Agora que em Espanha a extrema-direita, a começar pela Falange (porque é que ainda existe?), pretende silenciar o juiz Baltazar Garzon e, sobretudo a memória das centenas de milhares de pessoas fuziladas, bombardeadas, torturadas, durante e após a guerra civil (1936-39), recordemos que a Espanha já teve outro Hino Nacional, oficial após a revolução liberal de 1820 (no mesmo ano que a portuguesa) e durante a 2ª República (1931-39):
O Hino de Riego
Encontrei também, por acaso, uma busto de homenagem ao general liberal Riego, em Oviedo.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
sábado, 17 de abril de 2010
D. Pedro, Um herói romântico.
Agora que se comemora a República, que se fez contra a monarquia, mas também pela Regeneração de Portugal e pelos ideais de cidadania, lembremos que algumas dessas ideias já existiam antes, com formas e práticas, obviamente diferentes.
D. Pedro foi uma figura singular e contraditória. Não sei porque é que em Portugal ou no Brasil não se fez um filme a sério sobre esta figura. Talvez tenha faltado aqui um Visconti para retratar toda esta comédia e tragédia. Os ingredientes dessa história pessoal, familiar e nacional (ais) poderiam dar imensas ou inúmeras obras, onde não falta o drama, a intriga e o clímax.
Neto de uma rainha que ensandeceu e que chegou ao Brasil com uma corte com senhoras carecas, devido à praga de piolhos, situação que em S. Salvador da Bahia de Todos os Santos (grandes nomes, um pouco como o da Cidade do Santo Nome de Deus de Macau), levou a que as senhoras da elite pensassem que era moda na Europa, até porque nenhum rei ou corte tinha entretanto chegado às Américas. Seu pai, algo compulsivo na arte de comer frangos e de algum aparente desprezo pela política, coisa que muitos portugueses ainda se sentem herdeiros, soube fazer o que os seus parentes espanhóis não conseguiram: preservar o trono. Aqueles, ao contrário deixaram-se prender por Napoleão, que os substituiu por um seu irmão. Entretanto a única da família Bourbon que escapou tornou-se rainha de Portugal, D. Carlota Joaquina, mãe de D. Pedro e D. Miguel, havendo até quem a quisesse para rainha de Espanha ou até para rainha para os lados do rio da Prata. Só que ela não gostava de liberais argentinos, nem da América em geral, nem do marido, que em troca lhe chamava megera. D. João VI ou os seus ministros, entretanto aproveitaram para alargar o Brasil, conquistando terras aos espanhóis ou ao que restava deles, a província Cisplatina, hoje chamada Uruguai e investindo também na Guiana Francesa, alargando a Amazónia. Por cá deixou os portugueses entregues aos franceses e também aos espanhóis, que primeiro aproveitaram e depois se tornaram amigos, se bem que tivessem ficado com Olivença, libertada e depois entregue a Espanha pelos ingleses que ficaram aqui a mandar neste protectorado.
D. Pedro lá foi crescendo no Brasil com o seu irmão D. Miguel, que as más-línguas diziam que era apenas meio-irmão, e talvez pelos calores, talvez por uma tradição herdada de outros seus ascendentes, como D. João V, que gostava de freiras, mas não de uma qualquer, ou de D. José que se interessava pelas Távoras, tendo ainda apanhado um tiro, no coche pelo menos, dizíamos, D. Pedro foi-se interessando pelas senhoras mais jovens, que dado o interesse, também lhe cresciam as respectivas barrigas, em particular a Marquesa de Santos. Não foi tradição que tivesse acabado, pois um seu descendente D. Carlos, também não se esquecia de quase nenhuma, senhora ou criada. O seu irmão, nem tanto, preferia touradas e tradição. Um castiço.
Com a revolução liberal, em 1820, Portugal incendeia-se em entusiasmos liberais e no Brasil também, pelo menos alguns que podiam e não eram escravos.
D. Pedro, educado para ser absolutista, desconfiado dos liberais radicais, mas liberal conservador, proclama a independência, depois de dizer Fico, perante o ultimatum das cortes em Lisboa.
Proclama a independência do Brasil, do alto de um cavalo, em Ipiranga, hoje um bairro de S. Paulo e escreve uma Carta Constitucional para o Brasil. Após a morte do pai, torna-se rei de Portugal, o que não agrada aos portugueses do Brasil, agora brasileiros. Dá o trono a sua filha, D. Maria, visto que o filho mais velho lhe sucederia no Brasil, filha esta que casaria com D. Miguel, depois de jurada a Carta Constitucional, o que este fez, para logo a seguir proclamar o absolutismo.
Depois das perseguições habituais nestas circunstâncias, com o “malhados” (liberais) a serem malhados constantemente, prisões e enforcamentos incluídos, outros a fugiram do país, quando podiam, D. Pedro regressa à frente de voluntários e mercenários, outros que a pouco e pouco vêem que os ventos estão a mudar, e implanta definitivamente o liberalismo, nacionalizando conventos e outros bens, com reformas que mudaram a face do país, se bem que com alguns aproveitamentos particulares e outras guerras e guerrilhas que se seguiriam até meados do século.
D. Pedro foi herói libertador do Brasil, imperador liberal, acusado depois de ditador, abdicou do Império, abdicou do título de rei de Portugal também, fez uma Carta constitucional para o Brasil, fez uma Carta Constitucional para Portugal, como músico que era (à semelhança de D. João IV), fez um hino para o Brasil, outro para Portugal. Morreu novo, como duque de Bragança.
