domingo, 19 de outubro de 2008

A chuva e os topónimos

Ontem houve inundações em Sete Rios, Lisboa. Não é a primeira vez e outras virão. Encheram a zona de cimento e impermeabilizaram os solos. Depois a água ou corre por onde costumava ou inunda devido às barreiras artificiais que se foram fazendo em nome de um determinado progresso.
Por vezes, bastava reflectir sobre os topónimos antigos. Até à segunda metade do século XIX as pessoas davam nomes muito concretos às coisas e às ruas. Sete Rios, significa que é uma zona com muita água, com várias linhas de água. Os antigos sabiam disso, alguns no nosso tempo desprezaram.
Mas há muitas mais só em Lisboa: Arroios, são ribeiros (note-se também o plural), Areeiro, está associado a areias dos cursos de água, Alcântara, significa ponte e portanto uma passagem por cima de uma ribeira, que está encanada e rebenta de vez em quando.

As reuniões

Tenho algumas saudades de certas reuniões.

Daquelas reuniões de estudantes, as RGAs, no pós-25 de Abril, que para os que lá não estiveram ou só ouviram falar em terceira mão, foram uma balda ou uma inutilidade.
Há quem nem imagine a organização necessária. Com tanta gente em movimento, tantos projectos, tantas partidos e grupos, tantas discussões, tantas "bocas", era preciso ter regras claras de participação, medir o tempo útil. Nessas reuniões decidia-se tanta coisa!

Outra experiência muito interessante que tive foi na Assembleia Municipal de Arraiolos. A maior parte dos membros tinha a instrução mínima, eleitos ou presidentes das juntas de freguesia. Quando um falava, os outros ouviam sem interrupções. E havia opiniões diferentes, mesmo dentro do mesmo partido. Sabiam (sabem) falar e escutar sem mudar de assunto constantemente.

Hoje participo em reuniões em que há constantes interrupções e, sobretudo, mudanças de assunto que nada têm a ver com a ordem de trabalhos, repetições do que já foi dito, concentração em pormenores sem se discutir o essencial ... enfim, decisões que poderiam ser tomadas numa hora e que se arrastam por horas infinitas.

E já não falo daqueles que nunca lêem os documentos previamente e que depois intervêm constantemente aos bochechos, porque só os lêem aos bocados na hora, sem terem reflectido primeiro ou daqueles que só apresentam os documentos de muitas páginas na própria reunião, obrigando as pessoas a tomarem atenção aos que falam e a lerem apressadamente ao mesmo tempo essas propostas.

Um desgaste!
E quando uma pessoa diz que é preciso respeitar a ordem de trabalhos ainda é considerado como um chato, que certas pessoas têm que se fazer ouvir sempre, mesmo que nada acrescentem.

É difícil fazer perceber a alguns que os tempos que correm não dão para andar a perder tempo. Ou será que acham que os outros têm que ter um horário de 50 ou 60 horas, ou mais ainda?

O discurso anti-sindical

Há quem diga coisas destas: que os sindicatos são os maiores adversários; que não se deve ser sindicalizado; para quê pagar quotas para eles (será que se entendem por eles, uns indivíduos que nem são professores, que vivem à custa dos outros)? Admiram-se de haver gente sindicalizada e até parece que quem é sindicalizado anda fora da onda, ou até é está contra a corrente.

Há quem agradeça. Não só a ministra, mas quem foi a favor do novo código de trabalho, quem não quer parceiros para discutir problemas concretos, quem está a favor da desregulamentação total, dos contratos individuais sem negociação colectiva. Por que não havendo sindicatos, o que é que há? E o que é que existe de permanente, para o dia a dia?

Creio que em muitos casos este discurso resulta da emoção do momento. Compreendo-o, mas há que reflectir.
Mas o sindicato já deveria ter ouvido as pessoas. Já se deveria ter actuado. E o não actuar leva à descrença. Os motivos são demasiado fortes para algum silêncio que tem existido. Já quase ninguém aguenta um Setembro e um Outubro como estes.

Aborrece-me este discurso sobre os sindicatos, em geral. Para já não são todos iguais nem têm a mesma representatividade. No caso dos professores há a FENPROF e a FNE, que têm dezenas de milhares de sócios, e um sem número de organizações que de sindicato apenas têm o nome. Alguns até serviram para umas borlas, isto é para indivíduos terem dispensa de serviço a meio tempo ou a tempo inteiro, embora não representassem ninguém. Eram úteis para o poder porque assinavam como sindicatos, embora não tivessem qualquer poder real.

