quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A farsa do 1º ciclo de avaliação dos professores.

O primeiro ciclo de avaliação correspondia aos anos lectivos de 2007/2008 e 2008/2009. O decreto de avaliação saiu a meio do ano lectivo de 2007/2008, já o ano lectivo ia por aí adiante. Só teria sentido se fosse publicado antes, porque os objectivos só têm sentido se forem propostos no início de um ciclo. Ora apresentar a meio de um ano lectivo já pressupunha efeitos retroactivos.

Mas a coisa piorou. Em 2009 foi publicado o decreto “simplex” que contrariava e anulava os objectivos propostos, já que a legislação tinha mudado,  já o processo ia a mais de meio.

Depois deu para tudo. Quem apresentou objectivos, estivessem ou não de acordo com o Projecto de cada escola, apresentou quando quis ou segundo a “boa vontade das escolas”, uma forma de desacreditar o processo ainda mais e prejudicar os que se mantiveram coerentes: uns em Fevereiro, Março… até em Junho, depois do final das aulas.

É ou não uma farsa classificar professores que propuseram meses e até anos (repare-se nas datas) depois de iniciado o ciclo? Que sentido tem dar Muito Bom ou Excelente a quem no fim do processo (alguns dos quais até tinham assinado documentos contra) apresentou objectivos e teve aulas assistidas? Com efeitos retroactivos, com prejuízo dos outros?

Desrespeito para com os que no final se lembraram de ser avaliados?

Alguém formulou objectivos no início do ciclo? Agora que no final formularam objectivos têm que ser premiados em desfavor dos outros?


Todos os partidos da oposição votaram a favor da suspensão do processo na última legislatura. Todos os partidos da oposição durante a campanha eleitoral prometeram a suspensão da avaliação.
A suspensão é necessária e os partidos têm obrigação de serem coerentes e respeitar os resultados das eleições.

Parece, pelo que vejo agora na Assembleia da República, o PSD está a “roer a corda”.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Assembleia da República. O nosso poder legislativo

Hoje enviei uma mensagem (semelhante ao texto que aqui escrevi ontem) a vários deputados.
É altura de os professores escreverem novamente aos deputados sobre a situação no ensino.
Nem todos vão ler, mas há muitos que vão pensar sobre as informações que cada um der.
Uma mensagem pode levar à mudança de atitude de um deputado hesitante.
Amanhã há discussão na Assembleia da República.

O e-mail dos deputados está em:
http://www.parlamento.pt/DeputadoGP/Paginas/Deputados.aspx

Poetas perdidos? Bernardim Ribeiro e o Alentejo


Monte do Álamo, Cano

Hesitei em (re,re) publicar esta poesia, porque deveria ser muito mais conhecida.
Mas tenho chegado à conclusão que os alunos do ensino básico e secundário já não têm oportunidade de usufruir destas coisas.
Os programas mandam-lhes fazer relatórios, analisar textos de natureza diversa: contratos, requerimentos, regulamentos, artigos científicos e técnicos (será que ...?), reclamações (será que se habituam?), ... e também textos literários que sejam argumentativos, líricos... Estudam-se autores "a propósito de". Por exemplo, o Padre António Vieira, porque fez textos argumentativos.
A literatura medieval e o seu contexto quase desapareceram, não fosse uma disciplina optativa escolhida por uma minoria: Literatura Portuguesa.
Muitos autores teriam desaparecido, não fosse o bom senso de alguns professores.
Recordo aqui um que vai entrando no rol do esquecimento. Um alentejano, provavelmente do Torrão, entre os séculos XV e XVI. Também refere o abandono, problema actual:

ÉCLOGA II

Dizem que havia um pastor
antre Tejo e Odiana,
que era perdido de amor
per da moça Joana.
Joana patas guardava
pela ribeira do Tejo,
seu pai acerca morava
e o pastor de Alentejo
era, e Jano se chamava.


Quando as fomes grandes foram
que Alentejo foi perdido,
da aldeia que chamam o Torrão
foi este pastor fugido.
Levava um pouco de gado,
que lhe ficou doutro muito
que lhe morreu de cansado;
que Alentejo era enxuito
de água e mui seco de prado.


Toda a terra foi perdida;
no campo do Tejo só
achava o gado guarida:
Ver Alentejo era um dó!
E Jano, pera salvar
o gado que lhe ficou,
foi esta terra buscar;
e, se um cuidado levou,
outro foi ele lá achar.
[…]
Bernardim Ribeiro

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O problema continua por resolver: a avaliação dos professores.

   Agora que na Assembleia da República há vontade de discutir os assuntos e não apenas votar batendo palmas ao governo e com as oposições a falarem sozinhas, mercê do voto popular que não quis que fosse só um a mandar, é altura de contribuirmos também para a discussão, não permitindo, na medida da nossa possibilidade de influenciar, que se façam acordos de bastidores, renegando o que se prometeu em campanha eleitoral.

  É necessária uma avaliação dos professores? É.

   Já muito foi dito sobre o modelo “coqueluche” do PS. A avaliação em vigor era burocrática até ao limite, inquisidora, permitindo até que pequenos ditadores em potência impusessem a sua verdade sobre como se devem dar aulas, o preenchimento de inúmeras e continuamente reinventadas grelhas, e penalizadora e culpabilizadora dos avaliados.