Os hinos das monarquias liberais do Brasil e de Portugal falam também da Liberdade e da Constituição, coisa que os monárquicos miguelistas sempre abominaram.
Alexandre Herculano. Esquecido!?
Este ano seria o das comemorações do nascimento de Alexandre Herculano. Historiador, escritor, um dos "bravos do Mindelo", que participou ao lado de D. Pedro na luta contra o Antigo Regime miguelista, depois de passar por um exílio, visto que o poder absolutista não admitia a cidadania. Lutou pelas suas convicções políticas sempre,até ao seu "exílio" voluntário, em Vale de Lobos, onde se dedicava à agricultura, à História e à Literatura, recusando cargos honoríficos e títulos. Sem ele muitos documentos de arquivos teriam tido um triste fim. Não se preocupou com festarolas constantes nem estardalhaços inúteis, mas fez muito mais por bibliotecas (a da Ajuda, por exemplo), arquivos, pelo património, pela investigação, com um método rigoroso, do que muitos retóricos habituais seus contemporâneos. Tornou-se pessimista dizendo: "quanto mais conheço os homens, mais estimo os animais". Mesmo assim intervinha discretamente; não desistia. Alguns ainda não lhe perdoaram, querendo remetê-lo para o esquecimento. Usual neste país, onde expor as ideias, discutir e intervir é ainda coisa mal vista, mesmo por alguns (ou algumas) que anunciam revoluções que descobriram há pouco, querendo que todos e todas obedeçam, e com elogios, à sua voz iluminada de comando.
terça-feira, 13 de abril de 2010
Para dormir?
Três músicas para embalar crianças.
Uma é de Trás-os-Montes, cantada em mirandês, pela Brigada Vítor Jara. O mirandês é falado em Portugal, mas é uma variante do leonês, língua em parte absorvida pelo castelhano, em Espanha. Nela uma mulher canta para o menino mas marca um encontro com o amante junto ao moinho.
Na segunda, que é a mesma, numa versão galega, uma língua falada em Espanha (ou será que é uma variante do português?), fala-se em moinho e menino e não molino ou niño como na portuguesa.
Na última, turca, ou antes de judeus espanhóis, cantada em ladino, também se canta a uma criança (menina). Só que esses judeus sefarditas, não eram apenas do actual estado espanhol: eram também portugueses. Durante séculos castelhanos,catalães, portugueses ... consideravam-se espanhóis, porque eram da Península Ibérica, Espanha ou as Espanhas, Al-Andaluz em árabe, Sefarad em língua judaica. Repare-se que não se diz duerme, como em castelhano, mas durme e escola e não escuela.
Uma é de Trás-os-Montes, cantada em mirandês, pela Brigada Vítor Jara. O mirandês é falado em Portugal, mas é uma variante do leonês, língua em parte absorvida pelo castelhano, em Espanha. Nela uma mulher canta para o menino mas marca um encontro com o amante junto ao moinho.
Na segunda, que é a mesma, numa versão galega, uma língua falada em Espanha (ou será que é uma variante do português?), fala-se em moinho e menino e não molino ou niño como na portuguesa.
Na última, turca, ou antes de judeus espanhóis, cantada em ladino, também se canta a uma criança (menina). Só que esses judeus sefarditas, não eram apenas do actual estado espanhol: eram também portugueses. Durante séculos castelhanos,catalães, portugueses ... consideravam-se espanhóis, porque eram da Península Ibérica, Espanha ou as Espanhas, Al-Andaluz em árabe, Sefarad em língua judaica. Repare-se que não se diz duerme, como em castelhano, mas durme e escola e não escuela.
sábado, 10 de abril de 2010
A Igreja Católica e os escândalos pedófilos
Dou uma importância relativa a certas explicações que relacionam a Igreja Católica e o celibato dos sacerdotes com a homossexualidade, pedofilia, assédio sexual e outras.
São coisas diferentes e cada uma merece uma explicação, se a houver, já que o ser humano não é propriamente o “homo sapiens”, antes aproximando-se da definição de “homo demens”. Nem todos, nem a maior parte, certamente. E, em termos de Estado de Direito, teremos que começar com as responsabilidades individuais, sob pena de andarmos a procurar culpas colectivas que podem levar à desresponsabilização, aquilo que na linguagem comum é traduzido como a “culpa morreu solteira”.
Na história da Igreja Católica há uma obsessão com o sexo, proibido para solteiros, oficializado e permitido com casais heterossexuais, mas regulado incessantemente. Nas igrejas protestantes também, sobretudo entre puritanos ou calvinistas, que transformaram este mundo no crescimento incessante do capitalismo. Muitos muçulmanos e judeus fizeram interdições. Basta ler os Livros, seja a Bíblia, o Alcorão, a Tora e, sobretudo, as práticas. Nem sempre foi assim: mesmo naquilo que chamamos matriz europeia (e não só), nas culturas grega e latina clássicas, o sexo era encarado de modo diferente. Basta visitar Pompeia ou a ilha de Delos para ver que a sexualidade era mais “natural”, do que os séculos que se seguiram.
Não é só na Igreja Católica que há sinais de pedofilia. Entre outros também, mas não relativizemos a questão.
Um dos problemas, que não explica tudo, é a relação entre um poder não contestado e o sexo, sobretudo com uma moral repressora e a manutenção desse poder que leva a desprezar as vítimas e a esconder os abusos, ainda que com o esquecimento de princípios constantemente apregoados.