Esquecem-se alguns que a luta pela existência e até legalização de sindicatos é centenária e que muita gente pagou por isso. O campo de concentração do Tarrafal foi criado com sindicalistas da greve geral de 1934 e marinheiros que se revoltaram. Já antes outros tinham ido parar a Timor e outras colónias. Mesmo depois, muita gente foi despedida, perderam direitos, foram presos etc. Não se conseguiria uma manifestação de 100000 professores se não houvesse organização e lutas anteriores. Aliás, para quem tenha alguma experiência em relação a movimentos de massas sabe que é muito fácil infiltrarem-se movimentos provocatórios que levam à excitação, desorganização e intervenção da polícia. Quem viveu o período pós-25 de Abril sabe o cuidado que se tinha nessas manifestações porque facilmente a extrema-direita ou certa extrema-esquerda (o MRPP, muitos deles hoje no poder), poderia manipular grupos mais ou menos espontâneos .

Faço algumas perguntas legítimas (não me venham dizer que sou do contra e não as posso fazer): quem convocou uma manifestação para dia 15? Quem representa essa organização (quantos associados)? Como se transportam dezenas de milhares de pessoas? Como vai ser organizada a manifestação? O que se propõe?E que legitimidade têm alguns para acharem que ninguém deve ligar aos sindicatos? Discutiram o estatuto antes de ele ser aprovado? Fizeram greves e manifestações nessa altura? Foram àquelas manifestações com cinco mil professores, a outras com dez mil ou só foram à última? E depois o que fizeram?

Eu, por mim, tenho críticas a fazer em relação a sindicatos (a um, porque há outros que nada têm a ver comigo). Mas sou sindicalizado. É lá que tenho que estar. Parto do princípio que os sindicatos não são os outros: somos nós. E nós é que temos o direito e o dever de os fazer representar-nos. E estas coisas não podem ser por um só dia. Acabar com sindicatos é ficar sujeito a movumentos, embora bem intencionados, que vão e vêm.

Por isso vou a uma manifestação que tenha objectivos definidos. Que seja para vencer e não sair de lá pior ainda. E irei a outras.

O problema é o governo, não são os sindicatos.

Ps. Não estou aqui propriamente para ser simpático e acrescento ainda outras: por que é que alguns votaram no PS? Os militantes do PS não discutiram problemas de educação antes deste governo? Se são militantes e não concordam o que é que lá estão a fazer? Porque não derrubam esta gente?

E os daquele partido que agora tem uma dirigente que lhe dá para estar calada? Até nova demonstração, parece-me que não é porque não saiba falar, visto que até já foi ministra da Educação, mas porque concorda com o que este governo faz.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Delos. A ilha de Apolo




13 de Outubro em Fátima

in Página de Ilustração Portuguesa, 29 de outubro de 1917, mostrando as pessoas a observar o milagre. http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Milagre_do_Sol

Outro país reverenciando o Sol.
Eu prefiro Apolo.

Rodes. Lembranças de tempos em que as culturas coexistiam








Igrejas católicas da Ordem dos Hospitalários, mesquitas com minaretes, igrejas ortodoxas, casas de judeus, muçulmanos e cristãos.
Acima e mais antigo, Apolo, o deus do Sol e da Razão.
Era assim o Mediterrâneo.




Os preconceitos desta pretensa elite que manda

Os que mandam neste país quiseram resolver o deficit com contas de mercearia, salvo os homens das mercearias de esquina ou do largo que fazem um bem público. A questão que puseram foi a de cortar. Cortar em quê? Nos suspeitos do costume da ideologia liberal ou neo-liberal: saúde, educação, reformas … Não acuso só o governo, mas sobretudo, como também esta União Europeia que proclamava há pouco tempo “o menos estado” e que agora nacionaliza bancos que há pouco tempo tinham lucros exorbitantes, agora injectados com dinheiro dos contribuintes - os que pagam todos os deficits.

