado é que permite situações destas.
   Portanto, procuremos primeiro os indivíduos e depois passemos, sem esquecer, às hierarquias, às conivências e aos silêncios.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Senhora de Aracelis





Nesta capela e sobretudo no espaço circundante, festejam os agricultores dos concelhos de Mértola e Ourique, em finais de Agosto, a divindade da Agricultura. É a senhora de Aracelis, Ara Coelis, o Altar do Céu, como poderia ter sido Ceres, Ísis ou a Deusa-Mãe.

Segundo a lenda dela se avistam mais seis irmãs(os), perfazendo sete, número mágico. Os nomes variam, mas há um relato que me parece mais adequado: são elas S. Barão, Senhora das Neves, Senhora do Amparo ou São Brissos (Veríssimo), no concelho de Mértola, Senhora de Guadalupe, em Serpa, S. Pedro das Cabeças, em Castro Verde.
Cultos antigos que se mantiveram, uns mais ligados à agricultura, outros à pastorícia, como o culto da senhora de Guadalupe, em que pastores encontraram uma Senhora morena (seria árabe, moçárabe?), um santo eremita local que ajudava os casados a terem filhos, S. Barão (o homem), S. Pedro das Cabeças, onde se festeja o milagre e mito fundador da Pátria (batalha de Ourique). Marcam uma região, “os campos brancos”, em grande parte os antigamente chamados Campos de Ourique, uma comunidade, onde se pastoreavam rebanhos, provindos do Norte de Portugal ou de Espanha, na época da transumância

terça-feira, 6 de abril de 2010

Virgen de Piedras Albas. Castillejos, Andaluzia

Domingo de Páscoa. Reencontro das famílias espalhadas por Madrid, Catalunha, por tantos lados. Gente que daqui saiu, porque também aqui o êxodo rural deixou estas terras quase só com alguns velhos.
Vestem-se eles e elas à andaluza, comem e bebem em cima dos cavalos ou a pé, cantam dançam, rezam, disputam os lugares no andor. Seguem a tradição com música de um tamborileiro e dançarinos a preceito.
A senhora triunfa, Cristo é apenas é apenas uma figura pequenina.

Hábitos diferentes

Ontem estive com um casal amigo que vive em Inglaterra. Ela é portuguesa e ele inglês. Vinham acompanhados das filhas, pois estão em férias.
A mais nova está no 11º ano. Tem disciplinas de ciências e humanidades. No final do ano vai para um novo ciclo de estudos, 12º e 13º anos, em que escolherá quatro disciplinas, num ensino mais especializado, antes de entrar na universidade. Depois, poderá entrar ou fazer um ano de voluntariado ou outras actividades, dentro ou fora do país, o que também é tido em consideração por algumas faculdades.
Os professores (penso que um professor-tutor), marcou-lhe 6 horas de estudos diárias, enquanto estivesse nestas “férias”. Não foi preciso ninguém lhe dizer, aqui, que tinha que ir para casa estudar. Foi, porque está habituada, porque os pais a habituaram e porque não põe em causa a recomendação ou ordem do professor para estudar, mesmo não estando ninguém a vigiá-la numa pretensa “escola a tempo inteiro”.

Reflexões sobre o ensino secundário (cursos científico-humanísticos)- 3


Uma disciplina que todos os alunos dos cursos científico-humanísticos têm no seu percurso, ao longo dos três anos, é a disciplina de Português, disciplina fulcral, já que todo o ensino, com excepção óbvia das línguas estrangeiras, é feito na língua materna, contribuindo todas as disciplinas ( e o que se fala e escreve em casa …) para a literacia na língua materna.
O programa em vigor, propõe um diagnóstico inicial no décimo aluno e refere as competências que devem ser avaliadas também no início. Por exemplo:
compreensão oral
. identificar a intenção comunicativa do interlocutor;
. saber escutar e compreender géneros formais e públicos do oral;
. saber escutar criticamente discursos orais, identificando factos, opiniões e enunciados persuasivos.
Ou
expressão escrita
. dominar técnicas fundamentais de escrita compositiva:
- organizar o texto em períodos e parágrafos, exprimindo apropriadamente
os nexos temporais e lógicos;
- escrever com correcção ortográfica, morfológica e sintáctica;
- usar vocabulário apropriado e preciso;
- aplicar correctamente regras básicas da pontuação
Ou ainda:
– funcionamento da língua
. identificar classes e subclasses de palavras;
. reconhecer o valor polissémico das realizações lexicais;
. dominar os paradigmas da flexão nominal, adjectival e verbal;
. identificar modos e tempos verbais em frases simples e complexas;
. reconhecer funções sintácticas nucleares;
. distinguir relações de coordenação e de subordinação.
Uma observação simples, a experiência relatada ou efectuada no terreno, indica que a maior parte dos alunos não atingiram suficientemente estas competências. Mais, os testes internacionais PISA quando medem a literacia (alunos com 15 anos),chegam a conclusões destas, como no PISA, 2001:
[…] cerca de 60% dos jovens de 15 anos no espaço da OCDE são bem sucedidos na realização das tarefas correspondentes a estes três níveis. Mas esta percentagem varia muito de país para país (PISA, 2001, pág. 5)..
Em Portugal, bem assim como no Brasil, na Grécia, na Letónia, no Luxemburgo, no México e na Federação Russa esta percentagem não atinge os 50%.
Se observarmos a distribuição por nível, verificamos que, no nível 5 (o mais elevado) se situam 4% dos estudantes portugueses de 15 anos, contra uma média de 9% no espaço da OCDE. No nível 4 temos 17% dos alunos portugueses, contra uma média de 22% na OCDE. O nível 3 foi atribuído a 27% dos alunos portugueses, em comparação com 29% no espaço da OCDE. No nível 2 o contraste é entre 25% em Portugal e 22% na OCDE.
Finalmente, no nível 1 temos 17% dos nossos alunos, contra a média de 12% no espaço da OCDE.

