sábado, 25 de julho de 2009

Da tragédia à farsa


Paulteiros de Miranda

Actualmente, desde que a crise se tornou mundialmente oficial e com consequências sobre "os suspeitos do costume", está novamente na moda citar Karl Marx. Pois citemos também uma célebre frase do 18 do Brumário:

"Hegel observa em uma de suas obras que todos os factos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa."

Com o Ministério da Educação o caso foi pior ainda: começou com uma tragicomédia, continuou com a tragédia sem brilho e acabou em farsa.

O sistema iluminado de avaliação dos professores foi também o "mons parturiens", a montanha que pariu o rato, caíu completamente no descrédito.
O período considerado de avaliação é o dos anos lectivos de 2007/2008 e 2008/2009. Só que o decreto que mandava fixar objectivos individuais foi publicado depois e ainda por cima alterado já este ano por outro "simplex", em que uns podem escolher ter aulas avaliadas e outros não. E quem entregou objectivos fez da maneira que lhe apeteceu, às dúzias ou às dezenas, mais ou menos. Há escolas que aceitaram objectivos individuais em Julho deste ano e esses professores vão ser classificados com Bom.

Ora há um mínimo nas definições das coisas. Objectivos só o são no início do processo e não depois dos factos consumados, isto é quando o ano lectivo já estava no fim ou já as aulas terminadas.

Assim é fácil: adequam-se os objectivos ao que foi feito e está feita a classificação à medida da burocracia e da autoridade.

Mas que ministério é este que se contenta com tão pouco, depois de exigir tanta papelada, depois de tanta teimosia e tantos estragos?
Felizmente a equipa está quase a ser despedida.

PS. Despedidas foram as deputadas do PS que alinharam com Manuel Alegre contra este sistema de avaliação e o Código de Trabalho. Já não vão voltar à Assembleia. Este Partido socialista não gosta dos que põem em causa a voz do dono.

sábado, 11 de julho de 2009

Reformas

Li o seguinte:

A Assembleia da República aprovou ontem, dia 25 de Junho, o Projecto de Lei n.º 663/X ("Institui um regime especial de aposentação para educadores de infância e professores do 1.º ciclo do ensino básico do ensino público em regime de monodocência que concluíram o curso de magistério primário e educação de infância em 1975 e 1976") e o Projecto de Lei .º 764/X, sobre "Regime especial de aposentação para os educadores de infância e professores do 1.º ciclo do ensino básico do ensino público, em regime de monodocência possuindo, em 31 de Dezembro de 1989, 13 ou mais anos de serviço docente".

In http://www.fenprof.pt/

Em 1974 acabei o Liceu. Nesse ano poderia ter entrado para a universidade, se fosse um ano normal. Ainda bem que não foi normal porque foi o ano do 25 de Abril. Em 1974/75 não houve acesso ao ensino superior, sendo esse acesso substituído por um ano no Serviço Cívico, o que fiz como muitos. Como o curso do Magistério Primário era considerado um curso médio não foi abrangido por essa medida e houve colegas meus de Liceu que entraram e acabaram o curso de dois anos em 1976. Hoje podem reformar-se e já conheço quem esteja reformado.
O curso do Magistério Primário era de dois anos, após o 5º ou 7º ano do Liceu. Para se ser professor do ensino secundário, por exemplo de História (noutros não era bem assim), tinha que se tirar um curso superior de 5 anos e dois anos de estágio (e esperar que houvesse vaga para estágio).

Eu, e outros da mesma idade, vamos ter que esperar mais 13 ou 15 anos com a lei actual.
Não tenho inveja, nem a culpa é dos próprios. Gozem a reforma! Mas também não me venham dizer que é dos sindicatos, dado que o Ministério da Educação e o governo pouco ligam às greves e manifestações, únicas em todo o mundo, pela sua dimensão quer quantitativa quer qualitativa.

O recado está dado:
Se tivesses estudado menos tempo serias beneficiado em tempo.

Uma rua de uma cidade Património Mundial

Esta rua que foi de Alconxel ou Alconchel é há mais de um século Rua Serpa Pinto, em memória do explorador das Áfricas que irritou os ingleses a ponto de estes fazerem um Ultimatum, desfazendo o sonho do Mapa Cor-de-Rosa, a grande colónia que seria de Angola à Contra-Costa, um balde de água fria que transformou os republicanos em nacionalistas ofendidos, acusando a monarquia de decrépita, corrupta e incapaz de preservar os “egrégios avós”, “os heróis do mar, nobre povo”. Daí o refrão contra os canhões (noutra versão “contra os bretões”) marchar, marchar.

