domingo, 13 de junho de 2010

Camões, dia de Portugal e o Ultramar.


   Este já chegou a ser o dia da Raça, coisa mal explicada, porque o Estado Novo sempre falava numa Pátria pluricontinental, onde caberiam todos os que fossem patriotas à maneira oficial, apesar do Estatuto Colonial que definia claramente que havia portugueses (e alguns de segunda), assimilados e indígenas, estes considerados como uma espécie de crianças que haveriam de ser evangelizados, mas que serviam claramente para trabalhar. Eram anti-patriotas e, portanto, não portugueses, os que se opunham. Era assim a lei e mais ainda a prática consolidada de décadas, em que já era difícil acreditar que Portugal pudesse ter algumas coisas que os outros já tinham há muito . Já a escravatura tinha acabado a contragosto no século XIX, mas continuavam nas colónias os “contratados”, isto é aqueles que eram apanhados sem um cartão de trabalho e se viam obrigados a trabalhar por um salário qualquer nas roças. Os que iam trabalhar para os cafezais do Norte de Angola ou para S. Tomé, geralmente ficavam a dever dinheiro ao patrão que tinha um empregado ou sócio na cantina que lhes vendia comida ou vinho à colher pelo preço que lhe convinha, e tinham que prolongar o contrato, além de levar umas pauladas.
Quando oiço falar de Ultramar lembro-me também de uma senhora que fazia limpezas e era analfabeta, como tantos neste Alentejo e em todo o país, mais ainda em Timor que no Minho e que tinha um filho em Angola na tropa, coisa generalizada que demorava aí uns quatro anos. Dizia ela ao ouvir um fado na telefonia, talvez do António Mourão, num programa chamado Música no Trabalho: “Ai senhora, até a música no “Tramar” é triste!
   Neste país “vivia-se como habitualmente”. Nos anos sessenta e até mais tarde, nas tardes de Junho, nas vilas do Alentejo, não se ouvia nem se via quase nada, a não ser uma ou outra carroça puxada por mulas, a chiar, passando pelas covas das calçadas ou dos terreiros, que raras eram as alcatroadas ou calçadas, em algumas corriam ainda esgotos, via-se um ou outro rapaz, às vezes em grupos, daqueles que não estavam a trabalhar, porque a maior parte da população estava no campo, onde já havia máquinas, mas muitos ainda ceifavam com foice, outros estariam nas eiras, separando o trigo e levantando a palha e a poeira e limpando o suor com o lenço. Os divertimentos dos rapazes eram os da imaginação: jogar ao pião, aos cowboys, andar à pedrada aos gatos ou aos ninhos, fumar uns mata-ratos às escondidas … Os mancebos (assim apareciam nos editais), com 20 anos iam para a tropa, alguns voluntários até mais cedo, para Angola, Moçambique, Guiné, os mais sortudos para Cabo Verde ou S. Tomé ou ainda para Timor, onde a população ainda gostava dos portugueses porque os deixavam viver como no século XVI, ao contrário dos japoneses que lá estiveram na 2ª guerra mundial, que matavam qualquer um só por pisar a sombra deles.
   O dez de Junho era também feriado. Alguns homens iam a cafés ou tabernas, onde, em poucos, se ouviam os discursos patrióticos no único canal de televisão, em que se impunham medalhas a mortos, recebidos pelas viúvas dos militares. Bebia-se vinho de pouca qualidade ou “a martelo”, de marcas como Camilo Alves, até porque o proteccionismo estatal não deixava cultivar vinhas na maior parte do Alentejo (Borba, Vidigueira, Redondo … eram excepções).
O entusiasmo pelos discursos era pequeno, a não ser um ou outro que pensava subir na vida, tecendo elogios a pequenos senhores. Também havia alguns convencidos mas o entusiasmo de “Angola é Nossa já estava fora de moda. A reacção também não era muita, até porque o vizinho do lado poderia ser informador da PIDE. Silêncio e copos, ou conversas mais entusiasmadas sobre o futebol ouvido nos relatos da rádio ou então sobre os feitos dos forcados e cavaleiros nas touradas.
   Do calor e das moscas varejeiras, que Fialho tão bem descreveu, dos salários e trabalhos medievais, da ordem e da vida controlada, do espírito ao corpo, aos passos e espaços, o controlo social, do regime, dos senhores, dos padres, dos moralistas, das vizinhas e vizinhos, muitos já tinham fugido em desespero. Alguns para França, como na maior parte do país, mas estes, por aqui, mais para a Margem Sul de Lisboa: Barreiro, Fogueteiro, Samouco …, que dinheiro para ir mais longe não havia e, se o houvesse, ainda era preciso ir a salto, porque ter um passaporte era coisa para muito poucos, que o regime não gostava de grandes andanças.
   Era um pouco assim este país onde alguns se orgulhavam do Ultramar, onde gerações de jovens (mais de 800000) perderam alguma inocência, pernas, braços e até a vida, outros que ainda hoje sonham obsessivamente com o que lá se passou, outros (e não foram poucos) que por motivos políticos ou em desespero tomaram os caminhos de França e do resto do mundo. Um país, onde a segunda cidade mais habitada por portugueses eram os “bidonvilles” de Paris, um país que perdeu mais de um milhão de pessoas que emigraram, um país onde nos manuais escolares se falava das grandes obras do Estado Novo, como a única auto-estrada de Lisboa a Vila Franca, mas em que na maior parte das aldeias ainda não havia electricidade, esgotos e água canalizada, habitado por camponeses em fuga. 
Quase por ironia, festejava-se o dia em que Camões morreu, mas não se dava o direito  de o ler à maioria, num país de 40% de analfabetos ainda no início dos anos 70.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Lobos, javardos e cornudos

