quarta-feira, 25 de março de 2009

Citações

Há, por um lado, aqueles que nunca citam nada e desprezam os autores, como se os que fazem coisas ainda tivessem que obter o favor de pedirem permissão para existirem e viverem de pão e água.
Mas há também a mania de citar continuamente, por vezes banalidades, como se só a autoridade de certos nomes permitisse a propriedade da palavra. Isto é muito comum em certas instituições, de tal maneira que nem se percebe o discurso de uns nem de outros, como se vivêssemos no tempo da Escolástica.

Aproveito um texto de Jorge de Sena e cito, porque vale a pena.

CITAR OU NÃO CITAR- Eis a questão

Certa vez, um inimigo meu que passava e ainda passa, graças à sua produção copiosa e hebdomadária, por crítico literário (o que me salva a mim, nestas matérias copiosas, é não ter sido nunca hebdomadário), e que, nesse tempo, sabia muito pouco inglês, dizia que a minha poesia e a de outros amigos meus era desse inglês traduzida... Esta a anedota n.º 1, que vamos comentar. A anedota n.º 2 refere-se a um amigo meu que não fazia versos «traduzidos» ou não, e que fora meu colega de curso. Certo dia, anos passados, visi­tando-me na minha casa de Lisboa e vendo-se rodeado de livros até ao tecto, perguntou-me muito honesta­mente: - Mas tu, quando escreves, não metes do que lês no que escreves? Como fazes para pensar por ti? - A 3.ª anedota passou-se com um erudito competentís­simo e digno, cujo carácter creio ter motivos para prezar. Dizia-me ele: - Vocês nunca citam nada, nunca fazem uma citação, nunca dão uma abonação -. E estra­nhava sinceramente a prática.
Em face destas três historiazinhas, que há-de um pobre homem fazer? Se a crítica analfabeta desconfia que ele está copiando do que ela não conhece... Se o público bem intencionado acha que a cultura e a infor­mação podem prejudicar a originalidade espontânea... Se a crítica erudita acha, no fundo, que a espontanei­dade corre o risco de, inocentemente, repetir o que já foi dito... E se - o que constitui por si só uma 4.ª ane­dota a comentarmos - a moda é que não se escreva um mísero e mesquinho artigo de jornal, sem um arraial de notas capazes de fazer corar tipógrafos... Digam-me o que há-de um pobre homem perpetrar […]

Acontece, porém que um “ensaio”, sem descer ao nível- que pode ser brilhante, mas é menor como arte literária- das “belas letras” sem mais consequências, é muito susceptível de ter sido escrito sem aparato crítico […]. Daí não se pode concluir que seja uma mastigação do muito que o autor leu. Não se pode concluir que seja uma manifestação de audácia e petulância […]
Se fosse preciso e indispensável, de cada vez que se pense em alguma coisa, fazer o levantamento de tudo o que se disse, neste mundo, acerca dessa coisa não se chegaria nunca a pensar nada. E não se julgue que a segurança do que foi dito, a exibição do que se sabe, etc. etc., constituem por si sós, ciência ou sinal distintivo dela.

SENA, Jorge- O Reino da Estupidez-1. Lisboa: Ed. 70, 1984, pp. 117 a 121

Palavras de Jorge de Sena, engenheiro de formação, doutorado em Literatura Portuguesa, especialista em Camões, romancista, dramaturgo, poeta ensaísta, que teve que se exilar no Brasil e depois nos EUA, leccionando na Universidade de Santa Bárbara, Califórnia, onde morreu, pois nenhuma universidade portuguesa o convidou nem antes nem depois do 25 de Abril

De Jorge de Sena

NO PAÍS DOS SACANAS

Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharia
sem que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, ajustiça,
a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.


Jorge de Sena

Nota: a palavra sacana é de origem japonesa e significava peixe ou comedor de peixe. Evidentemente não foram os samurais que fizeram esta alteração semântica.

Palavras gastas

Há quem tenha passado estes últimos anos irritado com a Ministra da Educação. A irritação deu lugar a bombardeamentos de mensagens, com autor e sem autor, como se os outros tivessem que aturar tudo de pessoas que só acordam tarde de mais. Alguns acordaram demasiado tarde e agora mergulham outra vez no sono. Depois de continuamente falarem da “sinistra” que tinha todos os defeitos, agora fazem tudo o que ela quer. E vão passar à frente dos outros, agora desta forma curvilínea, depois de tanta excitação a excitar os outros contra os demónios.
Arrependeram-se e deixam muitos para trás.
Liberdade de opinião é uma coisa, tolerância outra, incoerência é coisa que não me interessa. Como não me interessam os arrependidos de uma hora para outra, aqueles que pedem desculpa continuamente e mais uma vez atropelam os companheiros do dia anterior.
Eu, por mim, não preciso de sorrisos amarelos e não tenho paciência para máscaras que não sejam de Entrudo.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Alexandre Herculano e pensamentos





Sinto algum tédio em relação à política do Ministério da Educação e sua incompetência e às reacções de alguns. E à falta de visão, agora que já pouco falta para acabar o ano lectivo, sendo que um processo de avaliação deve começar logo no início do ano e não depois de meio.
Lembro-me de frases de Alexandre Herculano:

Quanto mais conheço os homens, mais estimo os animais.


Querer é quase sempre poder: o que é excessivamente raro é o querer.


Mas já a natureza rebenta por todo o lado. Na Primavera recomeça o ciclo da alegria. Já a figueira tem figos e a roseira e a laranjeira flores e a vinha parras, indiferentes a crises, governos e incoerências.

domingo, 22 de março de 2009

Os meus funcionários no quintal






Os meus funcionários.


Chamo-lhes funcionários porque funcionam. Sem ordens, numa anarquia como deve ser. Aparecem quando querem, não têm horário definido, trabalham quando querem, descansam quando lhes apetece, mas cumprem as metas e os objectivos. Misturam ócio com trabalho e prazer e não obedecem à voz do dono. Diga-se de passagem que o presumível dono também não está interessado na obediência; nem pode.
Um dos funcionários é o cágado. Não aparece na fotografia porque não lhe apeteceu mostrar-se hoje. Mas, desde que ele começou na sua actividade, o número de caracóis e outros bichinhos tem diminuído. É lento aparentemente, mas eficaz.
O outro é o ouriço. Ainda está em observações. O que significa que só o verei quando lhe apetecer, provavelmente à noite. Espera-se que coma alguma fruta caída e que afaste indesejáveis: os ratos.
Outros são os gatos. Não têm dono, andam por aí. Alguns aparecem, às vezes, com um lacinho ou uma campainha ao pescoço. Mas a natureza deles leva-os ao mesmo. Como dizia um amigo meu, que agora é advogado na Amareleja (uma bela terra), os gatos não são animais domésticos, são comensais. Além disso são uns alarves, não respeitam regra nenhuma que eles não queiram. Quando muito fazem contratos, com contrapartidas, em negociação permanente. E depois até parece que gozam connosco, enquanto andamos a arrancar ervas, eles refastelam-se ao sol, esperam com paciência até atacar no momento certo, em que levam um bocado de chouriço, um queijo ou uma cabeça de peixe, ou mais ainda, além de marcarem a presença com umas urinadelas fedorentas, (eles, elas são mais maviosas, sobretudo quando têm responsabilidades acrescidas, após o mês de Janeiro), apesar de preservarem muito o seu asseio. Mas com eles, desaparecem os ratos, as cobras e, sabe-se lá mais o quê.
É assim. Estes bichos já há muito que descobriram a Ecologia. Nós vamos também aprendendo com eles.