Ora hoje, nesta rua, a marcha do progresso é lenta e, como não é regresso, é simples decadência!
Ontem contei alguns estabelecimentos que fecharam nestes últimos anos aqui. Sem ser exaustivo, contei doze. E fui-me lembrando, até porque isto é recente, de três barbeiros, um banco que agora serve de urinol, uma livraria, duas discotecas que depois passaram a bares mas que continuam encerradas, pastelarias, uma casa que vendia antiguidades, tubos de canalizações e coisas inúteis, casas da China que já foram outra coisa … Referi aquelas que estão mesmo encerradas, mas poderia ainda falar de lojas de móveis que se transformaram em tribunal, antigas fábricas de mobílias alentejanas, talhos, padarias, lojas de peças de automóveis, oficinas, um clube desportivo, igreja … e o negócio da palha.

A decadência é nítida em toda a cidade intra-muros (evito o termo Centro Histórico, pois a noção que alguma classe média suburbana local tem deste espaço é que isto é uma espécie de grande sala de visitas, boa para tirar umas fotografias, mostrar aos turistas e passear rapidamente de carro pela Praça do Giraldo e ruas transitáveis ao fim da tarde). Mas aqui ainda é maior o marasmo desde que se acabou com o estacionamento ao pé das muralhas. Não estou contra o ajardinamento desses espaços, até penso que foi uma boa ideia, vinda já de outros tempos. O problema é que não se criaram alternativas, nem de estacionamento próximo, nem de circulação de transportes públicos suficientes e atempados, nem se favoreceu a opção normal das cidades do Norte da Europa, que é a de andar de bicicleta.

E assim, a rua que em tempos foi a grande entrada ou saída em direcção a Lisboa, aquela por onde os reis entravam em pompa e circunstância quando vinham à “muy nobre e sempre leal cidade de Évora” está a transformar-se lentamente num grande beco em vias de desertificação.
Talvez falte àqueles que mandam conhecer melhor o que é a cidade, saber o que é uma cidade viva. Falta certamente uma política de promoção da vivência na cidade (e não apenas na parte antiga), com em grande parte deste país cada vez mais suburbano e motorizado.
E, pensando um pouco, por que é que as pessoas vão aos fóruns modernos? Porque querem passear em ruas e praças, lugares de encontro, com comércio, cafés divertimentos ...
Ora isso já cá temos. Era só adaptar um pouco aos tempos actuais, incentivar um pouco...
Qual é a necessidade de ir construir um "fórum", artificial, com preços subsidiados ou minimizados nos custos, à nossa custa, quando já o temos aqui e muito mais genuíno e humanizado. Para mais tarde se verificar que os prédios aqui vão caindo ou ficando entaipados antes de ruirem?

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Pax Iulia






Pax Julia no tempo dos romanos, em memória de César que pacificou os revoltosos autóctones, Baja dos tempos islâmicos, Beja ainda.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Património Mundial


Há sítios que são classificados Património Mundial. Évora é um caso especial, porque toda a cidade antiga intra-muralhas foi considerada como um conjunto. Cidades como esta são assim consideradas, porque preservaram ao longo de séculos o seu património edificado. Évora é assim mas poderia não o ser. Muitas cidades portuguesas foram vendo o seu património destruído, até recentemente, em nome de uma certa concepção de progresso. Mas pior que esse pretenso progresso é a falta de conhecimento que leva a que o património seja destruído. Quem não conhece não ama.

Évora teve felizmente, e foi até pioneira e persistente, grupos que defenderam o património. O templo romano poderia ter tido o mesmo fim que os conventos de S. Domingos, S. Catarina, Paraíso, parte do Salvador, parte de S. Francisco, parte do aqueduto etc. etc. As muralhas só não foram vendidas em hasta pública, porque houve um grupo, o Pró-Évora que encabeçou uma campanha contra a sua destruição (como noutras cidades). E houve o bom senso de não destruir mais porque se vivia na cidade e havia gente que a conhecia.