   
   Há uma frase antiga, homo lupus homini, o homem é o lobo do homem. Tomara que fosse! Neste país onde tantos pequenos e grandes poderes crescem, lembrando hábitos antigos que não foram erradicados, pequenos e grandes poderes sobrepostos e desorientados que exigem “evidências”, que ordenam e desordenam, fazem leis próprias para serem interpretadas subjectiva e contraditoriamente, verborreiam, exibem o seu poder pelo poder, confundem teimosia ignorante com persistência e fazem dos outros súbditos, de quem se espera que fiquem encantados com as “iluminações” do momento, que há-de ser contraditório com o que se afirmou ontem e se nega amanhã. Amanhã, a começar por hoje, pode ser que, com pessimismo também, se vão juntando alguns para correr com a mediocridade e alcançar alguma Utopia, não numa ilha distante, mas por aqui.

   Começamos muitos a estar demasiados fartos destes autoritarismos dispersos e de pensamentos únicos.

   Entretanto falemos de animais e de gente que dá pouco nas vistas, que não anda na febre das “evidências” imediatas, para tentar ofuscar outros com “power points” e outros estardalhaços que aumentam a vaidade e ruído na comunicação.

   Falemos de lobos e javardos e de alguns cornudos também. Dos verdadeiros, que só são selvagens, porque vivem in silvis e quanto mais estão fora desses espaços mais “humanizados” se tornam, adquirindo maiores perversões, dependendo, claro, dos humanos que os controlam ou submetem.

   As imagens que se seguem são da Tapada de Mafra, onde se tem preservado e recuperado a flora, os javalis, os veados, gamos …, bufos (genuínos), outras aves de rapina e o Centro de Recuperação do Lobo Ibérico. Aqui se vêem javalis um pouco gulosos, mais à procura de qualquer coisa de comer do que a investir contra alguém, um lobo mais velho a apanhar sol, uma loba jovem curiosa, um irmão desta mais tímido …

   Dentro das possibilidades, com muita persistência, muito tempo de estudo, medidas sem “evidências” imediatas, fazem-se aqui trabalhos fundamentais. Há gente neste país que faz coisas boas! Desfazem-se preconceitos e contribui-se para o conhecimento!

Ver:
www.tapadademafra.pt

http://lobo.fc.ul.pt

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Hino de Riego. Hino da revolução liberal e da República Espanhola

Agora que em Espanha a extrema-direita, a começar pela Falange (porque é que ainda existe?), pretende silenciar o juiz Baltazar Garzon e, sobretudo a memória das centenas de milhares de pessoas fuziladas, bombardeadas, torturadas, durante e após a guerra civil (1936-39), recordemos que a Espanha já teve outro Hino Nacional, oficial após a revolução liberal de 1820 (no mesmo ano que a portuguesa) e durante a 2ª República (1931-39):
O Hino de Riego

Encontrei também, por acaso, uma busto de homenagem ao general liberal Riego, em Oviedo.