Diana Andringa na Biblioteca Pública de Évora

Recebi da Biblioteca Pública:


No próximo dia 26 de Março, Quinta-feira, pelas 21.30 horas, a Biblioteca Pública de Évora promove mais umas Leituras das Ciências, Artes e Sociedade. A área em foco é o Jornalismo, pela voz da reputada jornalista Diana Andringa.

Diana Andringa nasceu em 1947 em Angola e conta com um vasto currículo que lhe granjeou já diversos prémios pelo seu trabalho jornalístico e condecorações pela sua intervenção cívica. São exemplos os prémios "Nova Gente" de Jornalismo (1985), pelo trabalho sobre a guerra Irão/Iraque; o prémio de Jornalismo da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (1993), pelo documentário "Aristides de Sousa Mendes, o Cônsul injustiçado" e ganhou uma Menção Honrosa no Prémio de Jornalismo “Direitos Humanos, Tolerância e Luta contra a Discriminação na Comunicação Social” do Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas (2006), por “Era uma vez um Arrastão”, documentário que analisa o comportamento da comunicação social e desmistifica o célebre acontecimento. Foi condecorada com Ordens nacionais por duas vezes, sendo Comendadora da Ordem do Infante e Grande Oficial da Ordem da Liberdade.
Foi jornalista em vários jornais e revistas como Vida Mundial ou Diário de Lisboa e exerceu cargos de importância na RTP, onde foi responsável por programas, realizou documentários e conduziu entrevistas, focando situações e personalidades de interesse.
Entre os muitos exemplos, abordou nos seus documentários o tema do 25 de Abril, a integração de Goa na República da Índia ou o regresso de Macau à administração chinesa; abordou personagens literárias como José Rodrigues Miguéis ou David Mourão Ferreira, e personagens políticas como Humberto Delgado ou Bento de Jesus Caraça, entre muitos outros.
As Leituras da Ciências, Artes e Sociedade integram-se num programa de longa duração que contou já com a participação de alguns dos nossos mais ilustres cientistas e divulgadores de ciência, como Paquete de Oliveira (Sociologia), Carlos Fiolhais (Física), Máximo Ferreira (Astronomia), Viriato Soromenho Marques (Ecologia), Daniel Sampaio (Psiquiatria) e Cláudio Torres (Arqueologia).
A sessão tem lugar às 21.30 horas na BPE e é de entrada livre, embora esteja sujeita a marcação. Para reservar o lugar basta proceder à inscrição on-line através do sítio da BPE em http://www.evora.net/BPE/ ou através do número de telefone 266 769 330.

O despertar da Primavera. No meu quintal





quarta-feira, 18 de março de 2009

Não e sim. Eis a decisão.

Entrevista à Ministra da Educação.

Haverá mesmo penalização para quem não entregar os OI?
Pode haver ou não. Não é o ME que tem esse poder disciplinar sobre os professores.
[...]
Até mesmo Mário Nogueira reconhece que o professor não pode deixar os problemas à porta da sala de aula e, simultaneamente, lembra que as burocracias da avaliação dos docentes vão coincidir com o final do terceiro período.
O trabalho que se exige aos professores avaliados é, num momento inicial, a entrega dos Objectivos Individuais (OI) e, mais tarde, o preenchimento de uma ficha de auto-avaliação sobre o cumprimento desses OI. Depois, pode acontecer, ou não, uma reunião entre avaliadores e avaliados.
....
Jornal de Notícias, 18 de Maio
http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Nacional/Interior.aspx?content_id=1170558

Parlamento dos Jovens. Sessão distrital.









Ontem foi a sessão regional do Parlamento dos Jovens, em Évora. Havia propostas de onze escolas do distrito, cada uma representada por quatro alunos (deputados) e um suplente. Os deputados da E.S. Severim de Faria foram duplamente vencedores na sessão regional.
Foi aprovada a proposta feita pela turma de Ciência Política desta escola.
A escola ficou em primeiro lugar. Assim vão à Assembleia da República quatro representantes do distrito de Évora, os dois primeiros são da turma, João Zorrinho e José Benjamim.
Valeu a pena o esforço colectivo.
Das outras escolas houve também propostas muito interessantes.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

E o Carnaval não tem que ser subversão?

Desenho de Goya


Escola terá de fazer o desfile pelas ruas
DREN contraria Conselho Pedagógico de Paredes de Coura na polémica sobre desfile de Carnaval

19.02.2009 - 18h52 Graça Barbosa Ribeiro
A Direcção Regional de Educação do Norte (DREN) contrariou hoje uma decisão do Conselho Pedagógico do Agrupamento de Escolas de Paredes de Coura – que decidira fazer a festa de carnaval dentro do estabelecimento – e ordenou ao Conselho Executivo que convoque os professores para fazerem o desfile pelas ruas, amanhã à tarde.

“Tenho ordens para não falar, mas é impossível não reagir a esta desautorização da tutela em relação a uma decisão tomada em Conselho Pedagógico”, protestou a presidente do Conselho Executivo, Cecília Terleira, quando contactada pelo PÚBLICO.
Ontem à noite, os professores decidiram que, se após as explicações, a DREN mantivesse a ordem anteriormente dada através de correio electrónico, aceitariam participar no desfile, sob protesto, para não correrem o risco de ver demitida a presidente do Conselho Executivo.
“Vou fazer a convocatória, como foi acertado com os professores que, numa reunião marcada para hoje, poderão decidir manifestar, de alguma forma, o seu descontentamento”, disse Cecília Terleira.
A presidente do CE, que comentou que “os professores e os elementos dos órgãos de gestão da escola “estão em estado de choque com a falta de respeito da tutela por uma decisão tomada nos órgãos próprios”, sublinhou que o critério para o cancelamento do cortejo e de outras actividades foi suspender “apenas aquelas que não prejudicassem a aprendizagem dos alunos”.
Alegando falta de tempo – devido aos processos de eleição do Conselho Geral e do director e ao processo de avaliação – o Conselho Pedagógico decidiu terça-feira suspender algumas das 164 iniciativas que faziam parte dos planos de actividades. “Foram escolhidas apenas aquelas que não eram essenciais à aprendizagem e que, para além disso, eram promovidas fora do horário lectivo e não lectivo dos professores”, explicou Cecília Terleira.
Entre elas estava o cortejo de carnaval dos cerca de 400 alunos do pré-escolar e 1º ciclo do Ensino Básico que, decidiram os professores, festejariam o Carnaval mascarando-se e brincando nos respectivos estabelecimentos de ensino.
A decisão mereceu a imediata crítica da Câmara Municipal, de maioria socialista, e também da Associação de Pais, cujo presidente, Eduardo Bastos, disse ontem à noite à Lusa já ter “a informação, embora oficiosa”, de que iria “mesmo haver desfile”.

in http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1365907&idCanal=58

Parece que está tudo invertido.
O que é o Carnaval? Ou o Entrudo como se costumava dizer?
O Carnaval para o ser, tem que ser subversão. É o direito a uma desordem tolerada por uns dias, para que o mundo se reordene novamente. O Carnaval é para pôr em causa as instituições, os vizinhos, gozar com os inimigos, inverter o mundo. É a época em que através do riso se põe a sociedade de pernas para o ar até se verem as coisas escondidas ou envergonhadas à espera de que alguém as veja.