   Esta avaliação punha (põe) até as escolas “de pernas para o ar”, como se a principal missão de uma escola não fosse ensinar e educar, mas avaliar quotidianamente, as palavras, os gestos, as atitudes, o modo de ser de cada professor, o decalque ou o afastamento em relação à ideologia tecnicista e quase totalitária do “pensamento único”.

   Levada a sério, segundo os propósitos do ministério e demais ideólogos e "expertos" do regime e seus clientes, seria um preenchimento constante de fichas e relatórios e de práticas à defesa, com mais relatórios e fichas, dado que a concorrência poderia ir até a um plano em que avaliadores e avaliados lutariam por lugares. Os avaliadores passariam também o tempo com a avaliação, nalguns casos a ter que aprender matérias dos avaliados, por serem de grupos diferentes e as suas aulas passariam para segundo ou terceiro plano. Porque, ou o tempo esticava ou os professores iriam colectivamente tratar-se ou teriam que se arranjar outros horários, o que também ficaria caro, já que se avaliados e avaliadores passassem a maior parte do tempo a “trabalhar” para a avaliação, teria que se contratar mais professores para leccionar.

   As consequências deste processo foram, umas imediatas, outras que vão perdurar. Inquinou-se o ambiente nas escolas e só não se foi mais além porque os professores colectivamente reagiram e a sociedade compreendeu. Os resultados viram-se logo nas eleições europeias e depois na perda da maioria absoluta (não só por esta razão, mas esta teve peso). Milhares de professores com experiência, muitos dos quais participaram entusiasticamente em projectos ao longo de uma vida, pediram a reforma antecipada, outros ficaram com uma sensação de vazio perante a desvalorização demagógica do trabalho feito, com a utilização intensiva dos media, onde durante algum tempo imperaram os “idiotas de serviço”.

   A demagogia continuou. O ministério recuou e publicou um decreto com uma avaliação “self-service”, em que o que interessava era obedecer sem perguntas. Quem quisesse, poderia ter aulas assistidas, quem não quisesse não teria; até deu para em certas escolas entregarem os objectivos, que quase ninguém leu, depois das aulas terem acabado !!!

   Como se dizia numa língua quase exterminada no ensino secundário, o Latim: mons parturiens, a montanha pariu um rato.

   Agora falemos em propostas. Os professores devem ser avaliados nas actividades lectivas e não lectivas, em projectos que tenham a ver com a escola e no contexto da escola, com o grande objectivo de melhorar as suas actividades e formação e a escola. Por isso é também importante avaliar as aulas. Mas não é preciso que vá alguém assistir a várias aulas por ano: basta que isso seja feito no ano em quando se muda de escalão, por exemplo. E condição necessária, que se seja avaliado por alguém da sua área e que tenha mais experiência ou curriculum e que não seja um avaliador apenas, mas um júri, preferencialmente com pessoas de dentro e de fora da escola, para garantir alguma independência.

   Continuaremos. Vamos ver o que a Assembleia da República delibera e o que é que a senhora ministra pretende.

Penha de Águia




Pequena povoação construída por pescadores do Guadiana.

Poetas esquecidos. Jerónimo Corte-Real

Nada resiste ao tempo, tudo vence,
Tudo desfaz, consume e tudo gasta,
Grandes males e perdas, grandes danos,
Grandes desgostos dá ao esquecimento.
Leva-nos da memória em pouco espaço
Aquilo que antes era espanto à gente,
E o que nos assombrou ontem, já hoje
Leve o faz parecer, brando e tratável.
Não há tristeza grande que não cure,
Não há dor que co'ele seja grave.
Todo o mal e rigor, toda aspereza
Este velho cruel nos torna fácil.

Corte-Real, J. (1598). Naufrágio e Perdição de Sepúlveda e Leonor.

Suspensão da avaliação de professores. De novo.

Na última legislatura houve votações no sentido de suspender a avaliação dos professores. Houve propostas que tiveram votos de todos os partidos da oposição e de mais quatro deputados do PS, entretanto saneados.
Na campanha eleitoral CDS, PSD, CDU e Bloco de Esquerda prometeram votar favoravelmente a suspensão.
Vamos ver se mantêm todos a mesma posição ou se algum partido "rói a corda".

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O muro de Israel

Dados da ONU indicam que, até o momento, Israel construiu 413 km dos 709 km planejados para o muro.

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/11/091109_cisjordania_rc.shtml

Nota: o muro de Berlim tinha 61,5 Km, um exagero.
Mas foi derrubado!
Este continua a ser construído, contra as leis internacionais.

Os muros


Muro na Cisjordânia/ Muro de Berlim

Nos vinte anos da queda do muro de Berlim houve festa, aliás compreensível. Acabou também um estado policial. Houve ênfase com a ida de muitos presidentes e representantes de muitos estados.
A televisão e o pensamento dominante não falam de contextos. Em 1961, quando foi feito o muro (indefensável do ponto de vista dos direitos inalienáveis e imprescritíveis), estava-se em plena Guerra Fria. Em Berlim Oriental havia tropas soviéticas e polícia, em Berlim Ocidental havia tropas americanas e a CIA. Ambas as partes, a cidade dividida, eram bastiões de propaganda e de muitas perversões para demonstrar que o outro lado estava errado. Na RDA eram proibidos os partidos ou organizações chamadas capitalistas, na RFA era proibida a propaganda comunista. As Alemanhas estavam pejadas de exércitos estrangeiros. A desnazificação, iniciada em 1945, foi logo atalhada, o tribunal de Nuremberga mal teve tempo de condenar alguns criminosos e outros foram aproveitados, seja para fins científicos, seja para manter poderes. Do lado da RDA "não havia "ex-nazis, do lado da RFA foram "esquecidos".