sábado, 17 de abril de 2010

D. Pedro, Um herói romântico.


Agora que se comemora a República, que se fez contra a monarquia, mas também pela Regeneração de Portugal e pelos ideais de cidadania, lembremos que algumas dessas ideias já existiam antes, com formas e práticas, obviamente diferentes.
D. Pedro foi uma figura singular e contraditória. Não sei porque é que em Portugal ou no Brasil não se fez um filme a sério sobre esta figura. Talvez tenha faltado aqui um Visconti para retratar toda esta comédia e tragédia. Os ingredientes dessa história pessoal, familiar e nacional (ais) poderiam dar imensas ou inúmeras obras, onde não falta o drama, a intriga e o clímax.
Neto de uma rainha que ensandeceu e que chegou ao Brasil com uma corte com senhoras carecas, devido à praga de piolhos, situação que em S. Salvador da Bahia de Todos os Santos (grandes nomes, um pouco como o da Cidade do Santo Nome de Deus de Macau), levou a que as senhoras da elite pensassem que era moda na Europa, até porque nenhum rei ou corte tinha entretanto chegado às Américas. Seu pai, algo compulsivo na arte de comer frangos e de algum aparente desprezo pela política, coisa que muitos portugueses ainda se sentem herdeiros, soube fazer o que os seus parentes espanhóis não conseguiram: preservar o trono. Aqueles, ao contrário deixaram-se prender por Napoleão, que os substituiu por um seu irmão. Entretanto a única da família Bourbon que escapou tornou-se rainha de Portugal, D. Carlota Joaquina, mãe de D. Pedro e D. Miguel, havendo até quem a quisesse para rainha de Espanha ou até para rainha para os lados do rio da Prata. Só que ela não gostava de liberais argentinos, nem da América em geral, nem do marido, que em troca lhe chamava megera. D. João VI ou os seus ministros, entretanto aproveitaram para alargar o Brasil, conquistando terras aos espanhóis ou ao que restava deles, a província Cisplatina, hoje chamada Uruguai e investindo também na Guiana Francesa, alargando a Amazónia. Por cá deixou os portugueses entregues aos franceses e também aos espanhóis, que primeiro aproveitaram e depois se tornaram amigos, se bem que tivessem ficado com Olivença, libertada e depois entregue a Espanha pelos ingleses que ficaram aqui a mandar neste protectorado.
D. Pedro lá foi crescendo no Brasil com o seu irmão D. Miguel, que as más-línguas diziam que era apenas meio-irmão, e talvez pelos calores, talvez por uma tradição herdada de outros seus ascendentes, como D. João V, que gostava de freiras, mas não de uma qualquer, ou de D. José que se interessava pelas Távoras, tendo ainda apanhado um tiro, no coche pelo menos, dizíamos, D. Pedro foi-se interessando pelas senhoras mais jovens, que dado o interesse, também lhe cresciam as respectivas barrigas, em particular a Marquesa de Santos. Não foi tradição que tivesse acabado, pois um seu descendente D. Carlos, também não se esquecia de quase nenhuma, senhora ou criada. O seu irmão, nem tanto, preferia touradas e tradição. Um castiço.
Com a revolução liberal, em 1820, Portugal incendeia-se em entusiasmos liberais e no Brasil também, pelo menos alguns que podiam e não eram escravos.
D. Pedro, educado para ser absolutista, desconfiado dos liberais radicais, mas liberal conservador, proclama a independência, depois de dizer Fico, perante o ultimatum das cortes em Lisboa.
Proclama a independência do Brasil, do alto de um cavalo, em Ipiranga, hoje um bairro de S. Paulo e escreve uma Carta Constitucional para o Brasil. Após a morte do pai, torna-se rei de Portugal, o que não agrada aos portugueses do Brasil, agora brasileiros. Dá o trono a sua filha, D. Maria, visto que o filho mais velho lhe sucederia no Brasil, filha esta que casaria com D. Miguel, depois de jurada a Carta Constitucional, o que este fez, para logo a seguir proclamar o absolutismo.
Depois das perseguições habituais nestas circunstâncias, com o “malhados” (liberais) a serem malhados constantemente, prisões e enforcamentos incluídos, outros a fugiram do país, quando podiam, D. Pedro regressa à frente de voluntários e mercenários, outros que a pouco e pouco vêem que os ventos estão a mudar, e implanta definitivamente o liberalismo, nacionalizando conventos e outros bens, com reformas que mudaram a face do país, se bem que com alguns aproveitamentos particulares e outras guerras e guerrilhas que se seguiriam até meados do século.
D. Pedro foi herói libertador do Brasil, imperador liberal, acusado depois de ditador, abdicou do Império, abdicou do título de rei de Portugal também, fez uma Carta constitucional para o Brasil, fez uma Carta Constitucional para Portugal, como músico que era (à semelhança de D. João IV), fez um hino para o Brasil, outro para Portugal. Morreu novo, como duque de Bragança.
Os hinos das monarquias liberais do Brasil e de Portugal falam também da Liberdade e da Constituição, coisa que os monárquicos miguelistas sempre abominaram.


Alexandre Herculano. Esquecido!?

Este ano seria o das comemorações do nascimento de Alexandre Herculano. Historiador, escritor, um dos "bravos do Mindelo", que participou ao lado de D. Pedro na luta contra o Antigo Regime miguelista, depois de passar por um exílio, visto que o poder absolutista não admitia a cidadania. Lutou pelas suas convicções políticas sempre,até ao seu "exílio" voluntário, em Vale de Lobos, onde se dedicava à agricultura, à História e à Literatura, recusando cargos honoríficos e títulos. Sem ele muitos documentos de arquivos teriam tido um triste fim. Não se preocupou com festarolas constantes nem estardalhaços inúteis, mas fez muito mais por bibliotecas (a da Ajuda, por exemplo), arquivos, pelo património, pela investigação, com um método rigoroso, do que muitos retóricos habituais seus contemporâneos. Tornou-se pessimista dizendo: "quanto mais conheço os homens, mais estimo os animais". Mesmo assim intervinha discretamente; não desistia.  Alguns ainda não lhe perdoaram, querendo remetê-lo para o esquecimento. Usual neste país, onde expor as ideias, discutir e intervir é ainda coisa mal vista, mesmo por alguns (ou algumas) que anunciam revoluções que descobriram há pouco, querendo que todos e todas obedeçam, e com elogios, à sua voz iluminada de comando.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Para dormir?