A polémica está totalmente fora de sítio.

Nem a escola se deveria preocupar com o Carnaval, nem a Direcção Regional se deveria intrometer (é mesquinhice a mais ou então falta de sentido ético e político, controleirismo ou não ter mais nada que fazer).

Nem os professores se deveriam preocupar com isso. Ensinem que é a sua função. Um Conselho Pedagógico perde tempo com o Carnaval? Há convocatórias para o Carnaval, dentro ou fora, conforme os pequenos ditadores?
Recusem-se a fazer desfiles dentro ou fora. Se quiserem façam-no sem regras. E os alunos que o façam por si próprios.

E a Câmara Municipal? Quando muito criar algumas condições, e esperar que seja ridicularizada também.

E os pais? Querem Carnaval? Façam-no! Não esperem que outros trabalhem para eles. Quando muito deixem os miúdos fazer umas máscaras e protegerem-se dos ovos, da farinha e das alarvidades.

Também há pouco ouvi que o Ministério Público, num sítio qualquer, também quer proibir a utilização do "Magalhães" no Carnaval. Mas é o Ministério Público que manda agora, quer fazer o papel de um governo de segunda? Não tem mais nada que investigar? É função do Ministério Público fazer de Ministro do Interior do antigamente?

Mas que mania é esta de querer controlar tudo?

É, no mínimo, ridículo querer burocratizar e ordenar o Carnaval.

Eu, por mim, que até sou pacífico, quero aproveitar o Carnaval, e já que o Estado aprovou tolerância de ponto, espero que também me tolere esta vontade de pensar e dizer uns impropérios e mandar alguns aprendizes de feiticeiro para, pelo menos, irem à fava, mas sem estragar as favas que haveremos de comer com chouriço, ressalvadas as reservas em relação ao colesterol.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

A preto e branco? Não

Recebi este mail:

VÊ ESTE VIDEO ANTES DE SER RETIRADO DA REDE


Atreve-se a falar verdade!!

O VIDEO É FALADO EM ÁRABE, MAS O TEXTO COM LEGENDAS EM INGLÊS. SE NÃO PERCEBERES BEM, PF PEDE QUE TE TRADUZAM, VALE MESMO A PENA! Aqui está uma poderosa e incrível declaração da televisão Al Jazeera. A mulher é WAFA Sultan, uma psicóloga árabe-americana de Los Angeles. Sugiro que vejas o mais rápido possível, porque eu não sei quanto tempo o link vai estar activo. É muito surpreendente que a estação de TV com patrocínio árabe permita transmitir esta entrevista. É muito poderoso, não tenho dúvidas de que ela tenha agora a sua cabeça a premio.
http://switch3.castup.net/cunet/gm.asp?ai=214&ar=1050wmv&ak

São meias verdades que revelam também algum desconhecimento, baseado em estereótipos.
Não vejo a Al Jazeera, mas sei que é um projecto com alguns anos, que tem conseguido alguma independência em relação a algumas ditaduras. Não apenas governos árabes têm tentado silenciar esta estação de televisão, como também o governo americano fez todos os possíveis.
Por isso, não me admira ver este debate na Al Jazzeera. Nos países muçulmanos com ditaduras também há quem se mexa. E é preciso que essas pessoas sejam apoiadas, sem paternalismos, nem hostilizações a tudo o que é árabe.
Lembremo-nos, e infelizmente a memória é muito curta, que passámos por uma longa ditadura, e que também muitos estrangeiros associavam os portugueses ao integrismo católico ultramontano e totalitário e ao colonialismo do regime de Salazar. Por cá também tivémos muitos com a cabeça a prémio, com prisões, torturas e assassinatos.
Lembremo-nos que muitos se esqueceram, particularmente após a queda da fascismo e do nazismo, que havia uma ditadura em Portugal. Muita gente da oposição tinha alguma esperança que as democracias europeias e os EUA fizessem algo que contribuísse para quem em Portugal também houvesse democracia e desenvolvimento. Foram também esperanças defraudadas.
Muita gente se esquece também desses emigrantes portugueses que fugiam à miséria, e dos exilados que fugiam a toda esta opressão.
É necessário ver os muçulmanos com outros olhos. Não são, certamente não serão a maior parte, uns fanáticos guiados por forças do mal (haverá também alguns, como por cá também existiram Salazares e Francos e ...). Como noutros lados, a maior parte querem viver em paz.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Political compass

Hoje com os alunos de "Ciência Política" fizémos um teste muito interessante: "The political compass". Depois de responder a um conjunto de perguntas, temos um resultado que nos situa mais à esquerda ou mais à direita.
O teste tem um valor relativo mas leva as pessoas a reflectir.
Está em inglês ou castelhano em
http://www.politicalcompass.org/test

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Coragem

Coragem
Definição do Dicionário da Academia das Ciências: Força de espírito que leva a pessoa a vencer o medo, a enfrentar o perigo ou situação hostil …

Há quem diga por aí que a ministra da Educação tem coragem. Por acaso está em risco de perder o emprego, os professores ameaçam bater-lhe, alguém a quer torturar, está em risco de ser mobilizada para o Afeganistão …?

Não, a ministra não é corajosa (eventualmente até pode ser). É teimosa! E, teimosia, só por si, pode não ser uma qualidade. E teimosia, só por teimosia, não é admissível num ministro, que à letra, é um servidor do povo.

Como não é preciso ter muita coragem para resistir a este simplex e este estatuto dos professores. O que faz falta a alguns é persistência. Se desistem e se sentem mal, podem voltar atrás. Não é preciso ter coragem, só um pouco de coerência.

Coragem é o que relatam Irene Pimental e Diana Andringa no blogue Caminhos da Memória, http://caminhosdamemoria.wordpress.com/ .

Vale a pena ler:
"Tortura" :http://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2009/02/tortura_irenepimentel.pdf
e "Falar" na Polícia :
http://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2009/01/falar_dandringa1.pdf

Candidato a Malhador

http://oblog.com.br/asttro/wp-content/uploads/Eleicoes2008WilsonDoSacoTorto_A8F0/eleicoes2008wilsonsacotorto.jpg

Malhador

Guerra Colonial

Está já acessível o sítio Guerra Colonial, onde podem ser consultados textos, fotografias, filmes etc. sobre as guerras coloniais em Angola, Moçambique e Guiné.

E já que se está em maré de revisão das qualidades de Salazar, é de lembrar a célebre ordem que deu ao exército português na Índia:
"Só soldados vitoriosos ou mortos". E alguns meses depois:
"Para Angola e em Força"

Será que na série sobre as mulheres de Salazar também vão falar das viúvas das guerras coloniais?