Hoje há outros perigos. Já muita gente não frequente a antiga cidade, agora chamada de Centro Histórico. E muitos jovens já não a conhecem nem sequer da escola, porque quase não têm aulas de História. O ministério reduziu o número de aulas de História e deixou ainda opções para as escolas. E, por incrível que pareça, há escolas numa cidade Património Mundial que ainda reduzem mais. Em muitas passou-se de três aulas semanais de 50 minutos no terceiro ciclo para uma única aula de 90 m no 7º ano, outra de 90 m no 8º ano e uma de 90 m mais 45 m no 9º ano. Quase menos um terço de aulas num ciclo, embora com o mesmo programa.

Depois querem que os jovens saibam História de Portugal, que tenham conhecimentos sobre o século XX e o mundo contemporâneo, que conheçam o património da cidade. Por favor não gozem com alguns quando dizem asneiras, porque não lhes foi dado o direito a conhecer.


As responsabilidades têm que ser assumidas por cada um onde está e onde trabalha. A culpa não é sempre só dos outros. Se não ensinarmos as crianças e os jovens, sobretudo aqueles que mais precisam do sistema de ensino, porque os pais não lhes podem ou não sabem fornecer alguns conhecimentos ou experimentar vivências, então deixaremos estas questões para as elites que sempre tiveram acesso ao conhecimento e que os utilizam conforme os seus interesses.


Continuaremos com cidadãos informados e outros que o não são, porque não se lhes permite esse direito, e então veremos as consequências na preservação do património, na identidade cultural, para não referir o simples direito de cidadania.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Gárgulas em Alcobaça




Acho muito interessantes as imagens medievais, santos ou monstros, histórias exemplares ou outras. Algumas interpretam-se sem grande dificuldade. Outras seria necessário conhecer melhor não apenas os textos canónicos, como textos apócrifos, de milagres não oficiais, histórias de santos, da Virgem, não reconhecidos, lendas orais que se perderam, em sociedades onde a comunicação se fazia mais pela fala.
Uma destas gárgulas parece um rinoceronte. Seria? Acho difícil, apesar de todos os acrescentos que foram feitos desde o século XII. Uma das primeiras imagens de um rinoceronte foi feita por Durer, com base numa descrição da célebre embaixada de D. Manuel ao Papa.

Entrada no ensino superior, Magalhães e afins.

Algumas ideias para reflectir, sobretudo quando alguns pensam que só merecem elogios. Extracto de uma entrevista a Stephen P. Heyneman:


Os exames portugueses servem para concluir o ensino secundário e de admissão ao superior. Concorda?
É um erro, usar o mesmo exame, porque isso confunde as diferentes funções que essas provas devem ter e torna-se aterrorizador para os alunos. As instituições deviam ter o direito de escolher os seus alunos, aqueles que pagam e aqueles a quem querem oferecer bolsas.
“Começaria por dar computadores aos professores”
Recentemente, num artigo de opinião, Don Tapscott, um especialista canadiano em tecnologia, recomendava ao presidente norte-americano que pusesse os olhos em Portugal e no seu investimento em computadores individuais para os alunos do ensino básico. O Magalhães não convence Stephen P. Heyneman que esteve em Lisboa para falar sobre a política educativa da administração Obama, na Universidade Católica Portuguesa, há uma semana.
“É um computador colorido. Gosto da sua portabilidade. O que me perturba é ter sido dado às crianças como se elas pudessem ter autonomia para trabalhar sozinhas. E os professores?”, pergunta.
“Começaria por dar computadores aos professores para trabalharem e organizarem as suas lições.
Era isso que recomendaria à vossa ministra da Educação”, responde. O que viu, no Porto ou em Lisboa, foi crianças a brincar com o Magalhães, “como se fosse uma máquina de jogos e não como se tivessem um computador para trabalhar”. “Não deve ter sido para isso que os computadores foram distribuídos. Certamente não eram esses os objectivos do Ministério da Educação, mas sim o da sua integração no trabalho escolar”, sublinha.
Heyneman lembra um estudo comparativo feito na Áustria e nos EUA sobre a utilização dos computadores. Enquanto na Áustria o programa foi um sucesso porque os professores foram envolvidos e tiveram formação para aprender a trabalhar e foram eles que ensinaram as crianças; nos EUA não houve formação, nem integração no currículo e os resultados do programa não foram positivos. É em estudos como este que Portugal deveria reflectir, aconselha.
“Testar é produzir igualdade”
Se muitos estudos dizem que os alunos com melhores resultados são os filhos das classes médias. Há muito que Stephen P. Heyneman diz que “as crianças das famílias pobres têm bons resultados”. A sua teoria foi testada em 29 países, entre eles o Chile, Índia, Tailândia ou Irão. “Quanto mais pobre, maior o impacto da educação. Quanto mais rico, maior o impacto da família”, explica, lembrando que a maior parte das crianças do mundo não estão representadas nas estatísticas da OCDE ou nos estudos feitos nos países desenvolvidos. “O que é verdade é o que se passa nos EUA, onde estão apenas dois por cento das crianças do mundo?”, questiona. Heyneman considera importante fazer exames. “Testar é produzir igualdade. Os testes são a oportunidade para cortar com as desigualdades. Nos países pobres, as provas revelam que as crianças pobres têm os mesmos resultados do que as ricas”.