Três músicas para embalar crianças.
Uma é de Trás-os-Montes, cantada em mirandês, pela Brigada Vítor Jara. O mirandês é falado em Portugal, mas é uma variante do leonês, língua em parte absorvida pelo castelhano, em Espanha. Nela uma mulher canta para o menino mas marca um encontro com o amante junto ao moinho.


Na segunda, que é a mesma, numa versão galega, uma língua falada em Espanha (ou será que é uma variante do português?), fala-se em moinho e menino e não molino ou niño como na portuguesa.


Na última, turca, ou antes de judeus espanhóis, cantada em ladino, também se canta a uma criança (menina). Só que esses judeus sefarditas, não eram apenas do actual estado espanhol: eram também portugueses. Durante séculos castelhanos,catalães, portugueses ... consideravam-se espanhóis, porque eram da Península Ibérica, Espanha ou as Espanhas, Al-Andaluz em árabe, Sefarad em língua judaica. Repare-se que não se diz duerme, como em castelhano, mas durme e escola e não escuela.

sábado, 10 de abril de 2010

A Igreja Católica e os escândalos pedófilos

Dou uma importância relativa a certas explicações que relacionam a Igreja Católica e o celibato dos sacerdotes com a homossexualidade, pedofilia, assédio sexual e outras.
   São coisas diferentes e cada uma merece uma explicação, se a houver, já que o ser humano não é propriamente o “homo sapiens”, antes aproximando-se da definição de “homo demens”. Nem todos, nem a maior parte, certamente. E, em termos de Estado de Direito, teremos que começar com as responsabilidades individuais, sob pena de andarmos a procurar culpas colectivas que podem levar à desresponsabilização, aquilo que na linguagem comum é traduzido como a “culpa morreu solteira”.
    Na história da Igreja Católica há uma obsessão com o sexo, proibido para solteiros, oficializado e permitido com casais heterossexuais, mas regulado incessantemente. Nas igrejas protestantes também, sobretudo entre puritanos ou calvinistas, que transformaram este mundo no crescimento incessante do capitalismo. Muitos muçulmanos e judeus fizeram interdições. Basta ler os Livros, seja a Bíblia, o Alcorão, a Tora e, sobretudo, as práticas. Nem sempre foi assim: mesmo naquilo que chamamos matriz europeia (e não só), nas culturas grega e latina clássicas, o sexo era encarado de modo diferente. Basta visitar Pompeia ou a ilha de Delos para ver que a sexualidade era mais “natural”, do que os séculos que se seguiram.
Não é só na Igreja Católica que há sinais de pedofilia. Entre outros também, mas não relativizemos a questão.
    Um dos problemas, que não explica tudo, é a relação entre um poder não contestado e o sexo, sobretudo com uma moral repressora e a manutenção desse poder que leva a desprezar as vítimas e a esconder os abusos, ainda que com o esquecimento de princípios constantemente apregoados.
    Vejamos o caso da Irlanda. Uma luta secular pela independência e contra o colonialismo inglês e protestante levou a que os irlandeses transferissem parte do seu poder como cidadãos para a Igreja Católica, incontestada assim. Isso permitiu que orfanatos dirigidos por padres pudessem fazer o que queriam com crianças que nunca poderiam exigir nada, nem denunciar nada porque ninguém os ouviria. Como também por cá, como noutros lugares.
    O problema não é a religião mas o poder, os ambientes totalitários, concentracionários, católicos ou outros, que permitem que as vítimas possam ser sujeitas a sevícias várias. Uma ou outra prática ou moral religiosa pode agravar, mas o poder incontestado é que permite situações destas.
   Portanto, procuremos primeiro os indivíduos e depois passemos, sem esquecer, às hierarquias, às conivências e aos silêncios.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Senhora de Aracelis





Nesta capela e sobretudo no espaço circundante, festejam os agricultores dos concelhos de Mértola e Ourique, em finais de Agosto, a divindade da Agricultura. É a senhora de Aracelis, Ara Coelis, o Altar do Céu, como poderia ter sido Ceres, Ísis ou a Deusa-Mãe.