Vejamos o caso da Irlanda. Uma luta secular pela independência e contra o colonialismo inglês e protestante levou a que os irlandeses transferissem parte do seu poder como cidadãos para a Igreja Católica, incontestada assim. Isso permitiu que orfanatos dirigidos por padres pudessem fazer o que queriam com crianças que nunca poderiam exigir nada, nem denunciar nada porque ninguém os ouviria. Como também por cá, como noutros lugares.
O problema não é a religião mas o poder, os ambientes totalitários, concentracionários, católicos ou outros, que permitem que as vítimas possam ser sujeitas a sevícias várias. Uma ou outra prática ou moral religiosa pode agravar, mas o poder incontestado é que permite situações destas.
Portanto, procuremos primeiro os indivíduos e depois passemos, sem esquecer, às hierarquias, às conivências e aos silêncios.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Senhora de Aracelis




Nesta capela e sobretudo no espaço circundante, festejam os agricultores dos concelhos de Mértola e Ourique, em finais de Agosto, a divindade da Agricultura. É a senhora de Aracelis, Ara Coelis, o Altar do Céu, como poderia ter sido Ceres, Ísis ou a Deusa-Mãe.
Segundo a lenda dela se avistam mais seis irmãs(os), perfazendo sete, número mágico. Os nomes variam, mas há um relato que me parece mais adequado: são elas S. Barão, Senhora das Neves, Senhora do Amparo ou São Brissos (Veríssimo), no concelho de Mértola, Senhora de Guadalupe, em Serpa, S. Pedro das Cabeças, em Castro Verde.
Cultos antigos que se mantiveram, uns mais ligados à agricultura, outros à pastorícia, como o culto da senhora de Guadalupe, em que pastores encontraram uma Senhora morena (seria árabe, moçárabe?), um santo eremita local que ajudava os casados a terem filhos, S. Barão (o homem), S. Pedro das Cabeças, onde se festeja o milagre e mito fundador da Pátria (batalha de Ourique). Marcam uma região, “os campos brancos”, em grande parte os antigamente chamados Campos de Ourique, uma comunidade, onde se pastoreavam rebanhos, provindos do Norte de Portugal ou de Espanha, na época da transumância
Segundo a lenda dela se avistam mais seis irmãs(os), perfazendo sete, número mágico. Os nomes variam, mas há um relato que me parece mais adequado: são elas S. Barão, Senhora das Neves, Senhora do Amparo ou São Brissos (Veríssimo), no concelho de Mértola, Senhora de Guadalupe, em Serpa, S. Pedro das Cabeças, em Castro Verde.
Cultos antigos que se mantiveram, uns mais ligados à agricultura, outros à pastorícia, como o culto da senhora de Guadalupe, em que pastores encontraram uma Senhora morena (seria árabe, moçárabe?), um santo eremita local que ajudava os casados a terem filhos, S. Barão (o homem), S. Pedro das Cabeças, onde se festeja o milagre e mito fundador da Pátria (batalha de Ourique). Marcam uma região, “os campos brancos”, em grande parte os antigamente chamados Campos de Ourique, uma comunidade, onde se pastoreavam rebanhos, provindos do Norte de Portugal ou de Espanha, na época da transumância
terça-feira, 6 de abril de 2010
Virgen de Piedras Albas. Castillejos, Andaluzia
Domingo de Páscoa. Reencontro das famílias espalhadas por Madrid, Catalunha, por tantos lados. Gente que daqui saiu, porque também aqui o êxodo rural deixou estas terras quase só com alguns velhos.
Vestem-se eles e elas à andaluza, comem e bebem em cima dos cavalos ou a pé, cantam dançam, rezam, disputam os lugares no andor. Seguem a tradição com música de um tamborileiro e dançarinos a preceito.
A senhora triunfa, Cristo é apenas é apenas uma figura pequenina.
Vestem-se eles e elas à andaluza, comem e bebem em cima dos cavalos ou a pé, cantam dançam, rezam, disputam os lugares no andor. Seguem a tradição com música de um tamborileiro e dançarinos a preceito.
A senhora triunfa, Cristo é apenas é apenas uma figura pequenina.
Hábitos diferentes
Ontem estive com um casal amigo que vive em Inglaterra. Ela é portuguesa e ele inglês. Vinham acompanhados das filhas, pois estão em férias.
A mais nova está no 11º ano. Tem disciplinas de ciências e humanidades. No final do ano vai para um novo ciclo de estudos, 12º e 13º anos, em que escolherá quatro disciplinas, num ensino mais especializado, antes de entrar na universidade. Depois, poderá entrar ou fazer um ano de voluntariado ou outras actividades, dentro ou fora do país, o que também é tido em consideração por algumas faculdades.
Os professores (penso que um professor-tutor), marcou-lhe 6 horas de estudos diárias, enquanto estivesse nestas “férias”. Não foi preciso ninguém lhe dizer, aqui, que tinha que ir para casa estudar. Foi, porque está habituada, porque os pais a habituaram e porque não põe em causa a recomendação ou ordem do professor para estudar, mesmo não estando ninguém a vigiá-la numa pretensa “escola a tempo inteiro”.
A mais nova está no 11º ano. Tem disciplinas de ciências e humanidades. No final do ano vai para um novo ciclo de estudos, 12º e 13º anos, em que escolherá quatro disciplinas, num ensino mais especializado, antes de entrar na universidade. Depois, poderá entrar ou fazer um ano de voluntariado ou outras actividades, dentro ou fora do país, o que também é tido em consideração por algumas faculdades.