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1390370

terça-feira, 23 de junho de 2009

Claustro de Santa Bárbara. Convento de Cristo.

O Baphomet







No claustro de Santa Bárbara, do Convento de Cristo em Tomar, antigamente reservado aos freires da Ordem de Cristo, herdeiros dos templários.
Obra de João de Castilho.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Alentejo, CDU e Bloco de Esquerda

Ultimamente tenho visto comentários, não só a propósito das últimas eleições, sobre o Alentejo que é muito bonito, tem um grande património construído, paisagens ainda não desfiguradas, ambiente onde ainda se vê bicharada, sobreiros, azinheiras, oliveiras, searas com abetardas, javalis e raposas e lebres, o Guadiana, pátios e paredes caiadas lembrando o tempo dos mouros e as lendas das mouras encantadas.

Só é pena o povo votar à esquerda! E aí os alentejanos são considerados atrasados e precisariam de umas instruções iluminadas para não votarem em ideologias fora de prazo, como se as recomendadas não cheirassem ao bafio do liberalismo do sec. XIX.

Esquecem estes que paisagem, património, ambiente … não foi feito sem este povo que cá está e que também abalou, com as suas contradições e lutas, desgraças e alegrias, que esta cultura é como a açorda alentejana, com origens romanas e árabes mas onde se distinguem as fatias de pão da simbiose do caldo com poejos ou coentros, azeite e alhos, pimentos também, e com ovo ou bacalhau conforme o gosto e as posses.

Este Alentejo não é apenas o da fotografia de passagem, do Sol apreciado por momentos, porque se passarem as horas queima, como queimam as geadas, como à seca se seguem inundações. Este Alentejo tem histórias que se podem contar com tempo! E recorde-se Manuel da Fonseca ou outros que fizeram do Alentejo parte do seu ser como Miguel Torga, José Régio e tantos.

Admiramos os vestígios árabes. Mas os “árabes”, que afinal a maior parte eram de cá, começaram a ser expulsos e os judeus daqui e de outros lugares foram também assados pela Inquisição. Como os escravos chins, jaus, mouros, negros que aqui se fundiram com outros de desvairadas partes.

O povo é, a democracia, sempre em conquista, permitiu-lhe o Ser tantas vezes e tanto tempo freado. Tirem fotografias, apreciem o que é bom, mas não se esqueçam do movimento das ondas e das correntes, mesmo que sejam apenas das searas e das estevas ou dessas ribeiras que ressuscitam sem aviso.

Café Guadiana





Esplanada do Café Guadiana, em Mértola: com duas gerações da mesma família, um empregado que é quase de família e um parente pintor anarquista.

terça-feira, 16 de junho de 2009

O Douro internacional






O Douro lá para os lados do Planalto de Miranda, a fazer fronteira com Espanha, com o antigo reino de Leão. Com abutres, daqueles que fazem falta, pelo meio.

Revista Kathársis




Fez este ano dez anos a revista Kathársis, obra colectiva, com prosa e poesia dos alunos da Escola Secundária Severim de Faria. Desta vez o lançamento da revista foi no salão nobre da Câmara Municipal de Évora

É tempo de cerejas. Ou apenas um retrato do interior do país.


Eleições para o Parlamento Europeu

Agora que toda a gente disse quase tudo vou talvez repetir alguma coisa.