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Sobre a luta dos professores

Continuo com a questão das palavras. As palavras, sobretudo quando há compromissos, não devem ser gastas pela repetição que as pode levar à banalidade.
O momento não é fácil. Há quem ceda a pequenas migalhas e chantagens. Não se pode ir atrás de alguns só porque alguns cedem. Esta luta é colectiva e é individual. Da perseverança de cada um pode resultar um triunfo para todos. A palavra de ordem é resistir, com ou sem alarido.

Anti-parlamentarismo

Palavras de Salazar, inscritas numa das poucas entrevistas que deu, e a maior de todas, publicada em livro, revisto por ele próprio e com prefácio também do entrevistado, que ele não era para menos.
Anti-parlamentarismo

Atiro mais uma flecha:
- Ha quem atribua o seu anti-parlamentarismo ao seu feitio aparentemente concentrado, ao seu horror dos discursos... Ha até quem o desafie para S. Bento: «Eu queria vê-lo diante duma interpelação de Fulano, de Beltrano, de Sicrano ... » Ha outros, tambem, que desabafam, de quando em quando, com esta ameaça platonica: «Ah! Se não houvesse censura ... »
E Salazar, num murmurio, com orgulhosa humildade:
- Talvez tenham razão ... Venciam-me, com certeza ... ainda que a gente habitua-se a tudo, mesmo a não fazer nada, sendo trabalhador - e alteando a voz a pouco e pouco - Eu sou, de facto, profundamente anti-parlamentar porque detesto os discursos ôcos, palavrosos, as interpelações vistosas e vazias, a exploração das paixões não à volta duma grande ideia, mas de futilidades, de vaidades, de nadas sob o ponto de vista do interesse nacional. O Parlamento assusta-me tanto que chego a ter receio, se bem que reconheça a sua necessidade, daquele que ha-de sair do novo estatuto. Sempre são três meses, em cada ano, em que é preciso estar atento aos debates parlamentares, onde poderá haver, e claro, boas sugestões, mas onde haverá sempre muitas frases, muitas palavras. Para pequeno parlamento - e esse util e produtivo, como no caso actual- basta-me o Conselho de Ministros ...
FERRO, António- Salazar .... pp.141 e 142 op. cit.
Sublinhados nossos

sábado, 7 de fevereiro de 2009

No tempo em que se malhava mais, ou se davam alguns safanões.

E o dr. Salazar, como quem não dá importancia ao pormenor:
- Quero informá-lo, no entanto, de que se chegou à conclusão de que os presos maltratados eram sempre, ou quasi sempre, temíveis bombistas que se recusavam a confessar, apesar de todas as habilidades da Policia, onde tinham escondidas as suas armas criminosas e mortais. […] E eu pergunto a mim proprio, continuando a reprimir tais abusos, se a vida de algumas crianças indefesas não vale bem, não justifica largamente, meia dúzia de safanões a tempo nessas criaturas sinistras …

FERRO, Antonio, 1896-1956 Salazar: o homem e a sua obra / António Ferro, pref. de Oliveira Salazar. - Lisboa : Emp. Nac. de Publicidade, imp. 1933, pág 82
Nota: manteve-se a grafia da época, com menos acentos do que hoje. Sublinhados nossos.

O Malhão

in http://www.casaruibarbosa.gov.br/omalho/revistas/1919/875/c1.jpg


«Eu cá gosto é de malhar na direita, e gosto de malhar com especial prazer nesses sujeitos e sujeitas que se situam, de facto, à direita do PS. São das forças mais conservadoras e reaccionárias que eu conheci na minha vida, e que gostam de se dizer de esquerda plebeia ou chique. Refiro-me, obviamente, ao PCP e ao Bloco de Esquerda».

Santos Silva, 5 de Fevereiro de 2009

Nota: Não é o primeiro a utilizar a mesma linguagem que usava quando era da extrema-esquerda

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

As mulheres de Salazar


Agora parece que está numa certa moda falar das habilidades de sedução de Salazar em relação às mulheres.

Ora Salazar toda a vida tentou provar que era casto. Foi seminarista, obedeceu o mais que pôde à madrinha que queria que ele fosse padre, quis devotar-se à Nação dele como se fosse sua mãe e Nossa Senhora de Fátima ao mesmo tempo, nunca quis casar, arranjou uma governanta da província pouco dada à beleza para servir num palácio, antigo convento, onde o único aquecimento era a sua manta e as suas botas. O seu grande amigo, desde o seminário e Coimbra, foi sempre o Cardeal Cerejeira, amigo, como ele, de todas as ditaduras que mantivessem Deus, Pátria e a Família e, claro, a sua Ordem como antes da Revolução Francesa. Tentou a todo o custo que as mulheres não votassem, a não ser as que tivessem frequentado o liceu, às quais diligentemente se tentava interpor todas os possíveis impedimentos. As professoras primárias só podiam casar com autorização do Estado, as enfermeiras eram impedidas de casar, as mulheres casadas não podiam sair sem autorização do marido…

É certo que sempre houve mulheres para tudo, tal como há homens para tudo, para todos os gostos.

Mas Salazar!?
Ele dizia que não queria casar, só com a Pátria dele. Está bem que o homem dizia que era sempre honesto, mas também pregou algumas mentirinhas. Mandou matar o Humberto Delgado e disse que tinha sido a oposição. Mandou prender umas dezenas de milhares de pessoas, mandou torturar ainda mais umas dezenas de milhares e dizia que eram só umas chamadas de atenção, deixou o país numa miséria, mas numa pobreza honrada e com o pessoal analfabeto a fugir para França.

Agora mulheres? Tanto me faz que o homem tenha sido casto ou não. Ter relações sexuais é o que fazem biliões de homens e mulheres, não é nenhuma proeza especial nem uma qualidade excepcional. Mas ele tentou sempre demonstrar que era tão casto como qualquer santo após o Concílio de Trento. Perdoem-lhe outras mentirinhas, mas não desmintam um homem que toda a vida lutou pela misoginia e que nunca se envergonhou de defender os ideais dos tempos da Inquisição e do Ultramontanismo.

Haja respeito! (como no tempo de Salazar!?!?...)
Nota: As mulheres de Salazar são sobretudo as mulheres do Couço, as enfermeiras presas, as militantes, as que ficaram viúvas, e tantas outras, com retrata Irene Pimentel no livro cuja imagem aparece acima. E também aquelas que não podiam estudar, que não saíam de casa, as que trabalhavam todo o dia e de noite também ...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

"British jobs for British workers"

in http://leatherhead.files.wordpress.com/2008/02/illegal-immigrants.jpg
"British jobs for British workers", disse Gordon Brown.
Agora há sindicatos ingleses que o repetem. Trabalhadores portugueses e italianos tiveram que se vir embora.
Mas afinal não estamos na União Europeia da livre circulação de pessoas? Gordon Brown não é herdeiro do internacionalismo do Partido Trabalhista (com tradição sindicalista) e da Internacional Socialista?
Se isto não é xenofobia, então o que é?