O recente  relatório da DataAngel Policy Research Incorporated (2009), A dimensão Económica da Literacia em Portugal: uma análise, na página 9, aponta também para conclusões semelhantes ou piores:
Quase um quarto da totalidade dos alunos (24,5%) obteve pontuações de nível 1 ou inferior, enquanto 28,8% obtiveram pontuações de nível 2. As distribuições dos resultados por níveis foram semelhantes nos testes realizados em 2002 e 2003.
Esta tendência é preocupante, porque significa que mais de 50% da actual juventude portuguesa está classificada como pouco qualificada nas disciplinas principais de literacia de leitura, matemática e ciências. Este resultado tem implicações importantes para as perspectivas económicas futuras de Portugal, porque os trabalhadores, com competências inferiores ao nível 3, terão grande dificuldade em competir na economia global do conhecimento. (Pág. 74).
Ora, perante isto chegaremos à conclusão que os programas são irrealistas e não têm em conta os alunos que estão no sistema. Já que em semanas não se recupera o que não se aprendeu antes, há duas soluções que têm sido praticadas: reprovar os alunos, logo no décimo ano ou aprovar administrativamente, acumulando problemas exponencialmente.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Casablanca

Um grande filme que serviu de referência na época e durante largos anos para quem vivia em ditaduras e poderia ter a possibilidade de aceder a ele. Ainda hoje, como as tragédias gregas, mantém uma mensagem, dilemas e interrogações que perduram.
Nesta cena, personagens contraditórias. Uma mulher perseguida pelos nazis, que admira ou ama um resistente ao nazismo, que conheceu outro resistente, "o homem da sua vida", o qual abandonou em Paris, em circunstâncias que não podia explicar, porque se vivia em clandestinidade, época em que este também combatia o "monstro". Depois o encontro, em que os sentimentos e instintos são contraditórios com a aparente incoerência de um antigo resistente que agora parece contemporizar com corruptos marroquinos e de toda a parte, e a polícia francesa de Vichy, submetida aos interesses alemães, também corrupta, aproveitando-se dos refugiados.
Nesta cena dramática, os alemães cantam, como conquistadores, um hino. O homem que resistiu e fugiu das prisões políticas pede à orquestra que cante a Marselhesa, hino de França, potência colonial, quase protectorado alemão, mas também uma canção de resistência contra a opressão e pela liberdade.
Rick, o aparente arrependido, dá sinal para a orquestra tocar. Esta abafa os alemães. Refugiados que querem fugir para Lisboa, em direcção à América acompanham e cantam cada vez mais alto. Até os polícias franceses deixam de pensar no ordenado; uma prostituta francesa que anda com alemães cantam também com todas as forças, libertando-se da humilhação.
Heróis e anti-heróis em uníssono, um grito pela Liberdade, que não se sabia se viria.

terça-feira, 30 de março de 2010

Procissão do Senhor dos Passos, em Mértola






Procissão do Senhor dos Passos, em Mértola, domingo de Ramos.
Encontro entre o filho martirizado e a mãe. Encontros entre amigos e parentes.
Os pescadores levam o "pendão", com o SPQR, função que passa há muito de pais para filhos.
Ironia do destino: o percurso termina na antiga mesquita, onde, para além de um espaço completamente diferente de uma igreja, ainda se encontra o mirhab, o nicho para onde se orava em direcção a Meca.