Mas, para além disso, essa autoproposta elite tem uma desconfiança em relação a quem ensina. Uns, porque acharam que os filhos das criadas não deveriam aprender mais nem ter um lugar superior ao filho do patrão; outros, porque desprezaram sempre os livros, a investigação, até a participação; outros ainda porque acham que são eles os detentores da cultura, o que é uma forma aparentemente sofisticada de reproduzir a ideia que os filhos das criadas não podem pensar e agir. Alguns pensaram até que eram mais modernos que os outros e sentiram-se no direito de achar que todos os outros são estúpidos. Conluiaram-se nesse desprezo e nessa tentação autoritária que tem raízes longas neste país e vá de “bota abaixo em relação aos professores.

Não quiseram avaliar a situação. Eles sabem mais, sabem tudo e vá de resolver tudo drasticamente. Ouviram falar que o professor do filho de um vizinho faltava muito, conhecem uma antiga colega de faculdade que tinha menos horas, deram aulas um ano e faltavam muito, pensando que todos eram também assim oportunistas, foram um dia a uma reunião de pais e o professor não resolveu uma qualquer situação, leram apressadamente umas estatísticas desactualizadas e está feita a opinião.

Nunca terão pensado que um professor precisa de ler, que precisa também de tempo para preparar aulas diferentes que ponham os alunos a pensar e a investigar um pouco. Não quiseram saber de quem estava na profissão a fazer de conta. Quiseram obrigar todos a serem investigados até ao pormenor, quiseram controlar tudo.

Estão a secar a fonte.
Querem secar a fonte!

O que se passa actualmente nas escolas é kafkiano, um arremedo de surrealismo ( que era uma arte libertária), um desgaste e uma inutilidade permanente. Para quê?

É preciso avaliar ou antes culpabilizar, intimidar quotidianamente, a partir de modelos pré-formatados? Coscuvilhar tudo? Em que é que isto melhora?

Querem comparar-nos com outros estados da União Europeia? Pois bem, nada se passa assim, nem por sombras, e também têm os seus defeitos. Talvez porque não tiveram esses hábitos de uma Inquisição de 300 anos, esses hábitos pidescos de 48 anos, essa tentação de mandar até à intimidade.

Eu não quero mudar de país. O que gostaria é que essa gentinha que manda fosse fazer um estágio a qualquer lado (mesmo que nós pagássemos, o que já estamos habituados) e começasse, o que não é fácil para eles, a pensar um pouco racionalmente.

Estes são os herdeiros daqueles que nos deixaram a miséria social e intelectual salazarista. Mesmo travestidos de modernos e eficazes (?) e com viagens às Caraíbas, ao Quénia e a outras partes, onde os empregados lhes servem as bebidas e os pobres que cheiram mal ficam higienicamente fora de vistas.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O sentido de oportunidade


Imagens do museu de Faro
Quando estava em discussão formal o novo estatuto dos professores havia muita gente que tinha mais que fazer. Estava preto no branco que iriam existir duas carreiras e a maior parte ficaria impedido de chegar ao topo. Outros muitos direitos foram perdidos.
As primeiras greves contra o estatuto tiveram uma adesão relativa. Fizeram-se manifestações, primeiro com 5000, depois 10000. Só depois de o caldo estar totalmente entornado vieram 100000, recorde único na Europa. Depois muitos contentaram-se com um memorando de acordo.
Agora, os professores não sabem o que fazer à vida. Reuniões atrás de reuniões, reuniões sem sentido e sem controle do tempo.
Afinal há quem goste de fazer grelhas. Há quem goste de reuniões de 5 horas e mais outras tantas para não decidir quase nada. Há quem goste de convocar reuniões de protesto e desconvocá-las à última hora sem explicações.
Será que não dá para ver que já quase ninguém aguenta este ambiente e que é hora de agir em conjunto, depois de tanto tempo perdido?
Ou de lamuriar?

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Reuniões em escolas

Amanhã vai realizar-se uma reunião geral na Escola Secundária Severim de Faria para discutir os problemas de avaliação de professores. Como outras noutras escolas e em muitas que hão-de vir.

Os professores não sabem para onde se virar. Reuniões e mais reuniões, preenchimento de múltiplos documentos, pressões enormes para acabar com o insucesso educativo de forma administrativa, desorientação geral sobre critérios, com demissão e pressão do ministério, modelos unidimensionais, castração da criatividade em relação ao essencial, submissão ao autoritarismo desnorteado...