Surpresa estas eleições? Parcialmente sim. Supunha que o PS desceria, mas não tão estrondosamente. O resto não é de grande admiração.

Comecemos pelo Parlamento Europeu. Não é propriamente um parlamento, visto que o poder legislativo é controlado pelos governos. E as pessoas nem percebem muito bem para que serve. Para mais, tudo o que é importante, desde a adesão dos países, à PAC, as directivas, tudo tem sido decidido por negociações e por uma burocracia distante dos cidadãos. Nos tratados, na pretensa ou pretendida constituição europeia importam mais o liberalismo económico do que os direitos cívicos, políticos, sociais ou culturais. Países e culturas com histórias diferentes, até com tradições coloniais diferentes, com opções estratégicas diferenciadas e opostas. Veja-se a atitude seguidista do Reino Unido e da Polónia face à invasão do Iraque, diferente da França, ou o reconhecimento da independência da República (mafiosa) do Kosovo, em contradição com as leis internacionais, da ONU que tanto dizem prezar, excepto nestes casos ou em relação a Israel.

O PS há muito que meteu o socialismo na gaveta. O que é que distingue a prática do PS da do PSD, a não ser o estilo? O governo mandou apertar o cinto para cobrir o deficit. Vieram os escândalos do BPN, do BPP e outros e agora esbanja-se o dinheiro dos contribuintes para pagar a especuladores. Desde há muito que saem ministros do governo e vão para a Portucel, para a Mota Engil, para o BPN, para grandes empresas ibéricas da comunicação e da energia. Saem do PSD, saem do PS, despudoradamente voltam a regressar a cargos de estado.

Os deputados são escolhidos por estes partidos e, em última análise, nestes partidos do centro, deputados e ministros são escolhidos por este centrismo de conluio entre empresas que dependem do estado e de um estado dominado por estas. Bem podem os eleitores querer votar em determinado deputado que logo estes partidos baralham tudo, metendo uns aqui outros ali, ficando no fim alguns que ninguém conhece, nem reconhece. E, se refiro estes dois partidos, devo acrescentar também o CDS que também ora faz alianças e negócios com um ora com outro.

Não admira o PSD ter subido. Afinal as pessoas pouco distinguem PS e PSD e este está agora fora do governo, mesmo que tenha estado calado tanto tempo em matérias importantes, até porque gostava de ter feito o mesmo. A memória também é curta!
O caso do Bloco de Esquerda pode ser um fenómeno conjuntural. Digo pode, porque houve muitos eleitores do PS que votaram nele, mas pode consolidar algum eleitorado. A CDU, contra as previsões (e o que há mais é gente arrogante a dar palpites) também subiu.

O governo, ao longo destes anos resolveu teimar num estilo arrogante e com tiques autoritários, mas sem competência para resolver os problemas do país. Veja-se o que se tem passado com a Educação: congelaram-se carreiras, contra as expectativas, com má-fé até, mudou-se a gestão das escolas para um modelo mais autoritário, burocratizou-se a avaliação, tentou-se controlar as consciências e as práticas até à intimidade, facilitou-se demagogicamente a passagem dos alunos, fez-se cair numa campanha de maledicência as culpas dos problemas do ensino sobre os professores. E não se resolveram os problemas; agravaram-se com a teimosia e falta de competência do ministério.

Pode ter-se a certeza que a questão dos professores teve peso nestas eleições. Não são só os 150000 professores, são as famílias, os amigos. E é bom não esquecer que os professores, que têm formação superior, ainda têm algum prestígio que a sociedade lhes reconhece, tendo a população mais confiança neles do que em muitas profissões.

Ainda as Galveias





A freguesia das Galveias é considerada uma das mais ricas do país. Recebeu uma herança da família Marques Ratão com propriedades, herdades e prédios urbanos, nos concelhos da Ponte de Sor, Avis, Estremoz, Borba, Crato, Monforte, Lisboa ...

Quando era pequeno ouvia falar da lenda do Marques Ratão. Ia à feira de Sousel quase como um pobretana, trazia a merenda de casa para não gastar mais. A feira de S. Miguel era famosa e ainda me lembro da enorme feira do gado, com centenas e centenas de mulas e machos, cavalos, ovelhas ... Era um dos sítios onde se faziam negócios nos tempos em que a agricultura no Alentejo dava para fazer grandes fortunas e misérias para a maioria. Dizia-se que Marques Ratão emprestava dinheiro a juros a grandes proprietários que gastavam o dinheiro a seu belo prazer em Lisboa e em Espanha. Não sei se seria só lenda.