O muro era a fronteira entre duas grandes ideologias, a fronteira política.

O mundo de lá desmoronou-se. Gorbatchev e outros tiveram aí um grande papel. O muro caíu sem sangue, de podre. A RFA anexou a RDA e, ainda hoje continuam os problemas. A RDA estava entre as dez maiores potências industriais. Perdeu mercados a Leste, desindustrializou-se, acabou-se o pleno emprego, ensino e saúde gratuitos, e ainda hoje põem-se problemas de identidade e de discriminação dos “ossies”. Convém aqui lembrar que a Alemanha, ou o império alemão, só existe a partir de 1871 e com grandes mudanças de fronteiras e transferências de populações em massa ao longo do século XX.

Em tempos Kennedy teve uma célebre frase:
“Ich Bin ein berliner”

“I have a dream”. Gostaria que, em vez de se festejar só, com tanto presidente a queda do muro de há vinte anos, se festejassem também as quedas de muros ainda mais electrificados, betonizados e armados que existem aí, como o muro que separa, contra a lei internacional e as decisões das Nações Unidas, o território ocupado da Palestina. É que esse muro não é só político, é racista, confina famílias separadas a territórios, até que desapareçam.

Não espero que venha um presidente americano a dizer em árabe: eu sou palestiniano; nem espero que venha tanto presidente em regozijo e festa.
Mas seria importante considerar que há mais seres humanos com direitos.

Veja-se também o que a insuspeita BBC mostra em relação a muros existentes:

http://news.bbc.co.uk/2/hi/in_depth/world/2009/walls_around_the_world/default.stm

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Lévi-Strauss


Nambinkwara, in Tristes Trópicos

Morreu Claude Lévi-Strauss aos 100 anos.

Lévi-Strauss é ainda uma referência na Antropologia Cultural.
Os seus trabalhos de investigação começam no Brasil, nos anos 30, para onde foi com a“missão francesa" para a Universidade de S. Paulo, tendo percorrido em várias expedições o Mato Grosso, Amazónia e outras terras, por locais onde raramente tinha penetrado o “homem civilizado”. Por lá, andando a pé ou no dorso de mulas, em locais sem caminhos, na densa floresta, onde se altera a noção de espaço, na sombra colectiva de árvores enormes e outra vegetação entremeada, onde mal se vê o Sol e se pode cair numa ravina imensa inesperada, no meio de bicharada estranha, ruídos e silêncios, encontrou tribos que conviviam com a Natureza, com uma sabedoria, um conhecimento dos sons e dos cheiros e outros sentidos já perdidos pelos homens ocidentais.

Um dos muitos livros publicados, “Tristes Trópicos”, relata essas viagens, onde se sente a nostalgia das culturas que se vão perdendo. Um livro de Etnologia, um romance de aventuras, uma viagem por outros mundos que confrontam visões preconcebidas.

E essa viagem começou quase por um acaso e por uma visão europocentrista, que afinal, por acaso, deu resultado com o homem certo, numa França ainda com pretensões coloniais e civilizadoras e num Brasil que se queria desenvolver e conhecer.

O próprio Lévi-Strauss começa pela Filosofia e conta em Tristes Trópicos , "não tanto por uma verdadeira vocação como por uma repugnância suscitada com outros estudos".Mas "a Filosofia não era ancilla scientiarum, a serva e auxiliar da investigação científica, mas sim uma espécie de contemplação estética por si própria".(...) Deste ponto de vista o ensino filosófico exercitava a inteligência ao mesmo tempo que secava o espírito"

No Outono de 1934 recebe um convite do director da Escola Normal de Paris para apresentar a sua candidatura para ser professor de Sociologia na Universidade de S. Paulo no Brasil. " Os arredores estão cheios de índios, poderá dedicar-lhes os seus fins-de-semana " . Pode parecer ridículo, já que S. Paulo era uma metrópole densamente habitada, mas era assim que se pensava em Paris.
 Foi o começo das longas e penosas viagens de exploração e estudo e mais tarde os E.U.A., onde contacta com a antropologia americana, obrigado a fugir da invasão alemã e Governo de Vichy, especialistas na purga de cérebros, sobretudo se fossem de origem judaica (como era o caso).
E do Brasil, França e EUA partiu para muitos outros mundos.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A República


Assembleia da República.

Governo de diálogo?

Neste país há muita gente com tendência a subverter as palavras.
Há uns anos António Guterres usou a palavra diálogo e logo se banalizou na opinião publicada. Apesar das minhas divergências, estou convencido que era sincero e tentou fazê-lo. Também é preciso ver o contexto: tínhamos saído de governos de Cavaco Silva que dizia que nunca se enganava. Retirou-se Guterres do governo antes de tempo e logo vieram alguns gozar ainda mais com a palavra diálogo. E quando gozam querem dizer que o diálogo é uma fraqueza, algo que não interessa a quem detém o poder. Triste conceito de democracia, falta de humildade perante as votações dos eleitores!
Agora o primeiro-ministro, depois de uma constante atitude de sobranceria e apoio repetido aos ministros e secretários de estado arrogantes volta a falar de diálogo.
Durante o último governo preocuparam-me mais as atitudes intransigentes da ministra da Educação e a atitude continuada de provocação do secretário de estado Valter Lemos, do que as gaffes de Manuel Pinho ou os dislates de Mário Lino.
A ministra da Educação foi-se embora, porque era impossível manter-se pelos estragos que fez. Mesmo alguns próceres do PS já começavam a duvidar de tanta iluminação, tanta reforma inovadora (ou reaccionária), contra quase todos.
Mas este governo manteve muitos e catapultou outros, cujo currículo foi a militância de começar por colar cartazes e continuar a dizer sim. Pelo meio, aparecem outras caras mais simpáticas e com obras noutros lados.
Não são as pessoas em si que me interessam, mas como governantes e as políticas que anunciam e executam.
Um sinal muito mau deste governo, que contraria totalmente a ideia de diálogo (forçado porque o governo não tem maioria e é obrigado a dialogar) é o lugar de secretário de estado de Valter Lemos no Ministério do Trabalho.

