segunda-feira, 7 de julho de 2008

Estremoz. Igreja de Santa Maria












Estremoz é uma cidade de grandes espaços e monumentalidade. A cidade pertencia ao rei e nela viveu Isabel de Aragão, depois Rainha Santa, e foi sempre um importante centro militar, sobretudo nas guerras da Restauração.
A Igreja de Santa Maria é da segunda metade do século XVI, é uma igreja salão, com as abóbadas ao mesmo nível e tem uma planta quadrada, caso raro em Portugal. As colunas são monumentais. Inclui-se num grupo de igrejas como a de S. Antão, em Évora ou a matriz das Alcáçovas. O culto de S. Isabel, com o milagre das rosas estão também aqui presentes.

domingo, 6 de julho de 2008

As palavras ... e o Conselho Geral das escolas.

As palavras têm significado. Não podem estar a dizer uma coisa e o seu contrário.
Vem isto a propósito de um artigo neste blogue sobre o Conselho Geral. Recebi comentários irritadíssimos. Porquê? Não o sei ao certo mas já entendi qualquer coisa. Escrevi sobre o Conselho Geral e em geral. Em geral, porque há milhares de escolas neste país que estão envolvidas neste processo.

Mas logo houve quem pensasse que estava a falar da escola x e da pessoa x ou das pessoas y, ou que estaria a “enviar piadas” para alguém, como se eu adivinhasse o que se passa na cabeça de cada um. Não tenho “poderes” para isso nem faço processos de intenção.
Há uma estranha mania em Portugal, de andar a tentar ler nas entrelinhas. Parece que não se quer ler o que lá está escrito mas as intenções de quem escreve, como se se partisse do pressuposto que é necessário atacar alguém ou que quem escreve anda a tentar dizer que é o maior. É triste mas há quem pense assim.

Também sei que escrever é um risco, o melhor é estar calado e esperar pela mudança dos ventos e acertar o passo então. Sempre me disseram isto mas eu também tenho as minhas manias. Heranças dos anos setenta, para mim felizmente! Talvez fosse melhor escrever sobre futebol ou dizer mal do Chavez, que sobre assuntos desses ninguém se importaria. Ou então mandar umas piadas sobre este ou aquele ministro e os políticos em geral. Seria certamente mais acertado e ninguém diria que ando a mostrar-me mais do que devia.

Mas falemos ainda sobre o Conselho Geral. E para descansar as consciências repito que não vou falar de Évora.

É ou não importante que se saiba e em tempo adequado o que é que os diferentes elementos que se propõem para o Conselho Geral digam o que querem fazer?
É ou não importante que uma câmara municipal diga que meios dispõe e o que pretende do ensino no seu concelho?
É ou não importante que uma Associação de Pais diga o que pretende e o que se propõe fazer em prol dos seus filhos e dos outros?
É que há países com os quais nos queremos comparar em que estas coisas se debatem, em que as pessoas e as instituições exigem mas colaboram e apresentam publicamente propostas.

É que há tantas questões a tratar e que podem ter soluções muito diversificadas. Por exemplo:
- Vale a pena ou não haver cursos profissionais? Quais? Quais são os que têm interesse para o concelho e não apenas para esta ou outra escola?
- Vale a pena ter os mesmos cursos em todas as escolas ou pensar realmente em termos de rede?
- O que se faz com os alunos que reprovam? Há alternativas? Quais? Outros cursos diferentes?
- A escola deve ter um centro de novas oportunidades ou não?
- Que formas de apoio podem usufruir os alunos? É legítimo os alunos com dificuldades não aproveitarem os apoios e os pais recusarem-nos? Até que ponto?
- A Câmara Municipal deve apoiar visitas de estudo, fornecer equipamentos ou não, ou o faz como se fosse um favor?
- A escola deve participar em projectos com outras escolas da União Europeia ou isso não tem interesse?
- Deve apostar-se no rigor ou “navegar à vista”?
- Investe-se em bibliotecas, laboratórios, ginásios? Quais são as prioridades?
- Em que medida a Área de Projecto deve trazer um contributo para a comunidade?
- O que se pode fazer para preservar, divulgar e usufruir o Património Cultural, incluindo o construído, e o Património Cultural?
- Havendo a possibilidade de aumentar ou diminuir os tempos lectivos em determinadas disciplinas, quais são as prioridades?
- Que disciplinas de opção pode oferecer a escola?
….
Há tantas questões a tratar que se não forem debatidas corre-se o risco de nunca mais haver autonomia real nas escolas.

sábado, 5 de julho de 2008

Cano. Vista sobre o pátio


Exames de Matemática- média dos alunos internos: catorze

Os alunos internos, isto é, os que fizeram o percurso normal, obtiveram uma média de catorze. Nos anos anteriores era uma desgraça, agora são quase todos bons.
Ou há problemas de validade nos exames ou há também uma intromissão exagerada do poder político para mostrar que tudo está bem.
Ou então estão a amesquinhar o trabalho dos professores ao longo dos últimos anos e a gozar com os alunos dos anos anteriores que não puderam entrar na universidade com o rótulo de medíocre em Matemática.
Onde está a credibilidade do sistema?
Há alguma possibilidade mínima de comparar com os anos anteriores?
Precisamos de explicações. E os alunos vão deixar de precisar das outras explicações.

Sobre o ranking das escolas e algumas propostas em 2004

Há uns anos (em 2004) senti-me na obrigação de propor debates e procurar soluções. O governo era outro e a despreocupação também. Reproduzo aqui um texto que apresentei numa reunião geral. Como foi público também o posso reapresentar publicamente. Havia questões polémicas que muitos professores também não queriam debater. O texto é longo e, por isso, é natural que muitos façam o mesmo que na época ... isto é, passemos adiante.

A Escola Secundária Severim de Faria perante o ranking das Escolas
Algumas interrogações e sobretudo uma procura de soluções.


Uma questão prévia que se pode pôr é se é ou não legítima a informação sobre os resultados dos exames a nível nacional do 12º ano e a comparação entre os resultados das diferentes escolas. Creio que a resposta lógica é positiva, dado que os pais e encarregados de educação, os professores, o Ministério da Educação, os contribuintes e a população em geral têm direito às informações sobre os resultados do sistema de ensino, num país que se encontra situado no conjunto dos países desenvolvidos e com os quais se pretende comparar. Quanto à comparação desses resultados com a avaliação interna das escolas a situação esta já me parece mais problemática, porque cada escola insere-se numa realidade diferente das outras, tem alunos diferentes, tem professores diferentes, tem pais diferentes, edifícios e condições também diferentes, inclusivamente inserem-se em meios sociais mais ou menos estimulantes, com diferenciados desenvolvimentos económicos e até autarquias ou outras instituições que promovem ou não a tão propalada prioridade da educação e ensino. As perspectivas dos estudantes também não são as mesmas, colocando-se aqui várias alternativas de que citarei duas: a obtenção do diploma para o prosseguimento de estudos (e quais, aqueles em que se entra com médias superiores ou inferiores a 17?) ou uma via profissionalizante?
Comparar coisas não comparáveis não nos permite chegar a qualquer conclusão credível. Contentar-nos com atribuir culpas ainda menos.
Num país em que já temos uma boa percentagem de uma nova geração de diplomados com o ensino superior, mas em que cerca de metade não conclui o ensino secundário, em que a muitos dos pais têm a antiga quarta classe e muitos avós são analfabetos, em que grande parte dos jornalistas e comentadores, quase nada conhece do sistema de ensino actual, qual é a informação que passa, que ideias feitas se consolidam? A conclusão rápida de muitos é a de que há escolas piores e escolas melhores. Alguns pais pensarão que é melhor pôr os filhos na melhor escola ou retirá-los da pior. São imagens do senso comum que se projectam na consciência colectiva.
Não poderemos ser indiferente a essas imagens, mesmo sabendo que elas são fugazes e que, na sociedade actual rapidamente essas imagens se gastam; mas temos que ter consciência, humildade e acção consequente para ultrapassar situações que se nos apresentam como adversas. Infelizmente para alguns, felizmente diria, não podemos esperar pelas soluções milagrosas da máquina burocrática e rotineira do Estado. O problema também é nosso! Diria que somos obrigados a ter a liberdade de pensar e actuar

Muitas escolas privadas podem escolher os alunos que lhes são apresentados e devolver os alunos mais fracos, sabe-se lá para onde, talvez para algumas escolas públicas ou, no secular preconceito em relação ao trabalho manual, empurrá-los para escolas profissionais. Há também escolas estatais que o fazem, embora menos explicitamente. É fácil começar com 50 alunos no décimo ano e obter médias razoáveis apenas com 5 no 12º; é fácil só levar a exame metade dos alunos. E os outros, para onde vão? Certamente serão a mão de obra impreparada e de baixos salários que tem caracterizado um modelo de desenvolvimento (?) que hoje não se compadece com a concorrência internacional. Será que queremos assumir este modelo com futuros cidadãos (?) que nem sequer teriam consciência dos seus direitos nem iniciativa para participar na sociedade? Também seria fácil acabar com cursos tecnológicos só para subir no ranking. Mas não precisamos destes futuros profissionais?
Há que assumir o que é uma escola pública. A escola pública deve exigir rigor (só com conhecimentos e competências se pode atingir o desenvolvimento e a cidadania) mas tem que se preocupar com o percurso de todos os seus alunos e prestar contas ao país sobre o que faz com eles.
Há que ver para onde nos dirigimos. Será que a única preocupação é a entrada na universidade de certos alunos segundo o actual modelo de exames e o actual sistema de ingresso? Ora o actual modelo de acesso à universidade tem sido posto em causa e, também, devido ao urgente processo de Bolonha que prevê a mobilidade dos alunos na Europa, todo o sistema de ensino superior está a ser remodelado, o que vai certamente implicar uma escolha diferente dos futuros alunos. As universidades queixam-se da falta de conhecimentos dos alunos do secundário em algumas áreas, mas sobretudo (as melhores), das dificuldades na resolução de problemas, na capacidade de investigação e até de comunicação. Ora, os exames actuais não avaliam muitos desses requisitos. Novamente pergunta-se: basta trabalhar para o curto prazo? Certamente poucos estarão interessados em que os alunos apenas obtenham um diploma. A sociedade mudou!

Creio que podemos actuar essencialmente a dois níveis. Um, ao nível do sistema, pensar e agir a médio e longo prazo, exigir que as escolas tenham uma autonomia real, que possam desenvolver projectos próprios, actuando junto da Direcção Regional de Educação para que nos permita desenvolver cursos e disciplinas para as quais estamos capacitados ou poderemos vir a estar, com avaliação externa e interna, concurso nacionais ou concursos a nível de escola ... Outro, sem descurar, o longo prazo, mas contando essencialmente com os recursos e a conjuntura que temos.

A este nível poderemos fazer algumas coisas. Aparentemente pequenas ou poucas mas consistentes. Algumas interrogações:

- Pensar que os alunos do 3º ciclo poderão ser os alunos do ensino secundário (alguns vão para outras escolas). Que professores têm agora? Professores do quadro da escola ou professores contratados, muitos bons profissionais mas que mudam todos os anos?
- Novas áreas curriculares. Em que medida dão apoio a alunos, exercitam competências, estimulam também os bons alunos, preparam alunos para o ensino secundário e para o futuro, para a investigação e resolução de problemas?
- Equipas pedagógicas. Um conjunto de professores a leccionar o mesmo ano lectivo, permitindo projectos inter-turmas e inter-disciplinares, facilitando a marcação de reuniões e discussão de problemas em relação ao mesmo ano lectivo?
- Coordenadores de directores de turma por ano (ou sub-coordenadores)?
- Horários que permitissem aos professores da mesma turma encontrarem-se uma vez por mês durante 90 minutos para tratarem de problemas da turma e para consecução de projectos?
- Conselhos de turma intercalares? Do 7º ao 12º ano? E quando, além dos problemas actuais, for necessário pensar em projectos em todos os ciclos?
- Aulas supervenientes. Utilizá-las de acordo com as propostas dos professores ou de acordo com as disciplinas com resultados mais fracos nos exames ou em que os alunos tenham mais dificuldades?
- Aulas supervenientes. Apenas para o 11º e 12º ano ou para todos os anos conforme as necessidades? Apenas alguns professores ou todos, de acordo com o número de horas da fórmula? Por que não aplicar essas horas em aulas de apoio ou para as faltas de professores?
- Distribuição de tempos lectivos no 3º ciclo. Em que disciplinas? Nesta cidade e neste país, quais as prioridades? Nas ciências experimentais há tempo para exercitar o raciocínio científico? Há tempo para compreender e actuar sobre o património cultural?
- Horas de redução para cargos. Onde são mais úteis? Nos departamentos e em quais, e porquê estes; nas direcções de turma ...?
- Relação da escola com os pais. Poderão os professores fazer melhor? Poderão os pais participar mais e fazer melhor?
- Outras instituições (Câmara Municipal ...) Que relações?
- .............
O Presidente do Conselho Pedagógico

O Conselho Geral; e as ideias onde estão?

Vão agora, ou antes para quem tem pressa de aplicar as directivas, proceder-se às eleições, em vários corpos, dos elementos do Conselho Geral Transitório.
O Conselho Geral vai ter funções importantíssimas em cada escola ou agrupamento, entre as quais eleger o Director Executivo (o que não é para já), elaborar o Regulamento Interno, aprovar planos, orçamentos, projectos, acompanhar tudo isso, fazer recomendações etc.
Os professores elegem sete membros, os funcionários dois, os estudantes do ensino secundário um, a Associação de Pais quatro ou cinco, a Câmara Municipal três; depois cooptam-se mais três.
Elege-se o quê?
Pessoas?
À partida todos são boas pessoas. Mas é isso que interessa?

A mim, e suponho que é isso que deveria interessar, o que é importante são as ideias, os projectos, os protocolos, aquilo que se pode fazer a curto ou médio prazo.
Qual o interesse de dar um “cheque em branco” a alguém que não diz o que quer e o que pretende fazer?
E uma Associação de Pais com vinte sócios numa escola de setecentos alunos não diz também o que pretende e o que está disposta a fazer?
E a Câmara Municipal não deveria dizer qual é a sua política de ensino e que orçamento tem disponível para as coisas que acha que são importantes?

Acho estranho não haver obrigatoriedade de apresentar programas. E mesmo não sendo obrigatório, seria o mínimo exigível para esclarecimento e respeito pelos cidadãos.

É que não há direitos sem deveres. E não há cidadania sem participação com ideias e actos.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

A avaliação externa (exames) e a iniquidade na avaliação dos professores.

Agora, ou para as escolas apressadas, há meses, estão a construir-se indicadores para a avaliação dos professores.
Há uma tentação muito perigosa: a de querer avaliar os professores pelos resultados dos exames e, ao mesmo tempo, penalizá-los pelo desvio da classificação interna em relação à classificação de exame.
Em primeiro lugar convém dizer que a maior parte dos professores não tem alunos a fazer exame. Por aí começa a iniquidade. Há uns que podem ser penalizados e outros não. Há uns que não podem ter justificações para não cumprir totalmente o programa, porque ninguém desculpa se sair alguma questão sobre matéria não leccionada. É a imprensa à procura das “melhores” e das “piores”, é uma parte da opinião pública que apressadamente (não) interpreta os “rankings”.

Mas a iniquidade vê-se também através dos resultados e nos desvios no ensino secundário (11º e 12º ano).
Em 2007 (dados do Ministério da Educação), apenas duas disciplinas em trinta e seis tiveram (médias nacionais) classificação superior na classificação interna em relação à do exame e nem sequer são significativas, tendo em conta o número de alunos: foram a prova 239 de Português com 41 alunos e a prova 547 de Espanhol, com 246 alunos.

Nas restantes (apenas alguns exemplos), o desvio entre a classificação interna e o exame é o seguinte:
Português (prova 639) - 67594 alunos: Desvio -1,7. Média de exame: 11,3.
História (prova 623) - 12649 alunos: Desvio -3,6. Média de exame: 9,4 . No ano anterior o desvio tinha sido de 4,6 e a média de exame 8,4.
Biologia e Geologia (prova 702) - 45149 alunos): Desvio -4,9. Média de exame: 9,1.
Matemática (prova 635) - 52163 alunos: Desvio -2,4. Média de exame: 10,6. No ano anterior o desvio foi de 4,9 e a média 8,1.
Física e Química (prova 715) - 45574 alunos: Desvio -5,6. Média de exame: 7,4. No ano anterior o desvio foi de 6,4 e a média 6,4.
Para além destes resultados porem em causa a validade dos exames há que analisar cada nota no seu contexto. Por exemplo, um dez a História ou um oito a Física são classificações melhores que um onze a Português, se compararmos com a média de exame em cada disciplina.

E mais! Os exames não avaliam o mesmo. Isso é evidente nas línguas onde um teste escrito não avalia a oralidade ou nas ciências em que a prática laboratorial ou os trabalhos de campo também não. E, nas outras disciplinas, há muitas outras competências prescritas que também não são avaliadas desta forma.

Além disso há disciplinas anuais, bienais e trienais. Nas trienais, por exemplo, pode acontecer um aluno ter belíssimas notas no décimo ano e ir com doze valores a exame, tendo oito no 12º. O que se compara é a nota (média) de frequência dos três anos com a de exame o que dá uma distorção evidente. Além disso, se a classificação nessa disciplina não for fundamental para a entrada na universidade, pode contentar-se com uma negativa no exame (aí conta 30%), investindo noutras que lhe interessam mais para o acesso. Pode, por exemplo ficar com um seis no exame, sem afectar muito a média.

Por isto tudo, é preciso ter em conta os efeitos perversos. Pode acontecer daqui a algum tempo os professores começarem a recusar disciplinas que têm exame, já que correm o risco de serem, pelo menos, duplamente penalizados.

terça-feira, 1 de julho de 2008

É tempo de praia

Do meu primo Zé uma crónica saborosa sobre outros tempos de praia, publicada no jornal "Terra Ruiva".

É TEMPO DE PRAIA
Por: José Baeta Oliveira
(Zé Baeta)

Pela parte que me toca, a minha praia é a de Armação de Pera. É mesmo raro ir à praia, no sentido de estacionar na areia ir dar uns mergulhos e umas braçadas, regressar à areia e estender-me ao sol e/ou à sombra, sem ser em Armação de Pera.
O mesmo se passará, penso eu, com muita malta de Silves, cuja temporada de praia se compõe, agora, de umas idas e vindas a Armação de Pera ou então, permanência em casa própria ou alugada.
Dantes, há muitos antes, não era exactamente assim; a temporada de praia da malta de Silves era composta de duas fases.
Uma primeira fase consistia na ida, aos domingos, à Praia da Rocha, pois para ir a Armação, o trajecto de camioneta era muito grande e caro, com uma mudança em Lagoa e outra em Alcantarilha... e muito pouca gente tinha transporte próprio.
Digo aos domingos, porque ao sábado era dia de trabalho ou de escola, pelo menos de manhã, (esta parte não é de saudade), mas importa registar que já há gente a trabalhar, de novo, ao sábado e muitas horas durante a semana, enquanto muitos outros não têm trabalho. Dos que não têm trabalho, só uma pequena parte é porque não quer! Os que dizem que não é assim, que vão trabalhar pelo preço e condições que querem pagar a quem procura trabalho (porque emprego, já nem se pensa nisso)!
As carreiras regulares e directas para Armação só começavam a 15 de Julho. Então a opção, nesta primeira fase, era ir à Praia da Rocha, fazendo um trajecto não menos complicado mas economicamente mais em conta. Eram “ranchos” de gente, em grupos, familiares ou outros, a subir a Ladeira da Estação para apanhar o “Chora” cujo horário seria às 8H20 mas que nunca abalava a essa hora. Muitas vezes, a essa hora, ainda não tinha chegado à Estação.
O “Chora” era o combóio de mercadorias que arrastava na cauda uma carruagem de passageiros com bancos de “suma-pau”. No horário do Domingo de manhã, até começar a carreira directa de camioneta para Armação, ia de lotação mais que esgotada. Ao aproximar-se de Estômbar, num troço de linha ligeiramente inclinado, diminuía a lotação pois muita malta descia do comboio em andamento lento, ia apanhar figos e regressava mais adiante ou voltava a apanhá-lo em Estômbar, onde tinha nova paragem prolongada. Seguia-se a estação de Ferragudo, no Parchal/Aldeia dos Cucos, onde desciam algumas famílias para fazerem o resto do trajecto, a pé, até à Praia de Ferragudo. A maioria continuava até Portimão, caminhando depois, também a pé, pelo menos até ao largo das camionetas, onde a carreira da “Castelo & Caçorino” aguardava até esgotar a lotação; só então abalava para a Praia da Rocha. Quem tivesse dinheiro e disposição para esperar pela segunda volta, ali ficava a ver os cartazes do cinema ou apanhava uma “carrinha” puxada a cavalo, como a do Jaime Loulé que também fazia, aqui em Silves, o transporte para a e da Estação.
Grande parte da malta, ou porque não estava na disposição de esperar ou porque não dispunha de dinheiro, continuava o caminho até à Praia da Rocha, umas vezes a pé, outras vezes andando. Uma vez lá chegados, davam-se os primeiros mergulhos e, caso a maré estivesse vazia, pois com a maré cheia não haveria espaço para tal, ocorriam as jogatanas de futebol. Quando a fome batia horas no estômago lá ia a sandes, ou a peça de fruta, ou a solidariedade de alguma família armada de farnel.
Da parte da tarde, uma soneca, uma passeata ou umas carícias com namorada oficial ou não (ou com namorado, as moças) e mais umas banhadas.
Acabadas as banhadas da tarde, era tempo de retomar a caminhada para a estação de Portimão, a fim de embarcar, desta vez na automotora, em direcção a Silves. Depois, a descida da Ladeira da Estação.
Antes de acabar o curto fim de semana, ainda haveria a oportunidade, para quem tivesse essa oportunidade, de ir ao cinema, ao “barracão do Mariani” ou, mais tarde, ao velho “Cinema Novo”.
A segunda fase começava no primeiro domingo a seguir ao 15 de Julho, agora sim, em direcção a Armação de Pera; viagem menos conturbada, directa e com lugar sentado. O decorrer da jornada de praia, propriamente dita, era semelhante. Só que em Armação, com maré cheia ou maré vazia, havia sempre lugar a jogos de futebol. O mais importante era sem dúvida alguma, junto à Praia dos Barcos, em terreno inclinado, entre Silves e Armação de Pera, muitas vezes com jogadores do “Silves Futebol Clube” a alinhar em ambas as equipas.
No regresso, era muitas vezes demorada a chegada do “desdobramento”. Mesmo tendo uma estimativa da quantidade de gente que tinha abalado de manhã em direcção a Armação, nem sempre a “EVA” previa a necessidade de ter às horas de regresso, camionetas em quantidade suficiente para transportar, de regresso, os clientes mais que certos. Até parece, relativamente a estas e outras coisas, que tanto tempo não passou por cima destes factos...
Quantas vezes não terá feito o trajecto de Armação a Silves, em “desdobramento”, a camioneta do Félix, o “chofer maluco” de Armação, apenas treinada para fazer o circuito Pera-Alcantarilha-Armação. E quantas vezes não terá parado no caminho...Ainda há dias fui, de carro, a Armação. Então não é que, mesmo com um carro relativamente bem comportado, ia ficando pelo caminho de regresso a Silves... É que tinha querido abastecer-me de combustível e não havia nas bombas ... arrisquei a viagem e lembrei-me da camioneta cujo “chofer” era o Sr. Félix, de Armação de Pera.

Crato. A omnipresença da Ordem








sábado, 28 de junho de 2008

Flor da Rosa

















Antiga sede da Ordem dos Hospitalários em Portugal, depois conhecida por Priorado do Crato ou Ordem de Malta. A fundação do edifício deve-se essencialmente a D. Álvaro Gonçalves Pereira, homem de religião e grande criador de filhos, entre os quais D. Nuno Álvares Pereira.
É ao mesmo tempo uma igreja, uma fortaleza e um convento de cavaleiros, com uma arquitectura gótica em que estas funções se fundem, tornando-o um edifício especial.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

A Taberna do Tiago

Naquele tempo, estamos a falar dos finais dos anos 60 e princípio dos 70, nestas vilas do Alentejo e arredores, não havia restaurantes, apenas tabernas e alguns cafés que, por vezes eram umas tabernas com uma máquina de café e uns senhoritos como clientes.
Nas tabernas vendia-se vinho a copo, tirado da pipa, da talha ou simplesmente do garrafão. Havia também alguns petiscos, coisas simples, dependendo da época do ano, em que o que se comia era mais para acompanhar a bebida e, por isso, comia-se devagar e molhando o pão. Conversava-se sobre quase tudo, sobre o que se sabia e sobre o que se podia falar, até porque poderia haver alguém a escutar demais e, pior ainda, a informar quem mandava ou queria mandar ainda mais.
O vinho, geralmente não era de grande qualidade e a cerveja era ainda cara.
Na minha adolescência em Sousel (diga-se que a própria palavra adolescência era novidade), os rapazes (e era do que se tratava) ou já andavam a trabalhar ou (no meu caso e de outros) andavam a estudar sem os métodos pedagógicos da década seguinte.
De manhã, das oito à uma, tínhamos aulas. Às vezes à tarde também, e aos sábados normalmente. À tarde dos dias normais era para estudar. Mas nem sempre.
Falemos de coisas pouco correctas actualmente. Nessa época até parecia mal um rapaz estar muito tempo em casa, mesmo que as descomposturas por não estudar fossem um pouco incoerentes. Dinheiro também não havia muito e as distracções eram também poucas. A televisão só começava ao fim da tarde e pouca gente tinha o tal aparelho.

Passávamos também pela taberna do Tiago. O Tiago estava sempre bem disposto. Falava tu cá tu lá com a rapaziada. Até nos sentíamos importantes. Conhecia uns truques com cordéis, outros com copos, falava de coisas da vida. Ainda por cima, às vezes oferecia um copo de vinho e um cigarro da marca "Três Vintes", daqueles sem filtro mas melhores que os tabacos de onça (por fazer) ou dos “Provisórios” ou “Definitivos”. Por vezes havia um petisco. Mas o lucro do Tiago era um prejuízo constante para ele. Por vezes, o pessoal passava por lá só para "cravar" um cigarro e ainda ouvia uma nova história ou um "truque" novo.

A taberna do Tiago era outra escola. Aí também aprendi muita coisa sobre a vida.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

O "restarantante"

Para quem saia do barco que vem de Ayamonte para Vila Real é o primeiro "restaurante" que encontra em Portugal.
Um cartão de visita?
Há meia dúzia de anos perguntei a um empregado porque tinham escrito restaurante assim. Respondeu-me que tinham mandado fazer a uma empresa e enganaram-se. Como já estava feito não valia a pena emendar.
E continua.

Vila Real de S. António e o charme da burguesia

Casa Folque e Hotel Guadiana
Casa Folque




Grande Hotel Guadiana





Edifícios das primeiras décadas do século XX quando Vila Real era um importante centro conserveiro. A casa Folque, antes Ramirez, li algures que era um projecto de Raul Lino. É de um estilo algo ecléctico, com variados elementos da arquitectura portuguesa e que joga com elementos pombalinos. O "Grande Hotel", do arquitecto Korrodi está também perto da alfândega e do porto e era o primeiro grande edifício visível para quem vinha de Espanha.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Exame de Português e "Os Lusíadas"

Hoje o primeiro texto a analisar era algumas estrofes do Canto IX dos Lusíadas. Não eram estas, mas seria que o autor do exame pressuporia que os alunos teriam estas em mente?

Quando eu fiz o antigo 5º ano estas estrofes estavam censuradas, apesar de terem passado pela Inquisição no século XVI.

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades"

«Ali, com mil refrescos e manjares,
Com vinhos odoríferos e rosas,
Em cristalinos paços singulares,
Fermosos leitos, e elas mais fermosas;
Enfim, com mil deleites não vulgares,
Os esperem as Ninfas amorosas,
D' amor feridas, pera lhe entregarem
Quanto delas os olhos cobiçarem.
[...]

Mil árvores estão ao céu subindo,
Com pomos odoríferos e belos;
A laranjeira tem no fruito lindo
A cor que tinha Dafne nos cabelos.
Encosta-se no chão, que está caindo,
A cidreira cos pesos amarelos;
Os fermosos limões ali cheirando,
Estão virgíneas tetas imitando.
[...]

Abre a romã, mostrando a rubicunda
Cor, com que tu, rubi, teu preço perdes;
Entre os braços do ulmeiro está a jocunda
Vide, cuns cachos roxos e outros verdes;
E vós, se na vossa árvore fecunda,
Peras piramidais, viver quiserdes,
Entregai-vos ao dano que cos bicos
Em vós fazem os pássaros inicos.
[...]

Nesta frescura tal desembarcavam
Já das naus os segundos Argonautas,
Onde pela floresta se deixavam
Andar as belas Deusas, como incautas.
Algũas, doces cítaras tocavam;
Algũas, harpas e sonoras frautas;
Outras, cos arcos de ouro, se fingiam
Seguir os animais, que não seguiam.
[...]

Outros, por outra parte, vão topar
Com as Deusas despidas, que se lavam;
Elas começam súbito a gritar,
Como que assalto tal não esperavam;
Ũas, fingindo menos estimar
A vergonha que a força, se lançavam
Nuas por entre o mato, aos olhos dando
O que às mãos cobiçosas vão negando;
[...]


Oh, que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.


[...]

Visita a Évora do primeiro-ministro

Ontem, o Primeiro-Ministro veio a Évora verificar in loco como estava a decorrer o Plano Tecnológico. Visitou uma escola secundária.Veio acompanhado da Senhora Ministra da Educação, ministra que há tempos também visitou outra escola em Évora, já fora das horas de aulas e com algum atraso. Tal como queria, não encontrou alunos nem professores.
Felizmente desta vez não houve contratos nem "casting" para assistir a uma "aula". Aprenderam e só lhes fica bem mostrar que são sensíveis às novas oportunidades.
Só havia um pequeno problema. As aulas das escolas secundárias, já tinham acabado nas várias escolas secundárias. No 11º e 12º ano uma semana antes. Nas outras, com excepção desta, na sexta-feira anterior. E, no dia seguinte, que é hoje, já os alunos estão a fazer exames decisivos para a sua vida.
Ficaram a conhecer o impacto na escola? Duvido e certamente toda a gente e eles também.

Para quê o espectáculo agora? Tem algum sentido? Demonstra alguma eficácia?

Ps. Não sou dos que vão assobiar. Para já, assobio menos que medianamente. Depois estava mais habituado a assobiar para chamar o cão, quando o tinha (e não convém confundir a bicharada com o mesmo assobio); assobiava também algumas músicas mas demorei algum tempo a verificar que não tinha dotes de artista; em tempos, na minha adolescência, também fazia por vezes como outros alarves e assobiava às raparigas, mas já nem isso se usa; verifiquei depois que algumas não gostavam.

E depois ... há outras questões!

Relembrando os monopólios e a especulação

Hoje há muitas queixas sobre os lucros fabulosos, que existem, dos bancos e das petrolíferas.
Durante anos achou-se que privatizar tudo era a panaceia para todos os males. CEE oblige, diziam outros. A família "social-democrata", isto é o PS e o PSD aplaudiu e fez.
Hoje estamos na mão sabe-se lá de quem. Ou será que alguém ainda acredita que a GALP, este ou aquele banco são portugueses? São dos accionistas, senhores, e todos os dias se vendem acções nas bolsas. Nos off-shores depositam-se os lucros, sejam destas companhias sejam do Bin Laden.

Em 1975 tratou-se do problema da fuga de capitais e da especulação desta forma:

Conselho da RevoluçãoDecreto-Lei n.º 132-A/75de 14 de Março

Considerando a necessidade de concretizar uma política económica antimonopolista que sirva as classes trabalhadoras e as camadas mais desfavorecidas da população portuguesa, no cumprimento do Programa do Movimento das Forças Armadas;

Considerando que o sistema bancário, na sua função privada, se tem caracterizado como um elemento ao serviço dos grandes grupos monopolistas, em detrimento da mobilização da poupança e da canalização do investimento em direcção à satisfação das reais necessidades da população portuguesa e ao apoio às pequenas e médias empresas;

Considerando que o sistema bancário constitui a alavanca fundamental de comando da economia, e que é por meio dela que se pode dinamizar a actividade económica, em especial a criação de novos postos de trabalho;

Considerando que os recentes acontecimentos de 11 de Março vieram pôr em evidência os perigos que para os superiores interesses da Revolução existem se não forem tomadas medidas imediatas no campo do contrôle efectivo do poder económico;

Considerando a necessidade de tais medidas terem em atenção a realidade nacional e a capacidade demonstrada pelos trabalhadores da banca na fiscalização e contrôle do respectivo sector de actividade;

Considerando, finalmente, a necessidade de salvaguardar os interesses legítimos dos depositantes;

Nestes termos:
Usando os poderes conferidos pelo artigo 6.º da Lei Constitucional n.º 5/75, de 14 de Março, o Conselho da Revolução decreta e eu promulgo, para valer como lei, o seguinte:

Artigo 1.º - 1. São nacionalizadas todas as instituições de crédito com sede no continente e ilhas adjacentes,

A riqueza das nações

Tem saído com o Público uma colecção sobre grandes pensadores.
Nos últimos dias tenho-me "entretido" a ler A riqueza das nações de Adam Smith. Como muitos pensadores tem sido maltratado, sobretudo porque geralmente é lido em teceira ou quarta mão e, sobretudo, referido quando não lido. Foi considerado por uns como apóstolo do liberalismo, anacronicamente do neo-liberalismo e por outros o "guru" do capitalismo, o que vai dar no mesmo. Marx leu-o com bastante atenção, assim como muitos teóricos defensores das virtudes do capitalismo também lêem Marx.
Lê-se bem e dá que pensar. Talvez o devesse ter integralmente lido na Faculdade, mas hoje tenho mais condições para o interpretar. Deveria, como muitos outros, ser de obrigatória leitura, em excertos pelo menos (mas que não se reduza tudo a excertos, fotocópias de capítulos quase anónimos ou ficheiros em pdf), em cursos como Economia, História ou Sociologia.
Embora soubesse das suas referências às relações entre Portugal e a Inglaterra (Tratado de Methuen), surpreendem-me as constantes referências a Portugal.
Surpreende ainda como, sendo ele escocês e, portanto, de um país atrasadíssimo e tribal ainda no início do século XVIII, conseguisse produzir uma obra destas.
Há países que conseguem dar a volta.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Mais lixo

Eu, que até acho que a Internet é uma das grandes mudanças destas últimas décadas começo a estar farto não só de receber lixo de anónimos mas também de amigos meus.
Porque será que muita gente repassa irreflectidamente barbaridades da extrema-direita, só porque lá no início da mensagem se fala de Sócrates, da ministra da Educação ou de qualquer um mais conhecido? Vejamos esta (sublinho apenas algumas e comento também apenas algumas:


-----Mensagem original-----
De: Sala dos Professores [mailto:admin@saladosprofessores.com]
Enviada: segunda-feira, 16 de Junho de 2008 16:19
Para:
Assunto: Novo anúncio: em que se transformou o País do Sócrates

PASSA ESTA MENSAGEM AO MAIOR NÚMERO DE PESSOAS QUE CONSIGAS ANEDOTA em que se transformou o País do Sócrates:

-Uma adolescente de 16 anos pode fazer livremente um aborto mas não pode pôr um piercing.

-Um cônjuge para se divorciar, basta pedir.

-Um empregador para despedir um trabalhador que o agrediu precisa de uma sentença judicial que demora 5 anos a sair.

-Na escola um professor é agredido por um aluno. O professor nada pode fazer, porque a sua progressão na carreira está dependente da nota que dá ao seu aluno.

-Um jovem de 18 anos recebe €200 do Estado para não trabalhar; um idoso recebe de reforma €236 depois de toda uma vida do trabalho.

-Um marido oferece um anel à sua mulher e tem de declarar a doação ao fisco.

-O mesmo fisco penhora indevidamente o salário de um trabalhador e demora 3 anos a corrigir o erro.

-O Estado que queria gastar 6 mil milhões de euros no novo Aeroporto da Ota recusa-se a baixar impostos porque não tem dinheiro.

-Nas zonas mais problemáticas das áreas urbanas existe 1 polícia para cada 2 000 habitantes; o Governo diz que não precisa de mais polícias.

-Numa empreitada pública, os trabalhadores são todos imigrantes ilegais, que recebem abaixo do salário mínimo e o Estado não fiscaliza.

-Num café, o proprietário vê o seu estabelecimento ser encerrado só porque não tinha uma placa a dizer que é proibido fumar.

-Um professor é sovado por um aluno e o Governo diz que a culpa á das causas sociais.

-O IVA de um preservativo é 5%. O IVA de uma cadeirinha de automóvel, obrigatória para quem tem filhos até aos 12 anos, é 21%.

-Numa entrevista à televisão, o Primeiro-Ministro define a Política como 'A Arte de aprender a viver com a decepção'.

- Um clube inscreve um jogador mal, são lhe retirados 6 pontos, um clube suborna um arbitro são lhe retirados 6 pontos.

- O governo incentiva as pessoas a procurarem energias alternativas ao petróleo e depois multa quem coloca óleo vegetal nos carros porque não paga ISP (Imposto sobre produtos petrolíferos).

- O ministério do ambiente incentiva o uso de meios alternativos ao combustível, no edifício do ministério do ambiente não há estacionamento para bicicletas, nem se sabe de nenhum ministro que utiliza a bicicleta.

- Nas prisões é distribuído gratuitamente seringas por causa do HIV, mas como entra droga nas prisões?

- No exame final de 12º ano és apanhado a copiar chumbas o ano, o primeiro-ministro fez o exame de inglês técnico em casa e mandou por faxe e é engenheiro.

- Um jovem de 14 mata um adulto, não tem idade para ir a tribunal, um jovem de 15 leva um chapada do pai, por ter roubado dinheiro para droga é violência doméstica.

- Uma família a quem uma casa ruiu e não tem dinheiro para comprar outra o estado não tem dinheiro para fazer uma nova, tem de viver conforme podem, 6 presos que mataram e violaram idosos numa sela de 4 e sem wc privado, não estão a viver condignamente e associação de direitos humanos faz queixa ao tribunal europeu.

- Militares que combateram em África a mando do governo da época não lhes é reconhecido nenhuma causa nem direito de guerra, o primeiro-ministro elogia as tropas que estão em defesa da pátria no KOSOVO, AFEGANISTÃO E IRAQUE.

- Começas a descontar em Janeiro o IRS e só vais receber o excesso em Agosto do ano que vem, não pagas as finanças a tempo e horas passado um dia já estas a pagar juros.

- Fechas a janela da tua varanda e estas a fazer uma obra ilegal, constrói-se um bairro de lata e ninguém vê.

FIM

Veja-o aqui

http://www.saladosprofessores.com/forum/index.php?topic=13571.0

Atenciosamente,
A Equipa do Sala dos Professores.



Para se divorciar basta pedir? Onde foram arranjar esta?
Jovens de 18 anos recebem 200 euros. Bem me dava jeito. Tenho 3 filhos com pouco mais e apenas continuo a pagar.
Não podem pôr piercing e fazem abortos? É isso que acontece? Não há aqui uma raivazinha contra a lei aprovada?
O problema principal com a demora dos tribunais é o coitado do patrão vítima do empregado? Não costuma ser mais ao contrário: as multinacionais a fugirem para Leste e para a China e a deixarem o pessoal quase sem alternativas?
Não há também uma raivazinha contra os imigrantes? E a favor da "raça"?
Quando falam dos combatentes da guerra colonial querem o quê? Tratar das pessoas que ficaram inutilizadas e com stress de guerra ou elogiar o "Angola é nossa"?
Não querem seringas nas prisões. Querem o quê? Mais SIDA e mais hepatite?
O IVA dos preservativos é 5%. Queriam que fosse maior? Não gostam de preservativos?
Querem os pais a bater nos filhos a toda a hora?
Fazem-se mais bairros de lata que antes?
E depois, como em qualquer demagogia mistura-se tudo. Faz-se de um caso não identificado uma generalização. E, na onda, falam várias vezes dos professores a ver se pega, se há público ... e há!
E ainda por cima falam no aeroporto da Ota. Sinal que muita gente vai repassando e não repara que a mensagem já anda há meses atrasada. Faz-me lembrar uma pretensa mensagem do Gabriel Garcia Marquez a pedir perdão por não crer em Deus. Vários anos depois do desmentido ainda continuava a circular e as pessoas quase a chorar porque ele iria morrer de cancro dentro de dias.

O meu bisavô



O meu bisavô, José Diogo Duarte de Simas. Não o conheci. Nasceu em Seda, actual concelho de Alter do Chão, em 1862, e foi novo para Ervedal (actual concelho de Avis), onde faleceu em 1943.
Aparece registado como proprietário: era agricultor. Tinha oito filhos, um dos quais o meu avô.
Segundo uns apontamentos do meu pai gostava muito de ir à pesca à Ribeira do Ervedal.
Era um amador de teatro, tendo ensaiado algumas peças e tendo sido inclusive actor em algumas. "Tinha um ar folgazão e optimista, gozando, portanto, das gerais simpatias da terra".
Aqui aparece ele, já com alguma idade, mantendo a pose de patriarca, que, na época, tirar um retrato ainda envolvia alguma cerimónia.
A assinatura retirei-a de um registo de baptismo em que ele foi padrinho.

Os c e os p do Acordo Ortográfico e ... a falta de reflexão.

Recebo constantes mails sobre o acordo ortográfico, petições, falsas petições etc. Diga-se de passagem que ele foi aprovado há mais de dez anos, mas só agora, e no prazo de seis anos, é que vai passar à prática. Em meses, fizeram-se muito mais mudanças durante a República, em 1911.

Algumas mensagens já me irritam porque repetem coisas que lá não estão. E quem as reproduz também deveria pensar um pouco. A discussão é útil mas tem que ser séria, sem alarmismos ou pseudo-patriotismos.

Ontem recebi esta com o título "A minha pátria é a língua portuguesa":

De fato, este meu ato refere-se à não aceitação deste pato com vista a assassinar a Língua Portuguesa.Por isso ... por não aceitar este pato ... também não vou aceitar ir a esse almoço para comer um arroz de pato ...A esta ora está úmido lá fora ... por isso , de fato lá terei hoje de vestir um fato ..
Concordas com o modo de escrever acima exemplificado? Se não concordares, clica na imagem que se segue e assina:


O que diz o Acordo?
Cito:

BASE IV: DAS SEQUÊNCIAS CONSONÂNTICAS
1
[...]
Assim:
a) Conservam-se nos casos em que são invariavelmente proferidos nas pronúncias cultas da língua: compacto, convicção, convicto, ficção, friccionar, pacto, pictural; adepto, apto, díptico, erupção, eucalipto, inepto, núpcias, rapto;
b) Eliminam-se nos casos em que são invariavelmente mudos nas pronúncias cultas da língua: ação, acionar, afetivo, aflição, aflito, ato, coleção, coletivo, direção, diretor, exato, objeção; adoção, adotar, batizar, Egito, ótimo;
c) Conservam-se ou eliminam-se, facultativamente, quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral, quer restritamente, ou então quando oscilam entre a prolação e o emudecimento: aspecto e aspeto, cacto e cato, caracteres e carateres, dicção e dição; facto e fato, sector e setor, ceptro e cetro, concepção e conceção, corrupto e corruto, recepção e receção;
[...]

BASE II: DO H INICIAL E FINAL
1
O h inicial emprega-se:
a) Por força da etimologia
: haver, hélice, hera, hoje, hora, homem, humor;
b) Em virtude da adoção convencional: hã?, hem?, hum!
2
O h inicial suprime-se:
a) Quando, apesar da etimologia, a sua supressão está inteiramente consagrada pelo uso: erva, em vez de herva; e, portanto, ervaçal, ervanário, ervoso (em contraste com herbáceo, herbanário, herboso, formas de origem erudita);
b) Quando, por via de composição, passa a interior e o elemento em que figura se aglutina ao precedente: biebdomadário, desarmonia, desumano, exaurir, inábil, lobisomem, reabilitar, reaver.
3
O h inicial mantém-se, no entanto, quando, numa palavra composta, pertence a um elemento que está ligado ao anterior por meio de hífen: anti-higiénico/ anti-higiênico, contra-haste, pré-história, sobre-humano.
4
O h final emprega-se em interjeições: ah! oh!

in http://www.portaldalinguaportuguesa.org/index.php?action=acordo&version=1991

Sublinhados nossos

Portanto, o que existe aqui nestas mensagens é ou irreflexão ou um pouco de má fé. Ninguém em Portugal irá ser obrigado a escrever fato em vez de facto, pato em vez de pacto. O h inicial também se mantém na maioria dos casos. Claro que erva já há muito que se escreve sem h e hora continua com H.
Grandes nacionalistas!

Quem é o pato?

quinta-feira, 12 de junho de 2008

A minha escola primária



Lembrei-me de publicar algumas imagens da minha família. Não por esta ou aquela ascendência (nada de especial como as demais) mas porque os retratos revelam também uma sociedade, em que as coisas pequenas são também importantes.
Comecei por mim.
Há uns anos uma amiga minha, Sara Marques Pereira, estava a compilar entrevistas sobre as experiências de escola primária. Um pouco por brincadeira enviei-lhe este texto, feito entre a uma e as duas da manhã, e ela publicou-o num livro com o título Memórias da Escola Primária, Edições Horizonte, em 2002. O texto apareceu misturado com outros de figuras conhecidas. A fotografia foi tirada, andava eu aí pela terceira classe.

A minha Escola Primária

Comecei a escola primária em Alter do Chão, Alto Alentejo. Na época havia um colégio que começava na classe infantil, onde estudavam os filhos da classe média local, e a escola oficial. Como “reprovei” na classe infantil, por me interessar mais pelos baloiços do que pela repetição das letras, fui para a escola oficial, onde estavam rapazes de quase todas as classes.
Nos primeiros dias comecei a perceber melhor a diferença entre rapaz e menino. Quando disse a um colega que no dia seguinte trazia um carrinho, ele respondeu-me logo que na escola não havia nada disso, as brincadeiras eram outras. Jogávamos à bola no recreio, num terreno mal alinhado, onde uma vez tive pena de um “inimigo” meu ter dado um pontapé numa pedra em vez de o fazer na bola. Como ele havia muitos que iam para a escola descalços também, alguns também com piolhos e uma pulga ou outra, o que provocava uma epidemia de vez em quando. No recreio brincávamos também aos “cobóis” e às escondidas, perto da cantina, onde havia um grande matagal. No Carnaval é que era bom, porque arranjávamos bisnagas ou garrafas com água que serviam de pistolas. Também havia uma zona com barro onde fazíamos bolinhas e um jogo em que se espetavam paus. De tudo isso eu gostava, mas ainda me escandalizava com os rapazes que iam aos ninhos ou que se juntavam à noite para ir aos gatos, isto é atirar pedradas aos gatos, embora gostasse de fisgas, ou aqueles que, ao sair da escola, urinavam em arco no meio de um Largo, longe das vistas do professor, como que a marcar território, num gesto de rebeldia fugaz. No caminho para a escola, sempre a pé, sozinho ou com amigos meus, gostava de parar ao pé do castelo, apanhar joaninhas, pendurar-me na traseira das carroças que passavam e ainda ouvir um papagaio que dizia asneiras, e cumprimentar as pessoas que passavam.
Na primeira classe tive três professores: uma professora nova, com ar simpático, mas que abandonou a escola para se casar, um professor novo, também simpático, que foi chamado para o exército, e o professor Calado Mendes que sabia aliar a disciplina e o saber à simpatia. Continuou a ser meu professor na segunda e terceira classe. Lembro-me de fazer muitos aaa e ooo e desenhar castelos e aviões. Começaram depois as primeiras frases, cópias e ditados e a tabuada e, de vez em quando, uma canada na cabeça. Também havia catequese, mas essa era dada na igreja. Aprendi correctamente as orações, algumas duas vezes, porque houve mudança de ritual e as missas passaram a ser em português, com sacerdote voltado para os fiéis. Mesmo assim, ainda uma vez apanhei uma descompostura em plena missa, porque mordi, sem querer, a hóstia.
A meio da terceira classe fui morar para Sousel. No início, os meus colegas provocavam-me chamando-me lisboeta, eu que nem conhecia Lisboa e talvez porque usasse bata branca, a “farda” da outra escola, enquanto eles usavam bata aos quadrados.
A minha professora era a D. Emília, uma senhora já de cabelos brancos, zelosa em todas as actividades, também simpática e disciplinadora. Era bom aluno na época, dava mais erros nas cópias (poucos), do que nos ditados e redacções. Aprendia os verbos e os adjectivos, os pr0nomes, as preposições, tudo bem decorado, a História, desde o Viriato a Salazar, passando pela Deuladeu Martins e padeira de Aljubarrota, mas o meu herói preferido era D. Nuno Álvares Pereira. Também gostava de Geografia e conhecia os nomes dos rios e das serras, desde o Monte Ramelau, em Timor, à Serra da Estrela, os rios Zambeze e Tejo, mas o que me fazia alguma confusão eram alguns afluentes do Douro e os ramais do caminho-de-ferro, mais ramificados que os de Angola. Outra coisa que me confundia também, era aquela eterna imagem de Salazar na parede, ainda novo, quando a outra imagem que eu tinha dele era de alguém com uma voz fraca, de quem não se podia falar muito. Interrogações solitárias!
Na sala havia três filas: duas de rapazes e uma de raparigas, que vieram para esta classe, porque a escola feminina estava cheia. Os rapazes da fila ao pé da janela eram maiores, repetentes e apanhavam reguadas todos os dias. Eu também apanhei duas vezes: uma porque me enganei no pretérito mais que perfeito, a outra por causa das reduções. A primeira foi uma das grandes revoltas da minha infância, senti-me injustiçado e quando cheguei a casa chorei sozinho no meu quarto.
Na quarta classe havia também a preparação para o exame de admissão ao liceu. Éramos poucos e ficávamos na escola até quase às 20.00 horas, com a professora a dar-nos explicações adicionais gratuitas. Eram umas horas com um ambiente mais agradável, talvez por sermos menos e de mais confiança.
Os intervalos eram também uma alegria: corríamos, jogávamos “à inteira”, às escondidas, às touradas, ao pião e ao berlinde, enquanto as raparigas, no outro recreio, cantavam, faziam rodas e outras coisas “estranhas” a que nós não dávamos importância. Também contávamos histórias e outras coisas. No recreio , eu gostava de contar contos e recitar algumas poesias que sabia de cor; um amigo meu sabia muitas anedotas, das que não se podiam dizer em público, que lhe ensinava um tio que era pastor. Era uma troca de ideias e visões do mundo, uma aprendizagem semi-clandestina e alegre em que íamos crescendo. Aprendi uma linguagem nova e o prazer da subversão.
Foram tempos que perduraram: de aprendizagem e perda de inocência
.

João Simas

Um dia meio perdido.

Hoje fui a uma reunião na Direcção Regional sobre o Plano Nacional de Leitura. Não seria eu que deveria ter ido, mas isso é outra questão.
Gostei de ouvir a Isabel Alçada. Acho que percebe do assunto, não só em geral, mas no terreno. Também gostei de ouvir a Teresa Calçada.
E, em particular, gostei mesmo de ver o meu amigo Semião, colega de liceu, da Faculdade e do mesmo quarto, que já não via há mais de dez anos.
O resto do dia foi outra coisa. Cheguei a casa e despertei com as notícias do início de pânico. Já não pude ir almoçar com o meu amigo. Tive que ir à procura de gasolina.
Como a maior parte das bombas já não tinham combustível fui ao ex- Intermarché. Havia uma bicha (eu ainda não digo fila, embora também seja português). Estavam vários carros vazios, encontrei uma colega que aí ia ficar até às 15.00 horas.
Achei que era muito. Ficar na sacrossanta hora de almoço ao sol à espera que abrissem a bomba! Mas tinha compromissos. Não podia voltar a casa “descalço”. Lembrei-me de, em vez de dar múltiplas voltas a Évora, ir até à Igrejinha. Tinha o razoável de combustível para ir lá. Se não desse não dava. Mas deu. Deu, apesar de estar uma hora à espera. Não almocei à hora esperada mas ainda consegui comer uma sanduíche de presunto e uma cerveja fresquinha num bar onde se pode fumar, na bendita Igrejinha. No bar do senhor Prates, que é primo de outro grande amigo meu.
Depois de jantar fui ao gás. Levei uma “pluma” e outra “mastronço”. Não havia “plumas”; tive que trazer a pesadona.
Subi a Rua do Raimundo. Ao alto, um bêbado excitado, não saía do meio da rua. Fiz sinais de luzes, apitei e fui avançando devagarinho.
Levei um murro de raspão! Vinham outros a seguir. Limitei-me a tocar a buzina até que aparecesse alguém. Felizmente os outros bêbados estavam a meu favor e manifestaram a sua solidariedade comigo perante a polícia. O agressor, armado em vítima, ameaçava-me incessantemente. Dizia que era engenheiro. Teria vinte e poucos anos. Fomos todos identificados.
Resolvi não apresentar queixa. Quando me vinha embora reparei que tinha um objecto estranho no carro. Depreendi que era a arma de agressão.
Levei a “arma” à polícia. Afinal era um maço de tabaco SG Ventil. O agente perguntou-me: Você fuma? Disse que sim. Então fique com ele!

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Queima das fitas


Desfile
Se fosse só um dia, com algumas irreverências pelo meio, talvez não houvesse grande problema.
Mas é uma semana, mais a preparação dessa semana. Mais as festas e os tristes desfiles com os caloiros em Setembro e Outubro e mais ainda com outros que entram no segundo semestre. E ...
Alguns julgam que é tradição. Bem recente, por acaso.

Isla Canela


Isla Canela, Ayamonte, em frente a Vila Real de S. António.

Constrói-se até em cima do sapal. Só lá fui uma vez. Tem aquele ambiente algo triste de cidades sem alma. Fugi depressa por causa dos mosquitos. Têm razão, é o ambiente deles.

domingo, 1 de junho de 2008

Sé de Évora.

Vista a partir da Estrada das Alcáçovas.


A Sé impõe-se na paisagem. Não por acaso. Recuemos à Idade Média: era necessário mostrar a mouros e judeus quem mandava agora. Para que não se esquecessem!
Até meados do século XVIII os limites da arquidiocese de Évora iam "grosso modo" do Tejo ao Algarve. A diocese de Beja só foi criada no tempo do Marquês de Pombal que impôs para bispo um iluminista da sua confiança: Frei Manuel do Cenáculo, depois arcebispo de Évora e um dos homens responsáveis pela reforma do ensino.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Grelhas ou as tendências totalitárias

Anda por aí uma grelha para avaliação dos professores, atribuída ao INA (já a vi em muitos sítios mas não consegui confirmar a origem), com 96 itens. Li os primeiros e fiquei com a impressão que estas pessoas não gostam de professores, isto é não querem mestres que provoquem o desejo de saber e fazer e o trabalho árduo de despertar consciências com rigor e conhecimentos.
Querem controle sobre funcionários colaboracionistas:
Cito algumas das primeiras:

CONDUTAS
[...]
2. Disponibiliza-se para actividades que ultrapassam obrigações horárias/profissionais.
[...]
4. Quando trabalha em equipa é um elemento participativo e não conflituoso.
[...]
6. Proporciona ambiente calmo, propício à aprendizagem.
7. Numa reunião tem uma atitude de colaboração e de entreajuda.
[...]
9. Não gera mau ambiente no local de trabalho.

Pois, por mim, e tendo em conta as lutas que se fizeram ao longo destes últimos séculos pelo horário de trabalho, não admito que me avaliem pelo que não me pode, por direito, ser exigido. O que significa: Disponibiliza-se para actividades que ultrapassam obrigações horárias/profissionais? Estar a toda a hora pronto para ser interrompido em qualquer situação, à vontade do dono?
Não é permitido o conflito? Porquê? Não podemos ter opiniões diferentes? Nega-se a dialéctica? O que é que é "mau ambiente"? É obedecer a qualquer ditador local? Tenho que colaborar com qualquer um, de qualquer maneira?
Tenho que leccionar apenas de acordo com o pensamento único, unidimensional?
E querem calma ou pasmaceira?

Passo para perto do fim, já sem comentários:
67. Orienta e planeia acções com uma visão partilhada que potencia a missão e os valores da organização.
[...]
78. Cria ferramentas de controle da sua actividade ou de outros dentro da organização que sejam simples mas resolvam os problemas de acompanhamento.
[...]

E por fim um apelo à revolução, sem esquecer a chefia nem as ferramentas, com colaboração e calma, inovação sempre, mas sempre em obediência à missão definida, não deixando de parte qualquer "pobre de espírito" que não queira ser revolucionado e inovado (cujo destino será certamente a reeducação, dentro do espírito da "Revolução Cultural" ... portuguesa):

87. Executa um projecto de liderança inovador e consegue implementar ideias revolucionárias e estratégicas, envolve as pessoas nesses projectos não deixando de fora ninguém.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

A desindustrialização e o que há-de vir.


Vila Real de S. António. Antigas fábricas de conserva.
Como se diz na nova/velha linguagem dos herdeiros dos "patos-bravos": terrenos "expectantes".

A construção civil avança e avassala

"Nova cidade" ao pé de Ayamonte

Depois de terem inundado de prédios Benidorm, Torremolinos ... os sapais da Isla Canela, enfim todo o litoral, algumas empresas em Espanha constroem milhares de prédios junto ao Guadiana. O projecto é para 35000 camas!
Ainda por cima, com vista para o parque natural ... em Portugal.
Ainda há quem tenha inveja deste modelo de desenvolvimento, dos morangos de Huelva e das estufas de Almeria a abarrotar de pesticidas e nitratos sem destino, com mão-de-obra quase escrava, de marroquinos a portugueses.
Nem a crise na construção, em que há cerca de 6 milhões de prédios para vender os leva a deixar de construir em tudo o que é sítio.
A água vem do Chança, junto ao Pomarão, concelho de Mértola, uma das zonas mais secas de Portugal.

O Corpo de Deus e os chocos a 4 euros o quilo.

O que é que tem o Corpo de Deus a ver com os chocos?
Nada, claro.
Mas quem é que sabe ainda o significado deste dia santo (dia santo e não feriado como muitos dizem)?
Antigamente o Corpo de Deus era o dia da procissão mais importante do país. Nele se mostrava a sociedade com todas as precedências e eminências, porque não era fácil decidir quem ia à frente ou ao pé do pálio, se os vereadores eram mais importantes que certas pessoas da nobreza, qual o lugar dos cónegos da Sé, das diferentes ordens religiosas, das confrarias das diferentes corporações, das diferentes irmandades...
Hoje, salvo erro, é apenas dia de folga em Portugal e no Brasil.

A mim, souberam-me bem uns chocos no Algarve, com sabor a mar e a bom preço. Dia santificado!

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Património Mundial

Sé de Évora

Orgulhamo-nos de Évora ser Património Mundial.
Merece? Claro.
Vai deixar de ser? Ainda não.

Mas.
O chamado Centro Histórico já teve mais de 30000 habitantes, com uma população jovem. É certo que viviam gerações amontoadas em certas habitações, sem condições exigidas nos dias de hoje.
Actualmente tem pouco mais de 5000 habitantes e a população está envelhecida.

Alto lá!
Estou a ouvir jovens, já com alguns copitos a mais, por causa da queima das fitas. Isto vai durar até às tantas. No primeiro de Dezembro também. Com os caloiros, meses de festa também. Com outros pretextos também.

Apetece fugir porque não é apenas uma noite ou duas.

Casas desabitadas muitas. Especulação também.
Escolas? Quase nada.
Câmara Municipal. Está a fugir para a zona industrial. Um bom exemplo!
Transportes? Privados essencialmente. Bicicletas como nos países onde chove e cai neve? Raras.
Comércio? Também foge. Para a zona industrial e para outras partes.
O que é que não se vai embora? Umas viúvas, alguns resistentes ...

O que é que interessa?

Recebi uma mensagem, certamente para rir, de que reproduzo o seguinte extracto:

Valáver, o q é q intereça a um bacano se o quelima de trásosmontes é munto montanhoso? ou se a ecuação é exdruxula ou alcalina? ou cuantas estrofes tem um cuadrado? ou se um angulo é paleolitico ou espongiforme? Hã?

É de um pretenso aluno. Mas a questão é pertinente.
O que é que interessa estudar História, por exemplo?
A questão não pode ser vista somente a partir do tal aluno fictício de quem nos rimos da ignorância. Há responsáveis pela educação, visto que sozinho ninguém se educa, pelo menos nos primeiros anos.
Refiro apenas dois responsáveis. O Ministério da Educação e as escolas.

Os alunos do terceiro ciclo têm um programa de História que foi feito para 3 aulas semanais de 50 minutos. O Ministério decidiu reduzir o número de aulas e as escolas têm o poder de gerir algumas horas do curriculum. Assim há escolas que têm 3 tempos de 45 minutos, em cada ano, 7º, 8º e 9º, outras têm 1 tempo de 90 minutos no 7º ano, 1 de 90 mintos mais um de 45 no 8º e um de 90 minutos no 9º ano. Algumas perderam 100 horas de aulas de História no terceiro ciclo, sem contar o que perderam no segundo ciclo e no primeiro. E a questão do ritmo não é dispicienda. Uma coisa é ter 3 aulas por semana, outra é ter apenas uma, outra é, no caso de um feriado, ter um encontro ao fim de quinze dias. É quase recomeçar do zero!

Em Évora o problema é ainda mais agravado por ser cidade Património Mundial. Querem que os alunos saibam que há um templo romano, que existe arquitectura manuelina, que o maior conjunto de painéis flamengos regressou a Évora ...?

Querem o quê? Que eles falem da Grécia? Que saibam o que foram os Descobrimentos? A inquisição? Que não confundam D. Afonso Henriques com a República? Que tenham alguma noção do 25 de Abril?

Em algumas escolas, em alguns anos, tiveram tantas aulas de História como de Religião e Moral Católica ou Área de Projecto. Se não sabem citar um livro, o que poderiam ter aprendido em Área de Projecto ou Estudo Acompanhado, como é que se pode exigir que compreendam minimamente de onde vimos?

A ignorância tem responsáveis. Em cima e em baixo também!

O pipol tem é q aprender cenas q intressam como na minha escola q á um curço de otelaria e a malta aprendemos a faser lã pereias e ovos mois e piças de xicolate q são assim tipo as pecialidades da rejião e ópois pudemos ganhar um gravetame do camandro. Ah poizé. tarei a inzajerar?

Não está a exagerar, não. É o destino dos excluídos, dos desfavorecidos como se dizia em 1974. É o caminho apontado para o subdesenvolvimento. Outros virão mandar nos hotéis e comer os ovos moles; estes ficarão a varrer o chão e a assentar tijolos ou a fazer asneiras.

Ortografia. A posição de Carolina Michaëlis de Vasconcelos

[…] Esse estado anormal foi tomando proporções de verdadeira calamidade nos últimos decénios do século passado […]
II- SERIA CONVENIENTE QUE A ORTOGRAFIA FOSSE OFICIALMENTE REGULARIZADA E SIMPLIFICADA?
Conveniente e urjente, tanto sobre o aspecto científico, como sob o estético, e sobretudo pedagójico.
Num país, atrasadíssimo quanto á instrução e educação, em que quatro milhões estão á espera dos benefícios da luz espiritual, o que importa é facilitar o ensino da leitura e escrita; acabar com todas as complicações desnecessárias; eliminar todos os artifícios eruditos […]
Importa que Portugal e o Brasil realizem simultaneamente e de modo idêntico a reforma planeada, escrevendo de aqui em diante da mesma maneira, racionalmente simplificada, todos os vocábulos da sua língua comum, apesar do timbre diverso com que cá e lá se pronunciam as vogais tónicas e átonas.


in Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Lições de Filologia Portuguesa, 1911

Em 1911 foi efectuada a primeira reforma ortográfica. Este texto foi escrito um pouco antes. Como se lê, a distinta filóloga, entre outras coisas, pretende acabar com os ph, y, consoantes duplas etc. e usa o j em vez do g. Usa também o acento agudo nas contracções.
No mesmo texto refere que muitos das confusões ortográficas se devem, não aos autores, mas aos revisores ou impressores. Cada um gostava de fazer inovações e, frequentemente, confundiam a etimologia das palavras. No mesmo texto, por exemplo em Camões, era possível diferentes formas ortográficas da mesma palavra.
Aponta também os casos do italiano, em que se fez uma reforma radical, essencialmente fonética, eliminando hh inúteis ou o francês que, embora extremamente complicado, manteve-se quase inalterado nos últimos séculos ou ainda o galego "ressurgido", onde a liberdade ortográfica pode levar à incompreensão das origens.

Alguns pressupostos, sobre a educação e o analfabetismo devem ainda ser levados em conta, não só em Portugal, onde o problema ainda existe, como em relação ao Brasil ou outros países africanos. Afinal vale a pena os povos preocuparem-se com o c em acto, quando os puristas já esqueceram o c de contracto ou quando algumas palavras se voltam a escrever como no século XV, tendo sido pronunciadas sempre da mesma forma?

Também não se esqueceu do Brasil e da importância da comunicação.

Nota: Meses depois, com a aprovação das normas ortográficas, a autora, apesar de algumas divergências, adoptou a norma oficial, para a qual também contribuiu.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

O tabaco

Já se sabia que esta lei tem fundamentos moralistas que não podem ser escritos na própria lei, porque Lei e Moral são coisas diferentes no actual Estado de Direito.
Mas o rei vai nu, como soía dizer-se.
Há quem brinque com o fogo e depois queima-se.
"Não havia necessidade"! Para quê estragar uma fotografia com um cigarro? De bom grado o Chavez até lhe ofereceria um charuto, um habano ou havano puro, e até o deixaria fumar na televisão, sem problemas de ilegalidade, enquanto aí mesmo assinava os contratos, com uma palmadinha hilariante nas costas, perante o mundo.
O problema do cigarrito em si, não é grande coisa. Viajar de avião horas e horas é uma chatice. Pior ainda para aqueles que vão como em contentores, sem espaço para nada, nem para mexer um pouco. O problema é querer impor-se uma moral totalitária e, depois do moralismo, usufruir-se de excepções como privilégios.
Tanto me faz que o primeiro-ministro fume ou não fume, que seja casado ou solteiro ou amantizado ou tantas outras coisas. Preferiria e exijo também que me mostre onde está o socialismo, que medidas sociais pode e deve tomar em nome das ideias socialistas, nos campos económico, social, cultural e ... ético; o que fez ou vai fazer para mudar a desigualdade social, a maior da União Europeia.

E já agora, o que trouxe da Venezuela? E já agora, também gostaria de saber pelos jornais portugueses se veio alguma coisa positiva da Venezuela. Ou será que estes também optam pelo sensacionlismo?

Sexta-feira discute-se o acordo ortográfico na Assembleia da República

No tempo em que a minha mãi andava a aprender as primeiras letras já se escrevia freqüentemente lingüiça assim. E no tempo do pae do meu pai e antes d'elle, ninguém sabia quasi nada sôbre ortographia e as pessoas mais esclarecidas naquella epocha iam à pharmacia do Archiminio saber novidades e comprar hervas aromáticas como hontem. Nesse tempo ninguém duvidava que cagados eram bichos. Êste pretenso ensaio quasi intuïtivo nada tem a ver com philosofia nem é fructo de nenhum nihilismo, nem se trata de escrever palavras estranjeiras nem ofender qualquer Majestade. Já vivi n'aquelas terras que dantes se chamavam Arrayolos e Souzel e não foi por mudarem as lettras que as pessoas ficaram mais ou menos dotadas de intrucção ou idéias. Nem aquellas Nymphas do Ceo desfalleceram com estas cousas, atravez dos tempos imemoriaes. Incansàvelmente continua-se a misturar a descripção da língua com a norma. O que aqui escrevi não foi nada contra o c mudo nem pretendi contar uma anedocta ou falar de saüdades.

Não escrevi à moda brasileira e, salvo erro, não cometi erros. Apenas misturei palavras como se usaram (escritas) em diferentes décadas do século XX.
Por isso é de espantar quando se apela à tradição e ao genuíno português de Portugal. A tradição começa onde? Olhem que em 1973 também houve mudanças com os acentos agudos. Será a partir daí que a escrita portuguesa se fixou "ad aeternum" ?

terça-feira, 13 de maio de 2008

Notas em escudos



Notas em escudos do antigo Estado da Índia. As últimas, suponho, pois são de 1959. Note-se que por baixo da palavra escudos (clicando a imagem é aumentada) há outras escritas em caracteres indianos.

A Ordem dos Médicos e os doentes faltosos.

Li no Público que o Conselho Nacional de Ética e Deontologia da Ordem dos Médicos propõe que os médicos cobrem 20% da consulta aos doentes faltosos.

Parece-me que a Ordem deveria preocupar-se mais com a Ética dos médicos do que com a dos doentes. E talvez se devesse preocupar também com os preços máximos das consultas e a promiscuidade entre o serviço público e o privado.

Mas, se se preocupa com as faltas e atrasos, não deveria começar antes com as faltas e atrasos de muitos médicos?

Atrasos significam perda de rendimentos, dificuldades no acesso a transportes que têm horários, falta de produtividade, atrasos em cadeia noutras actividades.
Não seria hora de os médicos faltosos, os médicos que deixam os doentes horas e horas à espera, serem obrigados a justificar formalmente e a indemnizar os utentes tal como noutros serviços?

Até porque se pressupõe que só vai ao médico quem tem algum problema, alguma doença. Pelo contrário o médico, em princípio, quando dá consultas não está doente. Por isso, é mais provável ou justificável um atraso ou falta de um doente do que de uma pessoa em bom estado de saúde.
Haverá certamente outros meios para não prejudicar os médicos.

E, certamente, há outras prioridades na Ética e Deontologia

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Les libertés ne se donnent pas. Maio de 1968


Discute-se, alguns discutem o Maio de 1968.
Foi importante? O que influenciou mais a sociedade? O Maio de 1968 ou os movimentos das universidades norte-americanas e a contestação à guerra do Vietname?
Que importância teve o Maio de 68 nas gerações que alcançaram o poder no 25 de Abril? Que paralelismo e influências recíprocas tiveram estes movimentos e o 25 de Abril nos anos 70?
Quem imaginava haver manifestações destas e reivindicações antes, tantas e tão diferentes, com o Maio de 68 e o "espanto" do 25 de Abril nesta Europa?

Debates em Évora. O Centro Histórico.

Já se começa a debater. Primeiro foi a CDU, agora o Pró-Évora.
E a Parque Expo começa a aparecer em público. Ainda bem. Como seria possível fazer tanta mudança no urbanismo de Évora sem debates?
Como se pode entregar a gestão do urbanismo do Centro Histórico a uma empresa, sem debates? É que a uma Câmara eleita, os cidadãos ainda podem reclamar e, eventualmente, esta pode inverter ou alterar o processo. Uma empresa, depois de assinado o contrato, pode exigir indemnizações se o órgão eleito decidir alterar, mesmo que sejam pormenores. E, não se trata da empresa em si, que, à partida, não tenho dúvidas sobre a sua competência.
Trata-se sobretudo de participação na cidade construída e usufruída por gerações de povos e actuais cidadãos.

Um Centro Histórico não é apenas um rótulo. Quando se mexe numa rua do Centro Histórico mexe-se em todo o Centro Histórico e em toda a cidade, que é não apenas uma cidade histórica mas o centro de uma região, onde vivem pessoas em interacção com a cidade, no presente e prospectivando um futuro em que a cidade vai ser outro lugar central (mais próximo de Lisboa e Badajoz), como nó viário e ferroviário e, portanto, mais atractiva para os serviços e alguma indústria.

Trata-se de desenvolvimento e de identidade de uma cidade viva.
Viva, se todos quisermos!

Basta recordar alguns efeitos perversos possíveis ou em curso: a descaracterização física, com demolições e construções estandardizadas e sem identidade; a preservação para a fotografia e a ruína que se segue por falta de vivência; a manutenção a todo o custo de clichés sem fundamento na História e na Cultura; reabilitação com materiais não compatíveis; alteração sem planos, ao sabor das circunstâncias e de curtos prazos, dos centros da cidade, com misturas de funções entre zonas industriais e de serviços, com dispersões ineficazes e comprometedoras do futuro; abandono progressivo das gentes, com substituição das populações por imigrantes temporários e estudantes de passagem; habitações abandonadas sem que alguém se responsabilize por isso; mudanças de uso mantendo apenas fachadas; sobredimensionamento do parque automóvel; alterações dos espaços pela possível construção ou reestruturação de arruamentos; perda de identidade pela vivência exclusiva nas periferias (?) do antigo centro ...

Recebi do Pró-Évora as datas dos seguintes debates:

-15 de Maio - Apresentação do Estudo pela Parque Expo ...
- 20 de Maio- Reabilitação, construção/demolição. Habitação e Turismo.
- 28 de Maio - Mobilidade e Acessibilidade


É preciso discutir. Sem processos de intenções, que ainda há muita gente de diferentes quadrantes e vivências que pode dar uma contribuição.

Debates em Évora. Maio de 68

Do Clube dos Amigos de Chartres recebi a seguinte mensagem:

Profitant des 40 ans de MAI 68, le Club des Amis de Chartres vous propose un nouveau « Café littéraire ».Celui-ci est prévu , le mardi 27 mai, à 20h30, au Café- épicerie fine : « d’Evora », rua de Machede,19.

Le sujet choisi pour cette rencontre sera donc : « Que reste-t-il de MAI 68 ? »
Le débat se déroulera aussi bien en portugais qu’en français, pour une plus large participation.

domingo, 11 de maio de 2008

Lobos no Alentejo. E as dificuldades em tratar da "multidão de feras".

Em 1821 queixavam-se os lavradores de Arraiolos e de concelhos vizinhos que os lobos atacavam os gados. Pedem que venha a cavalaria tratar do assunto, porque as tropas locais, as ordenanças não conseguiam controlar as feras. De passagem diga-se que as ordenanças eram constituídas por todos os homens capazes de serviço militar, em geral dos 16 aos 60 anos, uma tropa de terceira linha, que poderia actuar em tempo de guerra, o que foi frequente nos séculos XVII e XVIII, e que permitia levantar exércitos de dezenas de milhares de homens.

Dizem os Lavradores dos Termos d’Arrayolos, do Vimieiro, de Pavia, de Mora, das Aguias, e de duas Freguezias de Monte Mór o novo, que vem a ser a Repreza, e São Giraldo, reprezentão a V.S.as que elles soffrem grandes dannos com os assaltos que assiduamente dão os Lobos, e mais féras, aos seus gados, de maneira que a maior parte delles se achão preza das referidas feras: os Sup.tes vendo-se em tal apuro Lembrarão d’obstar neste tão grande mal com os recursos do costume, que são as Montarias; estas pella sua má ordem, sempre sahem infructiferas, assim porque as Ordenanças são indisciplinadas, como porque os que as mandão são pouco peritos; e neste cazo os suplicantes solicitão tropa de Cavallaria, para que esta unida então aos paizanos, mandados todos debaixo das Ordens de V. S as como experimentada em similhantes expedições possam os Supp.es verem seus gados livres das garras de tanta multidão de feras, que por todas as partes acomettem [... ] [1] .
[1] CMA/H/001/Cd 002

Nota: Vimieiro, Pavia, Mora e Águias eram ainda concelhos. Mora foi extinto em 1836 mas depois reerguido. O concelho de Águias tinha como principal povoação Brotas, terra de peregrinações, com muitas confrarias espalhadas pelo país e até no Brasil e Índia. A Represa é hoje uma herdade, propriedade privada.

Niebla. Muralhas em taipa.

Niebla, Andaluzia.

Niebla foi uma cidade do antigo Algarve, antes do Algarve ser português.
As muralhas islâmicas são em taipa militar, o que significa que são de terra (agrícola, frequentemente com palhas, sementes etc.) misturada com alguma cal. Um material altamente resistente, apesar de à primeira vista parecer fraco. Em Portugal temos também muralhas destas em Silves, Loulé, Paderne, Alcácer do Sal.
Os almorávidas usaram esta técnica em Marrocos e trouxeram-na ou, pelo menos, difundiram-na na Península. Quando a Península se chamava Hespanha no dizer dos cristãos, Al-Andaluz entre os muçulmanos ou Sefarad como diziam os judeus.
O mundo era o mesmo. Do Magrebe, no Norte de África, para a Península circulavam pessoas e ideias. Havia dois Algarves (Ocidente), o De Àquem e o de Além Mar como diziam os portugueses.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Antes da ecopista. A linha férrea de Évora a Mora e... Ponte de Sor ... e a educação dos povos.

Há uns anos fiz um trabalho sobre Arraiolos. Aqui segue um extracto sobre a construção do que hoje se chama ecopista. Previa-se uma linha férrea que ligasse o Alentejo ao Norte Interior e a Espanha. Só assim tinha sentido.

"No início do século XX continuava ainda a construção da rede de caminhos de ferro considerada essencial para o desenvolvimento nacional. No caso de Arraiolos depositava-se uma grande esperança na construção do ramal entre Évora e Ponte de Sor, o que facilitaria as comunicações com Lisboa, através de Évora, mas também com o Norte e o Sul do País e Espanha, numa região considerada como tendo grandes potencialidades a explorar.

A Camara vendo as grandes vantagens que trazia a construção desta linha para o comercio, agricultura e industria, deliberou por unanimidade enviar a Sua Majestade a mensagem seguinte: Senhor! Tendo sido decretada a rede ferro-viaria ao Sul do Tejo, n’ella foi indicada a linha d’Evora á Ponte de Sor, por Arrayolos, Mora e Montargil. No inquerito ferroviario ordenado pelo decreto de 6 d’Outubro de 1898 esta linha era indicada como sendo a mais conveniente da rede do Sul com a linha do Norte, Leste, Beira Baixa e ramal de Caceres, tendo por ponto de partida a Capital do Alentejo. E pelo inquerito foram fornecidos aos distinctos engenheiros que constituiram a Comissão encarregada de estudar o plano da referida rede ferro-viaria elementos de que resultou a opinião de perferirem a ligação Evora-Ponte do Sor para acabar com o isolamento em que se tem encaminhado a tão vasta e importante região constituida pelo Baixo Alentejo e Algarve . Um rapido olhar lançado pela carta do paiz, fara facilmente conhecer a grande vantagem d’esta ligação, que vae pôr communicação ininterrupta as importantes provincias do Alentejo e do Algarve com o Norte do Reino, fechando assim a linha mais directa entre Faro e Melgaço, pelo entroncamento e brevemente, é de esperar, entre Faro e Bragança, por Abrantes. A ligação dos dois estremos do paiz é, para o commercio, agricultura e a industria de vantagens tão conhecidas, que impertinencia seria enumeral-as, e ao interesse geral acresce a conveniencia local. Senhor! A região comprehendida entre Evora e a Ponte do Sor é uma das mais ferteis e viçosas aquem do Tejo; n’ella [...]

Em 1904 previa-se a construção de um segundo lanço, a partir da Graça do Divor, para o qual o governo solicita a colaboração da Câmara com dinheiro, cedência gratuita de terrenos ou, pelo menos, expropriações a baixo preço. A Câmara dinheiro não tem, mas compromete-se a fazer tudo o que estiver ao seu alcance.

Foi presente pelo Excellentissimo Prezidente um officio do Ministerio das obras Publicas nº 12694 do corrente mez, no qual se declara que estão adjudicadas as terraplanagens e obras de arte do 1º lanço da linha ferrea de Ponte do Sôr entre Evora e a Senhora da Graça e empenha-se o Governo por que muito brevemente comece a construção do 2º lanço da Senhora da Graça à estação de Arrayolos e o 3º que vae até às proximidades de Pavia; e que necessario se torna que as localidades interessadas na construcção d’essa linha, prestem ao Estado a possivel coadjuvação para que os recursos de que esta dispõe tenham a maxima utilização, e caso a Camara queira contribuir com quanto em si caiba para a referida construcção da linha d’Evora à Ponte do Sor, O Excellentissimo Ministro pergunta:
1º se a Camara pode tomar sobre si no todo ou em parte as expropriações na area do concelho;
2º no caso de não assumir esse encargo, se contribue com algum subsidio e ao mesmo tempo se encarrega de obter dos proprietarios cedencia gratuita dos terrenos necessarios ou ao menos de aquelles que não queiram ou não possam fazer essa cedencia, moderação nas suas exigencias. A Camara discutindo sobre o assumpto deliberou que se dissesse ao Excellentissimo Ministro que, estando este municipio muito onerado com varias despesas inadiaveis que absorvem todos os seus rendimentos, não pode, e com grande magua, concorrer pecuniariamnete para a construcção da referida linha, mas tomará sobre si o encargo de auxiliar o pessoal encarregado das expropriações, a fim de obter dos proprietarios benificiados pela mencionada linha ferrea a cedencia gratuita dos terrenos ou pelo menos que esses proprietarios sejam moderados na avaliação e as expropriações se façam amigavelmente e em boas condições
.

A crise agrícola que se atravessava é também uma forma de apressar os trabalhos, empregando trabalhadores rurais na construção da via:

Declarou o Excellentissimo Prezidente que estando a organisar a representação de que foi encarregado pela Camara na sessão de onze do mês d’agosto findo, para se pedir ao Governo de Sua Magestade um subsidio para atenuar a crise agricula, não a concluio, em consequencia de ver no Diario do Governo nº 186 de 23 do dito mês, uma Portaria que manda proceder sem demora aos trabalhos do segundo lanço da linha ferrea d’Evora à Ponte do Sor, desde a Graça até Arrayolos, para obviar a crise de trabalhos na região atravessada pela dita linha.[3]

Em 1907 o caminho de ferro chega a Arraiolos e a Câmara pede a todos que se associem à festa de inauguração em 21 de Abril:

“[...] deliberou promover festejos naquelle dia e assistir à ditta inauguração e encarregou o Exmo Sr. Prezidente de convidar os Exmos Administrador das Obras Publicas e Governador Civil deste distrito para também assistirem àquelle auto, bem como os cavalheiros desta localidade para acompanharem a Camara nestas festividades e os proprietarios para illuminarem as janellas na noite do referido dia e infeital-as na ocasião do festejo por meio de edital.”

Mas em 1911 a Câmara manifesta preocupação pela não conclusão da linha que só chega a Mora, e pela gare e armazém que estão em mau estado: “Considerando que é um dos principaes meios de educação dos povos a via ferrea, além das vantagens economicas [...]”

Apesar destas vantagens, o caminho de ferro necessita de trabalhadores, que reivindicam e fazem greves, o que leva a edilidade, já durante a República a um “ Protesto por acha-la antipatriotica; e põe-se incondicionalmente ao lado do mesmo Governo”. Ainda em 1913 continua a haver dificuldades na continuação desta obra e por isso decide “associar-se à Camara de Avis para uma representação sobre continuação da linha”, a qual nunca chegaria a Ponte de Sor nem Avis.

in Livro de Actas das Vereações de Arraiolos