Deveríamos perguntar à embaixada do Reino Unido, o que é que o seu primeiro-ministro quis dizer com isto.
A embaixada tem o seguinte e-mail:
ppa.lisbon@fco.gov.uk

Imigração, turismo e outras coisas

Evidentemente não fico satisfeito de encontrar esta degradação no centro de uma cidade francesa, Perpignan, nem imagens como esta e outras piores, bem próximo da zona de negócios e turismo, a cidade limpa e ordenada. Aqui habitam outros franceses, de origem norte-africana, ciganos franceses e alguns estrangeiros. Não tirei muito mais fotografias por respeito aos que lá vivem, que de miséria já estão fartos, quanto mais verem estampados os seus rostos para contento de apreciadores de imagens exóticas.
A Europa também é isto.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Frases com impacto

Garibaldi, revolucionário, herói romântico da unificação italiana, internacionalista contra o Império Brasileiro, republicano, anematizado pela Igreja Católica, pela aristocracia e burguesia das Itálias, uma espécie de Che Guevara cem anos antes, dizia:

“Chi vuole continuare la guerra contro lo straniero, venga con me. Non offro ne paga, né quartiere, né provvigioni. Offro fame, sete, marce forzate, battaglie e morte. Chi ama la patria, mi segua.”

(Quem quiser continuar a guerra contra o estrangeiro, venha comigo. Não posso dar-vos pagamentos, nem quartéis, nem provisões. Ofereço-vos fome, sede, marchas forçadas, batalhas e morte . Quem ama a Pátria, siga-me.)

Em 1940, Churchil, aristocrata, monárquico, imperialista e conservador, mas parlamentarista, não hesitou em fazer um discurso semelhante perante o perigo nazi, ao contrário de outros que viam em Hitler um mal menor contra "o comunismo". Disse no Parlamento:

I say to the House as I said to ministers who have joined this government, I have nothing to offer but blood, toil, tears, and sweat. We have before us an ordeal of the most grievous kind. We have before us many, many months of struggle and suffering.

You ask, what is our policy? I say it is to wage war by land, sea, and air. War with all our might and with all the strength God has given us, and to wage war against a monstrous tyranny never surpassed in the dark and lamentable catalogue of human crime. That is our policy.


(Neste momento de crise, espero que me seja perdoado não falar hoje mais extensamente à Câmara. Confio em que os meus amigos, colegas e antigos colegas que são afectados pela reconstrução política se mostrem indulgentes para com a falta de cerimonial com que foi necessário actuar. Direi à Câmara o mesmo, que disse aos que entraram para este Governo: «Só tenho para oferecer sangue, sofrimento, lágrimas e suor».
Temos perante nós uma dura provação. Temos perante nós muitos e longos meses de luta e sofrimento.
Perguntam-me qual é a nossa política? Dir-lhes-ei; fazer a guerra no mar, na terra e no ar, com todo o nosso poder e com todas as forças que Deus possa dar-nos; fazer guerra a uma monstruosa tirania, que não tem precedente no sombrio e lamentável catálogo dos crimes humanos. -; essa a nossa política
.)

vide O Portal da História, http://www.arqnet.pt/portal/discursos/maio02.html

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Ainda os contratados

Em tempos chamavam-se provisórios. Agora são contratados.
Não percebo o paternalismo em relação aos contratados. Eu também estive oito anos sem ser do quadro, doze fora da residência a gastar muito tempo e dinheiro com gasolina, refeições etc. e com três filhos. E a luta também era minha. Se ficarmos à espera que os outros resolvam os nossos problemas e nos contentarmos com migalhas, então nos próximos anos nada valerá a pena.

Misericórdia de Tavira






Igreja-salão que o barroco ainda deu mais esplendor.
A arte do espectáculo é permanente.



Outra moção

Escola Secundária de Severim de Faria

MOÇÃO


A análise da legislação em vigor mostra que as condições objectivas para a aplicação do modelo de avaliação de desempenho, mesmo que simplificado, não se alteraram, tendo em conta os seguintes aspectos:

1. O modelo de avaliação da actividade docente continua a não ser um instrumento fundamental de valorização da escola pública e do desempenho dos professores;
2. Qualquer alternativa ao actual modelo de avaliação do desempenho só pode passar pelo fim da divisão artificial da carreira em professores e professores titulares, uma fractura que descredibiliza o próprio estatuto profissional e a função docente e que a grande maioria dos professores contesta;
3. A simplificação agora publicada em Diário da República (Decreto - Regulamentar 1-A/2009, de 5 de Janeiro) não alterou a filosofia e os princípios que lhe estão subjacentes. Este modelo não tem cariz formativo, nem promove a melhoria das práticas, chegando ao ponto de tornar opcional o essencial da profissão docente: a sua componente científico - pedagógica.
4. A versão simplex mantém o essencial do Modelo, nomeadamente, alguns dos aspectos mais contestados como a existência de quotas para Excelente e Muito Bom, desvirtuando assim qualquer perspectiva dos docentes verem reconhecidos os seus efectivos méritos, conhecimentos, capacidades e investimento na Carreira;
5. Outras alterações como as que têm a ver com as classificações dos alunos e abandono escolar, são meramente conjunturais, tendo sido afirmado que esses aspectos seriam posteriormente retomados para efeitos de avaliação;
Tendo em consideração o que foi referido anteriormente, os professores da Escola Secundária Severim de Faria, coerentes com todas as tomadas de posição que têm assumido ao longo deste processo:
- reiteram a sua intenção de ser avaliados, mas nunca por este modelo, mesmo numa versão que se limita a simplificar o acessório, mantendo os aspectos essenciais mais gravosos;
- manifestam ainda o seu direito a ser avaliados através de um modelo que seja justo, testado, simples, formativo e que, efectivamente, promova o mérito pela competência científico - pedagógica;
- reafirmam a sua vontade em manter a suspensão do modelo de avaliação, não entregando qualquer declaração relacionada com este processo.
Évora, 28 de Janeiro de 2009

Aprovada e assinada pela maioria dos professores.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

E se o primeiro-ministro fosse corrupto?

Fresco nos "Paços de Audiência", em Monsaraz. Século XV. O "Mau juiz" olha para os dois lados ao mesmo tempo (Picasso haveria de descobrir essa técnica cinco séculos mais tarde) e recebe dos dois lados.

E se o primeiro-ministro fosse corrupto?

Teria que se definir se corrupto é só aquele que recebe com a mão esquerda (sinistra), enquanto com a outra faz o contrário. Ou se corrupção também é corrupção de ideias.

Seria um pouco a “vingança do chinês” ( desculpem-mse os chineses, que isto é invenção desta aldeia ocidental) se o cidadão José Sousa, actual primeiro-ministro, se demitisse. Não é porque tenha algum ódio de estimação por ele ou pela ministra. Não sou muito dado a ódios e não sei se o mereceriam.

Dava até jeito que se demitisse.

Mas não me interessam as pessoas, tratando-se de política. O que contesto são as ideias e as práticas.

É fácil cair-se na suspeição. Qualquer um o pode ser com denúncias anónimas. É fácil inventar teorias da conspiração. É também fácil, dada a morosidade adicional das polícias e dos tribunais, transformarem-se as suspeições em factos que ninguém tem a certeza, mas que todos garantem que ouviram dizer que é verdade.

Apenas conheço um facto, e este interessa e deve ser explicado. O processo do Freeport foi despachado em tempo recorde e nas vésperas do fim de um governo em gestão.