Irresponsabilidade de um governo que está seriamente a comprometer o futuro da educação, a corromper o seu próprio programa e ideologia (qual será?).

A independência do Kosovo

Não é um precedente mas é grave.
Na mitologia sérvia o Kosovo é o berço da nação. As limpezas étnicas são antigas: existiram com a Grande Guerra e a 2ª Guerra Mundial. Tito, em nome da união jugoslava preferiu que os sérvios expulsos não regressassem.
Recentemente o problema enquadra-se na desintegração da Jugoslávia, imediatamente apoiada por alguns países europeus, entre os quais a Alemanha que assim vai reconstituindo o seu domínio, agora económico.
Há uns anos fomos bombardeados pelas valas comuns de milhões de kosovares. Nem o Kosovo tem tantos milhões de habitantes nem apareceram essas supostas provas. Bombardearam-nos a seguir que também com os judeus tinha acontecido o mesmo na Alemanha nazi. Como se fosse tudo o mesmo, como se o facto de outros não terem acreditado perante evidências, justificasse a obrigação de acreditarmos no que as agências hoje dizem.
O facto é que houve limpezas étnicas e transferências de populações. Hoje há muito menos sérvios do que havia e tem havido colonizações de albaneses vindos da Albânia. Tolerou-se e promoveu-se a actuação de um partido nacionalista e fascista como o UÇK. Diz-se que a Albânia é hoje um estado falhado dominado por máfias. O Kosovo é terreno ainda mais propício.
É isto que Portugal reconhece agora também. Contra as decisões das Nações Unidas reconhece-se um estado que só sobrevive com ajudas prontamente arrecadadas por grupos onde só chega a lei do mais forte, com exclusão das “raças” dos outros.
Vamos também reconhecer a Irlanda do Norte, o País Basco, a Córsega, Chipre Turco, etc. etc.?

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Anda qualquer coisa no ar que vai descer à terra.

Pensa o senhor primeiro-ministro e a senhora ministra da Educação que tudo está resolvido nas escolas?
O ministério da Educação continua a meter os pés pelas mãos em relação à avaliação dos professores. Os prazos mudam quando calha, as exigências são cada vez maiores, as tarefas inúmeras.

Trataram e continuam a tratar os professores como serviçais e como incapazes de ler e reflectir, coisas inerentes à profissão. Conseguiram fazer com que a maioria verificasse que tem a carreira bloqueada durante muitos anos e que ninguém ganhasse com este novo estatuto. Aumentaram os horários de trabalho a todos, as burocracias inúteis. Promovem-se agora os que inventam grelhas exaustivas, os portefólios de imensas páginas e separadores, em que os professores têm que estar sempre disponíveis e a dizer Amém, em qualquer dia do ano, seja aos domingos e dias santos, seja de manhã ou à noite, porque as reuniões, as planificações, os planos, os planos que hão-de vir, os planos para recuperação dos alunos faltosos, as avaliações extraordinárias e contínuas para estes, o ter que provar tudo, o instilar da culpa pelo abandono e pelos resultados, o mostrar tudo a todos os que vão detractando toda a a actividade docente, o ter que andar a provar tudo o que se faz, o fazer objectivos individuais cada um à sua maneira, a incongruência das medidas ...

Há que preparar aulas e dar aulas, não é? E há que dormir de vez em quando. Não se pode condenar uma classe inteira a tomar xanax até à habituação.

Acho que isto vai rebentar outra vez. E quando se começa um processo, em que quem está encurralado não tem outra saída senão revoltar-se, nunca se sabe onde isto vai acabar.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Os professores, as grelhas e a avaliação

Todos os dias recebo grelhas sobre a avaliação dos professores. Já estou um pouco farto! Para quê esta excitação? A ministra e o primeiro-ministro que manda nela já fizeram o essencial em relação aos professores: estabeleceram-se duas carreiras e impediu-se que a maior parte subissem de acordo com o estatuto que tinham e a expectativa de há muitos anos, o que, diga-se de passagem, continua a pôr em causa a boa fé do estado, aumentaram-se os horários, mandou-se gente para o desemprego, reduziram-se os custos.