Esperemos! Esperar em tempo útil é necessário. Vamos ver o programa, o orçamento, as linhas de actuação e os factos.

Mas pôr alguém que nunca soube dialogar, que fez uma guerrilha constante, usando a demagogia no quotidiano, diabolizando os inimigos que criou, e uma apetência pelo poder já sem rebuços, é mesmo um sinal muito mau, é mesmo uma provocação, como dizia Carvalho da Silva há dias. Aliás, para um primeiro-ministro que se apresenta tão esperto, é uma falha mais na anunciada apaziguação. Mas tem companhia, o homem que gosta de "malhar", embora na sua juventude fosse contra os "capitalistas e generais", frase repetida pelos trotsquistas portugueses de há uns anos. Mas isso foi aquilo que alguns consideram "dislates" da juventude, embora alguns companheiros de antanho pensem que se trata de falta de coerência.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Ainda as Bíblias e os escritores

Falo em bíblias porque, no essencial, o Alcorão (agora há quem diga Corão, mas em português a palavra usada ainda leva o al, como quase todas as outras de origem árabe) é uma outra versão da Bíblia, adaptada a outros crentes, mais recentes historicamente, pois que Maomé viveu muitos séculos depois dos textos estarem fixados (ou não, mas isso é ainda outro problema). E aqui há também que não confundir com o ponto de vista cristão que juntou e dividiu em duas, o Antigo e o Novo Testamento (não é este que está em causa).
Se falamos de Bíblia, em sentido estrito e mais universal, é aquela escrita antes de Jesus (aliás Cristo não escreveu nada e quem escreveu foi muito tempo depois e com escolhas, para que os textos fossem mais coerentes entre si, o que nem sempre se conseguiu).

Só para realçar um pouco a ideia, tanto na Bíblia como no Alcorão os profetas são os mesmos e os anjos também. Aliás, Maomé, que era analfabeto no início, recebeu as mensagens através do anjo Gabriel, o mesmo que anuncia outras coisas e que fala com Maria, também venerada pelos muçulmanos, tal como Jesus para eles é um dos grandes profetas.

Ora o Deus que aparece na Bíblia, nas várias versões antigas, é frequentemente arbitrário e exclusivista, protegendo uns, arrasando outros. Costuma-se dizer que os desígnios de Deus são insondáveis. Trata-se de Fé e contra a Fé, por natureza, não há argumentos racionais, porque não se trata de Lógica mas de Crença.

Escandalizam-se alguns, mas também são parciais. José Rodrigues dos Santos publicou agora um livro explícito no seu título:  Fúria divina. Vende-se mas não dá escândalo. Porquê? Afirma mais ou menos o mesmo que Saramago e vai até mais longe ao referir o Alcorão. Se fosse vendido no Afeganistão ou na Arábia Saudita (clandestinamente claro) certamente teria grandes problemas. Aqui não, felizmente. Nem os muçulmanos portugueses reagiram como alguns católicos em relação a Saramago.

Mas se houver alguém que publique um livro do mesmo género em que se baseie só na Bíblia que os judeus usam seria acusado de anti-semitismo.

Mas afinal não é mais ou menos o mesmo? O Deus dos Exércitos, o Deus arbitrário e vingativo está nestas Bíblias.
Alguns dos que acharam graça às caricaturas de Maomé saídas num jornal dinamarquês e que acharam indmissíveis as reacções de alguns muçulmanos, agora indignam-se com Saramago.
Será que ainda pensam que são o Povo Eleito (bíblico), com exclusão dos outros e que a indentidade portuguesa ou europeia obriga a que sejam castigados os blasfemos e que os restantes façam profissão de fé?

Há quase cem anos (faz este ano) foi proclamada a República com a separação do Estado e das Igrejas. Já antes noutros países também. Na Turquia desde a década de vinte.

Já era tempo de alguns perceberem isso.

sábado, 24 de outubro de 2009

A nova ministra da Educação

Isabel Alçada foi indigitada para Ministra da Educação.
É uma pessoa respeitada, que tem escrito livros para adolescentes e fez um trabalho interessante com o Plano Nacional de Leitura.
Mas apoiou totalmente a política da ex-ministra da Educação.
Vi pessoas entusiasmadas com a nova ministra.
Mas, para lá das simpatias ou antipatias pessoais, não será melhor pensar qual é a política que vai ser seguida, conhecer o programa do governo?
Afinal Maria de Lourdes Rodrigues só lá esteve os quatro anos porque tinha a confiança reiterada do primeiro-ministro.
O primeiro-ministro é o mesmo e não mudou de ideias.