Os professores (penso que um professor-tutor), marcou-lhe 6 horas de estudos diárias, enquanto estivesse nestas “férias”. Não foi preciso ninguém lhe dizer, aqui, que tinha que ir para casa estudar. Foi, porque está habituada, porque os pais a habituaram e porque não põe em causa a recomendação ou ordem do professor para estudar, mesmo não estando ninguém a vigiá-la numa pretensa “escola a tempo inteiro”.
Reflexões sobre o ensino secundário (cursos científico-humanísticos)- 3
Uma disciplina que todos os alunos dos cursos científico-humanísticos têm no seu percurso, ao longo dos três anos, é a disciplina de Português, disciplina fulcral, já que todo o ensino, com excepção óbvia das línguas estrangeiras, é feito na língua materna, contribuindo todas as disciplinas ( e o que se fala e escreve em casa …) para a literacia na língua materna.
O programa em vigor, propõe um diagnóstico inicial no décimo aluno e refere as competências que devem ser avaliadas também no início. Por exemplo:
– compreensão oral
. identificar a intenção comunicativa do interlocutor;
. saber escutar e compreender géneros formais e públicos do oral;
. saber escutar criticamente discursos orais, identificando factos, opiniões e enunciados persuasivos.
Ou
– expressão escrita
. dominar técnicas fundamentais de escrita compositiva:
- organizar o texto em períodos e parágrafos, exprimindo apropriadamente
os nexos temporais e lógicos;
- escrever com correcção ortográfica, morfológica e sintáctica;
- usar vocabulário apropriado e preciso;
- aplicar correctamente regras básicas da pontuação
Ou ainda:
– funcionamento da língua
. identificar classes e subclasses de palavras;
. reconhecer o valor polissémico das realizações lexicais;
. dominar os paradigmas da flexão nominal, adjectival e verbal;
. identificar modos e tempos verbais em frases simples e complexas;
. reconhecer funções sintácticas nucleares;
. distinguir relações de coordenação e de subordinação.
Uma observação simples, a experiência relatada ou efectuada no terreno, indica que a maior parte dos alunos não atingiram suficientemente estas competências. Mais, os testes internacionais PISA quando medem a literacia (alunos com 15 anos),chegam a conclusões destas, como no PISA, 2001:
[…] cerca de 60% dos jovens de 15 anos no espaço da OCDE são bem sucedidos na realização das tarefas correspondentes a estes três níveis. Mas esta percentagem varia muito de país para país (PISA, 2001, pág. 5)..
Em Portugal, bem assim como no Brasil, na Grécia, na Letónia, no Luxemburgo, no México e na Federação Russa esta percentagem não atinge os 50%.
Se observarmos a distribuição por nível, verificamos que, no nível 5 (o mais elevado) se situam 4% dos estudantes portugueses de 15 anos, contra uma média de 9% no espaço da OCDE. No nível 4 temos 17% dos alunos portugueses, contra uma média de 22% na OCDE. O nível 3 foi atribuído a 27% dos alunos portugueses, em comparação com 29% no espaço da OCDE. No nível 2 o contraste é entre 25% em Portugal e 22% na OCDE.
Finalmente, no nível 1 temos 17% dos nossos alunos, contra a média de 12% no espaço da OCDE.
O recente relatório da DataAngel Policy Research Incorporated (2009), A dimensão Económica da Literacia em Portugal: uma análise, na página 9, aponta também para conclusões semelhantes ou piores:
Quase um quarto da totalidade dos alunos (24,5%) obteve pontuações de nível 1 ou inferior, enquanto 28,8% obtiveram pontuações de nível 2. As distribuições dos resultados por níveis foram semelhantes nos testes realizados em 2002 e 2003.
Esta tendência é preocupante, porque significa que mais de 50% da actual juventude portuguesa está classificada como pouco qualificada nas disciplinas principais de literacia de leitura, matemática e ciências. Este resultado tem implicações importantes para as perspectivas económicas futuras de Portugal, porque os trabalhadores, com competências inferiores ao nível 3, terão grande dificuldade em competir na economia global do conhecimento. (Pág. 74).
Esta tendência é preocupante, porque significa que mais de 50% da actual juventude portuguesa está classificada como pouco qualificada nas disciplinas principais de literacia de leitura, matemática e ciências. Este resultado tem implicações importantes para as perspectivas económicas futuras de Portugal, porque os trabalhadores, com competências inferiores ao nível 3, terão grande dificuldade em competir na economia global do conhecimento. (Pág. 74).
Ora, perante isto chegaremos à conclusão que os programas são irrealistas e não têm em conta os alunos que estão no sistema. Já que em semanas não se recupera o que não se aprendeu antes, há duas soluções que têm sido praticadas: reprovar os alunos, logo no décimo ano ou aprovar administrativamente, acumulando problemas exponencialmente.
quarta-feira, 31 de março de 2010
Casablanca
Um grande filme que serviu de referência na época e durante largos anos para quem vivia em ditaduras e poderia ter a possibilidade de aceder a ele. Ainda hoje, como as tragédias gregas, mantém uma mensagem, dilemas e interrogações que perduram.
Nesta cena, personagens contraditórias. Uma mulher perseguida pelos nazis, que admira ou ama um resistente ao nazismo, que conheceu outro resistente, "o homem da sua vida", o qual abandonou em Paris, em circunstâncias que não podia explicar, porque se vivia em clandestinidade, época em que este também combatia o "monstro". Depois o encontro, em que os sentimentos e instintos são contraditórios com a aparente incoerência de um antigo resistente que agora parece contemporizar com corruptos marroquinos e de toda a parte, e a polícia francesa de Vichy, submetida aos interesses alemães, também corrupta, aproveitando-se dos refugiados.