Agora, o que interessa ao governo são os resultados escolares e a diminuição do abandono. E pouco mais. Ou antes, que as quotas sejam cumpridas, que administrativamente haja uns muito bons e uns raros excelentes, para que só possam progredir uns tantos. De resto, e agora que nos vamos aproximando de eleições, até convém que quase todos tenham a classificação de bom. Fica bem até num estado que gosta de se apresentar como paternalista. Nem conviria a ninguém que houvesse muitas classificações negativas. Portanto, cuidado com as grelhas, que não se arranje lenha para queimar inutilmente ou promover alguns esclarecidos de última hora.
Por isso, custa a perceber-se porque é que em algumas escolas se anda num tremendo afã em relação a objectivos e grelhas. Há mais que fazer, há que dar aulas, ler uns livros, fazer reuniões curtas e eficazes e deixar as burocracias para quem as inventou, baixar a velocidade em relação a tarefas inúteis e perguntar aos burocratas e aos seguidistas o porquê das coisas. Até porque no regime democrático quem manda é também obrigado a responder e a explicar.

E… já agora. Que não se vote nestes nem à direita. Há sempre alternativas.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Conceição de Tavira




Conceição de Tavira.
Um outro Algarve bem perto da praia. Portal manuelino.
A ordem de Santiago de Espada bem presente.

Curso de bibliotecas escolares

Este fim de semana comecei um curso sobre bibliotecas escolares na ESE de Beja, que vai durar dois semestres. Não me dá para subir na carreira pois não há degrau para subir, mas sempre se aprendem uma coisas.
O programa e o ambiente parecem-me interessantes. As sessões são presenciais e a maioria pela plataforma moodle.

Votar à esquerda ou à direita. Votar à direita porquê?

Tenho recebido constantemente umas mensagens em que se apela aos professores para não votarem no PS e votarem à direita ou à esquerda (as razões são um rol conhecido que só pode envergonhar quem tomou as medidas e que despreza e educação).

Como sempre, convém ver o significado das palavras, o contexto e a história destas. O PS, o PSD, o CDS, o PCP, o Bloco de Esquerda já não são o mesmo que há uns anos. O PS, o PSD, o CDS falavam em “socialismo democrático” (sim, o CDS também) em 1975. O PS quando foi fundado, até era um pouco revolucionário. O homem que “meteu o socialismo na gaveta”, Mário Soares, hoje está mais à esquerda do PS e até diz que a NATO não tem sentido. O PC também mudou e o Bloco de Esquerda acabou com a linguagem maoísta e/ou trotsquista, dedicando-se a causas concretas, sem pretensão de mudar o mundo de uma vez (já ninguém pensa nisso e o PC também não).

A direita está na prática do neo-liberalismo, envolvendo partidos social-democratas (internacionalmente social-democracia pode ter outro significado). Mas mesmo esta ideologia neo-liberal recua ou deixa de ser coerente com a ideia que o mercado e Deus (o que é o mesmo, “in God We Trust”, dizem as notas do dólar norte-americano) resolve tudo, e que os que perdem, a culpa é deles porque não foram eleitos para ganharem o Céu . Nos EUA nacionalizam-se bancos, mesmo que se critique e que se tentem golpes de estado na Venezuela e Bolívia.
Mas votar à direita porquê? A direita tradicional em Portugal (falo do regime até 1974 e dos seus saudosistas), conseguiu que Portugal fosse o país da Europa com mais analfabetos, com menos pessoas com o ensino secundário e por aí adiante. Os professores(as) do ensino primário estavam sujeitos a inspecções constantes e os do ensino secundário, a maioria nem ganhava as férias, estavam sempre à disposição da autoridade do reitor nomeado. Hoje estudam cerca de 20 vezes mais pessoas que em 1973.

A outra direita (sem rumo ou travestida) já esteve, e continuamente, no poder. Também nos deixou o deficit e as despesas, sabe-se lá aonde, também fugiu para as festas e para Bruxelas.
E, é bom que a memória não seja curta, também congelou os salários e bate palmas em relação a muitas medidas que levam a que o investimento na Educação seja menor, mesmo com todas as reduções salariais (os congelamentos forçados) e o aumento do horário de trabalho dos professores (até ao absurdo das tarefas burocraticamente exigidas).

Portanto, votar à direita não. Até porque nem sabemos o que é que eles querem.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Constituição. Em vigor

Constituição da República Portuguesa
PARTE I - Direitos e deveres fundamentais
TÍTULO II - Direitos, liberdades e garantias
CAPÍTULO IIIDireitos, liberdades e garantias dos trabalhadores

Artigo 53.º(Segurança no emprego)
É garantida aos trabalhadores a segurança no emprego, sendo proibidos os despedimentos sem justa causa ou por motivos políticos ou ideológicos.