O que vale, não é a nova cara de ministra, o importante é que a Assembleia da República mudou e os partidos da oposição comprometeram-se a mudar a política da Educação. Até aqui o PS era irredutível. Agora vai ter que respeitar a vontade dos eleitores que recusaram a maioria absoluta e as "verdades" incontestáveis e o achincalhamento de quem não estava alinhado.

Vamos ver se os compromissos vão ser assumidos.Só depois de saber o programa do governo, as primeiras medidas em relação aos temas da polémica e a reacção de cada deputado é que poderemos formar opinião.

Até aqui está tudo como dantes. A legislação contestada está em vigor. Se nada mudar logo nas primeiras decisões, então teremos que estar mais atentos e mostrar que os cidadãos estão vivos. Neste governo de continuidade não pode haver dilatação de tempos de espera. Cada dia de espera é o agravar do que já foi feito.

Temos urgência em ver o que vai mudar.
É preciso mais que um sorriso.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Exercícios

Um tema, uma questão leva a outra e assim sucessivamente.
Vem isto a propósito de certa falta de assuntos que têm vindo à imprensa e à blogosfera.

Para mim, o caso Maitê Proença seria irrelevante, não fosse esta mania de muitos portugueses de passarem o tempo a dizer mal do país e escandalizarem-se quando alguém “de fora” (será que Maitê é mesmo de fora?) faz o mesmo ou diz o mesmo. Quase de admirar é também o “portuguesismo” de muitos brasileiros, que vivem entre a anedota do “Manuel” e a secreta admiração pela Europa, onde afinal Portugal também está, e algum orgulho na ascendência portuguesa.

Outro escândalo foi o de Saramago sobre a Bíblia, que leva até um deputado Europeu do PSD a pedir que ele renunciasse à nacionalidade portuguesa. Deveria pelo menos saber que desde 1910 que não há nenhuma religião oficial em Portugal. Mas Saramago também se lembra (e nós) que houve um secretário de estado da Cultura, num governo de Cavaco Silva que o pôs no “Índex” por ter falado dos Evangelhos, como se vivêssemos no tempo da Inquisição, o que o levou a fartar-se disto e a ir para Espanha, aliás numa tradição bem portuguesa, em que os “castiços” acham sempre que os outros devem ser “malhados” ou, pelo menos, exilados. Já assim era no tempo de D. João III ou de d. Miguel.

A opinião de Saramago é apenas uma opinião sem grande reflexão, uma pequena provocação, que não mereceria grandes conversas. E qual é o mal de haver pequenas provocações? Vivemos em algum estado teocrático? Disse Saramago o mesmo que poderia ter dito qualquer anticlerical no tempo da República e até antes ou depois. O prémio Nobel e o facto de ser um bom escritor não lhe dá competências de teólogo ou exegeta. É o mesmo (no caso pior) quando um conhecido professor de direito da Universidade de Coimbra fala sobre o ensino, sem perceber do que se trata ou quando um cirurgião dá opinião sobre o TGV, só porque calhou em conversa.

E não sendo eu exegeta nem teólogo resolvi dar mais uma espreitadela pela Bíblia. Diria antes Bíblias, porque há tantas traduções, tantas interpretações, livros canónicos para uns, desprezados ou ignorados por outros. Depois há leituras alegóricas e outras literais. Há o Velho Testamento, que não é bem igual ao dos judeus e até o Alcorão, que no fundo é uma Bíblia baseada nas outras.

E, nestes exercícios, consultei uma tradução do livro que mais edições teve em português ao longo dos séculos, ultrapassando qualquer grupo de escritores reunidos: a Bíblia d’Almeida.

João Ferreira d’Almeida, português do século XVII, fugiu para os Países Baixos protestantes (conhecidos vulgarmente por Holanda), foi, como tantos portugueses exilados, para as colónias das companhias holandesas e, a partir de Batávia (actual Indonésia), fez uma tradução da Bíblia, várias vezes modificada por outros nas inúmeras edições.

Não conheço a edição princeps, parece-me até que nem é conhecida, apenas encontrei uma, acessível inteira no Google, editada em Nova Iorque em 1848.

Ressalvando as modificações a linguagem é interessantíssima, pois está num português clássico mas já com algum sabor arcaico, embora certas palavras tenham ainda o mesmo significado no português do Brasil.

Questionei-me sobre a qualidade da tradução, questão nada fácil, porque as traduções em línguas vulgares, foram a diversas fontes, a traduções do Latim, do Grego, do Hebraico, de acordo também com a tradição aprovada por cada Igreja. Os próprios Evangelhos foram escolhidos entre muitos, escritos também alguns muito tempo após a morte de Jesus. E, no caso da Igreja Católica, a  tradição é extremamente importante. Por isso, durante séculos, sobretudo a partir do concílio de Trento (século XVI), para se ler a Bíblia só com autorização da Igreja e em Latim. Ao contrário dos protestantes que a liam nas línguas nacionais e, por isso, só um protestante a poderia ter traduzido para Português.

Se estas questões são quase irresolúveis, a quem haveria de perguntar?

Pensei em alguém que conhecesse Teologia e que não fosse um prosélito ou um propagandista dogmático.Mas os teólogos também estão comprometidos. Lembrei-me então de um livro de Régis Debray, filósofo, que em tempos escreveu sobre Che Guevara e hoje se dedica a estudos sobre religiões, em que diz que alguns dos intelectuais mais honestos nestas matérias são teólogos, entre os quais os da Companhia de Jesus. Além disso, dentro da Igreja Católica os Jesuítas são, em geral, as pessoas com maior formação intelectual, muitos deles com mais que uma licenciatura e doutoramento.