Nesta cena dramática, os alemães cantam, como conquistadores, um hino. O homem que resistiu e fugiu das prisões políticas pede à orquestra que cante a Marselhesa, hino de França, potência colonial, quase protectorado alemão, mas também uma canção de resistência contra a opressão e pela liberdade.
Rick, o aparente arrependido, dá sinal para a orquestra tocar. Esta abafa os alemães. Refugiados que querem fugir para Lisboa, em direcção à América acompanham e cantam cada vez mais alto. Até os polícias franceses deixam de pensar no ordenado; uma prostituta francesa que anda com alemães cantam também com todas as forças, libertando-se da humilhação.
Heróis e anti-heróis em uníssono, um grito pela Liberdade, que não se sabia se viria.
terça-feira, 30 de março de 2010
Procissão do Senhor dos Passos, em Mértola
Procissão do Senhor dos Passos, em Mértola, domingo de Ramos.
Encontro entre o filho martirizado e a mãe. Encontros entre amigos e parentes.
Os pescadores levam o "pendão", com o SPQR, função que passa há muito de pais para filhos.
Ironia do destino: o percurso termina na antiga mesquita, onde, para além de um espaço completamente diferente de uma igreja, ainda se encontra o mirhab, o nicho para onde se orava em direcção a Meca.
segunda-feira, 29 de março de 2010
A Primavera em S. Barão
S. Barão era um eremita, que vivia numa lapa de um monte perto de Mértola. O nome vem do latim, vir, viris, homem. Segundo a lenda ajudava os homens casados a tornarem-se pais.
A partir deste monte, onde vivia S. Barão, sente-se a fertilidade da terra, no esplendor do despertar da Primavera.
A partir deste monte, onde vivia S. Barão, sente-se a fertilidade da terra, no esplendor do despertar da Primavera.
segunda-feira, 22 de março de 2010
Reflexões sobre o ensino secundário (cursos científico-humanísticos)- 2
O curriculum é hoje mais diversificado. E é bom que o seja. Mas só na aparência é que os alunos escolhem. Volto outra vez ao exemplo do Latim, disciplina que é estudada em países com línguas germânicas ou outras, mas que por cá é desprezada. Acrescento o exemplo de Évora, cidade que teve outrora grandes latinistas: não se estuda Latim em Évora no ensino secundário, embora existam três escolas secundárias. A disciplina de Literatura Portuguesa é opcional e só alguns a escolhem ou têm direito a escolher. Os alunos do agrupamento de Ciências Sócio-Económicas raramente têm História, porque têm que escolher entre História B e Geografia. No curso de Línguas e Humanidades podem ter que escolher entre Literatura Portuguesa, Latim ou Geografia. No 12º ano raros são já os que têm Física ou Química ou Filosofia e mais raros ainda os que podem ter Ciência Política ou Antropologia Cultural. Qualquer dia quase ninguém percebe a necessidade, porque as gerações se foram resignando e desabituando. Apesar de haver aqui três escolas secundárias, o que acontece é que em cada uma não existem inscrições suficientes e, por isso vão sendo convidados a “escolher” outras disciplinas. Pior ainda em escolas onde há menos alunos, como são muitas por esse país fora.
Ora o problema resolver-se-ia se houvesse uma rede a sério, em que os alunos tivessem direito efectivo de escolher, independentemente de haver ou não outros com a mesma escolha. Pelo menos uma escola em cada distrito ou em determinada área, deveria ter todas as disciplinas do curriculum, ou seja umas escolas teriam umas disciplinas, outras teriam outras, mas com a garantia que nessa área existiriam todas, independentemente do número de inscrições. Se numa escola houvesse três inscrições, noutra duas e noutra quatro, funcionaria, pelo menos numa, essa disciplina. É um direito que não deveria ser sonegado por motivos administrativos ou corporativos. Se fosse necessário (e é), o Estado deveria assegurar transportes gratuitos ou residências de estudantes em condições (e não acabar com elas). Até ficaria mais barato, porque caro é os alunos serem obrigados a escolher áreas ou disciplinas que não querem e depois reprovarem. E sublinho, é um direito, para mais agora que o 12º ano passa a ser obrigatório.
Ora o problema resolver-se-ia se houvesse uma rede a sério, em que os alunos tivessem direito efectivo de escolher, independentemente de haver ou não outros com a mesma escolha. Pelo menos uma escola em cada distrito ou em determinada área, deveria ter todas as disciplinas do curriculum, ou seja umas escolas teriam umas disciplinas, outras teriam outras, mas com a garantia que nessa área existiriam todas, independentemente do número de inscrições. Se numa escola houvesse três inscrições, noutra duas e noutra quatro, funcionaria, pelo menos numa, essa disciplina. É um direito que não deveria ser sonegado por motivos administrativos ou corporativos. Se fosse necessário (e é), o Estado deveria assegurar transportes gratuitos ou residências de estudantes em condições (e não acabar com elas). Até ficaria mais barato, porque caro é os alunos serem obrigados a escolher áreas ou disciplinas que não querem e depois reprovarem. E sublinho, é um direito, para mais agora que o 12º ano passa a ser obrigatório.