Segundo a lenda dela se avistam mais seis irmãs(os), perfazendo sete, número mágico. Os nomes variam, mas há um relato que me parece mais adequado: são elas S. Barão, Senhora das Neves, Senhora do Amparo ou São Brissos (Veríssimo), no concelho de Mértola, Senhora de Guadalupe, em Serpa, S. Pedro das Cabeças, em Castro Verde.
Cultos antigos que se mantiveram, uns mais ligados à agricultura, outros à pastorícia, como o culto da senhora de Guadalupe, em que pastores encontraram uma Senhora morena (seria árabe, moçárabe?), um santo eremita local que ajudava os casados a terem filhos, S. Barão (o homem), S. Pedro das Cabeças, onde se festeja o milagre e mito fundador da Pátria (batalha de Ourique). Marcam uma região, “os campos brancos”, em grande parte os antigamente chamados Campos de Ourique, uma comunidade, onde se pastoreavam rebanhos, provindos do Norte de Portugal ou de Espanha, na época da transumância

terça-feira, 6 de abril de 2010

Virgen de Piedras Albas. Castillejos, Andaluzia

Domingo de Páscoa. Reencontro das famílias espalhadas por Madrid, Catalunha, por tantos lados. Gente que daqui saiu, porque também aqui o êxodo rural deixou estas terras quase só com alguns velhos.
Vestem-se eles e elas à andaluza, comem e bebem em cima dos cavalos ou a pé, cantam dançam, rezam, disputam os lugares no andor. Seguem a tradição com música de um tamborileiro e dançarinos a preceito.
A senhora triunfa, Cristo é apenas é apenas uma figura pequenina.

Hábitos diferentes

Ontem estive com um casal amigo que vive em Inglaterra. Ela é portuguesa e ele inglês. Vinham acompanhados das filhas, pois estão em férias.
A mais nova está no 11º ano. Tem disciplinas de ciências e humanidades. No final do ano vai para um novo ciclo de estudos, 12º e 13º anos, em que escolherá quatro disciplinas, num ensino mais especializado, antes de entrar na universidade. Depois, poderá entrar ou fazer um ano de voluntariado ou outras actividades, dentro ou fora do país, o que também é tido em consideração por algumas faculdades.
Os professores (penso que um professor-tutor), marcou-lhe 6 horas de estudos diárias, enquanto estivesse nestas “férias”. Não foi preciso ninguém lhe dizer, aqui, que tinha que ir para casa estudar. Foi, porque está habituada, porque os pais a habituaram e porque não põe em causa a recomendação ou ordem do professor para estudar, mesmo não estando ninguém a vigiá-la numa pretensa “escola a tempo inteiro”.

Reflexões sobre o ensino secundário (cursos científico-humanísticos)- 3


Uma disciplina que todos os alunos dos cursos científico-humanísticos têm no seu percurso, ao longo dos três anos, é a disciplina de Português, disciplina fulcral, já que todo o ensino, com excepção óbvia das línguas estrangeiras, é feito na língua materna, contribuindo todas as disciplinas ( e o que se fala e escreve em casa …) para a literacia na língua materna.
O programa em vigor, propõe um diagnóstico inicial no décimo aluno e refere as competências que devem ser avaliadas também no início. Por exemplo:
compreensão oral
. identificar a intenção comunicativa do interlocutor;
. saber escutar e compreender géneros formais e públicos do oral;
. saber escutar criticamente discursos orais, identificando factos, opiniões e enunciados persuasivos.
Ou
expressão escrita
. dominar técnicas fundamentais de escrita compositiva:
- organizar o texto em períodos e parágrafos, exprimindo apropriadamente
os nexos temporais e lógicos;
- escrever com correcção ortográfica, morfológica e sintáctica;
- usar vocabulário apropriado e preciso;
- aplicar correctamente regras básicas da pontuação
Ou ainda:
– funcionamento da língua
. identificar classes e subclasses de palavras;
. reconhecer o valor polissémico das realizações lexicais;
. dominar os paradigmas da flexão nominal, adjectival e verbal;
. identificar modos e tempos verbais em frases simples e complexas;
. reconhecer funções sintácticas nucleares;
. distinguir relações de coordenação e de subordinação.
Uma observação simples, a experiência relatada ou efectuada no terreno, indica que a maior parte dos alunos não atingiram suficientemente estas competências. Mais, os testes internacionais PISA quando medem a literacia (alunos com 15 anos),chegam a conclusões destas, como no PISA, 2001:
[…] cerca de 60% dos jovens de 15 anos no espaço da OCDE são bem sucedidos na realização das tarefas correspondentes a estes três níveis. Mas esta percentagem varia muito de país para país (PISA, 2001, pág. 5)..
Em Portugal, bem assim como no Brasil, na Grécia, na Letónia, no Luxemburgo, no México e na Federação Russa esta percentagem não atinge os 50%.
Se observarmos a distribuição por nível, verificamos que, no nível 5 (o mais elevado) se situam 4% dos estudantes portugueses de 15 anos, contra uma média de 9% no espaço da OCDE. No nível 4 temos 17% dos alunos portugueses, contra uma média de 22% na OCDE. O nível 3 foi atribuído a 27% dos alunos portugueses, em comparação com 29% no espaço da OCDE. No nível 2 o contraste é entre 25% em Portugal e 22% na OCDE.
Finalmente, no nível 1 temos 17% dos nossos alunos, contra a média de 12% no espaço da OCDE.