Não quero que um primeiro-ministro saia só por suspeitas. Gostaria que ele se fosse embora pela sua política. E castigado politicamente pela sua arrogância.

Mas também não me agrada que se transforme em vítima de uma qualquer conspiração das indetermináveis “forças do mal”, que podem também ser úteis. Nem que ganhe com isso, que é o que já se está a fazer.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Os peixes de Vieira, que já eram de S. António, e que por aí nadam às vezes.

Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam. Uma só cousa pudera desconsolar ao pregador, que é serem gente os peixes que se não há-de converter. Mas esta dor é tão ordinária , que já pelo costume quase se não sente. Por esta causa não falarei hoje em Céu nem Inferno; e assim será menos triste este sermão, do que os meus parecem aos homens, pelos encaminhar sempre à lembrança destes dois fins.

Sermão de Santo António aos Peixes d0 Padre António Vieira

Vos estis sal terrae

Vos estis sal terræ

Vós, diz Cristo Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhe dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal.

Sermão de Santo António aos Peixes do Padre António Vieira, pregado, a 13 de Junho de 1654, na cidade de S. Luís do Maranhão.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Não foi em vão




Em 8 de Novembro, em Lisboa



É para Urga
Que a gente vai
Para Urga caminho
Caminho para lá
Em Urga os bandidos
Não me hão-de apanhar

Eu hei-de vencer
Eu hei-de vencer
Entre mim e Urga
O Deserto que houver


Em Urga recebo
A maquia e então
Vou tirar proveito
Do meu ganha-pão

José Afonso

Pragmatismo

Pragmatismo

O movimento dos professores tem razão. Ou não tem? Ou tinha e não tinha ao mesmo tempo? Ou tem de vez em quando, e mais caras que o feijão?

Se tem razão, é de continuar.

E já que há outros que mandam, que não são ingénuos (mas incompetentes) também, por que não deixar de ser ingénuo?

Daqui a uns meses há eleições. Os debates vão aquecer. Houve deputados, mesmo do partido do governo, perdão, deputados eleitos com um programa que não é bem o do governo, que por sua vez é subsidiário da Assembleia da República; como íamos dizendo, houve deputados que votaram contra o programa intransigente da ministra. Más há outros movimentos menos visíveis. Há deputados que votaram pelo governo mas que tiveram e têm muitas dúvidas. É parvoíce hostilizá-los, mas é bom que sejam confrontados.

A vida política é dinâmica. Daqui a pouco tempo, e já começou, vai haver luta pelo voto. 120000, 140 000, podem influenciar muita gente, muitos hesitantes.

Aguentar um pouco, isto é, não submeter a este processo de avaliação (o que significa também contra o estatuto), pode custar alguns sustos agora. Todos os que resistem podem perder. Mas podem ganhar muito mais se resistirem um pouco. As coisas estão por um fio. Daqui a pouco tempo vai ser tudo discutido.

O que não vale a pena é começar com paternalismos e excepções. Dizer que a luta não é com os contratados pode comprometer. Os contratados não estão aqui só de passagem. Querem também seguir uma carreira. E se não se mexerem não vão ter nenhuma. Não esperem que sejam os outros só a lutar por eles.

Se começarmos a dividir tudo, que é o quem manda quer, dividimos os professores em contratados, em quadros de zona pedagógica, em professores que hão-de ficar também na precariedade, em titulares, em avaliadores titulares etc., e cada um com os seus problemas particulares de momento.

E vamos dividir-nos por muito tempo se acedermos a este jogo maquiavélico do poder, o que é muito mau para todos e para o país. Eu, se fosse governante não me contentaria com professores muito submissos; nem precisaria deles; até, em alternativa contrataria uns computadores eficientes que ficariam mais baratos. Quem quiser, e há sempre opções, ser um autómato não espere ser considerado mais que isso.

Há coisas muito simples com que temos que contar. Uma delas, vão ser as longas horas do dia a dia, por muitos anos. Mesmo sem retaliações, em si condenáveis. Mas não se espere que alguém que andou a incentivar os outros à luta, a assinar recusas, a participar em manifestações etc., possa virar de repente e seja considerado um grande amigo.

A coisa está por um fio, repito. As eleições e o verdadeiro debate vão começar amanhã.

Quem está no poder também tem medo.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Jesus tentado no deserto

Hidra, Casas Pintadas, Évora



Então, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome.

[...]
Em seguida, o diabo conduziu-o a um monte muito alto e, mostrando-lhe todos os reinos do mundo com a sua glória, disse-lhe: «Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares.» Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, pois está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto.» Então, o diabo deixou-o e chegaram os anjos e serviram-no.
(Mt 4,1-11)

in http://www.capuchinhos.org/porciuncula/biblia_responde/jesus_tentado.htm

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Sermão da Montanha

Vós sois o sal da terra! Ora, se o sal se corromper, com que se há-de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens.
[...]

Não jures pela tua cabeça, porque não te é dado transformar um só dos teus cabelos em branco ou preto. Seja este o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não; tudo o que for além disto procede do espírito do mal.
[...]
Ninguém pode servira dois senhores, porque, ou há-de odiar um e amar o outro ou se dedicará a um e desprezará o outro

Evangelho de S. Mateus

"O boato é a Arma da Reacção"


Lembrei-me destes cartazes e panfletos usados pelo MFA em 1974. Aparentemente havia alguma ingenuidade no “slogan”. Circulavam inúmeros boatos sobre possíveis golpes de estado, conspirações à esquerda e à direita. Spínola faz um discurso sobre “a maioria silenciosa” e houve uma tentativa de golpe à direita em 28 de Setembro em que uns estavam envolvidos intencionalmente, outros foram atrás. Pior ainda foi em 11 de Março de 1975, em que os pára-quedistas saíram da base convencidos que tinham ordens do MFA para ocupar o RALIS e afinal era mais uma tentativa de golpe de estado de extrema-direita.

1974/1975 já foi há uns bons tempos mas o boato funciona como antes. O boato tem a característica de ser anónimo, embora possa ter autores vários, que vão acrescentando ao sabor dos interesses e crenças. E pode ser terrível quando se descobre que não tem fundamento, ou antes, baseia-se naquelas “meias-verdades” que são as mentiras bem conseguidas. Há boatos que rotulam as pessoas por muito tempo.

E até há boatos que dão jeito. Se estou com receio de determinada situação, por que não acreditar que fulano tal vai fazer isto? Ora se ele faz, o outro também é capaz de fazer e, portanto se eles fazem eu também posso fazer e fico desculpado por isso. E fico desculpado perante mim mesmo. Daqui a uns tempos poderei descobrir que afinal fui enganado e que a culpa foi dos outros em geral.

Mas o boato pode funcionar. Quando se hesita muito e se anda à espera que outros ditem as respostas à nossa consciência e surge uma situação em que temos que decidir, a emoção pode ser facilmente contaminada pelo boato e fazer-nos actuar contra aquilo que pensávamos.
Entretanto, como há sempre muito que fazer, esquecemo-nos e esperamos que todos se esqueçam, porque a culpa é sempre dos outros.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Vemos, ouvimos e lemos

Vemos, ouvimos e lemos, é o tema de uma poesia de Sofia e cantada pelo Fanhais.