Reflexões sobre o ensino secundário- 1
O ensino secundário em Portugal já é um pouco diversificado. Actualmente existem os cursos científico-humanísticos, os cursos tecnológicos e os cursos profissionais. Os cursos tecnológicos estão em fase de extinção e os profissionais em expansão, sobretudo nas escolas secundárias, onde há uns anos não existiam.
Falemos dos cursos científico-humanísticos, aqueles que mais directamente visam o prosseguimento de estudos. Antes de analisar o curriculum, o problema deveria ser visto a jusante e a montante.
Um dos factos é que os alunos, em média, vêm com muitas lacunas do 3º ciclo. Não cabe aqui atribuir culpas, até porque isso não leva a nada, mas se compararmos o que os programas do ensino secundário exigem, à partida, com os conhecimentos e competências que a média dos alunos apresentam, existe um grande desfasamento, visível nos dados estatísticos relativos às reprovações e desistências no 10º ano, embora tenham diminuído, mercê também de grande pressão sobre os professores e as escolas. Haveria que avaliar a sério se os alunos têm ou não os pré-requisitos essenciais para entrarem no décimo ano destes cursos. Há soluções, desde exames a entrevistas estruturadas com profissionais dos serviços de Psicologia e Educação. E dar oportunidades: entra neste sistema se está em condições, se não está deve ter apoios suficientes da escola para poder entrar em condições para estes cursos. Entrar só porque se quer ter um diploma é que não tem sentido nenhum.
A jusante o problema é com as universidades que se têm demitido sistematicamente. As universidades não deveriam sequer poder queixar-se que os alunos não têm conhecimentos e competências quando entram. Deveriam escolhê-los e, aí, teriam obrigação de fazer o máximo possível. Seria estranho (parece que em Portugal não é) reprovarem a maioria logo no 1º ano, se os escolhessem. Não é para isso que pagam os contribuintes. Não se trata de elitismo (e em certo sentido é): as pessoas têm que aprender e ser bons profissionais, os diplomas têm que ter credibilidade ou então não servem para nada. Se o ensino superior não confiasse/desconfiasse nos exames do ensino secundário, talvez o ensino secundário fosse melhor e os alunos, pais e as escolas teriam outras estratégias. Por exemplo, se num curso de Português uma faculdade exigisse que os alunos tivessem conhecimentos de Latim e Literatura Portuguesa (que quase não se estudam), haveria alunos candidatos que escolheriam essas disciplinas. Como não me parece razoável que faculdades de engenharia aceitem alunos sem bases de Física ou Química, para além da Matemática ou que a futuros professores de 1º ciclo não seja exigida a Matemática.
domingo, 7 de março de 2010
Património degradado em Évora
Ruas da Moeda e de Alcoutim, em pleno Centro Histórico de Évora, Património Mundial. Algumas destas casas estão abandonadas há dezenas de anos. Na rua da Moeda, a casa ainda tem portais góticos, provavelmente do século XV; numa delas existia a “mezuzah”, uma ranhura onde os judeus punham um fragmento da Tora, para proteger a habitação. Vê-se que foi também uma adega, pois ainda lá está uma talha de boas dimensões. Na outra, já na rua de Alcoutim, pegada com a primeira, há uns anos vivia por lá uma pessoa que “alugava” quartos a raparigas e outros que não tinham para onde ir. Não tinha água nem electricidade e as pessoas iam buscar água a um fontanário no Largo dos Mercadores. A outra casa na rua de Alcoutim era, há dez anos ou mais, um restaurante. O tribunal ordenou o despejo e, de vez em quando, a porta, ou o que resta, é arrombada e serve frequentemente a um ou outro sem-abrigo ou consumidores de drogas.
A solução que a Câmara Municipal tem usado é emparedar as portas e, agora, fechar a rua.
Como se ninguém tivesse responsabilidades definidas: o proprietário, a Câmara Municipal, o IGESPAR.
Por vezes estes prédios têm dezenas de proprietários que não se entendem. Mas nós não temos culpa disso. A Câmara Municipal tem instrumentos suficientes para compelir a fazer obras ou tomar posse administrativa. No final pode apresenta a factura.
O que não se justifica é este perigo público e este miserável estado sanitário. Explico melhor: estes prédios podem ruir, como os quarteirões antigos funcionam em conjunto, os prédios vizinhos são também afectados, os ratos acumulam-se, os pombos também, com doenças associadas. E a defesa do Património, emblema de Évora, até o Turismo, essencial para a economia, o que é deles?
segunda-feira, 1 de março de 2010
Uma perspectiva pessoal sobre a Madeira
Tive a feliz oportunidade de conhecer a Madeira, pela primeira vez em 1974. Foi na viagem de finalistas do 7º ano do liceu em 1974, pouco antes do 25 de Abril. Não era fácil ir lá nessa altura, num país extremamente pobre como o nosso. A Madeira era contraditória. Pela primeira vez fui a uma discoteca, coisa que não havia em Évora, nem na maior parte do país, fui levado a sítios numa perspectiva de turista. Mas vi também uma pobreza muito grande, sobretudo em Câmara de Lobos. Há poucos anos, numa viagem organizada por amigos da Madeira, apercebi-me melhor, no terreno, das dificuldades imensas dos camponeses que iam até às vilas e ao Funchal, a pé, carregando às costas, descendo e depois subindo por caminhos íngremes, a pé, porque em muitos nem um burro passava, ou nem sequer tinham um animal de carga para levar as coisas que vendiam no mercado, em troca de pouco para o dia a dia. As comunicações eram feitas por essas encostas e depois pelo mar, as estradas que havia eram estreitas e perigosas. Ainda por cima esses camponeses tinham que pagar colonia, uma prestação feudal, semelhante ou pior que os foros que se pagavam no continente, abolidos depois do 25 de Abril. A vida destas famílias tinha muitas semelhanças com a exploração colonial.