O recente  relatório da DataAngel Policy Research Incorporated (2009), A dimensão Económica da Literacia em Portugal: uma análise, na página 9, aponta também para conclusões semelhantes ou piores:
Quase um quarto da totalidade dos alunos (24,5%) obteve pontuações de nível 1 ou inferior, enquanto 28,8% obtiveram pontuações de nível 2. As distribuições dos resultados por níveis foram semelhantes nos testes realizados em 2002 e 2003.
Esta tendência é preocupante, porque significa que mais de 50% da actual juventude portuguesa está classificada como pouco qualificada nas disciplinas principais de literacia de leitura, matemática e ciências. Este resultado tem implicações importantes para as perspectivas económicas futuras de Portugal, porque os trabalhadores, com competências inferiores ao nível 3, terão grande dificuldade em competir na economia global do conhecimento. (Pág. 74).
Ora, perante isto chegaremos à conclusão que os programas são irrealistas e não têm em conta os alunos que estão no sistema. Já que em semanas não se recupera o que não se aprendeu antes, há duas soluções que têm sido praticadas: reprovar os alunos, logo no décimo ano ou aprovar administrativamente, acumulando problemas exponencialmente.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Casablanca

Um grande filme que serviu de referência na época e durante largos anos para quem vivia em ditaduras e poderia ter a possibilidade de aceder a ele. Ainda hoje, como as tragédias gregas, mantém uma mensagem, dilemas e interrogações que perduram.
Nesta cena, personagens contraditórias. Uma mulher perseguida pelos nazis, que admira ou ama um resistente ao nazismo, que conheceu outro resistente, "o homem da sua vida", o qual abandonou em Paris, em circunstâncias que não podia explicar, porque se vivia em clandestinidade, época em que este também combatia o "monstro". Depois o encontro, em que os sentimentos e instintos são contraditórios com a aparente incoerência de um antigo resistente que agora parece contemporizar com corruptos marroquinos e de toda a parte, e a polícia francesa de Vichy, submetida aos interesses alemães, também corrupta, aproveitando-se dos refugiados.
Nesta cena dramática, os alemães cantam, como conquistadores, um hino. O homem que resistiu e fugiu das prisões políticas pede à orquestra que cante a Marselhesa, hino de França, potência colonial, quase protectorado alemão, mas também uma canção de resistência contra a opressão e pela liberdade.
Rick, o aparente arrependido, dá sinal para a orquestra tocar. Esta abafa os alemães. Refugiados que querem fugir para Lisboa, em direcção à América acompanham e cantam cada vez mais alto. Até os polícias franceses deixam de pensar no ordenado; uma prostituta francesa que anda com alemães cantam também com todas as forças, libertando-se da humilhação.
Heróis e anti-heróis em uníssono, um grito pela Liberdade, que não se sabia se viria.

terça-feira, 30 de março de 2010

Procissão do Senhor dos Passos, em Mértola






Procissão do Senhor dos Passos, em Mértola, domingo de Ramos.
Encontro entre o filho martirizado e a mãe. Encontros entre amigos e parentes.
Os pescadores levam o "pendão", com o SPQR, função que passa há muito de pais para filhos.
Ironia do destino: o percurso termina na antiga mesquita, onde, para além de um espaço completamente diferente de uma igreja, ainda se encontra o mirhab, o nicho para onde se orava em direcção a Meca.

Festival do Peixe do Rio, Pomarão. Jornadas Ambientais

http://www.alsud.pt/pt/AnexosNoticias/PROGRAMA.pdf

segunda-feira, 29 de março de 2010

A Primavera em S. Barão

S. Barão era um eremita, que vivia numa lapa de um monte perto de Mértola. O nome vem do latim, vir, viris, homem. Segundo a lenda ajudava os homens casados a tornarem-se pais.
A partir deste monte, onde vivia S. Barão, sente-se a fertilidade da terra, no esplendor do despertar da Primavera.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Reflexões sobre o ensino secundário (cursos científico-humanísticos)- 2

  O curriculum é hoje mais diversificado. E é bom que o seja. Mas só na aparência é que os alunos escolhem. Volto outra vez ao exemplo do Latim, disciplina que é estudada em países com línguas germânicas ou outras, mas que por cá é desprezada. Acrescento o exemplo de Évora, cidade que teve outrora grandes latinistas: não se estuda Latim em Évora no ensino secundário, embora existam três escolas secundárias. A disciplina de Literatura Portuguesa é opcional e só alguns a escolhem ou têm direito a escolher. Os alunos do agrupamento de Ciências Sócio-Económicas raramente têm História, porque têm que escolher entre História B e Geografia. No curso de Línguas e Humanidades podem ter que escolher entre Literatura Portuguesa, Latim ou Geografia. No 12º ano raros são já os que têm Física ou Química ou Filosofia e mais raros ainda os que podem ter Ciência Política ou Antropologia Cultural. Qualquer dia quase ninguém percebe a necessidade, porque as gerações se foram resignando e desabituando. Apesar de haver aqui três escolas secundárias, o que acontece é que em cada uma não existem inscrições suficientes e, por isso vão sendo convidados a “escolher” outras disciplinas. Pior ainda em escolas onde há menos alunos, como são muitas por esse país fora.