Procurei um “site” da Companhia em Portugal e fiz perguntas. Recebi resposta, com alguma humildade perante a complexidade (o que só demonstra conhecimento) e com referências sobre onde poderia encontrar melhor resposta.

E vi uma referência importante, que um dia talvez leia, de Frei Herculano Alves, que fez um doutoramento agora publicado, sobre a Bíblia de João Ferreira d’Almeida.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O sexo e as religiões



Museu em Rodes


Nem sempre o sexo não abençoado foi uma proibição.

É nas religiões do Livro, isto é, no Judaísmo, Cristianismo e Islamismo que elas são mais rigorosas.
Mesmo assim há diferenças dentro delas. Há, apesar de tudo, uma diferença enorme entre o wahabismo da Arábia Saudita ou as práticas de países como Marrocos ou a Síria. Nas "Mil e uma Noites", do tempo do califa Harun Al Rashid, em Bagdad o ambiente é relativamente liberal. O cristianismo ortodoxo grego parece-me mais conservador que o católico. E quanto a judaísmo há também de tudo.

É também preciso ter em conta que os textos podem ser levados mais a sério numas épocas do que noutras. Por exemplo, na Idade Média, mesmo em Portugal, as proibições eram vistas mais como um ideal. Basta ver que raro era o rei, nobre, bispo que não tinha filhos fora do casamento. D. João I não era filho ilegítimo e o seu principal apoiante, Nuno Álvares Pereira era um dos muitos filhos do Prior do Crato. Basta ler as cantigas de escárnio, cantadas na corte, que ainda fazem corar muita gente hoje, ou as histórias do Decameron, extremamente explícitas.
Mesmo na Idade Média islâmica andaluza (também nossa) os poetas continuavam a celebrizar o corpo (e os prazeres do vinho também).
Roma no século XVI era a cidade da Europa que tinha mais prostitutas que pagavam imposto ao Papa e se Alexandre VI (Bórgia) e seus filhos ficaram conhecidos pelos escândalos, não eram os únicos.
Mais intransigentes era os calvinistas nas suas diversas formas. Os puritanos de Cromwell proibiram até o teatro na Inglaterra e quase tudo o que não fosse trabalho e oração. E não foi só a Inquisição que matou bruxas (esta especializava-se mais em judeus), uma atitude que revela um fundo misógino. Por quase toda a Europa protestante e América se fizeram fogueiras com elas.
Diferentes eram as religiões da Antiguidade Clássica. Afrodite (Vénus) "traía" Vulcano com Ares (Marte) e não tinha medo de esconder a sua beleza; alguns como Zeus gostavam de mulheres terrenas.
Os gregos clássicos celebrizavam o corpo humano, sobretudo o masculino e não tinham medo do nu.
Mas no final do Império Romano, quando o cristianismo se torna religião oficial tentou destruir-se tudo o que simbolizava paganismo e o corpo passou a ser pecado.
A seguir veio Maomé que aprendeu com judeus e cristãos.

Maus Costumes?

Não sei se foi esta Bíblia que Saramago leu, mas esta aconselha a não ter "maus costumes":

Já em tempos mostrei
http://ruadealconxel.blogspot.com/2008/02/tradues-da-bblia-na-idade-mdia.html
uns extractos de uma Bíblia traduzida na Idade Média, em Portugal.
Vou repetir:


«Nam sera puta das filhas de Isrraael nem putanheiro dos filhos de Israel nem offereçeras merçe de puta nem preço de cam em a cassa do senhor Deos teu porque abominaçam e çugidade he açerqua do senhor Deos teu.» (Deut. 23, 18-19)
Nota: cam (cão) é um prostituto.

No Tratado da Confissom, a condenação também não é mansa em relação aos que se masturbam (sua natura na maano e faz lixo), homossexualidade masculina (meter sua natura ãtre suas pernasou doutro homẽ e fezer lixo ), sexo com animais (faz fornizio com besta ), sodomia, dependendo se é com mulher ou com homem, passivo ou activo, lesbianismo (da molher que iouuer cõ outra molher) ...
Um verdadeiro catálogo!
A maior parte dos castigos são jejuns (iaiũar), mas alguns prolongados.
Item todo homẽ que tomar sua natura na maano e faz lixo esto he pecado comtra natura. E por quantas uezes o fezer iaiũe .xv. sestas feiras a pã e agua por cada hũa uez. Itẽ todo homẽ que meter sua natura ãtre suas pernas ou doutro homẽ e fezer lixo este outrosi he pecado muy maao e desapraz com el muyto a Deus e deue por cada uez iaiũar quinze sestas feyras a pam e agua
[...]. Item todo homẽ que faz fornizio com besta deue ieiũar duas coresmas a pam e agoa e a primeyra deue ieiunar a porta da ygreia se poder. E se esto fezer com muytas bestas deue dauer moor peemdemça e deue de ieiũar as sestas feyras por sete anos. [...]