Vem isto a propósito de dúvidas e atitudes menos reflectidas de alguns professores. Como, por exemplo, numa determinada escola, em que um grupo se lembrou de entregar os objectivos individuais para “entupir” o processo. Depois recuaram.

Para já não entopem. Um grupo não é uma acção de massas concertada, sobretudo neste contexto, com manifestações, abaixo-assinados e greves colectivas. Depois sujeitam-se a esta avaliação e deveriam ter a consciência de que estão a “furar” (é esta a palavra) uma luta em que se comprometeram e a obter umas migalhas individuais face ao que poderiam conseguir e em detrimento dos outros que continuam.

O relativismo não é um valor igual a qualquer outro, o que tornaria tudo relativo como se coerência, impulsos individuais, “salve-se quem puder” fosse tudo o mesmo. Há que ver o principal e o acessório, há que distinguir objectivos de migalhas passageiras, compromissos de atitudes individuais e momentâneas.´

Eu, por mim, depois de receber tantos e-mails de algumas pessoas, tenho dificuldade em compreender como é que depois disso e de tantos apelos, ainda relativizam o que apelavam no dia anterior.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O Diabo

S. Miguel Arcanjo vence o Diabo (o outro Deus). Desta vez não é um dragão, muito menos tem pés de chibo.
É uma mulher.
Pintura luso-flamenga num retábulo em S. Francisco.

Sociedade Harmonia

Extracto do programa da lista candidata, numa sociedade com 160 anos.

PROGRAMA

No próximo dia 4 de Fevereiro, a Sociedade Harmonia Eborense vai a votos. Vai a votos num contexto particularmente adverso, desde logo porque se deixaram de observar as condições necessárias para que os actuais órgãos sociais pudessem concluir o mandato. Às condições regulamentares juntaram-se as condições funcionais, facto que foi confirmado por larga maioria na Assembleia Geral ocorrida em Dezembro. Mas a adversidade do contexto resulta igualmente de factores conjunturais – o período delicado que atravessamos – e estruturais – as dificuldades relacionadas com o espaço físico da sede e que se vêm arrastando há demasiado tempo.
Perante esta grave situação que ameaça a existência da própria colectividade e, perante a necessidade urgente de intervir no sentido de lhe dar um novo e sustentável fôlego, decidimos reunir uma equipa de pessoas concentrada em garantir o futuro e unir os alicerces da Harmonia, de modo a podermos entregá-la, sólida, às gerações vindouras.
Pretendemos revitalizar a Harmonia sem esquecer o trabalho positivo que até aqui foi feito. Mas pretendemos, antes de mais, ser fiéis aos nossos estatutos e ser um motivo de orgulho para os sócios e para a comunidade em geral. É esse o nosso dever.

[...]

Igreja de S. Francisco em Évora


Continuo ainda a ter alguma dificuldade em compreender por que é que algumas das igrejas e conventos franciscanos eram dos maiores e mais ricos. É certo que existem as ordens primeira, segunda e terceira, com muitas subdivisões, desde os que continuam mendicantes, aos leigos ou até freiras em reclusão.
Mas S. Francisco despiu-se literalmente de tudo o que poderia herdar e coerente com as suas ideias, na época quase heréticas, vivia na pobreza.

Assinaturas

Houve tempos em que a palavra bastava e era mais importante que a escrita. Mas ainda hoje continua a ser importante. Não foi por acaso que o presidente Obama, para o ser, teve que repetir o juramento, sem qualquer hesitação.

Na nossa civilização a assinatura aumentou o poder da palavra, talvez por causa do excesso de palavras, também para constituir uma prova.
Ninguém (há sempre excepções que podem ser adjectivadas) assina um cheque de qualquer maneira, ninguém assina um contrato sem o ler, ninguém assina um contrato de casamento sem pensar. Cada um, quando assina, pensa certamente nas consequências da sua assinatura e na coerência de atitudes que se compromete a ter. E, desde os filósofos gregos que a Lógica adoptou o princípio: “O Ser É, O Não Ser Não É".

Em situações em que há compromissos inequívocos não há lugar para depois se dizer que afinal não era bem assim.

Quem assinou o pedido de suspensão deste malfadado decreto de avaliação dos professores não pode vir agora simplesmente e sem dar qualquer explicação dizer que não leu bem ou que não sabia das consequências. Trata-se de professores que, por o serem, sabem ler e pensar . As consequências são apenas aquelas que já estão na legislação e não podem ser retroactivas, porque estamos num Estado de Direito. Não se podem imaginar outras ao sabor de opiniões que prevêem um determinado futuro e que apenas são palpites.
E uma decisão livremente assumida, sem que as circunstâncias tenham mudado (o decreto, mesmo com a regulamentação “simplex”, continua em vigor) não pode ser simplesmente alterada com base em palpites.

Para lá dos princípios, e esta é uma profissão em que há que ter princípios, há que ter a consciência de que quem primeiro recusou e agora volta atrás, vai passar à frente dos outros que confiaram na sua palavra e na sua assinatura, nesta luta que só tem tido sentido como luta colectiva. Nem imagino que alguém possa pensar que havendo uns que se recusam a esta avaliação, sejam menos uns concorrentes para as quotas assim mais disponíveis. Mas o facto vai ser esse. É altura de mostrar que a coerência e a possibilidade de ganhar a luta vale mais do que o "salve-se quem poder" e as justificações individuais que o justificam.
Uma luta que já juntou em várias manifestações e greves quase todos os professores não pode ter sido em vão. E não o será certamente!

A diferença de opinião e a mudança devem ser respeitadas. Mas quando uma mudança de opinião prejudica os que confiaram nos outros, os que continuam têm direito a uma explicação.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Alarifes

Galilé de S. Francisco. Arcos do tempo em que havia alarifes em Évora. Estes eram mouriscos que trabalhavam para cristãos ou os cristãos ainda seguiam modas islâmicas.
Granada ainda influenciava a arquitectura.
Depois os alarifes passaram a chamar-se arquitectos e os alvanéis pedreiros.
Mas a palavra alvanel, dita também alvanéu, ainda resiste, pelo menos em algumas terras do Alentejo.

O IMI em Évora


Só soube disto há pouco tempo. Pedi a isenção em Dezembro. Andava a pagar mais de 300 euros e nem a Câmara de Évora nem as Finanças diziam nada, apesar de lá ir várias vezes.
Trata-se de má fé. Ainda não perceberam que é necessário que os cidadãos tenham confiança nas instituições e que sem transparência os cidadãos não as reconhecem como suas.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009




Abóbada da igreja de S. Francisco, em Évora



Igreja ou capela real de S. Francisco. A maior abóbada do final do gótico contruída em Portugal.
No Sul de França e Catalunha há umas parecidas. Mas nesta igreja há também uns elementos mouriscos nacionais.

Umas já ditas, outras que se vão dizendo


Sobre os problemas que afectam os professores já quase foi tudo dito e repetido. É evidente que a greve de ontem foi massiva e já nem vale a pena mostrar que o ministério mente sobre os números. O Ministério está em descrédito e em breve teremos eleições.