   Ora o problema resolver-se-ia se houvesse uma rede a sério, em que os alunos tivessem direito efectivo de escolher, independentemente de haver ou não outros com a mesma escolha. Pelo menos uma escola em cada distrito ou em determinada área, deveria ter todas as disciplinas do curriculum, ou seja umas escolas teriam umas disciplinas, outras teriam outras, mas com a garantia que nessa área existiriam todas, independentemente do número de inscrições. Se numa escola houvesse três inscrições, noutra duas e noutra quatro, funcionaria, pelo menos numa, essa disciplina. É um direito que não deveria ser sonegado por motivos administrativos ou corporativos. Se fosse necessário (e é), o Estado deveria assegurar transportes gratuitos ou residências de estudantes em condições (e não acabar com elas). Até ficaria mais barato, porque caro é os alunos serem obrigados a escolher áreas ou disciplinas que não querem e depois reprovarem. E sublinho, é um direito, para mais agora que o 12º ano passa a ser obrigatório.

Reflexões sobre o ensino secundário- 1


   O ensino secundário em Portugal já é um pouco diversificado. Actualmente existem os cursos científico-humanísticos, os cursos tecnológicos e os cursos profissionais. Os cursos tecnológicos estão em fase de extinção e os profissionais em expansão, sobretudo nas escolas secundárias, onde há uns anos não existiam. 
    Falemos dos cursos científico-humanísticos, aqueles que mais directamente visam o prosseguimento de estudos. Antes de analisar o curriculum, o problema deveria ser visto a jusante e a montante.
    Um dos factos é que os alunos, em média, vêm com muitas lacunas do 3º ciclo. Não cabe aqui atribuir culpas, até porque isso não leva a nada, mas se compararmos o que os programas do ensino secundário exigem, à partida, com os conhecimentos e competências que a média dos alunos apresentam, existe um grande desfasamento, visível nos dados estatísticos relativos às reprovações e desistências no 10º ano, embora tenham diminuído, mercê também de grande pressão sobre os professores e as escolas. Haveria que avaliar a sério se os alunos têm ou não os pré-requisitos essenciais para entrarem no décimo ano destes cursos. Há soluções, desde exames a entrevistas estruturadas com profissionais dos serviços de Psicologia e Educação. E dar oportunidades: entra neste sistema se está em condições, se não está deve ter apoios suficientes da escola para poder entrar em condições para estes cursos. Entrar só porque se quer ter um diploma é que não tem sentido nenhum.
   A jusante o problema é com as universidades que se têm demitido sistematicamente. As universidades não deveriam sequer poder queixar-se que os alunos não têm conhecimentos e competências quando entram. Deveriam escolhê-los e, aí, teriam obrigação de fazer o máximo possível. Seria estranho (parece que em Portugal não é) reprovarem a maioria logo no 1º ano, se os escolhessem. Não é para isso que pagam os contribuintes. Não se trata de elitismo (e em certo sentido é): as pessoas têm que aprender e ser bons profissionais, os diplomas têm que ter credibilidade ou então não servem para nada. Se o ensino superior não confiasse/desconfiasse nos exames do ensino secundário, talvez o ensino secundário fosse melhor e os alunos, pais e as escolas teriam outras estratégias. Por exemplo, se num curso de Português uma faculdade exigisse que os alunos tivessem conhecimentos de Latim e Literatura Portuguesa (que quase não se estudam), haveria alunos candidatos que escolheriam essas disciplinas. Como não me parece razoável que faculdades de engenharia aceitem alunos sem bases de Física ou Química, para além da Matemática ou que a futuros professores de 1º ciclo não seja exigida a Matemática.