Os madeirenses não eram (ainda não são) muito politizados, mas são activos. Emigraram (e ainda emigram, como grande parte do país) para a África do Sul, Venezuela, ilhas inglesas…, como antes foram para os colonatos de Angola. A sua persistência e habilidade são conhecidas, desde a antiga especialidade em fazerem levadas, que levou até a que Afonso de Albuquerque pensasse neles para desviar o curso do Nilo a fim de secar o Egipto, até aos empresários e especuladores conhecidos ou aos inúmeros pequenos comerciantes e industriais em países de emigração.
Alberto João Jardim percebeu esta gente e usou de todas as tácticas que aprendeu durante a guerra colonial, fazendo guerrilha e contra-guerrilha palavrosas, em nome de um desenvolvimento, com um discurso contra o Estado, contra elites, promovendo um estado clientelar em aliança com a Igreja, paternalista, pragmaticamente repressivo. Tornou-se um líder carismático, populista e creio que até é sincero nas suas convicções, embora o seu discurso seja contraditório e tenha forjado novos clientes do Estado. Mas não se preocupa com incoerências, porque a guerrilha permanente é o essencial para obter mais. Muitos acreditam nele, até porque o vêem no terreno, bebem uns copos, nas festas, no Carnaval. Ele está e outros não, por motivos vários, e os outros são outros em quem não se confia, tal como os camponeses não confiam em quem está distante e não é da terra. Alguém que andou descalço, emigrou para a Venezuela, chegou e viu uma festa com um líder a beber uns copos, com charutos e abraços e umas alarvidades, acredita no discurso da Joana Amaral Dias, que continua com ar de "menina fina", de Lisboa? É mais fácil acreditar naquele que fez umas estradas, promoveu umas festas à chegada daqueles que lutaram uma vida inteira. Quer tenha ou não razão. Certas elites portuguesas não compreendem isto, à direita ou à esquerda. Ou cedem cobardemente ou dão lições a quem não os ouve e na hora imprópria como hoje. As pessoas que estão desesperadas não estão para ouvir discursos de culpas. Elas ouvem quem está no terreno e faz alguma coisa, mesmo mal feita.
Felizmente há um sentimento nacional de solidariedade. E é isso que interessa neste momento. Esperemos, e tenho dúvidas, que a reconstrução não privilegie os lugares de turismo imediato e que seja feita uma avaliação dos erros para que não se cometam os mesmos depois, até porque a Madeira não é apenas um problema dos madeirenses. Mas tem que começar pelos madeirenses, e eles têm capacidade de reconstruir.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Escutas em restaurantes
Confesso que não me informei devidamente sobre a matéria e que pouco me interessa o que classifico à partida, salvo melhor informação, como baixa política.
Não gosto da política deste primeiro-ministro, nem simpatizo pessoalmente com ele, nem sequer gosto das técnicas do discurso usadas, mais parecidas com as de um vendedor em que falta autenticidade. Socorro-me, a propósito, de um exemplo de homem da política para explicar melhor:
Churchill era conservador, arrogante, colonialista, coisas de que não gosto, mas soube fazer frente ao nazismo não hesitando em fazer alianças com regimes que até tinha combatido. Tinha convicções e soube escolher. Mas não era nada inocente. Hoje nem na Inglaterra nem na maior parte do mundo ocidental seria escolhido, porque tinha defeitos que actualmente não são tolerados: fumava insistentemente charutos caros, comia e bebia demais e certamente diria algumas asneiras durante os almoços. Aí apraz-me ver que se apresentava como humano.
Vem isto a propósito de um escândalo que anda por aí porque o primeiro-ministro num almoço com amigos disse umas coisas e um jornalista ouviu, escreveu uma crónica que não foi publicada, mas foi publicada, e mais o diz que disse, mais a vitimização e etc. etc. Para já, acho que há alguma falta de pudor até em ir para um restaurante ouvir as conversas dos outros. Eu, por mim, quando vou a um restaurante ou a uma tasca, esqueço-me momentaneamente da conta que irei pagar e quero é gozar o que como e bebo e as conversas com os amigos e, se calhar, digo e oiço também algumas alarvidades, com algum respeito pelos que estão à volta, mas sem pensar nas virgens impolutas que não podem, pelo menos nestes lugares, ouvir palavras menos sacrossantas, com os seus ouvidos atentos. Como ao telefone com amigos, se me apetecer também falo mal dos juízes, dos polícias, dos padres, das freiras, dos parvos e até dos amigos. Certamente há coisas que digo em privado mas que não escreverei nem direi em lugares oficiais. Faz parte da liberdade pessoal e ninguém tem nada a ver com isso, nem um sistema judicial que se deve reportar às suas funções e ser eficaz, que é para isso que os cidadãos pagam impostos, e não deixar escapadelas fora do contexto.
Num país que durante 48 anos se aguentou com bufos e pides, aldrabões de vária ordem armados em puritanos, que deixaram este país na maior miséria da Europa até 74, custa-me a sobrevalorização das escutas, as fugas parciais e a conta-gotas em momentos estrategicamente determinados por poderes que não dão a cara.