O plano israelita em Gaza foi metódico: o exército israelita parou no último dia do consulado de Bush. Mas a propaganda tem sido forte. Os bombardeamentos de edifícios civis “justificam-se” por haver alguns indivíduos do Hamas lá dentro. Vindo da parte de um governo em que os seus cidadãos de primeira (os árabes israelitas não fazem serviço militar) andam armados em qualquer lado, o argumento é estranho.

A notícia de hoje é a tomada de posse de Obama. Pelo menos, vale pela esperança de muitas imensas minorias. Obama sabe falar, é inteligente e parece convicto. Mas os interesses dos EUA (aquela coisa indefinida que dá jeito às grandes empresas) estarão em primeiro lugar.
A propósito, custa a perceber por que é que dizem que é negro. Em Portugal não o seria. Mas também em Portugal, como noutros países europeus, ainda não foi eleito nenhum presidente com antecedentes não europeus, o que dá que pensar, sobretudo em países com passados coloniais e com muitos imigrantes.

A questão do TGV e o PSD também já cansa. Então há pouco tempo aprovavam e agora já não? É um problema nacional? E então os acordos com a Espanha e outros países? Vamos também deixar que outros países gastem os subsídios destinados ao projecto da alta velocidade em Portugal?
Era bom que a discussão ultrapassasse o nível de há 150 anos, no tempo da Regeneração, com o ministro Fontes Pereira de Melo. Na época discutiam-se os benefícios ou malefícios do comboio, se andar de carroça não seria suficiente e que dinheiro não havia (o que também era verdade).
Gostaria de perceber melhor o orçamento para este projecto. Mas que faz falta para ligação à Europa não tenho grandes dúvidas.

domingo, 18 de janeiro de 2009

18 de Janeiro de 1934

Faz anos que se fez a insurreição e tentativa de greve geral de 1934. Houve movimentos na Marinha Grande, Silves, Barreiro ... noutros lugares.
O regime estava em pleno processo de fascização.
Muitos dos que resistiram foram presos. Alguns foram parar ao Tarrafal.

Há que não deixar que se apague a memória.
http://naoapaguemamemoria2.blogspot.com/2007/01/o-18-de-janeiro-de-1934-como-defesa-do.html

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Gaza e a necessidade de pôr fim a isto

Isto, é aquela coisa que tem tantos nomes e adjectivos que não se pode resumir: são refugiados permanentes numa terra-prisão, escolas bombardeadas, crianças, velhos e todos em sufoco, a vida por um fio, a desesperança, o sentir o esquecimento, a sensação que somos coisas de um filme realizado por outros, o não ter quase nada nem sequer o momento, muito menos o futuro.

Aparentemente os israelitas conseguem mostrar pela propaganda e publicidade que têm razão. Todos os dias recebemos imagens deles, declarações deles, treinos deles e de outros deles que estão fora mas investem na “terra prometida” do “povo eleito”. Não tenho qualquer simpatia pelo HAMAS mas não os tenho visto a falar na televisão portuguesa. Presumia-se que fosse uma regra do jornalismo, o chamado contraditório.

Aparentemente o estado de Israel está a defender-se dos rockets e a responder a agressões. O disparo de rockets é condenável. Mas a desproporção é enorme e o número de civis mortos e feridos e tudo o mais não tem comparação.

E depois esquece-se o fundo do problema. O povo palestiniano tem o direito a existir, a ter uma vida sã, a ter educação, electricidade, água, casas, terra, todas as coisas mínimas e os direitos que a Declaração Universal dos Direitos do Homem que agora se comemoraram por tantos lados.
Esquece-se também que Israel é uma potência ocupante e, por isso, tem que respeitar convenções internacionais que aceitou e em que uma das mais importantes é zelar pela segurança das populações civis.
E por que é que a comunidade internacional interferiu na ex-Jugoslávia e não intervém aqui?

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Premiar o mérito?

Passou o mês de Dezembro e, contrariamente ao que tinha prometido para Dezembro, o Ministério da Educação não criou outro escalão, conforme o memorando que assinou.
Não se esqueceu certamente, mas também não tem havido muita gente a exigir a lembrança.

Do que não se esqueceu foi de publicar um novo decreto regulamentar sobre a avaliação, sinal inequívoco de que reconhece que o outro publicado há meses não prestava.
Num jeito de quem aparentemente pede desculpa pela sua incompetência, e digamos que é pelo menos incompetência andar a brincar aos decretos, alterando-os quase de seis em seis meses, diz o novo, que honra os professores com o primeiro do ano (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO Decreto Regulamentar n.º 1-A/2009 de 5 de Janeiro):

Essa auscultação permitiu identificar três problemas principais: a existência de avaliadores de áreas disciplinares diferentes dos avaliados, a burocracia dos procedimentos previstos e a sobrecarga de trabalho inerente ao processo de avaliação.

Enfim, parece que depois de tanto, o ministério finalmente ouviu o que tanta gente dizia e que a ministra, os seus secretários e os comentadores de serviço sempre negaram.

Mas eis que o ministério afinal também descobriu aquilo que qualquer político manhoso gosta de fazer: dividir para reinar. E novamente me admiro porque é que ainda não tinha descoberto esta táctica velhíssima.

Agora a avaliação é self service. Entendia-se, como ponto de honra, que a avaliação iria melhorar as escolas e que era essencial assistir às aulas. Agora só tem aulas observadas quem quiser, desde que se contente com a avaliação que dá para “ir andando”.

A ideia, conjugada com as quotas, é no mínimo perversa. Se numa escola só dois ou três forem avaliados desta maneira, podem preencher logo as quotas e esgotar os Muito Bom e Excelente e passar à frente dos outros, independentemente da qualidade das aulas.

Mas os coordenadores de departamento não precisam de terem aulas observadas. Podem opinar sobre as aulas dos outros mas ninguém fica a saber o que fazem na sala. E podem também ter Muito Bom e Excelente.

Assim há uns que não precisam que ninguém lhes assista às aulas e podem ter classificações mais altas, outros se não tiverem aulas assistidas ficam na mesma e aqueles, que por outros motivos nunca quereriam ser avaliados, ficam com classificação igual.

Será isto premiar o mérito? Será isto contribuir para a qualidade? Onde está a coerência?
Pelo menos espera-se que os que assinaram tenham alguma coerência em não embarcar nas meias tintas, porque a questão não é de ser ou não avaliado com aulas assistidas; é ser ou não avaliado por estas normas. Quem for avaliado só pela Direcção da Escola é avaliado e, se assinou a recusa desta avaliação, então está a contrariar aquilo que assumiu publicamente, deixando os outros numa situação ingrata.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Cisjordânia, Gaza, Líbano, Jordânia ...

Parece que o mundo quase se habituou.
Só neste últimos dias houve centenas de mortos e milhares de feridos em Gaza, a maior parte civis.
Estamos a falar de um território com 360 Km2 (cerca de um quarto do concelho de Évora), onde se amontoam cerca de um milhão e meio de pessoas, centenas de milhares refugiadas das sucessivas guerras e perseguições desde 1945, se não antes, de pessoas com dificuldade em encontrar comida e medicamentos, com um embargo permanente, com bombardeamentos permanentes e com quase tudo o que são infraestruturas (electricidade, estradas, redes de esgotos, mercados etc.) destruídos.