Outrosy o macho que este pecado fezer ẽ na molher outra tal peẽdẽça faça tirãdo das sete coresmas iaiũe as duas a pã e agoa pois logar ha departido para aquelo fazer, em outro logar o faz moor pecado faz. Outrosy todo homẽ que faz aquela poluçõ cõ sua maão ou cõ outro mẽbro, iaiũe sete coreesmas [...]. Se macho fezer luxuria cõ besta pello logar de besta, iaiũe sete coresmas. [...] Se uarõ se poser com molher, cõ aquele stormento que soõe a fazer as molheres para comprir sua maldade tal pena sofra como aquel que fez pecado sodomitico, e a molher que pecado sodomitico sofrer.
A molher que se soposer a besta, iaiũe .xiiii. coresmas a pã e agoa tirãdo os domĩgos nẽ uista panos de linho nẽ este ẽ egreia. [...] E da molher que iouuer cõ outra molher cõ aquel estormẽto que fazẽ as molheres, iaiũe sete coresmas a primeira a pã e agoa.

in José Barbosa Machado, O léxico obsceno na prosa medieval portuguesa Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

A Maitê das nossas indignações.

Filme: A Selva
Este vale a pena ver (a Selva). E ler a obra de Ferreira de Castro (o túmulo dele está na Serra de Sintra)

Maitê Proença na Playboy. Provavelmente não está a ler a Bíblia dos Jerónimos (essa contém iluminuras), nem a Bíblia de Saramago. A magreza evidenciada foi certamente antes de comer pastéis de Belém.


Maitê fez telenovelas, até filmes em co-produção com empresas portuguesas. Aí quase todos gostam dela, até porque tem uma presença agradável e voz doce.

Ora Maitê deve ter resolvido dar uma volta por Sintra e Lisboa, comeu e bebeu umas coisas e fez-se filmar com uma câmara de bolso, talvez um telemóvel, visto que a qualidade das imagens é mais que medíocre e ela própria costuma ter uma presença melhor face às câmaras e, presumo, já deve ter dito coisas com humor. Comeu, cuspiu, riu-se de coisas a que ela achou graça e mostrou-se numa televisão a fazer gracinhas. Nesse aspecto Maitê e esse canal de televisão merecem-se. Também ninguém parte do princípio que as televisões actuais, por aqui e por ali, são os melhores veículos de transmissão de cultura ou de manuais de boas maneiras ou de divulgação do Património mundial. Por aqui nada de críticas, nada de escândalos. Temos também por aí tanta gente sem qualidade nenhuma a fazer trabalhos para encher o tempo da televisão com sensacionalismos efémeros.

O que me preocupa em Maitê é a imagem das loiras. Conheço tantas loiras inteligentes, como morenas e outras também. Há tanta anedota parva sobre loiras, que já se boceja.
Não havia necessidade de aparecer mais uma a justificar as anedotas de loiras burras.
É isso que me indignou por uns momentos, porque coisas para fazer ou pensar tenho muitas em lista de espera.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Valter Lemos ou o rosto oficial do Ministério.

Há já uns bons anos, em 1997, Filomena Mónica publicou, depois de vários artigos na imprensa, um livro com o título Os Filhos de Rousseau: Ensaios sobre os Exames.

Chega a conclusões como:
A cultura dominante é a inculcada nos cursos de Ciências de Educação. Trata-se, em resumo, da mistura entre o legado de Rousseau e algumas ideias, mal digeridas, da Sociologia da Educação, com ênfase para as que contestam a autoridade do professor, a validade dos conteúdos curriculares e a disciplina nas salas de aula. Evidentemente que ninguém conseguirá – nem o julgo desejável – reconstituir a autoridade como ela existiu no passado. Mas a ideia de que é possível aprender sem esforço, a subalternização do professor, a ambiguidade perante a avaliação, degradaram as escolas para além do tolerável (Mónica, 1997, pp. 48,49).
A autora, ao criticar os programas de Português vai mais longe:


Ora este senhor tem sido nos últimos anos Secretário de Estado da Educação. Se já sabíamos alguns coisas sobre as suas reacções tempestuosas e virulentas, agora verificámos que há muito que já o fazia, ao pôr-se em bicos de pés em qualquer lado.
Mas o pior não é isso. É que ele representa a política oficial, das ideias à estratégia, do Ministério da Educação.
Enfim, um cursozinho de boas maneiras, a que vulgarmente se chama educação, não lhe ficava mal.

Olhemos agora a disciplina de Português. Mais do que a História, esta cadeira tem sido vítima de modas, do estruturalismo ao pós-modernismo, da psicanálise ao marxismo, do desconstrucionismo ao feminismo […] Foi este tipo de brincadeiras que liquidou a Língua materna. Ao contrário do que dizem alguns linguistas, a subalternização das regras gramaticais afecta de forma particular os alunos dos estratos mais desfavorecidos, os quais não têm, em casa, quem lhes explique como se fala correctamente, como se pensa logicamente, como se escreve rigorosamente. Ao valorizar a linguagem popular, sem reconhecer os limites do seu vocabulário, os pedagogos de esquerda estão a enclausurar os filhos dos pobres no mundo esquálido onde nasceram (Mónica, 1997, pp. 59,60) .
Ora, Filomena Mónica é socióloga e tem feito muitos estudos, nomeadamente sobre os parlamentares no século XIX, Eça de Queirós, Cesário Verde etc. Ao contrário de outros, prova as afirmações, embora discutíveis e certamente a necessitar de mais elementos.
O que achei interessante também foi a reacção de uma determinada pessoa, na época quase desconhecida. Estamos em 1997!
Diz ela:
A crítica mais insólita apareceu num jornal regional, A Gazeta do Interior. Identificando-me com os “hippies” dos anos 60, o articulista, Valter Lemos, declarava que não só fora forçado a aturar as sandálias, vestidos indianos e histeria sociologista da minha geração (devo dizer, para a posteridade, que nunca usei sandálias ou vestidos indianos e que ninguém se pode gabar de ter assistido a qualquer acto de histeria da minha parte provocado por teses sociológicas, como tinha agora de ouvir as minhas ideias “pimbas”. Era ainda acusada de albergar no meu seio um “conceito facilitista de selecção dos mais fortes e exclusão dos mais fracos e de “branquear” o regime salazarista. Sobre a relação que ele postulava, entre estes pecados e Marco Paulo, o autor não era claro (Mónica, 1997, p. 9).