A Junta de Freguesia administra essa herança. A CDU ganha aí as eleições.
Galveias tem um conjunto de equipamentos sociais dignos de inveja neste pobre interior de Portugal.
Perguntas: O que é urbano e o que é rural? O que é participação cívica?

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Uma justa homenagem


Passei pelas Galveias há dias. E eis que vejo uma placa com o nome de uma rua: Joaquim Barradas de Carvalho. Foi meu professor na Faculdade de Letras.

Ele e outros colegas da Faculdade de Letras (Mário Soares ...), enquanto estudantes, foram perseguidos pelo regime e continuaram a militar. Esteve exilado em França, onde fez doutoramento de Estado, foi professor na Universidade de S. Paulo, tendo entrado no Brasil com passaporte francês, sendo um dos professores mais reconhecidos. Barradas de Carvalho era de uma família de grandes proprietários alentejanos mas ofereceu as propriedades herdadas a uma cooperativa no tempo da Reforma Agrária, coerente até ao fim com as suas ideias.


Encontrei este artigo de um professor da Universidade de S. Paulo (talvez a melhor da América do Sul em Ciências Sociais). Um extracto do texto "Grandes Mestres", de Carlos Guilherme Mota:


Foi um intelectual que nos ensinou a pesquisa à lupa, o rigor da escrita, os clássicos. Foi no Brasil, em compensação, que se revelou excelente professor: antes, jamais lecionara. Por seu intermédio, conhecemos, enquanto História viva, as idéias de Jaime Cortesão, de Magalhães Godinho, de Antônio Sérgio, de tantos outros geniais escritores e pensadores portugueses. E entramos em contato com a crítica — gentil e informada — aos estudos de Ameal e de outros menos apreciáveis, que faziam parte de nosso ingênuo currículo universitário.
Espírito anti-acadêmico, anti-ortodoxo, filho de família tradicional alentejana, descendente do Conde das Galvêas e de Camões, Barradas soube cultivar como ninguém a crítica, temperada sempre pela amizade e empenhada cordialidade, que estendia até mesmo a eventuais oponenetes políticos. Só uma coisa o aborrecia efetivamente: o reacionarismo de alguns de seus compatriotas, cujo comportamento retrógrado empurrou Portugal para o atraso e a melancolia. Daí ter encontrado na vida agitada de São Paulo um clima intelectual e político em que pôde desenvolver suas potencialidades. Tornou-se um paulistano da melhor qualidade: pensava mesmo que se um dia se articulasse um Bloco Luso-Afro-Brasileiro, a capital deveria ser São Paulo... Após a Revolução dos Cravos, o Jornal do Brasil dedicou dois ou três editoriais à utopia barradeana.
[...]Joaquim formou-se em História e Filosofia em 1946 pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, já revelando a vocação para o campo no qual desenvolveria seus trabalhos: a História das Idéias e, mais precisamente, a História das Mentalidades — que era então uma disciplina menor da História, pouco cultivada e desimportante (segundo parecia). Seu primeiro trabalho foi uma dissertação para aquela Faculdade: Idéias Políticas e Sociais de Alexandre Herculano (1949), no mesmo ano em que veio à estampa outro grande trabalho de outro notável português de sua geração, Antônio José Saraiva, sobre o mesmo Herculano.
Seus estudos e pesquisas prosseguem depois em Paris, onde se doutorou em Estudos Ibéricos pela Faculdade de Letras e Ciências Humanas da Universidade de Paris, Sorbonne, em 1961. Tema de sua tese: Esmeraldo de Situ Orbis, de Duarte Pacheco Pereira. Nesse período, convive intensamente com a escola historiográfica dos Annales, o principal grupo de Historiadores europeus capitaneados por Lucien Febvre, Marc Bloch (morto na guerra pelos nazistas) e por Fernand Braudel, sucessor de Febvre e Bloch. Braudel dedicou a Barradas grande estima e a Portugal grande atenção por causa de Magalhães Godinho, Frederic Mauro e Barradas. Joaquim Barradas foi um discípulo de Braudel (e de Febvre, fundador da História das Mentalidades na França, em memória de quem dedicou seu último livro) e soube combinar o que de melhor havia naquela escola de pensamento com o que de melhor se fazia em termos de pensamento marxista. Excelente mistura, que bateu em cheio na Universidade de São Paulo nos meados dos anos 60, quando intelectuais como Florestan Fernandes, Antônio Cândido, Fernando Henrique Cardoso, Otávio Ianni e inúmeros mais — não nos esqueçamos de Sérgio Buarque, Caio Prado Júnior, Cruz Costa e Fernando de Azevedo, da geração antecedente — marcavam o horizonte intelectual e político, desenhando um outro Brasil.