As coisas têm que ser provadas com factos, com uma justiça célere, em que o objectivo seja a preservação do bem público e não a coscuvilhice que deixa marcas e suspeitas. Que o primeiro-ministro, o presidente da República, o arcebispo, o juiz ou outro qualquer arrotem, pouco me incomoda, desde que não cheire demasiado. O que me preocupa é a política que fazem, excepto a do arcebispo que deve é cuidar de outras coisas num Estado laico ou o juiz que faça Justiça.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Misticismos e mitos fundadores nas Astúrias
O reino das Astúrias foi o primeiro reino da chamada reconquista cristão face ao poder islâmico. Entraram facilmente os muçulmanos em 711 na Península (a Hispania ou as Espanhas) e até com apoios locais ou pelo menos com a aquiescência de muitos povos que preferiram o poder dos novos senhores menos opressivos que os descendentes dos visigodos em guerras civis constantes. Afinal, estes novos senhores nem sequer eram assim tão estranhos pois quando aqui chegaram eram herdeiros e continuadores das culturas e civilizações do Mediterrâneo, de vastos territórios do Império Romano, cristianizados antes, como a Síria (recordemos o grande impulsionador do cristianismo, S. Paulo que se converteu na estrada de Damasco), Palestina, Egipto e restante Norte de África, por sua vez herdeiros da cultura helenística e de outras mais antigas que se foram mesclando. Linguagens e saberes, formas de estar comuns à maioria da Península, com algumas excepções como as montanhas do Norte, onde até hoje resistiram línguas milenares como o basco. Erroneamente chamam-lhes árabes, tomando a parte pelo todo, pois que muitos eram de outras partes do novo império, sírios por exemplo ou mouros berberes do Magrebe, muitos recentemente convertidos, passando directamente do cristianismo (monofisita em particular) para o islamismo.
A civilização islâmica era essencialmente de cariz urbano e comercial, com uma agricultura e artesanato inovadores direccionados essencialmente para o mercado. Por isso, a esses novos senhores interessavam sobretudo as cidades do Sul, os terrenos agrícolas onde antes havia villae romanas ou alguns territórios produtivos do Norte como a antiga Galaecia romana, que incluía parte de Portugal. Tal como os romanos foram deixando os montanheses mais ou menos auto governados, até porque estes montanheses sóbrios eram guerrilheiros que davam trabalho a submeter.
É neste contexto que se forma o primeiro reino asturiano que ao longo de séculos vai dar origem aos reinos de Leão, Castela, Portugal… que vão reivindicar a memória visigótica e o cristianismo, erguendo a Cruz (in hoc signo vinces) e o apóstolo Santiago, que se há-de transformar em Mata Mouros.
O pai, o rei fundador, é Pelágio das Astúrias, de onde descendem os monarcas destes reinos, entre os quais o nosso, embora o primeiro rei de Portugal seja filho de um francês ou melhor dizendo de um borgonhês, que Borgonha foi uma potência até ao início do Renascimento.
Pelágio venceu os muçulmanos na batalha de Covadonga e fez de Cangas de Ónis a capital do reino rebelde. Quem foi, não se sabe bem. É possível que primeiro tenha sido vassalo do poder islâmico e que se tenha revoltado em 722. Como vassalos do Califado de Córdova foram posteriormente alguns reis e senhores cristãos, embora nem sempre obedientes. Alianças e desavenças eram constantes. Recorde-se por exemplo, séculos mais tarde, D. Afonso Henriques ao tentar conquistar Badalhouce (Badajoz) teve que fugir, mas foi preso e partiu uma perna, porque o seu primo, tão cristão como ele, Fernando de Leão, veio em auxílio dos muçulmanos de Badajoz, ou o mítico Giraldo que conquistou Évora mas se passou para o lado dos muçulmanos, tendo sido morto em Marrocos.
E é a partir do Reino das Astúrias que se inicia a "Reconquista"cristã. Curiosamente uma das regiões menos cristianizadas na época, onde conviviam práticas cristãs (e Roma ou Constantinopla ficavam muito longe) e Toledo era domínio muçulmano), com práticas pagãs de religiões ancestrais.
Covadonga é um lugar místico. Inserida numa área de altas montanhas que descem abruptamente até ao mar é nela que aparece uma Nossa Senhora, como antes já tinha aparecido uma deusa, numa gruta de onde jorra água. Grutas e fontes são sempre símbolos femininos e estão sempre associadas a divindades femininas, desde a Deusa Mãe, que tantas vezes mudou de religião. Acrescentem-se outros elementos misterioso e telúricos como as montanhas, a neve e o nevoeiro que levam os homens a sentir a sua pequenez, o fraco, transitório e fugaz poder e temos todo um ambiente mágico e perturbador, que nos leva ao confronto connosco e com a Natureza e ao prazer dionisíaco da nossa matriz selvagem (de silvis, oposto à civilização) e pagã.
O mito popular tornou-se mito fundador e legitimador dos novos reinos. É constantemente reinterpretado e usado, novamente a partir do século XIX pelo nacionalismo espanhol (contra a fragmentação perturbadora de outros nacionalismos primeiro românticos e depois eficazes, como o catalão ou o basco) e pelo catolicismo ultramontano, contra as correntes ateístas e agnósticas ou reformadoras da nova sociedade industrial, exacerbadas pelo franquismo que venceu a luta entre a “Espanha Vermelha” contra a “Espanha Negra”.
Hoje o turismo e a modernidade reabsorvem todas estas contradições que são aliás inerentes aos mitos. E as montanhas restituem-nos esse ideal de pureza ainda não conspurcada.
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