Código de Trabalho

Amanhã vai ser votado o Código de Trabalho que afecta simplesmente a maioria da população portuguesa.
Vamos ver quem são os responsáveis pela liberalização dos despedimentos e precariedade.
Abster, como parece que vai também fazer o PSD, é o mesmo que votar a favor.
Pode haver surpresas, mesmo no partido do governo. Perdoem-me a expressão, mas o que está na Constituição é o contrário: o governo só existe porque há deputados e cada deputado é responsável individualmente; foi eleito pelos eleitores e não pelo partido. O governo é que é fiscalizado pela Assembleia da República e não o contrário.
Vamos ver quem é que tomou posição e quem foi o seguidista. Porque os efeitos vão sentir-se no dia a dia e por muito tempo.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Mistificações e "jornalismo".

Fui alertado pelo meu amigo Fernando Évora em relação a a alguns dados divulgados na Visão no suplemento intitulado “O Estado da Educação”, publicado como parte integrante da edição n.º 707 dessa revista, em 21 de Setembro de 2006.

Cita-se:
« número de horas exigido aos professores, nas escolas [portuguesas], é substancialmente inferior ao de outros países.
A um professor, em Portugal, no secundário, é exigido que passe cerca de 590 horas
por ano na escola, enquanto a um seu colega sueco se exige um total anual de 1360
horas. Aberrante?».

A informação ter-se-à baseado nas estatísticas da OCDE, Education at a Glance 2006
A publicação actual, Education at a Glance 2008, já aqui referida, indica como horas de trabalho na escola, 1360 para a Suécia e 1260 para Portugal, sendo que, em Portugal, no 1º ciclo corresponde a 860 horas lectivas (média da OCDE 812) e no ensino secundário 664 (média da OCDE 664). Para a Suécia não há actualmente este indicador mas, no mesmo quadro, é referido que, em ano anterior, é de 624, no 1º ciclo e 528 no ensino secundário; menos que em Portugal).

Portanto, há aqui uma mistificação deliberada: Os professores portugueses não passaram em dois anos de 590 horas para 1260. E, na Suécia, os dados dizem que não aumentaram as horas de trabalho, sendo que têm menos horas lectivas.

Essa mistificação passou, ao comparar coisas que até não são comparáveis. E não foi desmentida por uma revista que acha que é credível. E essa revista poderia ter simplesmente consultado a legislação portuguesa e informar-se junto das escolas. Mas é mais fácil propagandear preconceitos e mandar os métodos de investigação e a deontologia dar uma volta.

Mas põe-se ainda outra questão muito séria. Porque é que a OCDE tem, alegadamente, esta disparidade de dados, de 2006 para 2008? É certo que aparece um aumento de 1,2 (no que respeita ao ensino secundário, mas em relação às horas lectivas). Mas passar de 590 horas para 1260?

Só há uma explicação. Quem fornece os dados à OCDE é o governo português. Em 2006 incompetente ou deliberadamente misturou as horas lectivas com o trabalho total (que nem sequer é esse que agora se apresenta).
E com isto se fez política. Não! Propaganda com os "suspeitos do costume".

Haja Visão!!
Certamente pagaremos a factura.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Salários dos professores. Por hora lectiva com 15 anos de serviço.

Clicar na imagem. A tabela foi ordenada por ordem descendente no ensino secundário. Há países que não apresentam dados, como a Inglaterra, a Suíça ou o Japão.
Fonte: Table D3.1. (continued) Teachers' salaries (2006), Education at a Glance, OECD, 2008


Remuneração por hora lectiva com 15 anos de serviço.
A comparação mais legítima, parece-me que é a dos professores com 15 anos de serviço. Por um lado, porque quase não há professores no início de carreira (e aí os salários portugueses são muito baixos) e, por outro, com a divisão da carreira entre professores e professores titulares, a maioria não pode chegar ao último escalão da carreira, embora seja esse dado que o governo gosta de apresentar.
Os professores portugueses estão muito abaixo da média da União Europeia e da OCDE.

Comentário: há muitos jornalistas e comentadores que precisam de consultar estes dados.