domingo, 7 de março de 2010

Património degradado em Évora


Ruas da Moeda e de Alcoutim, em pleno Centro Histórico de Évora, Património Mundial. Algumas destas casas estão abandonadas há dezenas de anos. Na rua da Moeda, a casa ainda tem portais góticos, provavelmente do século XV; numa delas existia a “mezuzah”, uma ranhura onde os judeus punham um fragmento da Tora, para proteger a habitação. Vê-se que foi também uma adega, pois ainda lá está uma talha de boas dimensões. Na outra, já na rua de Alcoutim, pegada com a primeira, há uns anos vivia por lá uma pessoa que “alugava” quartos a raparigas e outros que não tinham para onde ir. Não tinha água nem electricidade e as pessoas iam buscar água a um fontanário no Largo dos Mercadores. A outra casa na rua de Alcoutim era, há dez anos ou mais, um restaurante. O tribunal ordenou o despejo e, de vez em quando, a porta, ou o que resta, é arrombada e serve frequentemente a um ou outro sem-abrigo ou consumidores de drogas.
A solução que a Câmara Municipal tem usado é emparedar as portas e, agora, fechar a rua.
Como se ninguém tivesse responsabilidades definidas: o proprietário, a Câmara Municipal, o IGESPAR.
Por vezes estes prédios têm dezenas de proprietários que não se entendem. Mas nós não temos culpa disso. A Câmara Municipal tem instrumentos suficientes para compelir a fazer obras ou tomar posse administrativa. No final pode apresenta a factura.
O que não se justifica é este perigo público e este miserável estado sanitário. Explico melhor: estes prédios podem ruir, como os quarteirões antigos funcionam em conjunto, os prédios vizinhos são também afectados, os ratos acumulam-se, os pombos também, com doenças associadas. E a defesa do Património, emblema de Évora, até o Turismo, essencial para a economia, o que é deles?

segunda-feira, 1 de março de 2010

Uma perspectiva pessoal sobre a Madeira


Tive a feliz oportunidade de conhecer a Madeira, pela primeira vez em 1974. Foi na viagem de finalistas do 7º ano do liceu em 1974, pouco antes do 25 de Abril. Não era fácil ir lá nessa altura, num país extremamente pobre como o nosso. A Madeira era contraditória. Pela primeira vez fui a uma discoteca, coisa que não havia em Évora, nem na maior parte do país, fui levado a sítios numa perspectiva de turista. Mas vi também uma pobreza muito grande, sobretudo em Câmara de Lobos. Há poucos anos, numa viagem organizada por amigos da Madeira, apercebi-me melhor, no terreno, das dificuldades imensas dos camponeses que iam até às vilas e ao Funchal, a pé, carregando às costas, descendo e depois subindo por caminhos íngremes, a pé, porque em muitos nem um burro passava, ou nem sequer tinham um animal de carga para levar as coisas que vendiam no mercado, em troca de pouco para o dia a dia. As comunicações eram feitas por essas encostas e depois pelo mar, as estradas que havia eram estreitas e perigosas. Ainda por cima esses camponeses tinham que pagar colonia, uma prestação feudal, semelhante ou pior que os foros que se pagavam no continente, abolidos depois do 25 de Abril. A vida destas famílias tinha muitas semelhanças com a exploração colonial.
Os madeirenses não eram (ainda não são) muito politizados, mas são activos. Emigraram (e ainda emigram, como grande parte do país) para a África do Sul, Venezuela, ilhas inglesas…, como antes foram para os colonatos de Angola. A sua persistência e habilidade são conhecidas, desde a antiga especialidade em fazerem levadas, que levou até a que Afonso de Albuquerque pensasse neles para desviar o curso do Nilo a fim de secar o Egipto, até aos empresários e especuladores conhecidos ou aos inúmeros pequenos comerciantes e industriais em países de emigração.
Alberto João Jardim percebeu esta gente e usou de todas as tácticas que aprendeu durante a guerra colonial, fazendo guerrilha e contra-guerrilha palavrosas, em nome de um desenvolvimento, com um discurso contra o Estado, contra elites, promovendo um estado clientelar em aliança com a Igreja, paternalista, pragmaticamente repressivo. Tornou-se um líder carismático, populista e creio que até é sincero nas suas convicções, embora o seu discurso seja contraditório e tenha forjado novos clientes do Estado. Mas não se preocupa com incoerências, porque a guerrilha permanente é o essencial para obter mais. Muitos acreditam nele, até porque o vêem no terreno, bebem uns copos, nas festas, no Carnaval. Ele está e outros não, por motivos vários, e os outros são outros em quem não se confia, tal como os camponeses não confiam em quem está distante e não é da terra. Alguém que andou descalço, emigrou para a Venezuela, chegou e viu uma festa com um líder a beber uns copos, com charutos e abraços e umas alarvidades, acredita no discurso da Joana Amaral Dias, que continua com ar de "menina fina", de Lisboa? É mais fácil acreditar naquele que fez umas estradas, promoveu umas festas à chegada daqueles que lutaram uma vida inteira. Quer tenha ou não razão. Certas elites portuguesas não compreendem isto, à direita ou à esquerda. Ou cedem cobardemente ou dão lições a quem não os ouve e na hora imprópria como hoje. As pessoas que estão desesperadas não estão para ouvir discursos de culpas. Elas ouvem quem está no terreno e faz alguma coisa, mesmo mal feita.
Felizmente há um sentimento nacional de solidariedade. E é isso que interessa neste momento. Esperemos, e tenho dúvidas, que a reconstrução não privilegie os lugares de turismo imediato e que seja feita uma avaliação dos erros para que não se cometam os mesmos depois, até porque a Madeira não é apenas um problema dos madeirenses. Mas tem que começar pelos madeirenses, e eles têm capacidade de reconstruir.