sábado, 10 de outubro de 2009

Dia de Reflexão

Mais um dia de reflexão! Espera-se que os cidadãos reflictam. Ainda bem que não é como noutros países, em que mesmo nas horas de votar as pessoas são bombardeadas com sondagens, publicidade paga por lobbies que exigem o pagamento em actos, com Ética ou sem ela.
No dia da reflexão, saio da minha casa, no chamado Centro Histórico (não gosto deste nome porque leva a pensar em relíquias para exposição ou fotografia para mostrar aos amigos), digamos que saio da minha casa situada numa parte da cidade mais antiga, mas que faz parte da cidade como outros bairros, e pretendo beber um café.
A pastelaria A está fechada, porque a clientela que tem é composta de pessoas que trabalham aqui mas moram noutras áreas, a pastelaria B o mesmo, o restaurante C, tal e qual, o bar D só abre à noite, mas ao sábado menos. O comércio está fechado (os centros comerciais fora não), muitas casas de habitação estão também fechadas e emparedadas até, vê-se uma ou outra pessoa de mais idade, alguns turistas … Lá encontrei um cafezinho ao pé das muralhas!
Hoje até há um ou outro espaço para estacionamento para os moradores que pagam um selo caríssimo, que nos outros dias não há lugares, até porque reservaram a maior parte para tribunais, feitos onde antes eram armazéns de mobílias, pensões e hotéis e ninguém fiscaliza à noite e aos fins-de-semana. Como há menos movimento de automóveis alguns aceleram, táxis incluídos, respondendo arrogantemente se alguém lhes disser que o limite de velocidade intra-muralhas é de 30 km à hora (as placas existem!).
Passo ao pé de uns contentores do lixo já cheios. Não há separação. Mesmo sabendo-se que existem aqui muitos cafés e restaurantes, há talvez alguns que enterram a cabeça na areia e presumem que todas essas garrafas de vidro, papelões e outros vão ser levados para contentores próprios a centenas de metros ou mais. Não vão, apenas alguns particulares com mais pruridos se lembram de ir amontoando em casa esse lixo, até pegarem no automóvel para o levar para locais adequados.
Vão circulando automóveis, que os transportes públicos quase não circulam ao fim de semana e mesmo nos outros dias não chegam como alternativa. Andar de bicicleta, como o fazem normalmente holandeses, dinamarqueses e outros que têm neve e chuva, aqui pode ser perigoso, sobretudo nas rotundas, mas não só; Imagine-se apenas vir do Bairro do Bacelo até aqui e arriscar-se a levar com um automóvel nas traseiras, na dianteira ou nos lados. Ciclovias são mais para lazer que para o dia a dia. Por isso, nos dias da semana, uma cidade desta (pequena) dimensão parece ter mais automóveis que Amesterdão.
Como hoje é sábado, não poderei tratar de nenhum problema relacionado com o Centro Histórico. Se não, lá teria que pegar num automóvel para ir à Zona Industrial.
Felizmente também hoje, uma breve interrupção, não há aquelas procissões medievais com caloiros e outros que de vítimas passaram a algozes e que durante parte do ano passam por estas ruas e travessas, à noite já com a barriga cheia de álcool bebido à pressa, largando impropérios e sons não musicais, como se dentro das casas não houvesse já ninguém. Diga-se que não são só estudantes, são também gentes de outras qualidades e idades, que por vezes aplicaram alguns rendimentos numa ou noutra casa com umas senhoras que servem umas bebidas e outras coisas de lazer.
Hoje, não vi nenhuma ratazana. Mas os indícios de representantes das famílias que tenho visto, lá estão naqueles buracos que vão aparecendo, nos abatimentos das calçadas, fruto desses habitantes da obscuridade que vivem numas canalizações de pedras soltas e galerias adjacentes que foram construindo, roendo também as da água que vai chegando lamacenta às habitações, depois de muitas perdas.
Enfim, volto para casa. Não encontrei sítios onde as crianças possam brincar, nem quase nada que mexa, a não ser os automóveis que podem acelerar mais, porque há menos trânsito.
Ainda assim, nestes passos perdidos, vinha a pensar numa possível explicação para o facto de ter sido proibida a entrada de alguns candidatos, até membros eleitos desta municipalidade, nos Paços do Concelho desta Câmara. Como é possível nos dias actuais em que pessoas de diferentes partidos se cruzam e se cumprimentam, como ontem na Praça do Giraldo? Proibir a entrada de Abílio Fernandes nos Paços do Concelho (vide filme acessível no "Mais Évora), que foi presidente da câmara durante 25 anos, não é só desespero e intolerância: é falta de educação.
E como já reflecti o suficiente nestes últimos anos, vou tratar de outras coisas que também merecem ser tratadas.
Amanhã voto como sempre, até porque me lembro de algumas coisas do passado, vivo este presente e gostaria que os problemas da cidade fossem resolvidos, no interesse de todos, mesmo que isso leve algum tempo e algumas polémicas.