[...] Barradas de Carvalho retornou a Paris em 1970, apresentando à Escola de Altos Estudos da Universidade de Paris o ensaio La traduction espagnole du Situ Orbis, de Pomponius Mela par Maître Jean F aras et les notes marginales de Duarte Pacheco Pereira. Em 1975, recebeu a mention très honorable e les félicitations du jury com sua tese de Estado, a mais importante da carreira universitária, recebida com grande impacto, dada sua erudição e importância. Seu título (um dos mais longos da bibliografia mundial...): A la recherche de Ia spécificité de la Renaissance portu-gaise - L ´Esmeraldo de Situ Orbis, de Duarte Pacheco Pereira, et la literature portugaise de voyage à l 'époque des grandes découvertes. Contribution à l ´étude des origines de la pensée moderne. Foi muito bem recebida por uma comissão de alto nível, presidida pelo Historiador Pierre Chaunu que aliás, fez o emocionado e agudo prefácio, com Fernand Braudel — Chaunu registra no prefácio da publicação dessa obra jamais ter ocorrido, em sua longa experiência com teses, uma sessão tão emocionante no tradicional Anfiteatro Liard, na Praça da Sorbonne. Sua edição, em dois volumes, pelo escritório de Paris da Fundação Calouste Gulbenkian, foi providenciada pelos vigilantes Historiadores, escritores e amigos Joel Serrão e José Blanco.


Nota: Carlos Guilherme Mota é Historiador, professor de História Contemporânea da USP, diretor-fundador do Instituto de Estudos Avançados da USP, criador da Cátedra Jaime Cortesão no mesmo Instituto e autor de vários livros, entre os quais Atitudes de Inovação no Brasil (1789-1801), Nordeste 1817 e Ideologia da Cultura Brasileira.


sexta-feira, 29 de maio de 2009

Parlamento dos Jovens. Haja esperança.




Segunda e terça estive na Assembleia da República com os alunos no Parlamento dos Jovens.
Uma experiência interessante em que os "os deputados" dos círculos eleitorais mostram e provam que sabem discutir política, sem paternalismos.

Amanhã há mais

Vital(idade) para a Mina de S. Domingos

Ontem Vital Moreira anunciou e repetiu que o governo iria proceder à reabertura da Mina de S. Domingos.
As gaffes costumam acontecer, mas uma de cada vez. Vital repetiu.
A Mina foi abandonada nos anos sessenta. Houve migrações em massa para a Margem Sul do Tejo, outros foram para França, Canadá e outras margens. Alguns, como indemnização tiveram apenas direito a passaporte, o que também não era fácil quando o país se despovoava e o decrépito Estado Novo, "orgulhosamente só" e tão fundamentalista na defesa da Pátria e da Família, deixava que as famílias se desagregassem e a Pátria se fosse esvaindo, escondendo com a censura e a perseguição política o subdesenvolvimento e a miséria.
Não é a pessoa que interessa. É o primeiro candidato de um partido, é o catedrático de direito de Coimbra que se armou em "expert" da Educação, dizendo e escrevendo dogmaticamente que os professores (todos) não queriam avaliação nem nada e que deviam ser postos na ordem.
Cidadão Vital. Peça desculpas às famílias dos mineiros!
E já agora não fique abespinhado, como de costume, com os agradecimentos que vai certamente receber pela sua campanha em favor dos outros partidos. É que as suas certezas e a sua falta de habilidade têm contribuído e não pouco para a perda de votos do partido do governo.
O sectarismo também se paga.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Em 19 de Maio de 1954

CANTAR ALENTEJANO
Vicente Campinas

Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer

Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou

Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou

Aquela pomba tão branca
Todos a querem p’ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti

Aquela andorinha negra
Bate as asas p’ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar